Ernesto Rodrigues
[RESUMO] A imprensa brasileira, defende o autor, se compara a um par de faróis, às vezes desregulado e geralmente iluminando mais à direita, mas conduzido pela sociedade, com as suas instituições e estruturas de poder. Atribuir à mídia o tsunami de extrema direita nas eleições de 2026 é um fato alternativo que impede que a esquerda promova uma autocrítica nas semanas até o segundo turno.
Bastaram algumas horas depois da totalização dos votos do primeiro turno da eleição presidencial para que uma espécie de síndrome de Kellyanne Conway começasse a aparecer em algumas páginas da banda esquerda da internet.
Lá, colegas jornalistas recorreram, nas suas explicações para a derrota de Lula (PT), a uma variante brasileira do inesquecível conceito de fato alternativo: aquele absurdo empregado em janeiro de 2017 por Conway, a conselheira-sênior de Donald Trump que usou a expressão para justificar uma afirmação factualmente mentirosa de que a posse do chefe recém-eleito tinha reunido "o maior público já visto em uma cerimônia de posse presidencial" nos Estados Unidos.
O fato alternativo que se insinua no caso brasileiro é a responsabilização da imprensa pelo avanço amplo, geral e irrestrito da extrema direita revelado pelas urnas. Será?
Como ficam o ministro Flávio Dino e os seus casuísmos colhidos aqui e ali na selva de chicanas jurisprudentes do STF? O seu colega Cristiano Zanin, com o seu voto tão discreto quanto eloquente? O decano Gilmar Mendes, misto de imperador longevo sem voto dos destinos da nação e empresário de reuniões lobísticas?
E o terrivelmente evangélico André Mendonça, com aquele jeitinho inofensivo de pastor, jogando o inatingível Alexandre de Moraes e o contrato de cerca de R$ 130 milhões do escritório da patroa com Daniel Vorcaro no colo do presidente Lula e na boca do povo e da urna?
A imprensa? Que responsabilidade ela teve na opção preferencial da campanha petista pelo salto alto marqueteiro de acreditar que Flávio Bolsonaro (PL) era o melhor adversário a ser enfrentado, pela crença de que os eleitores, como se estivessem todos, aos milhões, assistindo ao Estúdio i na GloboNews, não teriam dificuldade de fazer justiça ao "legado histórico de Lula" e aos bons números —números, não sentimentos— da economia e que, além de outros motivos, não seria necessário que Lula arregaçasse as mangas e partisse desde o início do ano para dentro de Flávio para dissecar, um a um, cirúrgico, na rua, na chuva e nos debates, incluindo o da Globo, o desastroso governo do pai —do retorno do Brasil ao mapa da fome à gestão criminosa da pandemia— e o passado miliciano, corrupto e medíocre do tal "Bolsonaro que tomou vacina"?
Que culpa tem a imprensa no resultado eleitoral se Lula, embalado, protegido e também controlado por Janja, para contido desespero de não poucos petistas palacianos —estes vigiados de perto por feministas companheiras—, se esqueceu das lições que colecionou ao longo da sua carreira e, ao buscar a reeleição em um país que ele já sabia estar passionalmente dividido, deixou que a névoa da vaidade e a subestimação do peso dos 80 anos embaçassem o seu tirocínio político e o levassem a ignorar a própria fadiga de material, lançando-se em uma candidatura que agora ameaça manchar a sua biografia espetacular com uma derrota humilhante e um outro tipo de legado: um partido sem rumo e velho como ele e cujo líder e herdeiro potencial, Fernando Haddad, se imolou mais uma vez, não para lançar as bases de um novo petismo, mas para salvar o presidente do naufrágio nas urnas de São Paulo. Onde entra a imprensa nessa conta?
Qual, enfim, tem sido o tamanho da responsabilidade da imprensa, se pensarmos no comportamento de uma elite empresarial cuja frouxidão democrática e civilizatória demonstrada até agora foi exposta com nome, sobrenome e CNPJ em um artigo histórico de João Moreira Salles —no caso, uma fonte e testemunha tão precisa quanto insuspeita da revista piauí?
