quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O País cujas ambiguidades legitimam os roubos do Estado contra a sociedade- Roberto DaMatta- OESP

 Notícia de presente

Não é difícil compreender as dificuldades políticas e as ambiguidades decorrentes da passagem da monarquia escravista, fundada no desumano direito de uma pessoa ser proprietária de outra, à República sem sobressaltos.

No Brasil, a mudança ocasionou ambiguidades, porque, se o futuro pode ser truque populista ou um sincero ideal, o passado tem de ser levado em conta porque ele baliza o presente. Nossa aversão à igualdade republicana revela a permanência de hábitos aristocráticos, responsáveis por anacronismos que vão do “você sabe com quem está falando?”, ao machismo, ao recorde de funcionários públicos e aos abusivos “penduricalhos” que aristocratizam membros do governo. Tais ambiguidades legitimam os habituais roubos do Estado contra a sociedade.

Nossa aversão à igualdade republicana revela a permanência de hábitos aristocráticos, que se estendem aos 'penduricalhos'
Nossa aversão à igualdade republicana revela a permanência de hábitos aristocráticos, que se estendem aos 'penduricalhos' Foto: Wilton Junior/Estadão

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O filho do ex-presidente que foi a maior praga da política nacional se candidata à sua sucessão. Como um príncipe, recebe a unção do pai condenado por ser contra o processo democrático, mas promete ser mais comedido. Alguns republicanos perguntam: além do sangue, quais são as suas credenciais?

Nosso viés aristocrático, que celebriza os ricos, os objetos de “alto luxo e “gente fina”, diz: ele é filho do mito salvador. Só que o Brasil cansou de salvadores e precisa de gente com consciência das exigências e demandas do papel de presidente da República. A demanda é de um presidente que troque o palácio por um apartamento. Aí sim, teríamos um começo de “salvação”.

Nas repúblicas desenhadas pelos iluministas, o poder monárquico foi fraturado em três, todos submetidos a uma lei geral – a Constituição – que governaria o governo. Mas neste nosso Brasil compadresco e legalista, gerenciado por abnegados revolucionários “cuidadores” dos pobres (que não podem acabar), há uma multidão de salvadores.

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Salvá-los de quem? De um passado que não podemos neutralizar, porque vivemos em turmas, casas-grandes e partidos. Somos marcados pelo refrão que eu, na flor dos meus 90 anos, já ouvi mil vezes: “Agora é a nossa vez!”. Tomamos o poder que, como uma coroa, legitima o roubo dos aposentados, a destruição dos Correios, a dominação do crime organizado e as universidades. O ensino público de base – fundamental para a democracia – é uma desgraça. Prova de que uma sociedade que reprime o conflito entre a igualdade e a hierarquia convive com as ambiguidades do personalismo e da esperteza malandra.

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Proclamamos a República, mas não abandonamos o ideal de fidalguia que se manifesta na corrupção – que nada mais é do que uma face do negacionismo sobre os conflitos de interesses.

Daí a recorrência do velho dilema que denunciei no livro Carnavais, Malandros e Heróis. Nele, eu mostro que, na maioria das questões públicas, a igualdade era relativizada pela hierarquia. Evitamos o confronto e convivemos com as ambiguidades que formam o nosso modo de atuar no mundo

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Hélio Schwartsman - Eleições são um perigo -FSP

 Se me pedissem para desenvolver o pior sistema possível para selecionar governantes, eu talvez chegasse às eleições. A lista de problemas que elas engendram é grande.

Pelo lado do eleitor, temos a diluição de responsabilidades. Se você quer um serviço bem-feito, não o encomende a múltiplos prestadores que não podem ser individualmente cobrados por suas ações. Mas é exatamente o que fazemos quando encarregamos um eleitorado, que pode chegar a centenas de milhões nos países mais populosos, de escolher os dirigentes da nação. O próprio eleitor resiste em aderir ao projeto. Ele sabe que o peso de cada voto individual tende à irrelevância e por isso nem se dá ao trabalho de conhecer minimamente as propostas de cada postulante, como exigiria o modelo de democracia racional.

