terça-feira, 14 de julho de 2026

A Argentina desta Copa é um espetáculo que desafia nossa compreensão, João Pereira Coutinho -FSP

 É das coisas mais divertidas desta Copa: o ódio que a Argentina desperta na plateia. Não falo apenas dos brasileiros. Falo do mundo ao redor, que olha para as vitórias sofridas da seleção como uma provocação maldosa —ou, pior, uma fraude completa.

A Argentina na semifinal é uma injustiça clamorosa. Se avançar para o jogo derradeiro, é uma injustiça cósmica. Se for campeã novamente, Deus não existe e a raça humana deve ser extinta.

Um amigo —brasileiro, claro— vai mais longe: a Argentina não merece nenhuma de suas Copas. Em 1978, em plena ditadura, o troféu teria sido comprado pela junta militar, que corrompeu o Peru para perder de goleada, e o árbitro da final contra a Holanda.

Camisa 10 da seleção argentina de costas, prestes a cobrar um pênalti.
Ilustração de Angelo Abu para coluna de João Pereira Coutinho de 14 de julho de 2026 - Angelo Abu/Folhapress

Em 1986, a "mão de Deus" é uma das páginas mais vergonhosas da história das Copas —falo do gol que Maradona marcou com a mão. Como respeitar uma campeã que elimina a Inglaterra nas quartas de final com um roubo tão descarado?

E 2022, no Qatar, foi a prova definitiva de que a Fifa e os árbitros salvaram a seleção, sobretudo depois da derrota chocante da estreia para a Arábia Saudita. Tudo é negócio sujo.

Não me meto nessas guerrilhas entre "hermanos". Sobre 1978, nada tenho a dizer: Little Couto, então com dois anos, ainda não acompanhava futebol.

Conheço apenas as suspeitas: a visita que o general Videla e Henry Kissinger fizeram ao vestiário do Peru para desejar "boa sorte" antes da goleada que os peruanos sofreram —ou concederam.

E conheço as alegações de que o Peru, depois da derrota conveniente, recebeu 35 mil toneladas de grãos argentinos e os US$ 50 milhões que tinha retidos no Banco Central da Argentina.

O problema é que os historiadores das Copas pintam outro quadro: Jonathan Wilson, no recente "The Power and the Glory", não economiza elogios à Argentina de Kempes e companhia —tanto no jogo contra o Peru quanto na final contra a Holanda.

Para Wilson, foi a primeira vez que a Argentina abandonou o "antifutebol" da destruição e da brutalidade para abraçar a inteligência tática, técnica e estética de César Menotti.

Sobre 1986, a primeira Copa de que tenho memórias nítidas, é importante recordar que a "mão de Deus" foi seguida, no mesmo confronto, por uma jogada em que Maradona driblou metade da seleção inglesa, incluindo o goleiro, para fazer o dois a zero.

Além disso, contrariando a ortodoxia oficial, sou visceralmente contra o VAR. Futebol é como a vida: questão de sorte, astúcia e milagre. Foi Nelson Rodrigues quem me ensinou a desprezar os "idiotas da objetividade".

Isso não significa que o mérito seja irrelevante. Claro que é relevante —e só diminui o mérito da Argentina de 2022 quem não assistiu à final contra a França. Eu assisti, no mais improvável dos lugares: perto do Círculo Polar Ártico. Fazia 20 graus negativos lá fora, mas eu suava como se estivesse nos trópicos.

A grande verdade é que o ódio à seleção tem raízes mais profundas: nosso desejo por narrativas simples. A Copa de 2026 não foge à regra. Se a Argentina tivesse sido eliminada cedo, o arco narrativo se fecharia com a decadência da campeã. Se, ao contrário, a seleção fosse como a França de hoje —um rolo compressor imparável—, o arco também se fecharia: seria a campeã demonstrando sua superioridade.

A mente humana aceita a queda redentora ou a antecipação clara da vitória. Não aceita a ambiguidade e a tortura.

A Argentina desta Copa é uma história de ambiguidade e tortura. Ou de morte e ressurreição permanentes, para usarmos uma linguagem teológica. É um espetáculo de masoquismo —ou de sadomasoquismo, melhor dizendo— que arrebenta nossa pobre capacidade de compreensão.

Queremos previsibilidade. A Argentina nos oferece caos, colapso, gênio e vitórias arrancadas no sofrimento.

O escritor Nick Hornby, em momento inspirado, definiu o futebol como "pain as entertainment", a dor como entretenimento. A Argentina é esse entretenimento levado ao extremo. Talvez não seja por acaso que Buenos Aires tenha fama de ter uma das maiores concentrações de psicanalistas por habitante do mundo. Aquele povo precisa.

