sexta-feira, 8 de maio de 2026

Terceiro setor é motor de transformação nas comunidades, fSP

 Dagmar Rivieri

Presidente e fundadora da Casa do Zezinho, educadora social e palestrante

Em muitas regiões do Brasil, a desigualdade não é um conceito abstrato. Ela tem endereço, rotina e consequência. Está no acesso limitado à educação de qualidade, na ausência de espaços culturais, nas oportunidades que não chegam e, muitas vezes, na sensação de que o futuro já vem desenhado antes mesmo de começar.

Para quem cresce dentro dessas realidades, o caminho costuma ser mais desafiador, tendo em vista que as escolhas são constantemente impactadas por necessidades que vão muito além do básico, como acesso, incentivo e referências.

É justamente nesse ponto que o terceiro setor começa a fazer diferença. Não como uma resposta imediata ou isolada, mas como presença e atuação contínua.

Dagmar Rivieri, a Tia Dag, é fundadora e presidente da Casa do Zezinho, organização que atende 1.300 crianças e jovens em situação de vulnerabilidade em SP - Divulgação

Organizações sociais atuam onde vemos lacunas históricas e, principalmente, onde existem pessoas que precisam ser vistas, ouvidas e incluídas em novas possibilidades. Mais do que levar soluções prontas, chegam dispostas a entender, construir junto e permanecer.

Isso faz diferença, porque transformar uma realidade não acontece de forma rápida. Exige consistência, vínculo e confiança. É preciso criar espaços onde crianças possam experimentar, aprender e se reconhecer. Onde jovens consigam avaliar diferentes caminhos, antes considerados distantes. E onde famílias passam a enxergar alternativas que nunca estiveram ao alcance.

Esse trabalho, muitas vezes silencioso, vai, aos poucos, redesenhando o território e as realidades. Comunidades que antes conviviam com a escassez de oportunidades começam a construir outras narrativas, e isso transforma não só trajetórias, mas também a forma como essas pessoas se enxergam dentro da sociedade.

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Ainda assim, cabe nos perguntarmos: por que esse trabalho ainda é visto como complementar?

O terceiro setor já ocupa um papel central em áreas como educação e saúde. Segundo pesquisa da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), realizada em parceria com a Sitawi e o Movimento por uma Cultura de Doação, o setor representa 4,27% do PIB brasileiro, movimenta mais de R$ 220 bilhões por ano e gera aproximadamente 6 milhões de empregos.

Mais do que isso, sustenta, na prática, parte importante do desenvolvimento social do país. Mesmo assim, segue sendo tratado como apoio, não como estratégia.

Essa percepção precisa mudar. A transformação que acontece nas comunidades não pode depender apenas de quem está diretamente envolvido. Ela exige uma sociedade mais participativa, empresas mais comprometidas e olhar direcionado para o fortalecimento dessas iniciativas, além de parcerias, investimentos a longo prazo e reconhecimento.

Também é preciso entender que há empreendedorismo no terceiro setor. Há gestão, inovação, tomada de decisão e responsabilidade com resultados. Existe um esforço contínuo para equilibrar impacto social e sustentabilidade. E, acima de tudo, existe a escolha diária de seguir, mesmo diante de desafios complexos.

A desigualdade ainda traz barreiras profundas, e o acesso a oportunidades segue sendo distribuído de forma limitada. Ainda assim, há um movimento consistente e transformador, que nasce nos territórios, nas relações, na construção de confiança e na abertura de caminhos onde antes havia ausência.

Talvez o ponto não seja discutir se o terceiro setor é importante, mas reconhecer que ele já é parte essencial da transformação e que ampliar esse impacto depende de uma decisão coletiva.

No fim, não se trata apenas de apoiar iniciativas sociais. Trata-se de escolher que tipo de sociedade queremos construir, quais oportunidades queremos ampliar e qual futuro estamos, de fato, dispostos a viabilizar para as próximas gerações.


