quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O BBB 26 é a prova de que não entendemos mais as pessoas nem o mundo, Rosana Herman, FSP

 O que está acontecendo com essa edição do Big Brother Brasil? Por que tanta gente está sendo expulsa ou pedindo para sair? O erro está na ideia de chamar ex-participantes? A falha está na escolha popular dos pipocas ou nos profissionais que fazem a seleção sem avaliar a condição mental dos participantes? Ou em ambos? Ou é tudo praga do Boninho?

Tenho conversado com muita gente, não só sobre reality e comunicação, mas sobre a vida. A sensação é que ninguém mais entende as pessoas, o mundo. Nada.

Vivemos em estado permanente de medo. Medo de ser roubado, de cair em golpe, de ser enganado nas redes. E, como mulher, há ainda o medo de ser atacada, de sofrer abuso, assédio. Medo por nossos filhos, pelos jovens que parecem estar viciados nas telas, sem perspectiva de vida.

Somado a essa insegurança, há ainda a preocupação com a chegada dominante e avassaladora das IAs, trazendo maravilhas e horrores ao mesmo tempo. Usamos IAs para ganhar tempo para depois perder esse tempo rolando feeds infinitos. Geramos imagens, melhoramos a produtividade e depois sofremos com a possibilidade da Inteligência Artificial nos substituir.

Uma das fontes desse sofrimento é que não temos mais certeza de nada. Se antes tínhamos a segurança da realidade, agora não sabemos mais distinguir se um pinguim é real ou fabricado, se as pessoas que vemos em vídeos existem de fato ou são geradas artificialmente. Já não podemos mais nem confiar em nossos sentidos. Não há mais o "ver para crer". Acreditar virou uma roleta-russa. Ou pior, uma "bet".

E mais: não entendemos mais as pessoas. Vemos influenciadores totalmente vazios, que não falam nada, não têm uma ideia, uma proposição, e nos perguntamos: por que milhões de pessoas seguem essa criatura vazia que só mostra consumo de grife? O sonho das pessoas é esse? Vestir marcas famosas do boné ao chinelo e posar ao lado de um carro de R$ 2 milhões?

BBB 26, assim como muitos influenciadores, é a cara dos nossos tempos. É sonhar e desistir do sonho quando ele chega por crise de pânico. É viver a incoerência de entrar em um jogo e esquecer que está jogando.

É desconfiar de todo mundo à sua volta e não conseguir fazer alianças. É apostar errado. É, sobretudo, não ter recursos psicológicos para administrar as próprias emoções diante de qualquer confronto.

Estamos todos inseguros, preocupados, abalados por avalanches de notícias ruins, de desgraças que vão de guerras a feminicídios, de pedofilia a corrupção, de violência contra animais indefesos a escândalos financeiros, de xenofobia a facções que praticam estupros coletivos. Está difícil ficar informado.

Alguns estudiosos teorizam que o ser humano sempre foi violento e que, por sorte ou acaso, vivemos 80 anos de relativa trégua, entre o final da Segunda Guerra Mundial em 1945 e 2025. E que essa trégua acabou.

E o desejo humano de não ser mais civilizado, sempre latente, voltou com tudo. As pessoas dizem que querem liberdade, mas só querem fazer o que bem entendem, sem seguir nenhum pacto social. Porque civilidade é contenção de impulsos.

Quando você é civilizado, você tem freios sociais, tem leis. Você não pega o lanche do amiguinho só porque sentiu vontade. Não ataca uma pessoa na rua porque teve um desejo carnal. Infelizmente, muitos acreditam que quem tem poder e dinheiro não precisa seguir regras sociais, pode agir como um ogro, um neandertal, e tudo bem. Não dá para normalizar esse absurdo.

Estamos vivendo tempos muito complexos, de transição entre o que sempre foi e não é mais, e o que poderá vir, mas que ninguém consegue nem de longe antever.

O BBB 26, que é uma síntese contemporânea da distopia de George Orwell em 1984 com o experimento psicológico do Biosfera 2, adaptado pelo criador do Big Brother, John de Mol, é o nosso zeitgeist, o espírito dos nossos tempos: descontrolado, imprevisível, beirando o insustentável.

E que oferece um entretenimento com notas tóxicas, que servem apenas para aplacar nosso desejo por briga, ódio, sangue, não muito diferente ou mais evoluído que os espetáculos mortais do Coliseu de Roma.

A solução? Ninguém sabe. Até porque ainda nem conseguimos equacionar o tamanho do problema. Só sei que na vida real, não adianta apertar o botão e desistir do mundo, porque não vai ter café da manhã com Ana Maria Braga na manhã seguinte.

