sábado, 26 de setembro de 2026

Executivos de bets vão da perplexidade à revolta após MP que as coloca na ilegalidade,FSP

 Felipe Mendes

São Paulo

Embora a notícia já fosse esperada, o humor de executivos de bets e especialistas do setor variou entre a indignação e a desolação após medida provisória assinada nesta sexta-feira (25) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) colocá-los na ilegalidade. A argumentação é a de que o governo vendeu, nos últimos dois anos, 85 outorgas, válidas por cinco anos, para exploração de apostas. Cada uma custou R$ 30 milhões.

A perplexidade é porque "tudo acabou em uma canetada", como definiu um executivo. Eles lembram que a proibição não acaba com a demanda por apostas, apenas vai deslocar os recursos para plataformas sem fiscalização em paraísos fiscais.

Ex-presidente da República sentado à mesa com olhos fechados e mãos unidas em gesto de concentração. À sua frente, placa com a inscrição "Presidente da República", microfone e copo de água. Fundo azul e verde desfocado.
Lula durante anúncio, em São Paulo, de medidas para a economia popular, entre elas, a proibição das bets - Bruno Santos-25.set.26/Folhapress

"É inacreditável o que está acontecendo. As empresas [do segmento] são sérias. Eu estou sinceramente muito triste", disse Fellipe Fraga, diretor de Negócios e Relações Institucionais na Stellar Gaming. Ele afirma que a decisão de proibir bets irá gerar "milhares de desempregados diretos e indiretos" e "empurrar os clientes para o mercado ilegal".

A Stellar Gaming é dona das marcas EstrelaBet e Vupi. A empresa emprega cerca de 200 funcionários no país.

A MP assinada por Lula proíbe o funcionamento das bets em todo o país, com efeito imediato e prazo de 120 dias para votação no Congresso Nacional. A proibição alcança apostas esportivas e cassinos online, incluindo jogos como o Tigrinho, e prevê ainda projeto de lei com penas para quem explorar, operar ou divulgar apostas.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a medida provisória impede novos aportes nas plataformas, mantendo os sites acessíveis apenas para retirada de valores já depositados.

"Foi o Brasil que escolheu regular o mercado de apostas. Desde então, empresas investiram no país, pagaram outorgas, contrataram profissionais, estruturaram operações de compliance e passaram a atuar sob fiscalização do Estado. Esse processo criou um ambiente de maior controle e proteção para o apostador", disse Ivan Dutra, CEO da LBBR, grupo que opera marcas Luck.bet, 1PRA1 e Start Bet.

Dados do Comsefaz (Comitê Nacional de Secretários de Fazenda), divulgados em agosto, mostram que os brasileiros movimentaram cerca de R$ 350 bilhões em transações Pix para casas de apostas em 18 meses. As perdas foram de R$ 62,5 bilhões, representadas pela diferença entre o dinheiro destinado às plataformas e o que retornou em forma de prêmios.

"Qualquer medida que imponha restrições ao mercado regulado deveria ser precedida de estudo de impacto econômico e jurídico que dimensione, de forma transparente, as indenizações e os ressarcimentos eventualmente devidos aos agentes que já realizaram investimentos e pagaram milhões de reais em outorgas para operar regularmente no país. Se o Estado restringe ou inviabiliza, de forma superveniente, uma atividade para a qual concedeu autorização mediante o pagamento de outorga, não pode ignorar as consequências patrimoniais dessa decisão", observa Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias) e sócio do Betlaw.

O governo apresenta o endividamento das famílias como motivação central da medida. Levantamento da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) aponta que apostas tiraram R$ 143,8 bilhões do comércio nos últimos dois anos. Em março, 80,4% das famílias estavam endividadas, recorde da série da CNC, e o Banco Central registrou endividamento de 49,9%, também recorde.

Lula já sinalizava a intenção de proibir a atividade. Em ato realizado em Guarulhos, no último dia 18, ele havia dito que a atividade "é uma doença" e que acabaria com as casas de apostas.

"O setor tem contribuído para a geração de empregos, arrecadação tributária, investimentos em tecnologia e desenvolvimento de parcerias comerciais em diferentes áreas da economia. O debate público deve estar concentrado em como tornar a regulamentação cada vez mais eficiente, e não em substituir um mercado regulado por um cenário que favoreça a clandestinidade", completa João Vitor Villas Boas, diretor executivo das marcas SorteNaBet e Betou.