Bráulio Borges - Choque no petróleo irá acelerar a transição energética, fsp

 Pela segunda vez em menos de cinco anos, o mundo se vê às voltas com um choque significativo nos preços do petróleo desencadeado por conflitos geopolíticos.

Em 2022, a invasão da Ucrânia pela Rússia jogou o barril do tipo Brent para acima dos US$ 120 e expôs a fragilidade europeia diante de um fornecedor que se mostrara, de uma hora para outra, hostil.

Agora, em 2026, a escalada militar entre Estados Unidos e Irã, com restrições no estreito de Hormuz —por onde transitam cerca de 35% do petróleo bruto comercializado por via marítima—, produziu um evento que o Banco Mundial classificou como o maior choque de oferta desfavorável já registrado, com redução inicial estimada em 10 milhões de barris/dia (cerca de 10% da demanda global). O Brent, que oscilava em torno de US$ 70 antes do conflito, saltou para a casa dos US$ 110 a US$ 120.

Os efeitos macroeconômicos já são visíveis no mundo todo, sobretudo na seara inflacionária. No Brasil, as expectativas de inflação para 2026 subiram de 3,9% para quase 5%. No mundo como um todo, o FMI revisou a inflação esperada para 2026 de 3,8% para 4,4% (de 4,8% para 5,5% no caso dos países emergentes e em desenvolvimento).

Há, contudo, um aspecto subdimensionado nas análises de curto prazo. Choques dessa magnitude não apenas pressionam preços e atividade no momento; eles também reordenam decisões de investimento por vários anos. Foi assim depois dos dois choques do petróleo nos anos 1970. É plausível esperar movimento análogo agora, com vetor mais nítido em direção à eletrificação, aceleração da adoção de fontes renováveis na geração de eletricidade e, ainda, maior uso de biocombustíveis.

A racionalidade econômica é direta. Quando o preço relativo de uma fonte sobe e, sobretudo, quando sua volatilidade se eleva de forma persistente, o cálculo de viabilidade dos substitutos melhora. Isso amplia o prêmio embutido em projetos de energias renováveis, cuja estrutura de custos é majoritariamente determinada pelo capital investido inicialmente.

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Mas o ponto decisivo não é apenas econômico. É de segurança energética. A lição mais importante de 2022 e 2026 é que a concentração geográfica da oferta e da logística de hidrocarbonetos converteu o suprimento em variável geopolítica de primeira ordem. Países importadores líquidos passaram a precificar não somente o barril mas a probabilidade de que ele não seja entregue. Daí a virada observada na UE desde 2022, com o RePowerEU acelerando solar, eólica e hidrogênio, e o reforço, em 2026, dos planos de descarbonização no Japão, na Coreia do Sul e na Ásia emergente.

Os biocombustível ganham relevância adicional. Diferentemente do petróleo, sua produção é geograficamente menos concentrada e, no caso brasileiro, apoia-se em infraestrutura sucroenergética madura. Etanol, biodiesel, biometano e os SAF (combustíveis sustentáveis de aviação) operam dentro da infraestrutura logística existente, o que reduz custos de transição vis-à-vis a eletrificação plena, especialmente em segmentos de difícil descarbonização.

Para o Brasil, exportador líquido de petróleo e simultaneamente líder global em bioenergia, abre-se janela rara: a de combinar ganho de termos de troca a curto prazo com posicionamento estratégico em mercados que tendem a se expandir estruturalmente.

Nada disso significa que o petróleo desaparecerá em horizonte próximo. Significa, sim, que cada novo choque tende a acelerar a transição energética. A diferença entre 2022 e 2026 é que o segundo episódio chega quando o primeiro ainda não foi plenamente digerido —e isso muda expectativas.

Investimentos em renováveis e biocombustíveis deixaram de ser primordialmente uma escolha apenas climática para se tornar, também, política de Estado em segurança nacional.