quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Itaú Unibanco recalcula risco privado para recuperar área de pastagem degradada, FSP

 Alexa Salomão

São Paulo

Recuperação de área degradada, como reflorestamento, restauração de pastagens e manejo sustentável do solo, tradicionalmente, são financiados por recursos públicos ou até doações. O dinheiro sai dos bancos de fomento, fundos climáticos internacionais ou linhas crédito rural subsidiadas. Banco privado evita essa atividade porque o financiamento precisa ser de longo prazo, e o risco é muito elevado. Não há como garantir se e quando o solo vai reagir.

Já faz três anos, o Itaú Unibanco, maior banco privado do Brasil, atua para subverter essa lógica. Participa do Reverte, um programa que oferece crédito para o desenvolvimento de culturas em locais que, exauridos, já mal oferecem pastagem para o gado.

Palmeiras de babaçu derrubadas para a formação de pastagem em área rural do Maranhao; degradação pode ser revertida com investimento público e privado - Lalo de Almeida - 12.nov.21/Folhapress

Os parceiros são igualmente privados. O TNC (The Nature Conservancy), uma organização ambiental sem fins lucrativos que trabalha para proteger a terra e a água, atua na verificação socioambiental. Checa o cumprimento de critérios como não desmatar, fazer todo o processo de licenciamento e acompanhar a aplicação da legislação trabalhista. A Syngenta, empresa global de sementes e defensivos agrícolas, entra com a assistência técnica, para garantir o cultivo sustentável e fomentar a produtividade da terra.

"É um arranjo entre atores privados que permite manter a produção e garantir segurança alimentar, sem desmatamento, porque é possível ter agronegócio com sustentabilidade", afirma a diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade do Itaú Unibanco, Luciana Nicola.

O pré-requisito para ter acesso ao financiamento é que a área tenha sido desmatada antes de 2018. O crédito é de longo prazo —até dez anos— e os juros são reduzidos. As análises de valores variam de caso a caso, explica a executiva.

"O produtor não precisa tirar do próprio bolso para recuperar o solo, e começa a pagar o financiamento apenas após a primeira safra, quando já está colhendo o resultado econômico da recuperação", explica ela.

O programa tem como foco a regeneração do cerrado, por estar sofrendo com o desmatamento e ser um bioma com importantes nascentes e rios essenciais para o equilíbrio ambiental do país. "A amazônia atrai mais atenção, mas o cerrado vem sofrendo perdas significativas", explica.

O modelo criado pelo Reverte, no entanto, afirma Nicola, é escalável para outros biomas brasileiros e até para países latino-americanos que enfrentam desafios semelhantes.

O que não falta no Brasil é terra degradada para receber esse tipo de investimento. Pesquisas da Embrapa Solos e da Embrapa Territorial indicam que o país possui de 30 a 50 milhões de hectares de pastagens degradadas —áreas que perderam produtividade e, com a devida recuperação, podem abrigar o avanço do agronegócio associado a reconstituição de flora nativa.

Desde o lançamento, em 2021, o programa do Itaú Unibanco já desembolsou R$ 2 bilhão e beneficiou 97 produtores rurais em oito estados com cerrado. Contabiliza 279 mil hectares de áreas recuperadas e 380 mil hectares de vegetação preservada dentro de 410 propriedades participantes. A meta é chegar a 1 milhão de hectares recuperados até 2030.

Segundo a executiva, apesar de ter avançado rapidamente, o crescimento tem sido "orgânico" —vive do boca a boca entre produtores que viram vizinhos transformarem áreas degradadas em lavouras produtivas. As culturas predominantes são soja e milho, mas há incentivo para a adoção de sistemas como integração lavoura-pecuária-floresta, o plantio direto e a adoção de práticas regenerativas.

O Reverte vai ser apresentada na COP30, porque o banco quer mostrar como soluções privadas podem gerar impacto ambiental e social mensurável, sem depender exclusivamente de recursos públicos.

"O Brasil tem seus desafios, mas também tem uma iniciativa privada pulsante, com soluções escaláveis e concretas", afirma a executiva.

O Reverte faz parte das iniciativas que buscam descarbonizar a carteira de crédito da instituição. O Itaú Unibanco tem o compromisso de torná-la neutra de gases de efeito estufa em 2050, com marcos intermediários para os setores intensivos em carbono, como o agropecuário.

Nenhum comentário: