sexta-feira, 20 de março de 2026

Ampliar acesso ao MEI é um erro, Marcos Mendes, FSP

 A Câmara aprovou urgência para votar o projeto de lei complementar 108/2021 (PLP 108/21), que aumenta de R$ 81 mil para R$ 130 mil por ano o limite de faturamento para enquadramento de profissionais como microempreendedor individual (MEI). Também aumenta de um para dois o número de empregados que um MEI pode contratar. Isso significa que mais empresas e empreendedores terão acesso a tributação menor.

Ao PLP 108/21 há outros 14 projetos apensados —alguns com custos bem maiores—, o que indica a popularidade do tema dentro do Congresso. Ainda não se decidiu qual redação será posta em votação, havendo o risco de serem feitas concessões adicionais.

Pouca importância foi dada à Lei de Responsabilidade Fiscal, que exige que se demonstre de onde virá o dinheiro para pagar a conta.

A proposta vai na direção errada.

A fotógrafa Tatiana, que em 2009 se tornou MEI, em Brasília - André Borges - 10.ago.12/Folhapress

O MEI foi criado para que trabalhadores informais muito pobres tivessem acesso a quase todos os benefícios da Previdência. O MEI não paga tributos sobre a renda devidos por pessoas jurídicas, faz contribuições simbólicas de ICMS e de ISS e recolhe apenas 5% do salário mínimo a título de contribuição previdenciária.

O subsídio é grande. Estudos de Rogério Nagamine, Gabriela Ansiliero e Otávio Sidone mostram que as contribuições cobrem pouco mais de 5% do fluxo futuro que um beneficiário típico receberá em aposentadoria. E ele ainda pode receber outros benefícios, como auxílio-doença, salário maternidade, pensão por morte ou aposentadoria por invalidez.

O MEI deve ficar restrito aos indivíduos de renda muito baixa, sob pena de gerar uma bomba fiscal para a Previdência no médio e longo prazo.

Com o atual limite de faturamento, houve migração de trabalhadores de planos menos desequilibrados para o MEI: 72% dos atuais MEIs tiveram experiência anterior no mercado formal de trabalho. Em vez de incluir os excluídos, o MEI está subsidiando quem já era incluído. Isso também pode ser visto no padrão de renda e escolaridade dos contribuintes do MEI: menos de 20% deles estão entre os 50% mais pobres e têm média de 12,3 anos de estudo.

Roupas na loja Fuá Ateliê, uma MEI localizada no bairro de Pinheiros, em São Paulo - Lucas Seixas - 25.mai.24/Folhapress

O número de inscritos no MEI já é de 16,6 milhões, quando temos não mais que 8 milhões de pessoas em pobreza extrema. De 2011 a 2014, o total de MEIs que efetivamente contribuem cresceu 18% ao ano, contra 1,4% a.a. do RGPS como um todo. Eles representam 12% dos contribuintes do RGPS, mas apenas 1% da receita.

Com esse inchaço do regime, a projeção de receitas e despesas futuras implica um déficit atuarial, trazido a valor presente, na casa de R$ 1 trilhão, decorrente de receita insignificante e um conjunto de benefícios apenas marginalmente menor que o dos demais contribuintes.

Facilitar o acesso ao MEI vai agravar o problema.

Há o argumento de que aumentar o MEI economiza gastos futuros com o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Isso é falso. Primeiro porque o público do MEI tem renda e escolaridade mais altas que os candidatos ao BPC. Segundo, porque o MEI oferece benefícios adicionais, como 13º, pensão e auxílio-doença, podendo sair mais caro que o BPC.

As medidas corretas seriam: reduzir o limite de faturamento, estabelecer indicadores de pobreza para acesso, elevar a contribuição para 11% do salário mínimo (percentual que vigorava no início do programa) e instituir contribuição de 20% para empresas que contratam MEIs, para desestimular a pejotização de trabalhadores.

Decisões populistas, tomadas sem uma avaliação quantitativa séria de seus custos e benefícios, mantêm o país na armadilha do baixo crescimento.

