terça-feira, 10 de março de 2026

Endividamento cresce e atinge 70% das famílias em fevereiro, diz FecomercioSP, FSP

 Impulsionadas pelos gastos de fim de ano e a longa lista de despesas de janeiro, 3,1 milhões de famílias paulistanas iniciaram o mês de fevereiro com algum tipo de dívida, segundo levantamento de endividamento e inadimplência da FecomercioSP. O valor equivale a 70% das famílias na capital.

O índice voltou a subir após fechar o ano com três quedas consecutivas e registrar, em janeiro, 68,9% —o menor patamar em quase 1 ano.

Vista superior de uma jovem estressada com as mãos segurando a cabeça preocupada em encontrar dinheiro para pagar dívidas de cartão de crédito e todas as contas de empréstimo.
Acúmulo com gastos do fim de ano e lista de pagamentos de janeiro ajudam a explicar aumento das contas em atraso - Kawee/Adobe Stock

Para a FecomercioSP, o aumento do endividamento pode ser considerado natural diante das contas típicas do início do ano (como IPTUIPVA e material escolar) que alteram a dinâmica de consumo das famílias na capital de São Paulo.

"É possível que alguns lares tenham enfrentado dificuldades pontuais na organização do orçamento doméstico, já que não se trata de uma alta expressiva", diz a FecomercioSP em nota.

Entre as faixas salariais, o público com maior comprometimento está entre as famílias com até dez salários mínimos, que subiu de 72,8%, em janeiro, para 73,5%, em fevereiro. Nas famílias que recebem mais de dez salários, o índice saiu de 57,6% para 59,8% no mês passado.

O cartão de crédito segue sendo o principal vilão das despesas, com 78,7% dos tipos de dívidas declaradas. Em seguida estão o financiamento imobiliário (16,6%), crédito pessoal (12,4%) e o financiamento de veículos (10,6%).

De acordo com a FecomercioSP, o porcentual da renda comprometida com dívidas ficou em 27,2% no mês passado, pouco abaixo dos 27,5% de janeiro. A organização avalia que o maior acesso ao crédito não tem sido utilizado como saída emergencial pelas famílias paulistanas, mas como complemento natural de renda que segue sustentada pelo emprego.

"Por outro lado, o tempo de comprometimento com dívidas permaneceu estável pelo terceiro mês consecutivo, com média de sete meses. Quase um terço das famílias está comprometida por até três meses —período mais característico de modalidades como o cartão de crédito— e pouco mais de um terço por prazo superior a um ano, perfil típico de financiamentos imobiliários e de veículos", afirma a federação em nota.

INADIMPLÊNCIA EM ALTA

A inadimplência registrou aumento moderado em fevereiro, chegando a 20,4% das famílias (era 19,9% em janeiro), o correspondente a 917 mil famílias na cidade de São Paulo.

Quando analisado por faixa de renda, para as famílias com renda até dez salários, o aumento foi de 24,6%, em janeiro, para 25,2%, em fevereiro, enquanto no grupo que recebe acima desse patamar a alta foi de 8,4% para 8,6%.

O perfil dessa inadimplência é maior entre aqueles que estão com as contas em atraso por mais de 90 dias, chegando a 53,5% das famílias. A FecomercioSP afirma que é preciso atenção com esse tempo médio, uma vez que são dívidas mais longas e, em tese, com juros mais elevados e que dificultam sua regularização.

Atualmente, 9% das famílias afirmam não ter condições de pagar as dívidas em atraso. Entre esse porcentual de famílias, 10,8% delas têm intenção de contrair crédito ou financiamento nos próximos três meses.

Apesar do aperto financeiro, 81,2% das famílias sem condições de cumprir com suas obrigações e que pretendem contratar crédito querem utilizar o dinheiro para fazer compras e somente 12,6% pretendem pagar dívidas.

"As condições econômicas permanecem favoráveis, com inflação mais baixa e mercado de trabalho aquecido, o que sugere que essa expansão da inadimplência seja pontual e sazonal. Assim, forma-se um ambiente relativamente saudável para a contratação e, ao mesmo tempo, para a quitação de dívidas", diz a FecomercioSP.

A pesquisa de endividamento e inadimplência ao consumidor é apurada mensalmente pela federação. São entrevistados aproximadamente 2.200 consumidores na capital paulista.