A medida foi assinada a nove dias do primeiro turno das eleições. Flávio Bolsonaro (PL) atacou a decisão provisória, lembrando que foi o próprio Lula quem regulamentou as bets.

"O setor esportivo tem registrado um impacto financeiro positivo com o avanço do mercado de apostas. Historicamente, o patrocínio esportivo dependia de incentivos governamentais ou de empresas com menor sinergia mercadológica, cenário que posteriormente deu lugar à entrada de bancos e fintechs. As plataformas de apostas operam em engajamento direto com o ecossistema dos jogos, o que justifica o aporte de investimentos substancialmente maiores no próprio segmento que gera seu público-consumidor", diz Ricardo Magri, especialista em desenvolvimento de negócios iGaming e diretor executivo da EBAC (Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo).


Seduzido e abandonado- Ruy Castro _FSP

 Daniel Vorcaro está arrependido do bem que praticou a tantos figurões em quem confiou. Vê agora que era um bando de ingratos. Ninguém quer saber mais dele. Há os que dizem tê-lo conhecido só de passagem, embora o chamassem de "irmão", ou que aceitaram seu dinheiro para ser gentis, sem saber que a grana era pública, suja e ilegal. Eu, se fosse Vorcaro, faria um caderninho com o nome de todos que beneficiou e, ao sair da cadeia, cobraria cada centavo dos zilhões que lhes repassou. À guisa de aide-mémoire, aqui vão alguns.

Alexandre de Moraes: Vorcaro destinou R$ 131 milhões ao escritório de advocacia da mulher do ministro, cedeu jatinhos ao casal e, agora, só tem de Moraes o silêncio. Nem uma cartinha, nem um bilhetinho, nem um alô pelo STF. Kassio Nunes Marques: mimoseado por Vorcaro com camarotes na Sapucaí, ingressos para a Fórmula 1, descontos no Fasano e, veja só, uma mesada de R$ 500 mil para seu filho Kevin, caçula de uma "Turma do KN" empenhada em destravar R$ 8,5 bilhões em precatórios do seu interesse. Bem-sucedida, a operação renderia R$ 427 milhões à dita turma.

Paulo Gonet: o procurador-geral da República parece ter saído baratinho a Vorcaro: algumas rodadas do uísque Macallan e de charutos Cohiba Behike num lounge em Londres. Mesmo assim, o PGR classificou o encontro entre eles como "breve e banal". Como "breve e banal"? Significa que Gonet tem acesso diário a uísques de 25 anos e aos charutos mais caros do mundo?

Flávio Bolsonaro: ao ser questionado pela repórter sobre ter negócios com Vorcaro, B. Jr. deu um riso nervoso e respondeu: "De onde você tirou isso?". Horas depois, vazou o áudio em que ele implora pelo resto do dinheiro que Vorcaro lhe prometera. Como B. Jr. nunca explica nada, não se sabe se a doação ficou nos R$ 61 milhões que Vorcaro mandou ou se chegou aos R$ 134 milhões combinados. E, agora, pipocaram os voos de B. Jr. no mesmo jato em que viajou Moraes, idem, negados.

O pobre Daniel também poderia render um filme: "Seduzido e Abandonado".

Justiça homologa acordo de R$ 40 milhões e encerra disputa sobre expansão da Riviera de São Lourenço, FSP

São Paulo

A Justiça Federal homologou um acordo que encerra uma ação sobre a expansão da Riviera de São Lourenço, em Bertioga, no litoral de São Paulo. Após dez anos de disputa judicial, as empresas responsáveis pelo empreendimento assumiram compromissos avaliados pelo MPF (Ministério Público Federal) em R$ 40 milhões.

O acordo prevê a compra e a doação de uma área de restinga ao estado, serviços técnicos relacionados ao Canal de Bertioga e a construção de um prédio para a Capitania dos Portos. Homologada em 21 de setembro, a decisão encerra o processo, mas não indica que essas obrigações já tenham sido cumpridas.

A ação foi proposta pelo MPF em 2016 e tratava de intervenções nos módulos um e nove da Riviera e na área planejada para uma marina. O órgão questionou a retirada de vegetação de restinga, obras em APPs (áreas de preservação permanente) e possíveis impactos sobre terrenos da União.

