sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O celular do Vorcaro - Helio Schwartsman - FSp

 Se os avanços tecnológicos ameaçam vários empregos, eles foram uma bênção para a atividade policial. Um investigador do início do século 20 gastava sola de sapato para entrevistar as sempre pouco confiáveis testemunhas e dispunha de poucas ferramentas científicas para ajudá-lo. Não havia muito mais que datiloscopia, rudimentos da balística e da toxicologia. A partir da segunda metade do século 20, vieram pequenas revoluções na forma de análise de DNA e outras técnicas forenses sofisticadas, além da proliferação de câmeras de vigilância, que fizeram com que as evidências físicas também contassem a sua história.

Não há nada, porém, que supere o advento dos smartphones. Eles são uma combinação de repositório de evidências com armadilha psicológica, nos quais os próprios criminosos vão produzindo e juntando as provas que irão condená-los e a seus comparsas. Certos delitos se tornaram muito fáceis de investigar.

Um caso emblemático é o da invasão à praça dos Três Poderes no 8 de Janeiro. Os delinquentes filmaram a si mesmos cometendo as delinquências. Aí foi só condenar e correr para o abraço.

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Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que vai prestar depoimento à CPI do INSS e à CAE, no Senado - Rubens Cavallari - 22.abr.2024/Folhapress

Temos agora o celular do Daniel Vorcaro, que já derrubou Dias Toffoli da relatoria do caso Master e promete fazer ainda mais estragos. Aqui é preciso distinguir duas ordens distintas. Temos a ordem jurídica, que em tese lida com fatos objetivos, e exige que a culpa de suspeitos seja demonstrada para que eles sofram condenação. É um processo trabalhoso e relativamente lento. Por ora, nem o próprio Vorcaro pode ser ainda considerado culpado.

Temos também a ordem política, que vive de aparências, e nas quais os juízos são instantâneos. Nela, ao menos dois ministros do STF já foram tragados pelo caso Master, causando enorme prejuízo reputacional à corte.

O celular de Vorcaro dirá se alguma das já irrevogáveis condenações políticas se tornará também ação penal. O escândalo do Master é tão ecumênico e envolve tanta gente poderosa que favorece um acordão. Mas nem sempre as operações-abafa saem como o planejado.

Bruno Gualano Polilaminina: entre a esperança e o déjà vu, FSP

 O caro leitor há de se lembrar da fosfoetanolamina. A famigerada "pílula do câncer" foi gestada por Gilberto Chierice, docente da USP –o que também a fez, por metonímia, a "pílula da USP". Catapultado por resultados preliminares em células e animais, o composto passou a ser distribuído pelo professor a pacientes oncológicos, como se a travessia do laboratório ao leito dispensasse o incômodo da evidência clínica.

A crença de desesperançados suplantou a frigidez dos dados, e a substância –sem o aval da Anvisa– ganhou ares de redenção nacional. Em 2016, sob aplauso popular, o Congresso aprovou lei autorizando seu uso; pouco depois, o STF a declarou inconstitucional, lembrando que comoção não é critério regulatório. Para contornar a interdição do remédio, surgiram os suplementos, declarados igualmente irregulares. O constrangimento extrapolou fronteiras: editoriais da Nature e da Science trataram o episódio como exemplo eloquente do que acontece quando o método científico se deixa tragar pelo populismo.

Mão com luva segura saco plástico transparente contendo dois frascos pequenos rotulados como vacina Lambrina e diluente Lambrina.
Detalhe do medicamento polilaminina (soma da reação da laminina + agente) no laboratório de Purificação e Caracterização de Proteina da Cristália, que se prepara para produzir em larga escala - Eduardo Knapp - 7.nov.25/Folhapress

A sensação de déjà vu com a polilaminina é inevitável. "Quando (a medula) sofre uma lesão, os estímulos não conseguem mais passar. Até pouco tempo, não havia esperança de ‘reconectar esses trilhos’. Hoje, ela existe e tem nome: polilaminina." Assim o Fantástico anunciou ao grande público o novo medicamento tido como capaz de curar paraplegia e tetraplegia. O composto vem sendo estudado há 25 anos pela bióloga Tatiana Coelho Sampaio e sua equipe, da UFRJ. No estudo mais recente, com seis cães, a droga mostrou-se segura; o desenho, porém, não incluía grupo controle para avaliar eficácia.

O único ensaio clínico divulgado até o momento, ainda sem revisão por pares, também é do laboratório de Tatiana. O estudo apresenta limitações importantes: baixo número de participantes, ausência de grupo controle e respostas clínicas heterogêneas (três pacientes faleceram ao longo do seguimento, sem que se tenha estabelecido nexo causal com a intervenção). Para um estudo preliminar e exploratório, são fragilidades até esperadas. O problema surge quando conclusões fortes passam a ser extraídas de achados frágeis.