Bernardo Carvalho - Movimento invisível que nos arrasta é dança do progresso e do fascismo, FSP

 O grego Christos Papadopoulos, 44, estudou dança, teatro e ciência política. É o coreógrafo da hora. Criou "Mycelium" (micélio), em 2023, para o Balé da Ópera de Lyon. Assisti ao espetáculo durante a passagem da companhia por Nova York, em fevereiro.

"Mycelium" é uma coreografia "orgânica", inspirada nos micromovimentos da estrutura subterrânea dos fungos e suas ramificações pulsantes, em comunicação eletromagnética. São variações mínimas executadas por 20 dançarinos que evoluem, em rede, na penumbra, num fluxo de impulsos e interações milimétricas e repetitivas, como um corpo único e coletivo que se expande e se retrai ao som da música hipnótica do compositor e produtor musical Coti K. "É menos repetição do que evolução constante", diz o coreógrafo.

Imagem mostra uma rede complexa de veias ou vasos sanguíneos iluminados em tons de vermelho e roxo sobre fundo preto, destacando ramificações finas e interconectadas.
Imagem microscópica de rede de fungos - Loreto Oyarte Galvez/Vrije Universiteit Amsterdam/AFP

Faz pensar na personagem de "Sirât", de Oliver Laxe, que não vê repetição na música eletrônica que ela dança até a morte em festas no deserto.

É assustador como, diante da emergência dos fascismos, a reação contra o que é individual e singular, o que não se submete ao grupo, tende a ser imediata e consensual, muitas vezes disfarçada de crítica ao individualismo. É condição de possibilidade do florescimento dos fascismos que também a crítica seja desbaratada, despojada do que nela haveria de próprio, individual e exterior ao grupo.

A crítica depende da distância, de um ponto de vista exterior. O estranho e o estrangeiro são os primeiros bodes expiatórios desse movimento que parece exaltar as individualidades quando no fundo apenas as submete a uma necessidade coletiva, uniforme e unidirecional.

Avesso a todo nacionalismo (o que o levou naturalmente a também pôr o sionismo em questão), por entender que mais cedo ou mais tarde, para sobreviver, o grupo vai aderir às formas mais violentas de poder, Walter Benjamin via no fascismo um movimento intimamente ligado à ideia de progresso. Para ele, o fascismo só poderia ser combatido quando (e se) a ideia de progresso fosse abandonada.

A ideia de progresso faz que nos surpreendamos a cada nova aparição do fascismo, como se fosse a primeira vez que nos deparássemos com ele, paralisados diante de algo novo e inédito. O progresso é a ilusão de que o passado não se repetirá.

Se as redes sociais podem servir como armadilha e método dessa ilusão, é porque nelas o narcisismo é estimulado até as últimas consequências, como regra, até converter o individual no oposto do singular, modelo de reprodução em massa. A internet nos faz crer que nos distinguimos enquanto nos entregamos todos à mesma dependência e exposição.

Papadopoulos se refere à imagem de um trem para explicar sua coreografia, criação de uma "entidade em movimento, [...] em constante evolução, [...] mais vibração do que dança". Os passageiros num trem mantêm-se em princípio em relativa independência, com seus movimentos individuais, seus pensamentos e vontades próprios, mas "ninguém pode ir contra o andamento coletivo, ninguém pode estar fora do ritmo. [...] Como no fluxo dos pássaros ou dos peixes, há uma necessidade nesse movimento".

Os fungos têm servido com frequência de modelo na defesa e exaltação de uma outra forma de inteligência, coletiva e integrada, alternativa à razão individualista e à organização social autodestrutiva dos homens.

Se, por um lado, essa inspiração positiva se reflete na escolha e na consciência do coreógrafo, por outro, o resultado de sua dança é uma representação sufocante. E se há nela uma atualidade e uma urgência espetaculares, não é por nos mostrar uma saída, mas antes porque representa justamente o movimento invisível e imparável que nos arrasta à revelia para onde não queremos ir.

