sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Baixas doses de soda cáustica aumentam a produção de biogás a partir de resíduos de banana, Agência Fapesp

 José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Baixas concentrações de soda cáustica (hidróxido de sódio, NaOH) são mais eficientes do que doses elevadas para preparar resíduos orgânicos destinados à produção de biogás. A descoberta aumenta a geração de metano, reduz o consumo de reagentes e, assim, diminui custos.

A matéria-prima da pesquisa que chegou a essa conclusão foram bananas – cascas e partes impróprias para comercialização coletadas em varejões. Embora apresentem elevado teor de matéria orgânica, esses resíduos guardam seu potencial energético “trancado” em uma espécie de “armadura vegetal” formada por substâncias como celulose e lignina. A barreira dificulta o acesso dos microrganismos aos açúcares fermentáveis e limita a eficiência da digestão anaeróbia – a decomposição da matéria orgânica por comunidades de microrganismos que vivem na ausência de oxigênio.

Ao longo do processo, moléculas complexas são gradualmente quebradas em compostos mais simples até a formação do metano (CH), principal componente energético do biogás.

“Para aumentar a eficiência da produção de biogás, é necessário aplicar um pré-tratamento. Nós optamos pelo termoalcalino [que combina calor e produtos químicos]. A biomassa foi aquecida na presença de diferentes concentrações de hidróxido de sódio, variando entre 0,2% e 3%. O objetivo era romper parcialmente a barreira formada pela lignina, tornando os carboidratos mais acessíveis aos microrganismos”, relata Sandra Imaculada Maintinguer, integrante do Instituto de Pesquisa em Bioenergia da Universidade Estadual Paulista (IPBEN-Unesp) que coordenou a pesquisa.

O resultado contrariou a expectativa intuitiva de que mais reagente produziria melhor desempenho. A eficiência máxima foi alcançada justamente com as menores concentrações testadas. A concentração de apenas 0,2% de NaOH promoveu a maior solubilização de carboidratos, alcançando 12.110 miligramas por litro (mg/L), contra 4.785 mg/L observados no material sem pré-tratamento. Um pequeno aumento na concentração, para 0,4%, proporcionou a maior produção acumulada de metano, mas a de 0,2% foi a que promoveu a maior velocidade de produção do gás.

“Isso é importante porque, além de aumentar os custos da produção, o uso elevado de hidróxido de sódio inibe a ação dos microrganismos responsáveis pela geração do metano e pode causar maior impacto sobre o meio ambiente”, destaca Larissa Ayumi Yamamoto, graduanda no IPBEN-Unesp e primeira autora do artigo que descreve o achado, publicado em maio na revista científica Bioenergy Research.

Menos é mais

Em pequenas quantidades, a soda cáustica facilita a ruptura parcial da estrutura vegetal e libera açúcares que alimentam os microrganismos. Em excesso, porém, passa a atacar os próprios microrganismos, atrapalhando ou até inviabilizando o processo. “Não adianta colocar 20% porque se torna inibitório”, resume Maintinguer. Além de aumentar a produção, a redução da quantidade de reagente melhora a perspectiva de aplicação industrial porque facilita o tratamento posterior de efluentes. “Para a indústria, quanto menor a concentração de hidróxido de sódio, melhor”, comenta.

A pesquisadora observa que São Paulo reúne condições particularmente favoráveis para esse tipo de tecnologia. Grande produtor de frutas, o Estado gera quantidades enormes de resíduos ao longo de toda a cadeia produtiva, desde frutos descartados ainda na propriedade até sobras do beneficiamento industrial e da comercialização. “A ideia é fechar esse ciclo. Em vez de encaminhar restos e frutas fora do padrão comercial para aterros, esses resíduos podem alimentar biodigestores capazes de produzir energia, transformando um passivo ambiental em uma fonte renovável”, pondera.

Os resultados mostraram que o desempenho do sistema depende não apenas da quantidade de matéria orgânica disponível, mas também de quais bactérias estão atuando no processo e quais caminhos usam para digerir a matéria. No reator submetido ao pré-tratamento com 0,4% de hidróxido de sódio predominaram bactérias dos gêneros Paraclostridium e Clostridium e arqueias metanogênicas (organismos unicelulares produtores de metano) dos gêneros Methanothrix e Methanoregula. “Nós avaliamos o consórcio microbiano presente no reator, conseguimos acompanhar como esse sistema evolui e quais rotas metabólicas os microrganismos percorrem ao longo do processo”, sublinha Ana Gabriela Oliveira Ferreira Janas, doutoranda no IPBEN-Unesp. “São informações que a pesquisa pode oferecer para a indústria.”

Turnos de trabalho microbiano

Maintinguer explica que a digestão anaeróbia funciona como uma sucessão de etapas cumpridas por diferentes grupos de microrganismos. “Entramos com a matéria orgânica bruta e os microrganismos vão quebrando essa matéria em compostos cada vez mais simples. Esses intermediários acabam sendo consumidos por outros microrganismos até chegar à formação do metano.”

O trabalho integra um programa mais amplo desenvolvido pelo grupo da Unesp para transformar resíduos agroindustriais em fontes de energia e outros produtos de valor agregado. Além da banana, os pesquisadores vêm estudando resíduos de laranja e goiaba, águas residuárias do processamento de frutas e diferentes estratégias de digestão e codigestão anaeróbias. A codigestão anaeróbia consiste em misturar diferentes tipos de resíduos no mesmo reator para potencializar a geração de energia.

