domingo, 22 de março de 2026

Mais poder, menos confiança: o dilema do STF, Lara Mesquita, FSP

 O Supremo Tribunal Federal é destaque no noticiário político, e isso não é novidade. A novidade é que o holofote agora está na erosão de sua legitimidade. Pesquisas de opinião divulgadas neste mês de março por diversos institutos (Datafolha, Quaest, Ideia, Atlas Intel) convergem ao apontar a queda da confiança dos eleitores no STF.

A queda de confiança no Supremo se dá em meio a denúncias de envolvimento de alguns de seus ministros, ou familiares, com o Banco Master e à dificuldade em avançar na adoção de um código de conduta que imponha limites mais claros à atuação dos ministros.

A reputação do Supremo ancora-se, em grande medida, na imagem de instituição independente e neutra politicamente. É justamente essa imagem que sustenta a legitimidade da corte para tomar decisões contramajoritárias e proteger os direitos das minorias políticas e sociais. Mas o STF está realmente cumprindo esse papel, ou sua atuação apenas corrobora a desconfiança dos eleitores?

A imagem mostra a fachada do Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil, com uma escultura em primeiro plano representando a Justiça. A escultura é feita de pedra e retrata uma figura feminina sentada, segurando uma balança. O edifício ao fundo possui um design moderno, com grandes janelas e um telhado em forma de asa. O céu está parcialmente nublado, com algumas nuvens visíveis.
Fachada da sede do STF (Supremo Tribunal Federal) - Pedro Ladeira - 21.jun.24/Folhapress

Na primeira coluna deste ano, discuti o papel redistributivo das cortes constitucionais a partir de evidências empíricas recentes. O trabalho usado como referência não encontra correlação entre a existência de revisão judicial e maior proteção dos direitos de minorias, nem tampouco efeitos sistemáticos sobre crescimento econômico.

Daniel Wang, professor de direito da FGV São Paulo, em artigo publicado na Public Law, oferece uma contribuição importante para esse debate ao questionar a ideia de que tribunais seriam, por definição, mais técnicos, imparciais ou justos do que os Poderes Executivo e Legislativo.

Ao criticar essa visão idealizada, Wang chama atenção para um problema recorrente: a comparação entre o funcionamento imperfeito das instituições políticas no mundo real e uma versão idealizada do Judiciário.

Ainda que os tribunais não sejam irrelevantes ou necessariamente prejudiciais, sua atuação deve ser analisada como a de qualquer outra instituição política, sujeita a limitações, incentivos e pressões políticas.

A ciência política há muito caracteriza o Poder Judiciário como mais um ponto de veto no processo decisório. E pontos de veto aumentam os custos de implementação de políticas públicas, especialmente aquelas de caráter redistributivo.

Lembro, por exemplo, a decisão liminar de 2014 do ministro Luiz Fux que estendeu o auxílio-moradia a magistrados fora do teto salarial, medida que só foi revertida após o Executivo aceitar aumentar o teto salarial e conceder reajustes à categoria, mesmo em meio a um cenário de forte pressão por cortes de gastos.

Tribunais com amplos poderes e crescente protagonismo acabam assumindo funções que se aproximam das de formuladores de políticas públicas, mas desprovidos da expertise necessária para lidar com orçamentos complexos.

Embora os magistrados não se submetam ao escrutínio das urnas, também não estão imunes às pressões políticas, seja pelo convívio nos pequenos círculos de poder em Brasília, seja por ameaças de impeachment cada vez mais plausíveis.

Em um contexto de crescente desconfiança nas instituições, ampliar o protagonismo do Judiciário sem enfrentar seus limites não fortalece a democracia, apenas desloca seus problemas.

Digitalizar o Estado não basta, é preciso torná-lo inteligente, OESP

 

O Brasil entrou definitivamente em uma era em que governar bem já não depende apenas de vontade política, boas intenções ou expansão de estruturas, mas depende, sobretudo, da capacidade de tomar decisões mais inteligentes em ambientes cada vez mais complexos e polarizados. A aceleração da inteligência Artificial, a pressão por maior eficiência no gasto público, a emergência climática, a digitalização da economia e a crescente exigência da sociedade por serviços mais simples, rápidos e eficazes impõem ao Estado um novo tipo de responsabilidade: não basta modernizar a aparência da máquina pública, com novos aplicativos ou serviços digitais, é preciso reconstruir sua capacidade de responder ao presente e de preparar o futuro.

