quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Um novo Iluminismo para a infraestrutura, Mauricio Portugal Ribeiro, FSP

 Negacionismo não é apenas um debate acadêmico nem um capricho de redes sociais. Ele tem impacto em todos os aspectos da vida humana porque desloca a bússola que orienta decisões coletivas: em vez de método, evidência e revisão crítica, instala-se o "acho que", o "sempre foi assim" e o "isso é exagero". Quando essa mentalidade se torna dominante, ela não derruba só argumentos; ela adia obras, compromete manutenção e transforma políticas públicas em slogans.

Iluminismo –com seus excessos e contradições– nos legou algo decisivo: a ideia de que a realidade pode ser conhecida e governada por regras racionais, submetidas a teste e aperfeiçoamento. Steven Pinker, ao defender um "novo Iluminismo", insiste que o progresso não é milagre nem destino; é produto de ciência, instituições e cooperação. A expectativa de vida é o exemplo mais didático. Ela não cresceu por retórica, mas por decisões técnicas: água tratada, esgoto coletado, vacinação, antibióticos, energia confiável, transporte seguro e planejamento urbano.

A imagem mostra uma rua em obras, com um canal aberto no meio. Há uma ponte de madeira sobre o canal, e algumas pessoas estão caminhando pela área. Os edifícios ao fundo são de vários andares, e a cena é iluminada por luz natural. O chão está coberto de terra e detritos, e há tubos de concreto ao lado do canal.
Obra de saneamento básico no Canal do Gentil, em Belém (PA) - Alessandro Falco - 24.fev.25/Folhapress

A prova está dentro de casa. Moradias são construídas com cabeamento elétrico –e hoje também com redes de dados– porque a vida contemporânea depende de infraestrutura "invisível". Prevemos banheiros, pias e áreas de higiene porque aprendemos, por evidência e por tragédia, que saúde pública começa no cotidiano. Planejamos tubulações sob o piso e redes sob as ruas; padronizamos materiais; fixamos normas técnicas; definimos rotinas de manutenção; atribuímos responsabilidades. Isso só se tornou "normal" porque o paradigma iluminista nos acostumou a exigir prova, cálculo e responsabilidade pública para aquilo que sustenta a vida.

É verdade que infraestruturas existiram antes do Iluminismo. Egípcios e romanos construíram sistemas notáveis de acesso à água. Roma teve a famosa Cloaca Máxima, frequentemente tratada como "rede de esgoto" ancestral; ao que tudo indica, porém, tratava-se sobretudo de um grande projeto de drenagem de áreas alagadiças, com o efeito também de conduzir efluentes. A concepção moderna de saneamento
–rede pública granular, ligações domiciliares, interceptores, estações de tratamento, monitoramento e regulação– é relativamente recente e se consolida no século 19, quando epidemias urbanas e a engenharia sanitária impuseram uma verdade simples: esgoto não é um assunto privado; é risco coletivo.

É aqui que Thomas Kuhn ajuda a entender o perigo contemporâneo. Paradigmas condicionam o que vemos, o que ignoramos e até o que consideramos "normal". O negacionismo é o paradigma mais comezinho, infantil e do dia a dia: seleciona fatos que confortam e rejeita os que exigem revisão. É a lógica de Ouydire, o monstro alegórico de Rabelais, que transforma a simples repetição em critério de verdade e reage com desconfiança a tudo o que exige medição, comparação ou revisão de crenças. Carl Popper mostrou o antídoto: ciência não é dogma, mas um método de conjecturas e refutações –hipóteses testáveis, expostas à possibilidade de falseamento. O negacionismo faz o inverso: constrói crenças imunes ao teste e substitui método por intuição, lealdade tribal e suspeita sistemática do conhecimento especializado.

Quando esse paradigma invade o debate público, ele também rebaixa a própria ideia de infraestrutura. Prefere-se o "inaugurável" ao essencial: é mais fácil cortar a fita de um viaduto do que financiar uma rede de coleta enterrada. É mais popular prometer preço baixo sem discutir custos do que encarar perdas, qualidade da água, dados de demanda, risco climático e manutenção preventiva. Infraestrutura, porém, vive de números e de método; sem isso, decide-se no escuro.

Se quisermos expandir o acesso às infraestruturas do século 21—em especial ao saneamento— precisamos superar esse paradigma. Um novo Iluminismo não é nostalgia; é condição de desenvolvimento. Como isso se traduz no debate brasileiro sobre saneamento, corporativismo e investimento será o tema do meu próximo artigo.


