terça-feira, 11 de agosto de 2026

Hélio Schwartsman - Eleições são um perigo -FSP

 Se me pedissem para desenvolver o pior sistema possível para selecionar governantes, eu talvez chegasse às eleições. A lista de problemas que elas engendram é grande.

Pelo lado do eleitor, temos a diluição de responsabilidades. Se você quer um serviço bem-feito, não o encomende a múltiplos prestadores que não podem ser individualmente cobrados por suas ações. Mas é exatamente o que fazemos quando encarregamos um eleitorado, que pode chegar a centenas de milhões nos países mais populosos, de escolher os dirigentes da nação. O próprio eleitor resiste em aderir ao projeto. Ele sabe que o peso de cada voto individual tende à irrelevância e por isso nem se dá ao trabalho de conhecer minimamente as propostas de cada postulante, como exigiria o modelo de democracia racional.

Cinco homens aparecem em retratos verticais lado a lado, cada um com expressão neutra. O primeiro usa chapéu preto e camisa azul clara, o segundo veste terno escuro e camisa branca, o terceiro tem cabelo grisalho e camisa azul clara, o quarto usa óculos redondos e camisa preta, e o quinto veste terno azul com gravata amarela.
Os candidatos à Presidência da República Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) - Montagem

E, se as coisas já são ruins no que tange ao eleitor, ficam ainda piores no que diz respeito aos candidatos. A encrenca aqui é a autosseleção. Tendem a ser mais atraídos pelo poder os perfis psicológicos que gostaríamos de ver longe do poder. Necessidade de aprovação, excesso de autoconfiança, megalomania são algumas das características potencialmente prejudiciais ao desempenho de um bom governante que abundam entre políticos. Como se não fosse o bastante, personalidades que reúnem fortes traços de narcisismo, maquiavelismo e psicopatia, a temível tríade sombria da psicologia, são mais frequentes entre políticos do que na população comum.

Por que então não abolimos as eleições e adotamos outro sistema? A democracia não tem poucas falhas, mas ainda não vislumbramos nada melhor do que ela. E, para ser percebida como legítima, é preciso que o eleitorado tenha alguma agência, isto é, algum poder de decisão, mesmo que o exerça muito imperfeitamente.

O caminho de menor resistência, me parece, é seguir com eleições e aprimorar o sistema de freios e contrapesos para reduzir os poderes individuais de políticos e com eles o perigo que más escolhas dos eleitores possam representar.

'Collor foi o melhor chefe que eu já tive', diz Dorothea Werneck, 1ª e única mulher ministra do Trabalho- FSP

 Jullia Gouveia

Em mais de uma década na Esplanada dos Ministérios, entre 1985 e 1996, a economista Dorothea Werneck, 78, passou por quatro presidentes, defendeu reformas trabalhistas e encabeçou novas políticas de exportação. Já no folclore popular, a primeira e única mulher a chefiar o Ministério do Trabalho no Brasil (1989-1990) ficou marcada pelo cabelo volumoso, risadas altas e pelo bordão "Eu quero é mais!", da personagem Doroféia Ieneck, vivida por Nádia Maria na Escolinha do Professor Raimundo (Globo), paródia que a mineira adorava.

A economista política Dorothea Werneck em sua casa no Jardim Botânico de Brasília para a Folha em 2024 - Gabriela Biló/Folhapress

Para ela, que se define mais como profissional que como política, o desempenho dos mandatários pode ser dividido em três eixos: capacidade técnica, executiva (de gestão) e política. Fernando Henrique Cardoso, na avaliação dela, era "absolutamente extraordinário" na primeira competência, mas falhava na gestão de pessoas. "Ele tinha um grupo muito pequeno em sua volta e sempre ouvia a última pessoa com quem falava. Várias vezes, vi serem tomadas decisões da minha área sem ter sido ouvida", diz Werneck, que foi ministra da Indústria e Comércio (1995-1996) sob o governo tucano.

Fernando Collor de Mello, para ela, sabia coordenar ações, reunir a equipe e cobrar resultados. "Ele fazia as coisas acontecerem. Foi o melhor chefe que eu já tive em termos de Presidência da República", afirma. Porém, ela avalia que o ex-presidente cujo mandato terminou em impeachment em 1992 tinha uma falha grave em outro aspecto. "Ele não teve habilidade política nem para convencer a família dele."

