quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Livro defende diálogo como saída para mal-estar da vida acelerada - FSP

 Giovana Kebian

São Paulo

Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar

  • Preço R$ 96,00 (351 págs)
  • Autoria Marco Aurélio Nogueira
  • Editora Ateliê de Humanidades

O avanço tecnológico, o excesso de informação e a hiperaceleração da vida moderna nos bombardeiam com estímulos a todo instante. O crescimento das metrópoles, a insegurança nos grandes centros urbanos e a cultura da individualidade afastaram as pessoas umas das outras.

Soma-se ainda a intensa polarização política, reforçada durante o período eleitoral, e a descrença em instituições que apresentavam verdades compartilhadas —como a justiça, a ciência e a imprensa. Essas características geram um mal-estar generalizado que afeta a saúde mental sem que nos demos conta.

Para responder a esse cenário de sobrecarga informacional, desatenção e polarização, o cientista político Marco Aurélio Nogueira defende recuperar o diálogo e as mediações entre as pessoas e as instituições.

A tese está em "Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar", ensaio da editora Ateliê de Humanidades que já pode ser encomendado pelos leitores.

Homem de meia-idade com cabelos grisalhos e óculos está em pé com as mãos atrás das costas em área externa de prédio moderno com colunas vermelhas e estrutura metálica ao fundo.
Marco Aurélio Nogueira, cientista político e autor do livro 'Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar' - Simon Plestenjak - 8.jun.18/Folhapress

O livro tem cinco partes, cada uma com seis pequenos ensaios, que podem ser lidos fora de ordem. Os temas abordam o consumo e a relação com as máquinas inteligentes, as cidades, as divisões políticas e geracionais, a mediação e a educação.

Nogueira usa o termo "hipermodernidade" para descrever a forma como estrutura capitalista e tecnológica, marcada pela inteligência artificial e pela interação nas plataformas, organiza o período em que vivemos.

"Nós recebemos muita informação e não temos condições de processar tudo isso com facilidade, nenhum de nós. E, por outro lado, perdemos com muita facilidade o foco", diz.

O resultado é o que o livro chama de mal-estar "sutil e capcioso", que se renova continuamente. É sutil, explica o autor, porque as pessoas não têm plena consciência dele.

"É como se esse mal-estar estivesse adormecido na sociedade, mas se materializando a todo momento. Isso cria uma espécie de ambiente em que se perde confiança, se perde segurança, se perde capacidade de diálogo, e se ganha muito sofrimento", explica.

Um dos exemplos desse mal-estar é o consumismo compulsivo. Segundo o autor, as pessoas já não consomem o que necessitam, mas o que as mídias digitais as induzem, movidas por um desejo artificial.

Isso acontece tanto com bens materiais quanto com sugestões em plataformas de streaming, que moldam também as escolhas dos filmes que assistimos e das músicas que ouvimos, por exemplo.

As cidades, tema da segunda parte, são outro foco de desgaste. Criadas como abrigo e oferta de trabalho e cultura, as metrópoles passaram a ser vividas, na avaliação de Nogueira, como lugar de medo e insegurança. Ele cita o trânsito de São Paulo e lembra de trabalhadores que passam até quatro horas por dia em deslocamento.

É aí que entra o diálogo, que o autor defende como um método coletivo para lidar com esse mal-estar. Não se trata de chegar a consenso, mas de manter uma interação inteligente com quem pensa diferente. "A capacidade de interagir com as pessoas que não pensam igual a mim é o principal trunfo que nós todos temos."

A proposta passa por recuperar as mediações que organizavam o debate público. Na avaliação do autor, partidos, Legislativo, Supremo, escola e imprensa filtravam e davam sentido ao que circulava. Sem esse papel, o cidadão ficou sozinho diante de mais informação do que é possível processar com facilidade.

Na polarização, o diálogo evita que o outro vire inimigo. Segundo o autor, estigmatizar fecha a chance de convencer. "Quando você estigmatiza demais, você perde a chance da persuasão", diz.

Para ele, o diálogo também protege a democracia: impede que só a voz dos mais fortes seja ouvida e estimula o pensamento crítico, o que ajuda a separar informação de desinformação.

Nogueira admite o limite da proposta: ampliar os diálogos não basta, mas sem eles nenhuma ação transformadora se sustenta. Apesar do diagnóstico, ele diz na apresentação do livro que evita o pessimismo. "Não entramos num beco sem saída. Sou um otimista cauteloso."

Capa do livro com título em preto sobre fundo branco: 'Como melhorar a vida que vivemos - Pensar, agir, dialogar', autor Marco Aurélio Nogueira. Ilustração abstrata em aquarela mostra pessoas caminhando em ambiente urbano com cores suaves e traços soltos.
Capa do livro 'Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar', de Marco Aurélio Nogueira - Divulgação Ateliê de Humanidades

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Em ditadura, o indivíduo é destruído pela submissão ou pela recusa dela- João Pereira Coutinho - FSP

 Lamento. Nunca li Anne Carson, prêmio Nobel de Literatura. Digo que lamento porque, nos minutos seguintes ao anúncio do prêmio, fiquei pasmo com a quantidade de especialistas e leitores que conheciam a escritora desde o berço.