Feitas as contas, o que desejo eu para a semifinal contra a Inglaterra? Não renego meu lado anglófilo. Sessenta anos depois, seria bonito ver o troféu voltar para casa. Mas não tenho apenas um lado anglófilo. O gosto pela ópera e pela tragédia me faz simpatizar com a seleção mais lírica e trágica desta Copa.

O melhor mesmo é desligar o celular durante a partida. Meu amigo brasileiro encontrará um muro de silêncio onde poderá derramar suas alegrias ou mágoas.

A prudência dos investimentos em resiliência - Joisa Dutra- FSP

 Na última semana, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) publicou dois documentos sobre temas aparentemente distintos: um parecer no qual sustenta a continuidade do processo de caducidade da Enel São Paulo e a Análise de Impacto Regulatório (AIR) sobre o enterramento de redes. O primeiro olha para o passado, avaliando se a concessionária cumpriu suas obrigações diante de eventos extremos. O segundo olha para o futuro, discutindo como orientar investimentos capazes de reduzir esses riscos.

Embora tratem de questões diferentes, ambos revelam o mesmo desafio regulatório: como avaliar a prudência dos investimentos em resiliência de um sistema elétrico cada vez mais exposto às mudanças climáticas? E em uma sociedade que cada vez tolera menos as consequências dessas interrupções.

Técnico com equipamento de proteção individual, incluindo capacete e máscara, opera em altura para ajustar componente da rede elétrica aérea. Estrutura de madeira e transformador são visíveis contra céu azul.
Carro da Enel religando energia em prédio na Mooca, zona leste de São Paulo, após seis dias sem luz - Danilo Verpa - 15.dez.25/Folhapress

A AIR parte de um diagnóstico importante. As interrupções não se distribuem de forma homogênea pelo país e os eventos extremos recentes, especialmente no Rio Grande do Sul, reforçam a necessidade de incorporar o risco climático ao planejamento das redes. Mas o custo das redes subterrâneas pode chegar a dez vezes o das redes convencionais. A conversão integral exigiria investimentos da ordem de trilhões de reais. Mesmo elevar a participação das redes subterrâneas para apenas 10% demandaria recursos centenas de vezes superiores aos investimentos realizados pelas distribuidoras em 2024.

Ainda que considere apenas os investimentos do setor elétrico, o documento reconhece que essa não é uma decisão exclusiva. Enterrar redes exige coordenação com outras concessionárias de infraestrutura e, sobretudo, com os municípios, responsáveis pelo ordenamento urbano. A experiência internacional aponta na mesma direção.

Estudos conduzidos pelo Departamento de Serviços Públicos do Estado de Nova York mostram que o enterramento reduz vulnerabilidades, mas dificilmente se justifica para toda a área de concessão. A própria Aneel chega à mesma conclusão: o enterramento não deve ser obrigatório nem descartado. É uma alternativa eficiente apenas quando seus benefícios superam seus custos. E depende de mecanismos adequados para financiá-lo, que, na avaliação da agência, já existem.

Ao rejeitar soluções simplistas, a AIR reafirma um princípio importante da boa regulação: não cabe ao regulador escolher tecnologias. Mas, ao concluir que o arcabouço regulatório atual já oferece instrumentos suficientes, deixa em aberto como reconhecer investimentos prudentes em resiliência diante de riscos climáticos crescentes.

Em regulação, investimentos não são remunerados porque são caros, modernos ou politicamente desejáveis. São remunerados quando são considerados prudentes. Prudência regulatória nunca foi um conceito estático. Ela evolui à medida que evoluem os riscos que a infraestrutura precisa enfrentar.

Durante décadas, prudência significou construir a rede de menor custo capaz de atender aos padrões de qualidade estabelecidos pelo regulador. As mudanças climáticas, porém, alteram essa equação. A prudência deixa de ser apenas uma avaliação do custo do investimento e passa a incorporar também o custo esperado de não investir: interrupções mais frequentes, perdas econômicas e menor capacidade de resposta diante de eventos extremos.

A mudança é mais profunda do que parece. Ela desloca o foco da regulação da escolha entre tecnologias para a avaliação dos resultados que cada investimento entrega em termos de redução de riscos e aumento da resiliência.

A verdadeira pergunta regulatória passa, então, a ser outra: este investimento aumenta, de forma mensurável, a resiliência do sistema elétrico? Responder a essa pergunta exige critérios capazes de avaliar investimentos em adaptação sob uma perspectiva dinâmica, incorporando riscos que continuarão a evoluir ao longo das próximas décadas.

O desafio da próxima década não será decidir onde enterrar cabos. Será enfrentar a lacuna que a AIR deixa: estabelecer critérios objetivos para reconhecer quais investimentos efetivamente tornam o sistema elétrico mais resiliente. Em outras palavras, será redefinir a prudência regulatória para uma era de riscos climáticos.