Se me fosse dado construir uma metáfora bíblica, diria que Bolsonaro e seus filhos são mensageiros de Satanás —enganadores, trapaceiros, perversos, enviados do além para corroer e desfigurar o castelo democrático.
Se me fosse dado construir uma metáfora institucional, diria que o eleitor concedeu a Bolsonaro (filho de Satanás, Satanás é) uma versão atípica e adocicada do AI-5, o poderoso instrumento da ditadura militar para reprimir opositores e diferenças. Não falarei da mediocridade do atual governo. É papel dos historiadores explicar o acontecimento.
Além de cassar mandatos por razões ideológicas e morais, o AI-5 excluía seus atos de apreciação judicial.
A bancada bolsonarista tem tamanho para, por exemplo, cassar mandato de parlamentar transgênero por falta de decoro. A bancada bolsonarista tem tamanho para decretar impeachment de ministro do Supremo que interferir na vontade legislativa. Além das consequências concretas, explícitas, a intimidação é sobretudo virtual. Não é mais necessária a presença ostensiva das forças armadas.
Desde a ascensão de Bolsonaro em 2018, o STF exercitou com enorme apetite o controle da constitucionalidade dos atos do Congresso e do Executivo. Evitou abusos e abusou de seus poderes, criou embaraços para autoridades e gerou dissabores, despertando ódio, revolta, indignação.
O Supremo limpou as capivaras criminais de políticos do quilate de Arthur Lira (violência doméstica, kits de robótica), Ciro Nogueira ("quadrilhão do PP") e Flávio Bolsonaro ("rachadinha") para assim alcançar equilíbrio no teatro do poder. Condenou muitos e protegeu outros tantos. Mas, agora, o temor de vingança e de impeachment desestabiliza o tribunal.
Gilmar Mendes não se afoba, considera-se um "enfermeiro que já viu muito sangue", e se movimenta para articular um pacto de convivência com a força política por enquanto vitoriosa. Seu maior desafio é salvar a cabeça de Alexandre de Moraes, algoz de Jair Bolsonaro, pelas relações impróprias que manteve com Vorcaro: por isso, a exposição das relações impróprias que o ministro bolsonarista Kassio Nunes manteve com o banqueiro.
A PGR já aceita flexibilizar as visitas familiares ao golpista preso. Suspeito, Kassio Nunes acena com a revisão criminal da condenação. Na busca da sobrevivência, integrantes do STF logo encontrarão uma nulidade despercebida ou a quebra da cadeia de custódia de uma prova obtida pela PF para limpar a capivara de Bolsonaro e permitir que ele suba a rampa do Palácio do Planalto com os filhos.
Os golpistas estão chegando. Flávio emite, sem cerimônia, sinais do projeto autoritário: "redemocratizar" o país e acrescentar um ano ao seu mandato presidencial.
Se Lula não for reeleito, Bolsonaro será senhor de tudo —do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. A desintegração absoluta dos mecanismos de controle que asseguram a separação teórica dos poderes é a consequência.
Estão chegando os golpistas, pacientes e perseverantes, amparados pelos algoritmos. Um longo ciclo de corrosão constitucional ameaça o futuro do Brasil. Sua duração dependerá de dissidências no pensamento da própria direita e da inteligência da guerrilha ideológica dos que acreditam em um país livre e soberano.