PUBLICIDADE

Por muito tempo, a inovação no setor público foi tratada como pauta periférica, quase ornamental, algo desejável, mas não essencial. Essa visão se tornou insustentável ao passar dos anos, e a inovação pública deixou de ser um atributo complementar para se tornar infraestrutura de desenvolvimento e de sobrevivência. Países, Estados e cidades que não ampliarem sua capacidade institucional para operar com dados, tecnologia, integração e inteligência decisória tenderão a perder competitividade, desperdiçar recursos e ampliar a distância entre governo e sociedade.

O debate, no entanto, precisa amadurecer. Tecnologia, por si só, não transforma governos, o que transforma governos são decisões sobre prioridades, governança, interoperabilidade, desenho institucional, infraestrutura digital, uso estratégico de dados e capacidade de articulação entre diferentes atores. Sem isso, o risco é conhecido, digitalizar ineficiências, automatizar gargalos e produzir soluções sofisticadas para problemas que continuam estruturalmente mal resolvidos.

Para você

É justamente por isso que o desafio contemporâneo não é apenas tornar o Estado digital. É torná-lo inteligente. E há uma diferença decisiva entre as duas coisas, pois um governo digital pode oferecer serviços online, aplicativos e sistemas mais modernos, mas somente um governo inteligente consegue integrar informações, antecipar riscos, orientar políticas por evidências, melhorar a experiência do cidadão, coordenar atores diversos e transformar tecnologia em valor público. Em outras palavras, não se trata de informatizar processos antigos, mas de reconfigurar a lógica de funcionamento do Estado.

Publicidade

Nesse contexto, ganha força a ideia de governo como plataforma, com protagonismo, não um Estado mínimo, retraído ou ausente, mas um Estado capaz de organizar capacidades, conectar soluções, induzir desenvolvimento e ampliar sua inteligência operacional, um governo que não trabalha isolado, mas em conexão com startups, empresas de tecnologia, universidades, centros de pesquisa, investidores e ecossistemas de inovação.

O problema é que essa articulação ainda é fragmentada no Brasil, existem inúmeras iniciativas de excelência, bons projetos, experiências promissoras e lideranças públicas comprometidas com a transformação, mas ainda falta, em escala nacional, um ambiente capaz de reunir esses atores de forma qualificada, contínua e orientada por agenda. Falta um espaço em que a inovação governamental deixe de ser apenas tema técnico ou discurso aspiracional e passe a ser tratada como estratégia de país.

imagem newsletter
newsletter
Política
As principais notícias e colunas sobre o cenário político nacional, de segunda a sexta.
Ao se cadastrar nas newsletters, você concorda com os Termos de Uso e Política de Privacidade.

É nesse ponto que iniciativas como o palco e-gov do São Paulo Innovation Week (SPIW) ganham relevância que vai muito além de um evento. Sua importância está em se consolidar como espaço de conexão e articulação da agenda nacional de inovação governamental. Em vez de apenas reproduzir o entusiasmo em torno da tecnologia, o que esse tipo de espaço pode oferecer é algo mais valioso, a possibilidade de transformar dispersão em direção, debate em coordenação e tendência em capacidade concreta de governo.

O mérito de palco assim está justamente em reunir quem, na prática, pode construir o futuro do Estado: lideranças governamentais, startups, empresas de tecnologia, academia, centros de pesquisa, investidores e agentes do ecossistema. Não para celebrar a inovação como palavra de ordem, mas para discutir como ela se traduz em arquitetura institucional, em compras públicas mais inteligentes, em melhor desenho regulatório, em serviços mais efetivos e em decisões públicas mais robustas.

Publicidade

O futuro do Estado brasileiro não será definido apenas pela velocidade com que adotar novas ferramentas, será definido pela maturidade com que souber utilizá-las. O verdadeiro diferencial competitivo dos governos, daqui em diante, estará menos na aquisição de tecnologia e mais na construção de capacidade institucional para empregá-la com propósito, coordenação e responsabilidade.

