quarta-feira, 22 de julho de 2026

A desuniversalização do saneamento - FSP

 

Gabriela Portugal Ribeiro

Advogada e mestre em Direito pela Columbia Law School

Mauricio Portugal Ribeiro

Sócio do Portugal Ribeiro Advogados e mestre em direito pela Harvard Law School


O Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) após mais de uma década do levantamento anterior, trouxe uma constatação silenciosa, mas de consequências profundas para o setor de saneamento: a queda expressiva da taxa de ocupação dos domicílios brasileiros.

A média nacional de moradores por residência caiu de 3,31, em 2010, para 2,79 —recuo registrado em todos os estados. As diferenças regionais permanecem: o Norte exibe a maior densidade domiciliar (3,3 moradores por domicílio), enquanto o Sul apresenta a menor (2,6). O país mudou: as famílias encolheram e o número de domicílios cresceu 34%, muito acima da população.

A imagem mostra um caminho estreito com esgoto visível, onde há canos de metal expostos. A água suja flui pelo esgoto, e há lixo ao redor. Ao fundo, uma pessoa caminha, e algumas edificações são visíveis nas laterais.
Cano de água e esgoto aberto na calçada da Comunidade Vila Pantanal, na cidade de Santos - Zanone Fraissat - 9.jan.25/Folhapress

E como isso impacta a universalização do saneamento básico? Em diversos contratos de concessão, o cálculo da cobertura de água e esgoto é feito por fórmula que tem, como uma de suas variáveis, justamente a taxa de ocupação: multiplica-se o número de ligações ou economias pela média de moradores por domicílio para estimar a população atendida, que é então comparada à população total.

O efeito combinado é perverso. Ao substituir a taxa de ocupação antiga pela nova, a cobertura dos serviços declina repentinamente. Nenhuma torneira secou, não há menos esgoto sendo coletado; a fórmula é que opera como um leito de Procusto, amputando a cobertura para caber na nova leitura censitária.

Em diversos municípios, o resultado aritmético é a efetiva redução da cobertura de água e esgoto e, em certos casos, o esdrúxulo fenômeno da desuniversalização do saneamento básico: por um passe de mágica estatística, localidades universalizadas deixam de sê-lo, ainda que a rede continue em expansão, inclusive para acompanhar o crescimento vegetativo dessas localidades.

O problema vai além de explicar o inexplicável. Não apenas gera significativo desequilíbrio contratual, como coloca a concessionária em inesperada situação de inadimplemento de seus indicadores de desempenho —com todas as consequências sancionatórias daí decorrentes— e ainda com a responsabilidade de executar novos investimentos não previstos. A entrega é a mesma; o resultado medido, pior.

A solução passa por dois movimentos. Primeiro, não pode haver dúvida de que a alteração da taxa de ocupação decorre de modificações da demografia não controláveis pelo concessionário, e cujo risco não poderia, por essa razão, lhe ser atribuído, por contrariar a lógica econômico-jurídica que deve presidir as distribuições de riscos, e que foi adotada pela lei geral de licitações e contratos administrativos.

Trata-se, portanto, de evento imprevisível que não lhe pode ser imputado, impondo-se a recomposição do equilíbrio econômico-financeiro e a adequação das metas previstas no contrato.

Segundo, é preciso superar as fórmulas que dependem dessa variável demográfica e prestigiar o conceito de economia —conectada ou com rede disponível, conforme o indicador—, tal como preconizado pela Norma de Referência nº 8/2024 da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico), aprovada pela Resolução ANA nº 192/2024.

A agência andou bem: escolheu medir o território, e não o mapa —a infraestrutura efetivamente posta à disposição da população, unidade objetiva, verificável e imune às marés censitárias.

A universalização é a grande promessa do marco legal do saneamento. Seria irônico —e injusto— que ela naufragasse onde já foi conquistada, não por falta de investimento, mas por um artefato estatístico. Que reguladores e poderes concedentes sigam a trilha da ANA e que escapemos da armadilha da desuniversalização do saneamento.

Mais demagogia no Alemão - Elio Gaspari, FSP

 Em julho de 2011, a presidente Dilma Rousseff inaugurou o teleférico do Morro do Alemão, no Rio, e arriscou: "O Complexo do Alemão tem tudo para se transformar num ponto turístico". Bingo.

Quatro anos depois Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, viajou no teleférico e pontificou: "Estou me sentindo numa estação de esqui". Um ano depois a geringonça foi desativada e desativada está. Madame Lagarde, uma pessoa discreta, nunca produziu outra batatada desse calibre.

De lá para cá, a comunidade voltou ao noticiário em outubro do ano passado, quando a polícia do Rio chacinou 117 pessoas no morro do Alemão. Se aquela comunidade pode vir a ser um ponto turístico, pode abrigar o Museu da Empulhação, um repositório de todas as presepadas prometidas por presidentes, governadores e prefeitos.

Trabalhador com roupa azul, capacete verde e luvas amarelas aplica cimento em laje de concreto. Ao fundo, extensa favela com casas próximas em morros sob céu azul.
Operário trabalha em obra de teleférico, no morro da Baiana, Complexo do Alemão, em 2010; obra fazia parte do PAC - Rafael Andrade - 2.dez.10/Folhapress

O Alemão já viu de tudo. Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Teleférico e Unidade de Polícia Pacificadora. Uma operação militar foi saudada como a tomada de Berlim em 1945, teve bandeira hasteada no topo do morro e resultou em nada. Um paspalho fantasiado de Rambo ilustrou a enganação do evento.

A iniciativa de maior alcance levada ao Alemão partiu do Judiciário, pelo Programa Solo Seguro. Em 2023, a Corregedoria Nacional de Justiça entregou 180 escrituras definitivas a moradores da comunidade facilitando-lhes a vida comercial. A proeza custou a impressão das escrituras, a ajuda dos cartórios e o trabalho de 17 pessoas, duas da Corregedoria, mais 15 da prefeitura. Ideia do então corregedor Luis Felipe Salomão.

A entrega dos documentos aconteceu com pouca fanfarra e muito trabalho.

O repórter Yuri Eiras informa que depois de ter torrado R$ 493 milhões de um PAC velho, torrarão mais R$ 210 milhões num PAC novo.

O teleférico está parado, o comércio instalado no seu entorno fechou. Sua recuperação prevê elevadores e escadas rolantes. Uma das empresas encarregadas do serviço solicitou a prorrogação do prazo de entrega da obra pelo mais elementar dos motivos: falta de pagamento.

Nem todo o dinheiro foi para o ralo. Estão funcionando uma creche, o centro comercial, unidades de saúde, espaços para cursos e um cinema. Muita parolagem e pouco resultado.

As comunidades do Rio não precisam ser transformadas em playgrounds de maganos entregando promessas que às vezes satisfazem só aos empreiteiros.

Um painel do Tribunal de Contas da União tabulado em abril de 2025 mostra que de 196 obras do PAC, 138 estavam paradas. Algumas delas foram recicladas e incluídas no novo PAC de Lula.

Noves fora o mercado de ilusões e propinas do governo Sérgio Cabral (2007-2014), o próprio projeto do teleférico desprezou a opinião dos moradores, mais interessados em descer do que em subir. O Museu da Empulhação poderia começar em torno de um núcleo que trataria só do Alemão. Expandindo-se, ganharia o nome de Museu do Ontem. Ele teria a virtude de manter vivas as promessas feitas com a plena certeza de que não serão cumpridas ou, refinando o diagnóstico, serão cumpridas enquanto intere$$arem aos empreiteiros.