quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Energia é principal gargalo para avanço de data centers, diz Ascenty, FSP

 

São Paulo

A Ascenty, empresa brasileira especializada na construção de data centers, vê a possível aprovação do Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center) com otimismo, mas há preocupações.

O CRO (Chief Revenue Officer) da companhia, Marcos Siqueira, espera receber grandes contratos para a montagem de data centers no país ainda no primeiro trimestre deste ano.

Homem calvo veste terno azul e camisa clara, está de braços cruzados e sorri em escritório moderno com iluminação artificial e plantas ao fundo.
Marcos Siqueira, CRO da Ascenty - Divulgação Ascenty

No entanto, a conectividade com a rede de energia elétrica pode ser um problema para o avanço desse tipo de estrutura no país. "A linha de distribuição [de eletricidade] é o grande gargalo hoje. A gente gera mais energia do que consome, mas não distribui", afirma Siqueira.

Na madrugada de quarta-feira (25), a Câmara dos Deputados aprovou o Redata, programa de incentivo fiscal para empresas que investirem na instalação de data centers no Brasil. Companhias de tecnologia —em destaque, as big techs— terão isenções e descontos na compra dos equipamentos necessários para a montagem das estruturas de armazenamento de dados.

O texto ainda precisa passar pela aprovação do Senado.

Nos data centers, são alojadas máquinas responsáveis por processar dados de serviços como nuvem e, mais recentemente, servidores de IA (inteligência artificial). Os do primeiro tipo já existem no Brasil, mas a expectativa de empresas como a Ascenty é atender cada vez mais empresas que desejam construir o segundo.

Centrais de dados de IA são maiores, exigem tecnologia de ponta e gastam muita energia. O Brasil se tornou candidato a "hotspot" de estruturas do tipo devido à disponibilidade de energia de fontes renováveis, de espaço e de mão de obra.

Mesmo com energia disponível, ela nem sempre chega aos locais de instalação. Empresas que constroem data centers precisam solicitar conexões de alta potência às distribuidoras. A fila de espera é extensa, sobretudo no Sudeste.

Segundo Siqueira, a Ascenty se adiantou e já tem espaços em São Paulo onde há conexão com a rede elétrica. Para a construção de novos espaços, no entanto, o gargalo volta a atrapalhar.

A aprovação do Redata pode acelerar a inserção do Brasil no mapa das centrais de dados de IA, na visão do executivo. O cliente que estava em dúvida sobre criar um data center aqui, pode ver o benefício tributário e tomar a decisão de construir no Brasil. Aquele que já tinha decidido construir aqui, pode dar tração ao projeto, segundo ele.

O sucesso da empreitada depende da capacidade das empresas nacionais e do governo em atrair as big techs e outras companhias internacionais para atuar aqui. Isso porque, do ponto de vista de patamar de investimento, não temos nenhuma empresa brasileira tão grande quanto elas —Siqueira avalia que o mercado nacional ainda não tem capacidade para uma injeção de capital de proporções semelhantes.

Prédio industrial branco extenso em área verde com colinas ao fundo sob céu parcialmente nublado. Estrada asfaltada curva em primeiro plano.
Data center da Ascenty em Vinhedo, interior de São Paulo - Divulgação Ascenty

Engatinhando

A Microsoft anunciou em 11 de fevereiro a inauguração de dois data centers de IA e nuvem no Brasil, ambos no estado de São Paulo. A empresa não revelou as cidades ou localizações dos espaços por motivos de segurança, segundo a companhia.

Em 2024, a empresa prometeu o investimento de R$ 14,7 bilhões na expansão da infraestrutura no Brasil. Ela também espera treinar 5 milhões de brasileiros em IA até 2027.


Dos 77 aos 78, Ruy Castro, FSP

 Em 2002, aos 77 anos, meu sogro, Delio Seixas, fã de futebol e torcedor do Fluminense, perguntou-se a quantas Copas do Mundo ainda assistiria depois daquela que estava para começar no Japão/Coreia do Sul. Afinal, já era um recordista no gênero. Pelo rádio ou pela TV, acompanhara todas de 1938 em diante (a de 1950, ao vivo, no Maracanã), o que significava, até então, 14 Copas no seu cartel. Modesto, calculou que, no tempo que lhe restava, seriam talvez mais duas. Mas Delio subestimou-se: viveria até os 97 anos, maravilhosamente saudável e lúcido, com o que torceu pelo Brasil em mais seis Copas, até a de 2022.

Bem, despedindo-me nesta quinta-feira (26) dos meus próprios 77 anos, não tenho ideia de quantas Copas me restam nem isso me altera o sono —as de 1958 e 1970 já terão sido suficientes. Só sei que não atingirei a marca de Delio. Alto funcionário do Banco Central, ele nunca fumou ou bebeu e levou a vida fazendo esporte, dormindo cedo e comendo salada. Eu, ao contrário, até os 40 anos vivia pela madrugada, pulando janelas, cercado de más companhias e resistindo a tudo, menos às tentações. Depois regenerei-me e me tornei um cidadão exemplar, ou quase. Mas nunca se sabe quanto, um dia, nos custarão os prazeres.