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Imagem de drone da Riviera de São Lourenço, em Bertioga, no local de expansão de um empreendimento imobiliário da Sobloco Construtora, que levou à supressão de vegetação na área - Bruno Santos/Folhapress

Parte da disputa envolvia acordos firmados anteriormente na Justiça estadual. O MPF afirmou que eles não poderiam resolver questões relativas a bens da União sem a participação de órgãos federais. As empresas contestaram as alegações, defenderam a validade das autorizações concedidas ao empreendimento e afirmaram ter cumprido medidas de compensação ambiental.

Uma liminar concedida no início da ação paralisou as obras de expansão, mas a medida foi revogada pelo TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região), o que permitiu a retomada das intervenções enquanto a Justiça ainda examinava os pedidos do MPF.

Em abril de 2021, o tribunal confirmou a revogação da liminar que impedia o desmate nos módulos 1 e 9. As obras começaram em agosto e, quando a Folha esteve no local, no mês seguinte, a vegetação já havia sido retirada.

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A reportagem mostrou a reação de moradores à expansão e registrou a posição da Sobloco Construtora, que afirmou ter autorização da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) e ter adotado medidas de compensação ambiental. A ação do MPF continuou em tramitação.

A primeira sentença sobre o mérito saiu em outubro de 2024. A juíza federal Veridiana Gracia Campos acolheu parte dos pedidos do MPF e determinou que os réus não executassem nem autorizassem novas intervenções nos dois módulos e na área projetada para a marina "até a regularização do projeto junto aos órgãos federais".

A Justiça também considerou ineficazes perante a União, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e o MPF as decisões e os acordos anteriores da Justiça estadual dos quais esses órgãos não haviam participado. A sentença delimitou seus efeitos às áreas de expansão discutidas na ação federal.

Ao fundamentar a decisão, a magistrada afirmou que o projeto envolvia bens da União e que a atuação da Capitania dos Portos não substituía a da SPU (Secretaria do Patrimônio da União), responsável pela gestão desses terrenos. Caberia aos órgãos competentes examinar a regularização do empreendimento na esfera administrativa.

A sentença de 2024 foi objeto de recursos. Durante o prazo recursal, as partes iniciaram negociações na CCAF (Câmara de Mediação e de Conciliação da Administração Pública Federal), vinculada à AGU (Advocacia-Geral da União). O processo ficou suspenso enquanto buscavam um acordo.

As empresas Sobloco Construtora, Praias Paulistas e Companhia Fazenda Acaraú apresentaram o termo de conciliação à Justiça no dia 15 deste mês. Governo de SP, Prefeitura de Bertioga, União, Cetesb e MPF manifestaram concordância com a homologação, segundo a sentença.

Pelo acordo, as empresas deverão comprar e doar ao estado uma área de 48,1 hectares na Praia de Guaratuba, vizinha ao Parque Estadual Restinga de Bertioga. O terreno deverá ser incorporado à unidade de conservação.

O compromisso prevê ainda serviços de diagnóstico territorial e cadastro fundiário relacionados ao Canal de Bertioga, sob supervisão da SPU, além da construção de um prédio administrativo para a Capitania dos Portos e de um ponto de apoio naval nas instalações da futura marina.

Ao analisar o termo, a juíza federal Juliana Blanco Wojtowicz afirmou que o acordo reúne "obrigações específicas, medidas de compensação ambiental e patrimonial" e mecanismos para acompanhar seu cumprimento. Para a magistrada, "a autocomposição revela-se adequada à tutela dos interesses discutidos".

A homologação do acordo não autoriza, por si só, a construção da marina. O MPF afirma que a implantação continua condicionada ao cumprimento das exigências e à obtenção das autorizações dos órgãos competentes.

Os R$ 40 milhões são uma estimativa divulgada pelo MPF. O órgão avalia em R$ 26 milhões a área a ser doada, em R$ 8 milhões os serviços no canal e em R$ 6 milhões a construção do prédio da Capitania. Segundo a Procuradoria, as despesas serão custeadas pelas empresas, sem uso de recursos públicos. A sentença que homologou o acordo não discrimina esses valores.

Na sentença de 21 de setembro, Wojtowicz também elogiou a negociação. Afirmou que, "a despeito das dificuldades enfrentadas", as partes conseguiram conciliar seus interesses e chegar a uma solução para a disputa. A magistrada homologou o termo com seus anexos e extinguiu a ação com resolução do mérito.

A juíza determinou que o acordo seja "integralmente cumprido pelas partes e entidades signatárias". As obrigações podem ser cobradas judicialmente, e as partes deverão informar quando todas as medidas tiverem sido executadas para permitir o arquivamento definitivo do processo.