E o que dizer do impacto, mais uma vez, no eleitorado brasileiro, do tsunami de extrema direita que há anos vem varrendo o mundo, à medida que a classe trabalhadora —lembram desse termo?—, ao ser obrigada a pagar a conta amarga da globalização e do liberalismo, se entrega à chamada utopia regressiva e embarca no que um colega, o jornalista Sérgio Martins, chamou de aposta ideológica no individualismo e na desagregação do laço social?
Não estou em outro planeta. É claro que a imprensa sempre teve um papel importante na política brasileira. Tanto pelo silêncio da subserviência, imposta ou oferecida, que ajudou a sustentar a ditadura de 1964 quanto pela cobertura das Diretas Já, ainda que a adesão crescente, incluindo a da Globo, do meio para o fim do movimento, não tenha sido suficiente —a gente tende a esquecer— para a aprovação da emenda Dante de Oliveira.
O que defendo é que o protagonismo da imprensa, aqui ou em qualquer outra democracia, sempre foi e será secundário, coadjuvante, complementar e, no máximo, paralelo, como vetor incontornável, sim, mas não tão decisivo na chamada correlação de forças —lembram desse termo?— vigente no país, em cada momento histórico.
Muito mais importante e precedente é o papel da sociedade e o estado de saúde das suas instituições. Ou alguém acredita que Carl Bernstein e Bob Woodward, heróis mundiais do jornalismo que "derrubaram" o presidente Richard Nixon em 1974 a partir de uma reportagem do Washington Post sobre a invasão de uma sala no edifício Watergate, conseguiriam proeza semelhante na Rússia, trabalhando em um jornal de Moscou da era Vladimir Putin?
No caso do Brasil das últimas décadas, é inegável que houve momentos em que o antilulismo das grandes empresas de mídia, evidente nos editoriais e subjacente à dosimetria do noticiário impresso, digital e eletrônico, foi importante, ainda que, na minha opinião, não determinante para resultados históricos como a eleição de Fernando Collor em 1989, o segundo turno imposto a Lula em 2006, o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e a derrota de Fernando Haddad para Jair Bolsonaro em 2018.
Mas houve também momentos em que essa mesma mídia, usando a carga máxima da sua estrutura jornalística —incluindo, no caso da Globo, a desfiguração de tempo e conteúdo do Jornal Nacional para criminalizar os governos petistas na época do Mensalão e da Operação Lava Jato—, não conseguiu evitar a vitória de Lula em 2002, a sua reeleição no segundo turno de 2006, a eleição de Dilma em 2010 e a sua recondução em 2014.
Vem agora o primeiro turno de 2026 e, mais uma vez, com o ressurgimento de fatos alternativos, é mais fácil e simples culpar a imprensa em vez de aproveitar as próximas semanas não para buscar os suspeitos de sempre, mas para fazer uma radical autocrítica dos erros cometidos pela campanha de Lula no primeiro turno.
Além disso, reconhecer que, em um contexto social e tecnológico agora muito maior, a chave do tesouro de uma eleição, no Brasil e no resto do mundo, em vez de ser a famosa advertência "É a economia, estúpido!", cunhada por James Carville, estrategista-chefe da campanha presidencial de Bill Clinton em 1992, talvez seja: "São as redes sociais, idiotas!". Com ou sem a vírgula.
A imprensa brasileira, não nos iludamos, é muito mais um par de faróis às vezes desregulados, geralmente iluminando mais à direita, em uma estrada perigosa cheia de curvas, buracos e ciladas no meio de uma floresta em noite de chuva. Quem está no volante, decidindo os caminhos a iluminar e seguir, seja para despencarmos todos em um abismo inesperado mais à frente seja para chegarmos a um bom destino, é a sociedade, com as suas instituições e estruturas de poder.
Achar que a imprensa é um farol a guiar a sociedade em noites de mar revolto é bonito, mas também irreal. Ela é, quase sempre, mera mensageira da caminhada para a história e pouco ou nada pode fazer para realizar sonhos ou evitar pesadelos. Não cria nem impede golpes ou revoluções, mas conta, mal ou bem, como eles acontecem e, quando muito, às vezes, precipita o seu início ou o seu fim.