Cinco homens aparecem em retratos verticais lado a lado, cada um com expressão neutra. O primeiro usa chapéu preto e camisa azul clara, o segundo veste terno escuro e camisa branca, o terceiro tem cabelo grisalho e camisa azul clara, o quarto usa óculos redondos e camisa preta, e o quinto veste terno azul com gravata amarela.
Os candidatos à Presidência da República Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) - Montagem

E, se as coisas já são ruins no que tange ao eleitor, ficam ainda piores no que diz respeito aos candidatos. A encrenca aqui é a autosseleção. Tendem a ser mais atraídos pelo poder os perfis psicológicos que gostaríamos de ver longe do poder. Necessidade de aprovação, excesso de autoconfiança, megalomania são algumas das características potencialmente prejudiciais ao desempenho de um bom governante que abundam entre políticos. Como se não fosse o bastante, personalidades que reúnem fortes traços de narcisismo, maquiavelismo e psicopatia, a temível tríade sombria da psicologia, são mais frequentes entre políticos do que na população comum.

Por que então não abolimos as eleições e adotamos outro sistema? A democracia não tem poucas falhas, mas ainda não vislumbramos nada melhor do que ela. E, para ser percebida como legítima, é preciso que o eleitorado tenha alguma agência, isto é, algum poder de decisão, mesmo que o exerça muito imperfeitamente.

O caminho de menor resistência, me parece, é seguir com eleições e aprimorar o sistema de freios e contrapesos para reduzir os poderes individuais de políticos e com eles o perigo que más escolhas dos eleitores possam representar.

'Collor foi o melhor chefe que eu já tive', diz Dorothea Werneck, 1ª e única mulher ministra do Trabalho- FSP

 Jullia Gouveia

Em mais de uma década na Esplanada dos Ministérios, entre 1985 e 1996, a economista Dorothea Werneck, 78, passou por quatro presidentes, defendeu reformas trabalhistas e encabeçou novas políticas de exportação. Já no folclore popular, a primeira e única mulher a chefiar o Ministério do Trabalho no Brasil (1989-1990) ficou marcada pelo cabelo volumoso, risadas altas e pelo bordão "Eu quero é mais!", da personagem Doroféia Ieneck, vivida por Nádia Maria na Escolinha do Professor Raimundo (Globo), paródia que a mineira adorava.

A economista política Dorothea Werneck em sua casa no Jardim Botânico de Brasília para a Folha em 2024 - Gabriela Biló/Folhapress

Para ela, que se define mais como profissional que como política, o desempenho dos mandatários pode ser dividido em três eixos: capacidade técnica, executiva (de gestão) e política. Fernando Henrique Cardoso, na avaliação dela, era "absolutamente extraordinário" na primeira competência, mas falhava na gestão de pessoas. "Ele tinha um grupo muito pequeno em sua volta e sempre ouvia a última pessoa com quem falava. Várias vezes, vi serem tomadas decisões da minha área sem ter sido ouvida", diz Werneck, que foi ministra da Indústria e Comércio (1995-1996) sob o governo tucano.

Fernando Collor de Mello, para ela, sabia coordenar ações, reunir a equipe e cobrar resultados. "Ele fazia as coisas acontecerem. Foi o melhor chefe que eu já tive em termos de Presidência da República", afirma. Porém, ela avalia que o ex-presidente cujo mandato terminou em impeachment em 1992 tinha uma falha grave em outro aspecto. "Ele não teve habilidade política nem para convencer a família dele."

Ao analisar os presidentes mais recentes pelo mesmo critério, Jair Bolsonaro (PL) é destaque negativo. "Base técnica: baixíssima. Capacidade executiva: quem arruma briga não pode ser um bom executivo. E a habilidade política dele é gerar confusão, é destruir o outro lado, em vez de melhorar o dele", diz.