O que eu intuo é que uma saída é nos tornarmos humanos melhores, desenvolver habilidades de empatia verdadeira, de abrir mão do ego para ver e acolher o outro. Ser mais humano é o que podemos fazer. O resto, as IAs vão fazer, e muito melhor que a gente.

Bráulio Borges - A fala de Haddad sobre as contas no governo de Bolsonaro, FSP

 Na semana passada, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, deu uma declaração forte, apontando que o governo anterior promoveu "uma espécie de estupro das contas públicas, uma coisa alucinada". Alguns críticos do ministro questionaram essa fala, apontando que, no último ano do governo Bolsonaro, as contas do governo federal tiveram um superávit primário, de 0,5% do PIB, ao passo que, em 2025, as contas foram deficitárias em 0,5% do produto.

Bem, em primeiro lugar, é importante lembrar que o superávit registrado em 2022 —primeira leitura no azul desde 2013— foi em boa medida gerado por fatores fortuitos, como a forte elevação das receitas do setor extrativo (alta de 0,6% do PIB entre 2021 e 2022, reflexo do choque nos preços do petróleo naquele ano) e da inflação muito elevada em 2021/22.

Homem sentado em poltrona branca segura microfone e fala em evento com fundo roxo exibindo logos da Zahar, Sesc e 80 anos. Duas mesas laterais com livros e copos de água.
Fernando Haddad no lançamento de seu livro 'Capitalismo Superindustrial', no Sesc 14 Bis (São Paulo) - Greg Salibian - 7.fev.26/Folhapress

Tanto é assim que o próprio Executivo, ao enviar para o Congresso em agosto de 2022 a proposta orçamentária para o ano seguinte, previa um déficit primário de 0,6% do PIB em 2023. E isso com o Auxílio Brasil/Bolsa Família voltando a R$ 400 (a PEC Kamikaze ampliou o número de beneficiários em 3,5 milhões e elevou o valor para R$ 600 no segundo semestre de 2022, tornando politicamente impossível, em meio às eleições, defender a volta para os R$ 400).

No mais, a qualidade da gestão fiscal de um governo não deve ser avaliada somente pelos resultados entregues ao longo do mandato. Nesse contexto, o governo anterior largou bem, ao viabilizar a aprovação da importante e necessária reforma da Previdência em 2019. Embora ela tenha sido desidratada na tramitação no Congresso (a previdência rural ficou praticamente inalterada, mesmo tendo um déficit que é o dobro do regime urbano), a IFI/Senado estimou uma economia de gastos para o governo federal de cerca de R$ 630 bilhões em dez anos.

Contudo, já no final de 2019, algumas decisões flexibilizaram o teto de gastos introduzido em 2016, como a mudança legal para permitir repassar receitas para governos regionais decorrentes de leilões de petróleo e a capitalização da Emgepron.

A partir de 2020, a coisa desandou. O maior salto no valor das emendas parlamentares ocorreu justamente a partir daquele ano. Ainda em 2020, o Congresso mais que triplicou o gasto real federal com o Fundeb (item que estava fora do teto da EC 95/2016), gerando uma despesa adicional de R$ 330 bilhões em dez anos. E o Executivo não fez nada para compensar isso, desrespeitando a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Em maio de 2021, o STF publicou a modulação sobre a chamada "tese do século", disputa que o governo havia perdido em 2017. Perda estimada de receita de PIS/Cofins em dez anos: R$ 350 bilhões, além de um passivo de uns R$ 430 bilhões (que vem sendo quitado via créditos tributários). O que o Executivo fez para compensar os efeitos disso? Nada. Ainda em 2021, o indexador do teto de gastos foi alterado de forma oportunista, para aumentar o limite de despesas em quase R$ 70 bilhões em 2022. Também foram "pedalados" o pagamento de precatórios para 2027, liberando outros R$ 30 bilhões de gastos em 2022.

Em junho de 2021, o Congresso flexibilizou os critérios de acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), valendo a partir de meados de 2022. O Executivo não vetou isso nem atuou para compensar o impacto sobre as contas públicas. Tamanho da fatura em dez anos: uns R$ 290 bilhões, nas minhas contas. No final de 2021, a EC 112 aumentou o percentual de repasse para os municípios (FPM), reduzindo a receita líquida da União em R$ 130 bilhões em dez anos.

Portanto, embora o governo atual venha entregando resultados fiscais muito aquém do necessário para estabilizar a dívida e do que ele mesmo prometeu em 2023 —deveríamos estar chegando a um superávit primário de 1% do PIB neste ano—, a execução da política fiscal no governo anterior passa longe de ter sido exemplar.