Ao analisar os presidentes mais recentes pelo mesmo critério, Jair Bolsonaro (PL) é destaque negativo. "Base técnica: baixíssima. Capacidade executiva: quem arruma briga não pode ser um bom executivo. E a habilidade política dele é gerar confusão, é destruir o outro lado, em vez de melhorar o dele", diz.

Para avaliar o desempenho de Lula, que já foi alvo de críticas dela no passado, ela afirma fazer um panorama geral dos três mandatos do petista e vê a trajetória dele como equilibrada. "A bagagem técnica e política ele adquiriu na liderança sindical. Quanto à capacidade executiva, às vezes faz algumas indicações aos cargos mais pelo lado partidário que pelo técnico, mas é um cara que sabe o que quer, mesmo que você discorde dele", reflete.

Close no rosto de uma pessoa idosa com cabelos grisalhos e ondulados. Olhos castanhos claros observam para o lado direito da imagem, com rugas visíveis na testa e ao redor dos olhos. Fundo escuro destaca os traços faciais.
A economista política Dorothea Werneck em sua casa no Jardim Botânico de Brasília para a Folha em 2024 - Gabriela Biló/Folhapress

A trajetória que a levou aos gabinetes de Brasília foi marcada pela afinidade com a técnica e por uma boa dose de aleatoriedade. Em 1966, durante o vestibular para administração, pediu para ir ao banheiro, mas o fiscal não permitiu que ela saísse enquanto não entregasse a prova. "Eu não tive alternativa, entreguei como estava." Ela foi reprovada no vestibular naquele ano e acabou prestando o exame no ano seguinte para economia. "Por conta de uma vontade de ir ao banheiro, eu defini minha carreira. Tudo o que aconteceu na minha vida eu não planejei. E tudo o que eu planejei não aconteceu", conta.

Foi na faculdade que conheceu o ex-marido, o também economista Rogério Werneck, que a influenciou para atuar na pesquisa acadêmica. Dorothea fez mestrado, doutorado no Boston College e chegou a lecionar na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Até que percebeu que a vida acadêmica não era o que queria.

Aliás, ela percebeu isso muito antes, aos 15 anos, quando insistiu com o pai que queria sair de Ponte Nova, no interior de Minas Gerais, para fazer o colegial na capital mineira –a cidade natal só oferecia o curso normal, onde ela se formaria docente. Ela foi morar com uma de suas irmãs mais velhas, Letícia, que custeou seus estudos e a deixou com uma aspa que se tornou seu lema: "Você que sabe, a vida é sua", relembra a ex-ministra.

Foi com essa mentalidade e "quase no susto" que Werneck abandonou a carreira acadêmica e aceitou um convite para trabalhar no Centro Nacional de Recursos Humanos, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). E, para a supresa dela, foi contratada para ser chefe da pessoa que a tinha convidado para o cargo.

No meio político, diferentemente do cenário que encontrou na academia, o gênero era um marcador constante. "Mesmo em situações em que eu era a única mulher em salas com 60 homens, eu nunca usava outro termo senão que eu era uma ‘profissional’. É uma palavra que não tem masculino e feminino."

Ela afirma, inclusive, que o infame episódio em que o então presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Mario Amato (1918-2016), disse que a economista era "inteligente, apesar de ser mulher" marcou mais a vida dele do que a dela. "Essa barbaridade deu um rebu na impresa, com os deputados e com os senadores. Ele veio se explicar e eu respondi: ‘Melhor não, vai piorar. Deixa como está’."

"Fiquei meio assustada que, quando ele faleceu, a maioria das notícias relatando a vida e a morte dele, que foi uma pessoa muito importante, mencionavam esse caso. Da minha parte, só ganhei o título do meu livro", ela diz, se referindo à obra "Apesar de Ser Mulher", publicado em 1990.