Datafolha: Maioria dos brasileiros se informa sobre política por programas de TV e redes sociais - FSP

 A maioria dos brasileiros se informa sobre política e eleições por programas jornalísticos na televisão e por redes sociais como Facebook, Instagram e X (ex-Twitter), segundo pesquisa Datafolha.

Do total dos entrevistados, 58% dizem recorrer à TV para se informar sobre o tema, e 54% mencionam as redes sociais. Em seguida aparecem sites de notícias (26%), conversas com amigos e parentes (21%) e canais no YouTube (21%). Podcasts, programas jornalísticos no rádio e jornais impressos ou online empatam com 14% cada. O WhatsApp ou Telegram é citado por 10% dos entrevistados. Apenas 3% afirmam não recorrer a nenhum meio para se informar sobre política.

O Datafolha entrevistou 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais da última terça (3) até quinta (5), em 137 municípios. A margem de erro máxima é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no TSE sob o protocolo BR-03715/2026.

Na análise por voto declarado no segundo turno de 2022, o padrão sobre meios de informação se inverte entre eleitores do presidente Lula (PT) e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Urna eletrônica armazenada na 1ª Zona Eleitoral de São Paulo - Rubens Cavallari - 22.ago.22/Folhapress

A televisão é o meio predominante entre lulistas, citada por 66% do grupo —8 pontos percentuais acima da média geral. As redes sociais aparecem em segundo lugar, com 47%. YouTube e WhatsApp ou Telegram são mencionados por 16% e 8%, respectivamente.

Eleições

  • Pesquisa

    Os resultados de uma pesquisa não são prognósticos, ou seja, não pretendem antecipar o que sairá das urnas. Eles formam um retrato da opinião dos entrevistados no momento em que os pesquisadores foram a campo.

Já entre os que votaram em Bolsonaro, as redes sociais lideram, com menções de 61% do grupo, enquanto a TV aparece em segundo, com 53%. O YouTube é citado por 28%, 12 pontos acima do que entre eleitores de Lula, e o WhatsApp ou Telegram é mencionado por 15%. Os dados sugerem maneiras de se informar distintas entre os dois campos, com o eleitorado bolsonarista mais concentrado em plataformas digitais, fora do alcance da mídia tradicional.

Padrão semelhante aparece entre os eleitores que declaram intenção de votar em Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para presidente nas eleições de 2026. Nesse grupo, 63% mencionam as redes sociais como principal fonte de informação política, e 50% citam a TV. YouTube e WhatsApp ou Telegram também aparecem com 28% e 15%, respectivamente, índices próximos aos registrados entre os eleitores de seu pai no pleito anterior.

Ou seja, enquanto a base lulista permanece mais ancorada na televisão, o eleitorado ligado ao bolsonarismo segue mais disperso por plataformas digitais, ambiente em que o controle editorial é menor e a circulação de desinformação, historicamente, é maior.

O uso das redes sociais para fins políticos foi um dos pontos-chave do inquérito das milícias digitais, que deu origem à investigação sobre o plano golpista do ex-presidente Jair Bolsonaro —condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros quatro crimes.

No início do mês, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) aprovou novas normas que preveem mais obrigações para as plataformas de redes sociais nas eleições deste ano.

Agora, elas precisarão, por exemplo, apresentar mais relatórios sobre as medidas que estiverem tomando no contexto dos riscos eleitorais, chamados de planos de conformidade. O tribunal também proibiu o uso de conteúdo gerado ou manipulado por IA nas 72 horas anteriores até as 24 horas depois do dia de votação.

A noite derrota o homem, mas haverá sempre alguém cantando 'Blue Moon', João Pereira Coutinho - FSP

A poucos dias do Oscar, torço por Wagner Moura e pelo filme "O Agente Secreto". Merecem. Mas, se o carequinha dourado resolver viajar para outros colos, que vá para Ethan Hawke por "Blue Moon", o longa de Richard Linklater.

O roteiro é tudo, dizia Hitchcock, com alguma razão. Mas um roteiro com um ator perfeito é um milagre da arte: os dois levitam, como diria Lorenz Hart, o letrista da Broadway que Ethan Hawke interpreta.

Estamos em 1943, no Sardi’s de Nova York, onde já tive uma intoxicação alimentar severa. Não recomendo. Mas divago.

Estamos em 1943, repito, e é uma noite difícil para Hart. Durante 24 anos, ele foi o melhor parceiro do compositor Richard Rodgers. Juntos, deram ao mundo "My Funny Valentine", "The Lady Is a Tramp" —e, precisamente, "Blue Moon".