O futuro do governo, portanto, não será apenas digital. Será inteligente! E essa inteligência não nasce espontaneamente, ela é produto de escolhas, prioridades e pactos. O Brasil precisa, com urgência, de mais espaços que ajudem a formular essas escolhas com seriedade, porque o futuro do governo não começa amanhã, ele começa agora, nas decisões que somos capazes de tomar hoje.

O São Paulo Innovation Week, uma parceria entre o Estadão e a Base eventos, será realizado entre os dias 13 e 15 de maio na Mercado Livre Arena Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap). Assinantes do Estadão podem comprar ingressos com 35% de desconto: clique aqui para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes devem acessar este link.

Vamos virar robôs se deixarmos a IA pensar por nós, diz fundadora da Humanare, OESP

 Para Adriana Schneider, fundadora e CEO da consultoria Humanare, os trabalhadores devem se posicionar como autores na era da inteligência artificial (IA) e ter senso crítico para manter o controle da própria narrativa.

“Quando delegamos a capacidade de pensar para uma máquina, só reproduzimos o que ela pensou. Nós que nos tornamos robotizados”, afirma.

Segundo ela, os jovens são os mais vulneráveis a se deixarem levar por IAs e, por isso, incentiva que todos aprendam sobre essa tecnologia, que estará cada vez mais presente no dia a dia das empresas.

Para você

Adriana, também curadora do palco Humanare no São Paulo Innovation Week, lembra ainda que não devemos nos deixar levar por relações fictícias com IAs, mantendo o foco nas relações humanas que sejam reais. O festival é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos - assinantes podem comprar ingressos com 35% de desconto: clique aqui para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes devem acessar este link.

Publicidade

O SPIW será realizado entre 13 e 15 de maio na Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap.

A especialista também afirma que o retrocesso global visto na adoção de programas de ESG em empresas mostra quais iniciativas eram de verdade e quais existiam apenas por formalidade.

Leia os principais trechos da entrevista a seguir.

Diante da nova realidade trazida pela IA, como o humano deve se posicionar nas empresas?

Como autor. O ser humano não vai se sentir ameaçado se construir o próprio repertório, se ele souber ter uma base na hora de usar (a IA), se ele tiver um pensamento crítico sobre o que está sendo proposto. Aí, vira parceria de pensamento. Quando delegamos a capacidade de pensar para uma máquina, só reproduzimos o que ela pensou. Nós que nos tornamos robotizados. Jovens profissionais têm mais perigo porque ainda não têm experiência de vida, não têm um repertório muito profundo. Mas o uso da IA nos negócios é irreversível. Precisamos nos letrar nessa nova relação.

Publicidade

Como garantir que a inteligência artificial não atropele a inteligência emocional?

A IA coleta informações criadas por nós e responde da forma mais lógica e curta possível, menos trabalhosa para ela. Tem um aspecto que não é curto e nem necessariamente lógico, que é o da dimensão das emoções. Os pensamentos guiam as nossas emoções e as ações. Então, falar de habilidades socioemocionais e de inteligência emocional sem considerar que cada indivíduo é único é muito perigoso. Inclusive, há vários relatos de codependência com a inteligência artificial, como naquele filme Ela (estrelado por Joaquin Phoenix). Muitas pessoas fazem terapia com IAs. Precisamos de relações mais próximas entre as pessoas. Para a IA não atropelar a inteligência emocional, precisamos reconhecer que as relações humanas são mais prioritárias do que as relações com as máquinas.

A pauta ESG tem sido desafiada nos últimos anos. Os EUA descontinuaram iniciativas ligadas a temas ambientais e sociais, o que tende a pautar outros países. Como as empresas brasileiras devem navegar nesse cenário?

Acho que elas já estão lidando com isso. A pauta, de certa maneira, retraiu. Os investimentos retraíram não só no Brasil, mas na Europa, onde também eram avançados. Temos as empresas que tinham agenda ESG para ficarem com uma boa marca empregadora. Essas retraíram os investimentos. E temos as que têm iniciativas com verdadeiro sentido. São as que têm ações que não são apenas para preencher um relatório. Letramento já não é a questão, as pessoas já estão letradas (em ESG). É o que se faz depois. Nesse momento de crise, de questionar as ações, separa-se quem se mantém firme, quem aumenta o investimento e quem usa a desculpa inclusive para cancelar modelos de governança e até áreas inteiras de sustentabilidade ou de diversidade.