Décadas depois, em 2026, Werneck lançou o livro "Aprendendo e Vivendo: Uma biografia Contada por Histórias e Versos", em que reúne mais causos e análises acumulados em sua trajetória. O lançamento em São Paulo ocorreu na segunda (10), na sede da Fiesp, em São Paulo.

Nunca estivemos tão polarizados nem tão desiludidos- Joel Pinheiro da Fonseca - FSP

 Mesmo sem grandes chances de vitória, o eleitor mais ao centro sempre teve opções para votar tranquilamente no primeiro turno, antes de se render à lógica do mal menor no segundo. Em 2018, havia Marina, Ciro, Meirelles, Alckmin. Em 2022, Simone Tebet. Em 2026, não.

O que de mais próximo temos disso, Ronaldo Caiado com Kassab de vice, é uma candidatura solidamente de direita (até na oposição às câmeras da polícia) e que adere à pauta central do bolsonarismo: a anistia inclusive para os mandantes da trama golpista. E isso não é à toa. É porque ele calcula —provavelmente com razão— que não teria a menor chance com o eleitorado de direita caso não abraçasse essa bandeira.

Diversos bonés coloridos expostos sobre lona em calçada, incluindo modelos vermelhos com inscrições "LULA 2026" e verdes com "Jair Bolsonaro 2026", além de bonés com símbolos da seleção brasileira e times de futebol. Pessoas caminham ao fundo em área urbana com árvores e grades.
Vendedor ambulante com bonés dos presidenciáveis Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) na região central de São Paulo - Felipe Bächtold - 27.mai.26/Folhapress

Renan Santos e Romeu Zema são, ou querem ser, o Bukele e o Milei de uma nova onda de direita mais pura que o bolsonarismo. De resto, há um punhado de nomes da extrema esquerda cuja função é propagar uma revolução que nunca chega. Todos eles, à direita e à esquerda, são coadjuvantes do conflito central entre lulismo e bolsonarismo, que não deu até agora nenhum indício de que irá embora.

A polarização, portanto, segue dando as cartas. Mas é uma polarização desesperançada; sem a ilusão de que seus dois representantes realmente trarão a sonhada transformação da sociedade. Houve quem esperasse de Bolsonaro o fogo restaurador a partir de 2019. Crescimento galopante, fim do crime organizado, combate à corrupção, velha política acuada. Ele não veio. Nem o bolsonarista mais radical deve esperar que, com Flávio, será melhor.

Lula voltou ao poder em 2023, subindo a rampa cercado de minorias e com promessas ambiciosas. Alguns projetavam nele uma frente ampla com agenda social, ambiental e ortodoxia econômica. Outros torciam por um governo abertamente pró-trabalhador, esquerda pra valer, picanha no prato do trabalhador e política industrial chinesa. Ambos devem estar decepcionados.

Sobrou o lado negativo. Nosso candidato pode não ser grande coisa, mas, se o outro lado vencer, será o apocalipse. Essa crença justifica escolhas vergonhosas. A essa altura, no entanto, ninguém deveria acreditar que Flávio quer e conseguiria dar um golpe ou que Lula, depois de três mandatos, no quarto sim nos transformaria numa Venezuela.

Em meio a essa ressaca, quem mais se fortaleceu foi a força política conhecida como centrão, isto é, legendas sem conteúdo programático claro, mas capazes de abocanhar fatias crescentes do Orçamento para agradar suas bases e garantir a reeleição. A corrupção ganhou espaço e agora os escândalos se somam ao ponto de anestesiar a indignação geral. Quando muito, tenta-se usá-la, sem sucesso, para provar que o culpado é o lado contrário.

De duas, uma: ou estamos já na lenta curva de aprendizado social, em que os milhões de novos participantes do debate público a que as redes sociais deram voz e espaço para sonhar vão aos poucos aprendendo que não há soluções mágicas nem salvadores, que a política jamais entregará a utopia, e que o melhor que podemos fazer é o aprimoramento gradual.

Ou então a resposta para a desilusão será aumentar a dose da ilusão: "Falhamos porque não fomos radicais o suficiente, precisamos realmente varrer do mapa tudo o que existia antes, começar do zero, até dar certo". As escolhas podem parecer ruins agora, mas não se enganem: ainda há muito poço a se mergulhar.