Dependendo das condições operacionais e da comunidade microbiana presente, esses sistemas podem ser direcionados não apenas à produção de biogás, mas também para a obtenção de outros compostos de interesse industrial. Em outro trabalho, ainda em processo de revisão para publicação, Janas e colaboradores investigaram a codigestão anaeróbia de resíduos para produzir bio-hidrogênio.

O estudo foi financiado pela FAPESP por meio de dois projetos (22/15706-5 e 24/10977-6).

O artigo Agroindustrial banana wastes applied in biogas production: Evaluation of thermal pretreatment on alkaline hydrolysis pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1007/s12155-026-11024-0.
 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Antipetismo visceral alimenta o servilismo a Donald Trump- Marcos Augusto Gonçalves, FSP

 Embora possa causar algum espanto, parcela considerável de brasileiros vê com simpatia o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem atacando o país com tarifas comerciais disparatadas e pressões políticas com vistas a interferir nas eleições.

Os apoiadores mais despudorados filiam-se à direita truculenta bolsonarista. Mas há também, talvez mais velados, simpatizantes provenientes de setores liberais conservadores e defensores das pautas das big techs. Entre esses, gente que frequentou boas escolas, teve acesso a leituras e a situação econômica privilegiada. Atestam, em seu transfugismo, quão invertebrados podem ser certos representantes das elites brasileiras.

A imagem mostra uma grande multidão reunida em uma manifestação, predominantemente vestida com camisetas amarelas e verdes, que são as cores da bandeira do Brasil. No centro da multidão, há uma enorme bandeira dos Estados Unidos, que se destaca em contraste com as roupas dos manifestantes. Ao fundo, é possível ver prédios altos e árvores, indicando um ambiente urbano. A cena é de um evento ao ar livre, com muitas pessoas reunidas em um espaço amplo.
Bandeira dos Estados Unidos é aberta na avenida Paulista, durante ato bolsonarista no 7 de Setembro - Eduardo Knapp - 7.set.25/Folhapress

Parece prevalecer uma espécie de reacionarismo atávico, hoje atualizado por um tipo visceral de antipetismo, que se sobrepõe ao senso de nação —um adesismo equivocado, de viés ideológico, sem altivez.

Mais uma vez, para não deixar dúvidas sobre os propósitos de Trump, o Departamento de Estado dos EUA, comandado pelo diligente e vingativo Marco Rubio, postou vídeo no qual o embaixador no Panamá, Kevin Marino Cabrera, detalha o surgimento da doutrina Monroe, em 1823, quando Washington manifestou-se a favor da independência de países latino-americanos e do afastamento das metrópoles europeias.

O post veio com a frase "o domínio americano no Hemisfério Ocidental jamais será questionado novamente" –proferida por Trump após a captura de Nicolás Maduro, o ex-ditador da Venezuela, ora substituído pela ditadora fantoche Delcy Rodríguez. O norte-americano, como se sabe, defende a doutrina Donroe, trocadilho infame que sintetiza seus interesses imperialistas em nosso continente, onde encontra o referido apoio entreguista.

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Trump exerce o poder como um Átila pós-liberal. Onde pisa, a democracia, o multilateralismo e o bom senso morrem. Instituições que mediavam querelas internacionais perderam sentido, na prática não existem mais.

Em seu admirável mundo bárbaro, endossa a disputa entre potências de perfil autocrático —Rússia e China— com autonomia sobre suas áreas de influência. Apoia o projeto Grande Israel para regrar o Oriente Médio, de preferência em sintonia com ditaduras amigas, como a Arábia Saudita —enquanto a Europa é vista como mera frescura para os fracos.

A imposição de taxas no comércio exterior funciona como arma para impor a superpotência e também serve para ajudar no financiamento do Estado, substituindo os impostos não cobrados dos grandes empresários americanos.

Seria como se Lula, se pudesse, num argumento por absurdo, tentasse buscar recursos fiscais impondo barreiras externas para compensar seus gastos públicos e o custo tributário das isenções.

Em ano eleitoral, o Brasil torna-se uma vítima preferencial do republicano, que acredita estar punindo Lula e favorecendo seus aliados extremistas. Recente pesquisa Datafolha, aliás, mostrou que para 52% dos brasileiros Trump atua para favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro, cuja família e seguidores batem continência para a bandeira dos EUA.

O clássico livro "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Hollanda, já chega aos 90 anos, mas ainda vale em boa medida seu diagnóstico: somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra.

O Brasil registrou 800 mil casos de acidentes de trabalho em 2025 - The News












(Imagem: Sarah Grillo | Axios)

De grão em grão, Pequim enche o cofre. A China escolheu o Deutsche Bank para ser o primeiro banco não chinês autorizado a realizar liquidações em yuan na Europa. Até então, essa operação era reservada apenas para filiais dos 4 grandes bancos chineses.

O que isso significa? Antes, as empresas precisavam trocar o euro por dólar para conseguirem fazer comércio com a China. Agora, essas transações podem acontecer diretamente na moeda chinesa.

A medida representa mais um passo nas ambições da China para internacionalizar sua moeda e desbancar o dólar americano. Antes de pensar que é teoria da conspiração, esse objetivo está presente no plano quinquenal chinês — que estabelece metas a cada cinco anos para o país.

A escolha do banco também foi estratégica. O Deutsche Bank tem buscado cada vez mais facilitar as atividades de comércio entre China e Europa.

  • Inclusive, eles são adeptos do CIPS, uma rede de comunicação alternativa ao sistema americano SWIFT — que predomina no mundo hoje. Ambos permitem que bancos se comuniquem para realizar transações financeiras internacionais.

Apesar disso, o dragão chinês vai precisar voar alto para superar o dólar. Isso porque a participação do yuan nas transações internacionais representou apenas 3,1% do total em junho deste an