A pauta ESG está em fase de transformação no mundo corporativo?

De modo geral, nas empresas estrangeiras, a palavra diversidade foi substituída por equidade. Eu ainda não sei aonde isso vai nos levar, mas quando saímos de um extremo ao outro, talvez esse seja o caminho do meio. No Brasil ainda não vemos isso, mas vai chegar.

Como as empresas podem usar a inovação para gerar impacto social real (o ‘S’ do ESG) sem cair na armadilha do ‘social washing’?

As empresas conscientes olham para todas as partes envolvidas no negócio. É a visão do capitalismo consciente. Não só os líderes e os funcionários, mas também os fornecedores, os parceiros, os clientes, a natureza e a sociedade. Quando a empresa consegue conectar interesses comuns, ela acha um ponto de convergência para um bom projeto social. Por exemplo, cuidar de áreas no seu entorno ou profissionalizar pessoas com programas de aceleração de grupos minorizados, sejam ou não absorvidos pela própria empresa. É preciso esse olhar do para o ‘além de mim’.

Publicidade

As ações sociais das empresas brasileiras têm gerado um impacto duradouro ou têm sido mais pontuais?

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

As duas coisas. E tem até as que não causam impacto nenhum, que são feitas para postar fotos em redes sociais. As ações que têm um cunho assistencialista são muito importantes. Mas quando elas amadurecem para algo de longo prazo e as pessoas têm acesso a informações, desenvolvimento, saúde e dignidade, isso se mantém mais vivo. Quem passa por esses programas se transforma e vai transformando assim pessoas próximas. Precisamos atender as situações críticas, mas também precisamos apoiar o desenvolvimento humano para autonomia, para a produtividade e para os trabalhos dignos. Eu acredito nos projetos que empoderam o indivíduo.

Como garantir que a inovação e a agenda ESG coexistam nas empresas?

Elas não só coexistem, como se apoiam. Eu acredito em tecnologias humanas. A inteligência artificial também pode ser inteligência ancestral. A tecnologia mais perfeita do mundo é a natureza. Ela tem todas as respostas. Quanto mais a gente se volta para inovações que sejam orgânicas e que atendam às necessidades humanas. Eu não vejo como caminhos opostos, vejo possibilidades de encontro.

Como um colaborador que não ocupa cargos de gestão pode exercer o protagonismo para sugerir e implementar inovações dentro de uma estrutura tradicional?

A pessoa deveria assumir com intencionalidade, no mínimo, a autoliderança e a autorresponsabilidade. Para mim, protagonismo, autoliderança e autorresponsabilidade são sinônimos. É se perceber como parte do problema para poder fazer parte da solução. Se o problema é do líder, é do político, então o poder está com eles. Quando eu me vejo como parte, tenho de fazer alguma coisa. Essa postura de protagonista é de inquietude para viver melhor. Isso independe do cargo. Uma pessoa precisa desenvolver três características: autoconsciência, para ter um olhar reflexivo sobre si mesmo e também ser investigador dos seus gatilhos e talentos, autorresponsabilidade e automotivação. Se a pessoa não tem uma bússola para ver se está no caminho certo, seguindo seu propósito, ela vai atendendo às expectativas do mercado e da sociedade. Se ela olha para si, para o seu papel e o que a motiva, ela será mais produtiva e mais feliz.

Publicidade

O conceito de lifelong learning é essencial para a inovação. Como a Humanare enxerga a evolução do treinamento corporativo para que ele seja menos mecânico?

O treinamento funciona no formato de habilidades técnicas, como aprender a usar um novo software. Funciona porque é necessário para que a pessoa possa trabalhar bem e ela vê significado no que está fazendo, porque vai melhorar a vida dela. Agora, para desenvolvimento humano, se a pessoa não quiser, pode fazer os programas mais lindos, e ela vai estar lá olhando o celular. Ou se inscreve e não vai. Tem um descompasso entre o que a área estratégica de pessoas entende como necessidade versus o que o colaborador entende como necessidade. Uma estratégia é alinhar interesses. Mas nós não aprendemos só em cursos, treinamentos ou MBAs. Às vezes, aprendemos fazendo um trabalho voluntário ou assumindo um projeto que não é da nossa área para ter uma visão mais sistêmica do negócio.