quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A trajetória hedonista e empreendedora de Baby Pignatari - FSP

 Vicente Vilardaga

São Paulo

Durante minha infância ouvia muita gente falar dele com admiração e curiosidade. Na minha cabeça, era uma figura mítica, uma lenda, um playboy por excelência, preocupado em curtir a vida alucinadamente, namorando, bebendo, pilotando seus próprios aviões e participando de corridas de carros. Seu nome aparecia nos jornais e revistas do Brasil e do exterior, como as norte-americanas Life Magazine e Time. Em São Paulo, sua base era a Casa das Tochas, na avenida Morumbi, onde promoveu festas antológicas.

Francisco Matarazzo Pignatari (1916-1977), conhecido como Baby Pignatari, foi um dos personagens mais notáveis da elite brasileira e internacional entre as décadas de 1940 e 1960. Nascido em Nápoles, na Itália, fez tudo o que quis. Com sua vida amorosa, empresarial e social sempre agitada, ganhou fama nos salões frequentados pelos milionários da Europa e dos Estados Unidos e namorou algumas das mais belas mulheres de sua época.

Homem de terno cinza e gravata preta está ao lado de mulher com casaco claro e colar de pérolas. Ambos olham para a direita, em ambiente externo com estrutura metálica visível ao fundo.
O playboy Francisco Matarazzo Pignatari, o Baby Pignatari, ao lado da esposa Ira von Furstenberg - Acervo UH/Folhapress

Sua lista de relacionamentos era extensa. Incluiu Anita Ekberg, Jill St. John, Linda Christian, Dolores del Río, Joanna Moore, Susan Cabot, entre muitas outras atrizes de Hollywood. Seu grande caso, porém, foi com uma princesa, a italiana Ira de Furstenberg, por quem se apaixonou na década de 1960. Ira era relações-públicas do estilista Valentino e herdeira da Fiat. Também era casada e 24 anos mais nova do que Pignatari. Ele praticamente a sequestrou quando ela tinha 20 anos e a trouxe para o Brasil em 1961.

Para abrigar a princesa, com quem se casou, Pignatari decidiu construir uma mansão na antiga Chácara Tangará, na beira do rio Pinheiros, no bairro Panamby. Contratou um projeto do arquiteto Oscar Niemeyer e deixou a responsabilidade pelos jardins para o paisagista Roberto Burle Marx. A obra avançou até 1964, quando terminou o relacionamento. Os jardins foram preservados e transformados décadas mais tarde no parque Burle Marx. Já a casa inacabada foi demolida e no terreno que ela ocupava hoje funciona o hotel cinco estrelas Palácio Tangará, inaugurado em 2017.

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O parque Burle Marx, que engloba um jardim encomendado por Pignatari, está situado no Panamby - Edson Lopes Jr./SECOM

Apesar de seu hedonismo, Pignatari não era um playboy ocioso, que só vivia da herança. Bancava seu estilo extravagante com o dinheiro obtido em projetos empresariais bem-sucedidos. Neto do conde Francesco Matarazzo, começou a trabalhar cedo no negócio do pai, Giulio Pignatari, a Laminação Nacional de Metais. Em 1942, fundou a lucrativa Companhia Brasileira de Cobre no Rio Grande do Sul.

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Era dono também de uma fábrica de pequenos aviões monomotores, os Paulistinhas, cujas vendas foram impulsionadas por uma campanha nacional movida por Assis Chateaubriand para a instalação de aeroclubes em todo o país. Em gratidão, Pignatari presenteou o jornalista com um automóvel Rolls-Royce. O playboy chegou a ter 11 empresas, inclusive de purpurina e botões. Já no final da vida, decidiu explorar uma mina de cobre na Bahia, a Caraíba Metais. Possuía um avião Electra.

Piscina retangular com desenho de borboleta no fundo, cercada por espreguiçadeiras e guarda-sóis fechados. Edifícios brancos de vários andares com varandas e janelas ao redor, árvores e plantas decoram o espaço.
Vista da piscina do luxuoso hotel Palácio Tangará localizado ao lado do parque Burle Marx - Eduardo Knapp/Folhapress

No final da década de 1960 seus negócios começaram a claudicar e ele entregou suas principais empresas para o governo. A Companhia Brasileira de Cobre e a Caraíba Metais serviram para quitação de dívidas contraídas em empréstimos bancários, estimados em torno de US$ 50 milhões. Em 1971, se casou pela quarta vez com Maria Regina Fernandes.