David Hume, no longínquo século 18, já advertia que o sábio ajusta o grau de sua crença à força das evidências. Diante do que acredita ser uma droga revolucionária, Tatiana afirma que "não tem mais o direito de ser conservadora". Mas é justamente isso o que dela se espera neste momento. Conservar o rito científico é zelar pela confiança social na ciência. Cumpre ao cientista manter uma relação ascética com sua hipótese –seduzido por ela, pode cair na tentação de trair o fato.

polilaminina segue em avaliação em ensaio clínico de fase 1, etapa em que a segurança é examinada de modo preliminar, em poucos participantes. A população –sobretudo quem convive com lesão medular– merece saber que a probabilidade histórica de uma droga fracassar nessa fase de testagem ou nas subsequentes (onde, aliás, jaz a "pílula do câncer") e jamais chegar ao mercado pode alcançar 94%. Não se trata de torcida nem pessimismo, mas de estatística.

Se a saga terminar em desfecho positivo, Tatiana e equipe gozarão de merecida notoriedade internacional, para o orgulho de todos nós. Entretanto, seria cruel subordinar o reconhecimento da cientista a um resultado que já não lhe cabe, mas ao veredito da natureza. Uma trajetória de duas décadas e meia dedicada a investigar uma molécula com potencial de devolver movimentos a quem os perdeu tragicamente –com todas as agruras de ser uma cientista no Brasil– deveria bastar para que a sociedade lhe rendesse reverência. Só o atropelo da ciência poderia subtrair-lhe o mérito.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Energia é principal gargalo para avanço de data centers, diz Ascenty, FSP

 

São Paulo

A Ascenty, empresa brasileira especializada na construção de data centers, vê a possível aprovação do Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center) com otimismo, mas há preocupações.

O CRO (Chief Revenue Officer) da companhia, Marcos Siqueira, espera receber grandes contratos para a montagem de data centers no país ainda no primeiro trimestre deste ano.

Homem calvo veste terno azul e camisa clara, está de braços cruzados e sorri em escritório moderno com iluminação artificial e plantas ao fundo.
Marcos Siqueira, CRO da Ascenty - Divulgação Ascenty

No entanto, a conectividade com a rede de energia elétrica pode ser um problema para o avanço desse tipo de estrutura no país. "A linha de distribuição [de eletricidade] é o grande gargalo hoje. A gente gera mais energia do que consome, mas não distribui", afirma Siqueira.

Na madrugada de quarta-feira (25), a Câmara dos Deputados aprovou o Redata, programa de incentivo fiscal para empresas que investirem na instalação de data centers no Brasil. Companhias de tecnologia —em destaque, as big techs— terão isenções e descontos na compra dos equipamentos necessários para a montagem das estruturas de armazenamento de dados.

O texto ainda precisa passar pela aprovação do Senado.

Nos data centers, são alojadas máquinas responsáveis por processar dados de serviços como nuvem e, mais recentemente, servidores de IA (inteligência artificial). Os do primeiro tipo já existem no Brasil, mas a expectativa de empresas como a Ascenty é atender cada vez mais empresas que desejam construir o segundo.

Centrais de dados de IA são maiores, exigem tecnologia de ponta e gastam muita energia. O Brasil se tornou candidato a "hotspot" de estruturas do tipo devido à disponibilidade de energia de fontes renováveis, de espaço e de mão de obra.

Mesmo com energia disponível, ela nem sempre chega aos locais de instalação. Empresas que constroem data centers precisam solicitar conexões de alta potência às distribuidoras. A fila de espera é extensa, sobretudo no Sudeste.

Segundo Siqueira, a Ascenty se adiantou e já tem espaços em São Paulo onde há conexão com a rede elétrica. Para a construção de novos espaços, no entanto, o gargalo volta a atrapalhar.

A aprovação do Redata pode acelerar a inserção do Brasil no mapa das centrais de dados de IA, na visão do executivo. O cliente que estava em dúvida sobre criar um data center aqui, pode ver o benefício tributário e tomar a decisão de construir no Brasil. Aquele que já tinha decidido construir aqui, pode dar tração ao projeto, segundo ele.

O sucesso da empreitada depende da capacidade das empresas nacionais e do governo em atrair as big techs e outras companhias internacionais para atuar aqui. Isso porque, do ponto de vista de patamar de investimento, não temos nenhuma empresa brasileira tão grande quanto elas —Siqueira avalia que o mercado nacional ainda não tem capacidade para uma injeção de capital de proporções semelhantes.

Prédio industrial branco extenso em área verde com colinas ao fundo sob céu parcialmente nublado. Estrada asfaltada curva em primeiro plano.
Data center da Ascenty em Vinhedo, interior de São Paulo - Divulgação Ascenty

Engatinhando

A Microsoft anunciou em 11 de fevereiro a inauguração de dois data centers de IA e nuvem no Brasil, ambos no estado de São Paulo. A empresa não revelou as cidades ou localizações dos espaços por motivos de segurança, segundo a companhia.

Em 2024, a empresa prometeu o investimento de R$ 14,7 bilhões na expansão da infraestrutura no Brasil. Ela também espera treinar 5 milhões de brasileiros em IA até 2027.