Como dizia Groucho Marx, a velhice não é uma grande coisa —basta viver para chegar até lá. Mas alguns parecem querer se antecipar a ela. Tom Jobim, que morreu tão cedo, aos 67 anos, já se sentia velho muito antes. Certa vez, na rua, alguém lhe perguntou: "Hei, Tom, o que você está compondo?". E ele: "Não estou compondo. Estou decompondo!". E Nelson Rodrigues, que também morreu com inacreditáveis 68, escreveu várias vezes: "Eu sou uma múmia, com todos os achaques das múmias".

Nelson e Tom eram de uma geração em que os 50 anos já pareciam levar à reta final. Hoje, com essa idade, o cidadão ainda não chegou nem à primeira curva. Segundo meu médico, os 78 anos de agora são os 55 de até outro dia.

Ótimo. Outra grande vantagem dos 78 é que ainda falta um ano para os 79.

Discurso de Trump no Congresso desafia realidade, e democratas caem na arapuca, Lúcia Guimarães - FSP

 O discurso presidencial sobre o Estado da União, proferido há 236 invernos americanos, é uma função constitucional do cargo, uma ocasião cerimonial em que o chefe de Estado relata ao Legislativo e ao povo o que fez e pretende fazer no cargo. Não deve se assemelhar a um baile funk ou a um comício em Sucupira.

O cenário na segunda-feira (23) à noite no Congresso provocaria um ataque de nervos em George Washington, o primeiro presidente a fazer o discurso, no sul de Manhattan. A última chance de Donald Trump para capturar uma audiência nacional simultânea antes da eleição de novembro foi, como se esperava, desperdiçada porque não faz parte do DNA do presidente admitir que a União anda num estado delicado.

Homem de cabelos claros e terno escuro com gravata vermelha está em púlpito de madeira, apontando com as duas mãos à frente, com expressão séria. Dois microfones estão posicionados à sua frente.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, gesticula durante discurso do Estado da União, no Congresso americano, em Washington - Andrew Caballero-Reynolds - 24.fev.26/AFP

Sim, ele fez do discurso um comício de 108 minutos —o mais longo da história— e provavelmente a audiência começou a cair depois de meia hora.

Quem sabe se os eleitores independentes, o bloco sem o qual Trump não teria conseguido se reeleger, ainda prestavam atenção ao discurso quando o presidente qualificou a principal questão para qualquer americano —o custo de vida— como "uma mentira suja e repugnante" perpetrada por democratas. O apoio dos independentes a Trump despencou para uma baixa recorde de 26%, de acordo com uma nova pesquisa da rede CNN.

Mas os democratas parecem aparvalhados. Onze anos depois de o empresário nova-iorquino ter descido a escada rolante para anunciar a primeira candidatura, a oposição ainda não conseguiu se adaptar ao mundo pós-verdade e apresentar uma frente articulada para lidar com o país aprisionado numa casa do Big Brother. Gritar da plateia no meio do discurso não é tática de oposição.

Um repórter da revista The Atlantic recentemente ligou para uma veterana consultora política que se desligou do Partido Republicano por causa do trumpismo e hoje se alinha aos democratas. Ela ainda reúne grupos focais semanalmente para tomar o pulso de diferentes segmentos de eleitores.

Ao ser indagada sobre o ânimo da oposição, começou a gritar no telefone: "Os republicanos estão em campo como mercenários, enquanto os democratas estão dando folga para todo mundo nas sextas-feiras para conversar sobre o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal", disse Sarah Longwell.

Além de pedir aos americanos para não acreditarem na realidade que teima em dominar seu cotidiano em custo de vida, empregos e acesso à assistência médica, o presidente não ofereceu soluções para os problemas que ele nega existir. Citou com rancor a habitual lista de culpados, distribuiu medalhas e, acima de tudo, prestou tributo a si mesmo.

Mas as consequências da noite produzida como reality show não serão imediatamente sentidas por americanos. O público mais ansioso com o discurso não vai votar em novembro e vive a oceanos de distância de Washington.

Depois de Trump encorajar os protestos que resultaram no massacre de possivelmente 30 mil pessoas, os iranianos não ouviram qualquer definição clara do socorro oferecido pelo presidente que, sabemos, está assustado com os alertas feitos pelos comandantes militares sobre o risco de um ataque.

E, no país mais existencialmente ameaçado pelas mudanças de humor de Trump, os ucranianos não ouviram uma só frase indicando que os EUA vão usar seu poder para deter Vladimir Putin.