Para avaliar o desempenho de Lula, que já foi alvo de críticas dela no passado, ela afirma fazer um panorama geral dos três mandatos do petista e vê a trajetória dele como equilibrada. "A bagagem técnica e política ele adquiriu na liderança sindical. Quanto à capacidade executiva, às vezes faz algumas indicações aos cargos mais pelo lado partidário que pelo técnico, mas é um cara que sabe o que quer, mesmo que você discorde dele", reflete.

Close no rosto de uma pessoa idosa com cabelos grisalhos e ondulados. Olhos castanhos claros observam para o lado direito da imagem, com rugas visíveis na testa e ao redor dos olhos. Fundo escuro destaca os traços faciais.
A economista política Dorothea Werneck em sua casa no Jardim Botânico de Brasília para a Folha em 2024 - Gabriela Biló/Folhapress

A trajetória que a levou aos gabinetes de Brasília foi marcada pela afinidade com a técnica e por uma boa dose de aleatoriedade. Em 1966, durante o vestibular para administração, pediu para ir ao banheiro, mas o fiscal não permitiu que ela saísse enquanto não entregasse a prova. "Eu não tive alternativa, entreguei como estava." Ela foi reprovada no vestibular naquele ano e acabou prestando o exame no ano seguinte para economia. "Por conta de uma vontade de ir ao banheiro, eu defini minha carreira. Tudo o que aconteceu na minha vida eu não planejei. E tudo o que eu planejei não aconteceu", conta.

Foi na faculdade que conheceu o ex-marido, o também economista Rogério Werneck, que a influenciou para atuar na pesquisa acadêmica. Dorothea fez mestrado, doutorado no Boston College e chegou a lecionar na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Até que percebeu que a vida acadêmica não era o que queria.

Aliás, ela percebeu isso muito antes, aos 15 anos, quando insistiu com o pai que queria sair de Ponte Nova, no interior de Minas Gerais, para fazer o colegial na capital mineira –a cidade natal só oferecia o curso normal, onde ela se formaria docente. Ela foi morar com uma de suas irmãs mais velhas, Letícia, que custeou seus estudos e a deixou com uma aspa que se tornou seu lema: "Você que sabe, a vida é sua", relembra a ex-ministra.

Foi com essa mentalidade e "quase no susto" que Werneck abandonou a carreira acadêmica e aceitou um convite para trabalhar no Centro Nacional de Recursos Humanos, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). E, para a supresa dela, foi contratada para ser chefe da pessoa que a tinha convidado para o cargo.

No meio político, diferentemente do cenário que encontrou na academia, o gênero era um marcador constante. "Mesmo em situações em que eu era a única mulher em salas com 60 homens, eu nunca usava outro termo senão que eu era uma ‘profissional’. É uma palavra que não tem masculino e feminino."

Ela afirma, inclusive, que o infame episódio em que o então presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Mario Amato (1918-2016), disse que a economista era "inteligente, apesar de ser mulher" marcou mais a vida dele do que a dela. "Essa barbaridade deu um rebu na impresa, com os deputados e com os senadores. Ele veio se explicar e eu respondi: ‘Melhor não, vai piorar. Deixa como está’."

"Fiquei meio assustada que, quando ele faleceu, a maioria das notícias relatando a vida e a morte dele, que foi uma pessoa muito importante, mencionavam esse caso. Da minha parte, só ganhei o título do meu livro", ela diz, se referindo à obra "Apesar de Ser Mulher", publicado em 1990.

Décadas depois, em 2026, Werneck lançou o livro "Aprendendo e Vivendo: Uma biografia Contada por Histórias e Versos", em que reúne mais causos e análises acumulados em sua trajetória. O lançamento em São Paulo ocorreu na segunda (10), na sede da Fiesp, em São Paulo.