Cena do filme Blue Moon em que o protagonista, de terno, conversa enternecido com uma mulher alta, de vestido e loira. O casal está dentro de um closet cheio de casacos pendurados.
Angelo Abu/Folhapress

Mas Rodgers, cansado do alcoolismo de Hart, entregou a Oscar Hammerstein 2º as letras do novo musical "Oklahoma!". Um sucesso de público e de crítica na noite de estreia.

Ferido no orgulho, Lorenz Hart encontra mil defeitos na peça. Até o ponto de exclamação do título lhe provoca urticária. Sua única esperança é reencontrar naquela noite Elizabeth, uma beldade de 20 anos por quem Hart tem uma "paixão irracional".

Lorenz Hart, aos 47 anos e com mais uns meses de vida, é um náufrago em busca de salvação. Quando Rodgers e seu novo cúmplice entram no Sardi’s para comemorar o sucesso de "Oklahoma!", Hart não economiza nos elogios, nem nas hipérboles.

Não é apenas cinismo. É desespero para que ainda reparem nele. O fato de Hart ser fisicamente diminuto e deformado —"Is your figure less than Greek?", como ele próprio escreveu—, sobretudo quando comparado com o gigante Hammerstein, só amplifica a pequenez artística e existencial em que ele se vê mergulhado.

Margaret Qualley e Ethan Hawke em cena do filme 'Blue Moon', de Richard Linklater
Margaret Qualley e Ethan Hawke em cena de 'Blue Moon', de Richard Linklater - Sabrina Lantos/Divulgação

Elizabeth seria o prêmio de consolação. Mas as ilusões do escritor sobre o novo musical não o cegam apenas para as virtudes de "Oklahoma!" e para o gênio solar de alguém como Hammerstein.

Impedem-no, também, de perceber que o amor de Elizabeth por ele é "de outro tipo": um amor filial, talvez, mas oportunista, seguramente.

Hart é um bom "ouvinte", afirma ela. E o que ele ouve? As aventuras sexuais de Elizabeth, contadas pela própria, nas quais o escritor se compraz com um masoquismo autodestrutivo.

Não é por acaso que, naquela noite, Hart pretende oferecer-lhe uma cópia de "Servidão Humana", de Somerset Maugham. Talvez porque se projete em Philip, o personagem deformado do romance, que vive a sua servidão emocional por Mildred.

A grande diferença é que Philip se liberta das ilusões e dependências da juventude. Lorenz Hart não é jovem e, aos 47 anos, já é tarde para mudar. Além disso, como ele próprio lembrou numa das canções mais notáveis, "falling in love with love is falling for make-believe".

O roteiro de Robert Kaplow, também indicado ao Oscar, é uma proeza literária por si só: os diálogos, de evidente respiração teatral, transportam a inteligência, a melancolia e a ironia adulta das letras de Hart. Honestamente, nem sabia que ainda se escrevia assim desde que Noël Coward pendurou as chuteiras.

Minto. Stephen Sondheim, que tem uma aparição no filme com 10 anos, é o herdeiro de Lorenz Hart —ele que, ironicamente, foi um discípulo de Hammerstein.

Mas é Ethan Hawke, oscilando entre a vaidade e a autocomiseração, a arrogância e a submissão, a fantasia e a amargura —às vezes na mesma frase e no mesmo gesto— quem nos oferece um dos melhores retratos do artista quando (precocemente) velho.

Foi o poeta Dylan Thomas quem pediu que nos revoltássemos contra a morte da luz —"Rage, rage against the dying of the light". Hart passa aquela noite inteira nessa revolta. Mas o mesmo poema lembra que, no fim, os homens sábios sabem que a noite tem razão —"Though wise men at their end know dark is right".

A noite derrota o homem. Mas, em algum lugar, agora mesmo, alguém canta "Blue Moon" sem saber nada disso.

P.S. —Onde encontrar os melhores intérpretes de Rodgers e Hart? O gosto é muito pessoal, mas não me canso de escutar Anita O’Day (o melhor "The Lady Is a Tramp"), Mel Tormé (em "Blue Moon"), Susannah McCorkle (sobretudo "It Never Entered My Mind"). "My Funny Valentine" tem concorrência feroz com um clássico (Ella Fitzgerald), uma versão moderna (Rickie Lee Jones) e uma versão inesperada (Michelle Pfeiffer no filme "Os Fabulosos Irmãos Baker"; quem viu e ouviu não esquece).