Não é a primeira vez. Sempre que o Nobel é anunciado para autores menos comerciais, a mídia e as redes são tomadas de assalto por legiões de fãs que aplaudem e declaram como "óbvia" a escolha da Academia Sueca.

Labirinto retangular desenhado em vermelho com caminhos estreitos e múltiplas bifurcações. Entrada visível no canto inferior direito e saída no canto superior direito.
Angelo Abu

O vexame é meu, não nego: sempre chego atrasado a coisas óbvias. Só agora, para dar um exemplo, conheci Herta Müller, premiada em 2009. Sinto que ainda estou em tempo. Romances como "Fera d’Alma" ou "O Compromisso" são, na literatura contemporânea, retratos ímpares do que significa a vida sob o jugo totalitário.

Nesse particular capítulo, Herta Müller tinha um conhecimento pessoal da matéria: nascida na Romênia, no seio de uma família germânica, ela cresceu à sombra do passado nazista da sua comunidade suábia, que marchara voluntariamente por Hitler; e conheceu depois o zelo com que tantos romenos serviram ao regime comunista.

Os romances merecem ser lidos, repito. Mas, antes deles, aconselho uma longa conversa autobiográfica com Angelika Klammer, publicada no Brasil pela Biblioteca Azul com o título "Minha Pátria era um Caroço de Maçã". É uma das minhas leituras de 2026.

A pátria é a Romênia do tempo de Nicolae Ceausescu, seguramente um dos mais repressivos regimes do Leste Europeu. Repressivo e involuntariamente cômico, como é habitual nas grandes tragédias humanas: no mundo de escassez material em que Müller cresceu, as páginas do jornal substituíam muitas vezes o papel higiênico. Desde que, naturalmente, fotos com o rosto de Ceausescu não fossem usadas para o serviço.

Rimos de episódios desses. Mas o riso se apaga quando encontramos reflexões mais sombrias sobre a natureza do poder ditatorial. O indivíduo, na Romênia, era destruído de duas formas: pela submissão e pela recusa da submissão, explica a autora. É uma forma paradoxal de descrever o labirinto da tirania.

Pela submissão, o indivíduo tinha uma carreira e, com sorte, a possibilidade de ascender à "nomenklatura". Pelo caminho, perdia apenas a sua humanidade.

A opção pela insubmissão poderia salvar a alma, mas nem sempre o corpo: a Securitate, polícia política do regime, encarregava-se dessa dolorosa verdade com os seus métodos de tortura.

Herta Müller descreve os interrogatórios a que foi submetida com uma desconcertante mistura de coragem e incredulidade. E descreve, como raramente vi, o tipo de "igualdade" que o regime permitia: a igualdade da feiura.

Edifícios, ruas, roupas, carros —um mundo deliberadamente cinzento, como se até a beleza fosse suspeita. "A sede de viver nos torna espontâneos e, por isso, imprevisíveis", diz ela. Não há nada que mais atemorize uma ditadura do que a espontaneidade dos seus cidadãos. A feiura entediante e o álcool barato eram as únicas abundâncias que o regime produzia.

Era também por isso, acrescenta Müller, que ela fazia questão de comparecer aos interrogatórios na sua melhor versão: as roupas mais belas, a maquiagem mais cuidada. Quando não podemos gritar, esperamos que o corpo grite por nós.

Não que isso alterasse significativamente o jogo. A Securitate estava em toda parte e nem precisava de grandes gestos de terror. Bastavam os pequenos. Como, por exemplo, deixar alguns objetos da casa da escritora fora do lugar. Uma forma perversa e sutil de anunciar: "Temos as chaves."

Aliás, por falar em gestos perversos e sutis, como esquecer a data que o regime carimbou no passaporte da escritora quando finalmente permitiu que ela partisse para a Alemanha em 1987? "29 de fevereiro". Um dia inexistente naquele ano, só para que as autoridades alemãs desconfiassem de que estavam recebendo uma espiã, não uma exilada política.

O regime ruiu em 1989. Ceausescu e a mulher foram julgados sumariamente e fuzilados por militares. Já muitos dos seus lacaios passaram discretamente para a vida civil e democrática da nova Romênia.

Herta Müller testemunhou essa metamorfose: regressou a Bucareste em 1990 e, como que por ironia do destino, reencontrou na rua o seu antigo inquisidor. O homem tremeu de medo ao vê-la porque havia sempre a possibilidade de ser denunciado e linchado pela população ao redor.

Não conto o desfecho do encontro porque, a rigor, nunca há um desfecho para as vítimas do poder autocrático. A obra de Herta Müller, de uma beleza misteriosa e violenta, é essa ferida aberta.