É a dança do progresso, mas também do fascismo. Essa "evolução infinita" na qual de repente nos vemos enredados e cuja interrupção já não depende nem da razão nem da nossa consciência individual.

'Vladimir', na Netflix, cutuca um vespeiro feminista com humor, FSP

 O quanto a existência de uma relação de poder —financeiro, político, físico, intelectual— é determinante para configurar uma dinâmica de assédio entre adultos, mesmo com aparente consenso entre as partes? E o quanto o exercício desse poder com fins sexuais é uma particularidade masculina?

É esse o vespeiro chacoalhado em "Vladimir", minissérie que estreou neste mês na Netflix e provoca o espectador para rever ideias prontas. O título é uma referência óbvia ao autor de "Lolita", Vladimir Nabokov, embora aqui não se fale de menores de idade.

A protagonista-narradora é uma professora universitária e escritora de 54 anos, apresentada apenas como M., que se torna obcecada por um colega mais jovem no mesmo momento em que o marido é acusado de assediar alunas. E é dela que estudantes e colegas exigem resposta.

Não se trata de um conto moral, mas de um registro dos nossos tempos. Baseado em um romance lançado em 2022 por Julia May Jonas, o roteiro vertido para a TV por ela mesma é permeado por discussões atuais sobre cancelamento, sexualidade e consentimento. Mas do (raro) ponto de vista de uma mulher que cresceu nos anos 1970 e pensava ter atingido o ápice da liberação sexual até trombar com a geração Z, aquela que diz ter inventado o poliamor.

Rachel Weisz ("O Jardineiro Fiel"), num incomum papel cômico, é M., que contabiliza uma carreira acadêmica respeitável, livros de sucesso com a crítica e com o público, um casamento aberto e sólido com um colega de ofício e uma filha adulta encaminhada. Ah, sim, ela também é bonita.

Ainda assim, por vezes essa mulher que parece um holograma aspiracional nos sai pela tela como uma criatura odienta, cínica e narcisista, que nos força a perguntar: a sensação seria a mesma se o personagem fosse homem? (Spoiler: o marido da protagonista, uma versão de cuecas dela própria vivida por John Slattery, de "Mad Men", é apresentado como um sujeito simpático e agradável.)

Afinal, como ela pode compactuar com o cônjuge predador? Saber que ele saía com alunas de graduação e não ver problema? Mesmo quando as alunas começam a se queixar que, em seus 20 e poucos anos, eram ingênuas e se deixaram atrair pelo professor experiente, que sempre oferecia um elogio certeiro sobre seus escritos, ambições, planos de carreira?

É quando M. está nesse estado de suspensão que surge Vladimir (Leo Woodall, de "The White Lotus" e "Um Dia"), professor e best-seller aos 30 e poucos, com mulher e uma filha pequena. E as fantasias eróticas começam a engolir a vida da narradora, sempre nariz a nariz com o medo de transformar suas lucubrações sexuais em um caso de fato.

Narrada com sarcasmo, a série exaure o recurso da quarta parede —M. fala com o espectador o tempo todo, lembrando o Francis Underwood de Kevin Spacey em "House of Cards" (talvez não por acaso). Nos piores momentos, cansa; nos melhores, instiga aquela fatia mais experimentada e cínica do público a empatizar com a protagonista imperfeita.

A sacada está em retratar os homens como sujeitos passivos e M. como a responsável pelas situações,
obrigando-nos a refletir sobre desejo, agência, consentimento, arbítrio e outras palavras bem em voga.

'Vladimir'

  • Onde Netflix
  • Autoria Julia May Jonas (autora do livro homônimo) e Jeanie Bergen
  • Elenco Rachel Weisz, John Slattery, Leo Woodall, Jessica Henwick, Ellen Robertson e Matt Walsh
  • Direção Shari Springer Berman e Robert Pulcin
  • Gênero Comédia
  • Duração Oito episódios de 30 minutos (minissérie)

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