Estou fazendo 64 anos e, para lidar com o absoluto pasmo desse evento banal, penso: é uma idade que não tem nada de mais. Ou não teria, se não fosse o Paul McCartney. Pode não parecer, mas faz diferença.
Começa que 64 não é uma data redonda, como 60, nem de redondez quebrada ao meio, como 65: fica numa posição menor, indecisa. O que pode ter de especial?
À primeira vista, nada. O cidadão, tendo feito 63, e antes disso 60 —o tempo, ele voa—, está farto de saber que não é jovem mais. Que, tecnicamente, até a meia-idade já ficou no passado. E que nunca adiantou alegar que se sente congelado desde sempre numa espécie de 32.
O álbum em que a mais famosa melô do vovô veio ao mundo é o festejado "Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band". Que, para multidões de fãs da época, teria ficado melhor sem ela.
Canção de music hall, melódica e ligeira, com clarinetes no limite da cafonice, é um tipo de artefato pop que Paul sempre cultivou. Num disco de sabor psicodélico destoa um pouco mesmo, embora o ecletismo seja parte da proposta.
Só agora, ao cruzar esse marco irônico de senectude cravado no coração dos anos 60, me ocorre que aquela geração tinha motivos extramusicais para implicar com a faixa.
Em 1967, estufado de juventude, o pessoal queria quebrar tudo em todas as formas de expressão artística e comportamental da Terra. A tirada de Paul era quase um memento mori, um lembrete de finitude: um dia você vai ter 64.
E não deu outra. A garotada que fazia fila na porta da loja para esperar o próximo disco dos Beatles cruzou esse marco –quer dizer, os que tiveram a sorte faltante a John Lennon, assassinado aos 40. O próprio Paul está com... 83! Não há motivo para pânico.
Eu tinha 5 quando "Sgt. Pepper’s" foi lançado. Só vim a saber do fato muitos anos mais tarde –a música que rolava lá em casa era outra.
O autor de "When I’m Sixty Four" não teve netos chamados Vera, Chuck ou Dave. Transpôs seu próprio marco, bem de saúde e cheio de trabalho, em 2006, quando minha filha mais nova é que ia fazer 5.
O tempo, pois é. O truque é manter a calma, ir à academia, não abusar de alimentos gordurosos. Não tenho aqueles medos do Paul, como o de chegar em casa tarde e descobrir que a mulher passou o trinco na porta.
Só o que me assusta é um pesadelo linguístico: ser rebaixado a diminutivo pela brava turma da enfermagem brasileira, viciada em tratar o pessoal de 64 como se tivesse 60 a menos: "Dá o bracinho, fofinho. É só uma picadinha".
Isso não, por favor! O resto, pode mandar vir.