Aquele que fora o "playboy número 1", como o descreveu a revista Life em 1947, e que "gastava dinheiro com a mesma velocidade com que fazia negócios", segundo reportagem da Time de 1950, morreu aos 60 anos, após uma vida intensa, mas com a fortuna dissipada. Sua herança ficou com seu único filho, Giulio, dependente de drogas que foi desinterditado e ganhou um preceptor. A partir daí o que tinha sobrado do dinheiro de Pignatari foi para o ralo.

Moraes pede a Fachin investigação de André Mendonça por abuso de autoridade - FSP

 

Brasília

O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), pediu que o ministro André Mendonça seja investigado por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução do caso Master e INSS (Institutos Nacional do Seguro Social).

A decisão foi tomada no âmbito do inquérito das fake news. Moraes afirma que Mendonça agiu para direcionar as investigações, "com quebra da imparcialidade judicial e favorecimento a determinados grupos políticos".

Dois homens vestidos com trajes pretos formais sentam lado a lado. O homem ao fundo, calvo, segura um papel e olha para frente com expressão séria. O homem à frente está desfocado, olhando para baixo.
Ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes em sessão no STF - Pedro Ladeira - 3.set.26/Folhapress


De acordo com Moraes, o colega conduziu irregularmente tratativas de delações premiadas e direcionou determinados alvos para a investigação "por motivos pessoais e políticos, inclusive com a indicação prévia de medidas cautelares" a serem apresentadas pela PF (Polícia Federal).

Esses alvos seriam o próprio Moraes e o presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP).

A medida é tomada por Moraes dois dias depois de Mendonça retirar o sigilo de um relatório da PF que aponta Moraes como o interlocutor do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master. Na decisão, Mendonça sinalizou que levará ao plenário a possibilidade de investigar o colega.

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Segundo Moraes, há por parte de Mendonça "indícios crescentes de enviesamento da condução da supervisão judicial, manifestados em direcionamento temático de intensidade progressiva quanto a linha investigativa determinada", além de "quebra da cadeia de custódia das provas apreendidas".

Sem saída -Hélio Schwartsman - FSP

 Se um juiz da Suprema Corte dos EUA for flagrado cometendo um crime, ele será julgado na primeira instância. No Brasil, não. Pela regra do foro especial, um ministro do STF só pode ser julgado por seus colegas do Supremo.

O foro especial não é uma jabuticaba brasileira. Metade das nações da OCDE, o clube dos países desenvolvidos, conta com um mecanismo semelhante. O que nos torna um caso único é a escala com que distribuímos a garantia. Enquanto nas nações que contam com algum tipo de desaforamento ele está restrito a um punhado de ocupantes de posições da alta hierarquia, no Brasil ele abarca dezenas de milhares de autoridades e ex-autoridades de todos os níveis. Especificamente sob jurisdição do STF devem estar atualmente um pouco mais de mil políticos que podem carregar consigo outros milhares de corréus.

Dois homens aparecem em perfil, focados e sérios, em ambiente interno neutro. O homem à direita é calvo e veste terno escuro com camisa branca e gravata azul. O homem à esquerda está desfocado, com cabelo escuro e veste terno claro.
Ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes no STF - Adriano Machado - 2.set.26/Reuters

A conversão de cortes superiores em juizados de instrução criminal para poderosos é ao mesmo tempo um ingrediente e um agravante da crise em que o STF se enredou. Ministros não só julgam os acusados como exercem algum controle sobre aqueles que os investigam. É isso que levou Daniel Vorcaro a buscar aproximar-se de magistrados. E, ao exercer tamanho poder sobre políticos, o STF se vê tragado para a arena política. Suas decisões, mesmo que fossem impecavelmente técnicas (não são), seriam lidas como políticas e, portanto, suspeitas.

Para piorar, tanta gente com foro e protagonismo judicial aparece nos relatórios da PF sobre o Banco Master que nenhuma decisão que venha a ser tomada poderá ser levada muito a sério. Familiares de ao menos três ministros do STF receberam vultosas somas em generosos contratos ligados ao banco. E nem falo dos que só receberam agrados em viagens e boquinhas. O próprio PGR é mencionado e, por prudência, deveria afastar-se do caso. Não se afastou.

Não vejo saída para essa crise, que deverá arrastar-se por anos. Mas, para que um STF do futuro não recaia nos mesmos problemas, a corte precisaria deixar de ser a primeira instância criminal de tantos políticos.