Tarcísio exonera aliados de Derrite e deve mudar polícias de SP, FSP

 

São Paulo

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), iniciou nesta terça-feira (3) um processo de exoneração de um grupo de pessoas ligadas ao ex-secretário da Segurança Pública Guilherme Derrite. Só na pasta da Segurança devem ser exonerados ao menos 14 aliados do deputado federal.

Os comandos da Polícia Civil e da Polícia Militar também devem sofrer alterações. Uma das prováveis saídas é a do delegado-geral Artur José Dian, que tem manifestado a amigos a intenção de concorrer a cargo eletivo. Há chances de ser retirado do posto antes do prazo obrigatório para o afastamento.

Na PM, devem ser exonerados o corregedor-geral, o coronel Fabio Sérgio do Amaral, e o chefe do Centro de Inteligência, coronel Pedro Luís de Souza Lopes, ambos tidos como ligados ao ex-secretário da Segurança. A Folha apurou que o comando da PM já teria recebido a ordem para os desligamentos.

Dois homens vestindo ternos escuros e gravatas posam lado a lado em evento ao ar livre. Ao fundo, faixa amarela com números 34 em preto.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o e secretário da Segurança, Osvaldo Nico Gonçalves, durante evento em São Paulo no final de 2025 - Danilo Verpa - 1º.dez.25 /Folhapress

O expurgo dos aliados de Derrite, segundo integrantes da Segurança ouvidos pela reportagem, teria sido uma encomenda feita por Tarcísio ao coronel Henguel Ricardo Pereira, então secretário-Chefe da Casa Militar e coordenador da Defesa Civil, que assumiu a secretaria-executiva da Segurança nesta segunda (2).

O oficial deixou um cargo de maior relevância e prestígio no governo estadual para atender esse pedido pessoal de Tarcísio, irritado com o ex-secretário. O motivo seriam declarações feitas por dirigentes do partido dele, o PP, sobre a corrida ao Senado e ao próprio Governo de São Paulo neste ano.

Henguel foi escolhido por muitos fatores, entre eles o trabalho na Defesa Civil, mas também pesou o fato de ser inimigo declarado de Derrite. Segundo oficiais ouvidos pela Folha, os dois deixaram de conversar após desentendimentos provocados por tentativas de interferência na Casa Militar.

Um dos responsáveis por agravar os atritos entre as pastas seria o então ex-secretário-executivo, Paulo Maculevicius Ferreira, sucedido agora por Henguel.

No Diário Oficial desta terça-feira, alguns desligamentos já foram confirmados. Entre eles do ex-comandante-geral da PM, coronel Cássio Araújo de Freitas, atualmente um oficial na reserva, que vinha ocupando o cargo de chefe de gabinete da secretaria.

Na lista também dos aliados de Derrite a serem exonerados está a assessora Luana Humer Eid, que o deputado federal transferiu de Brasília quando assumiu a pasta e colocou no comando da comunicação da pasta. O deputado voltou para a Câmara, mas ela permaneceu na gestão Nico Gonçalves.

A expectativa é que o único aliado do deputado do PP a permanecer no cargo seja o tenente-coronel Rodrigo Vilardi, coordenador do Centro Integrado de Comando e Controle.

Sobre a mudança do delegado-geral, três nomes estão sendo cotados: os delegados Júlio Gustavo Vieira Guebert, Emygdio Machado Neto e Ivalda Aleixo, a chefe do DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa).

A saída no comandante-geral da PM, José Augusto Coutinho, não é da como certa. Cresce, porém, o nome do coronel Carlos Henrique Lucena Folha, coordenador Operacional da PM. Henguel e Lucena teriam entrado juntos na escola preparatória de oficiais do Barro Branco, em 1989, e são próximos.

A gestão Tarcísio de Freitas também exonerou a diretora da Academia de Polícia Márcia Heloísa Mendonça Ruiz, após a crise provocada com a nomeação de delegada supostamente ligada ao PCC. A nova diretora, Fernanda Herbella, assumiu a função na última sexta-feira (30).

Folha procurou a Secretaria da Segurança na noite desta terça para falar das mudanças de aliados de Derrite, mas não houve resposta até a publicação.

Sobre a Academia, a pasta respondeu que "Todas as movimentações e promoções na gestão das forças de segurança de São Paulo seguem critérios estritamente técnicos e visam aprimorar a atuação policial no Estado, com foco no combate ao crime organizado e na proteção das pessoas."