sábado, 15 de agosto de 2026

Edição de Sábado: O apetite chinês, MEIO

 

Por Caio Mello

Quando a China lançou seu 15º Plano Quinquenal para Agricultura e Modernização Rural, pouca gente no Brasil deu atenção ao documento que define as estratégias chinesas para o campo pelos próximos cinco anos. Naqueles dias frios do início de junho, os brasileiros estavam, uma vez mais, absortos pelas renovadas ameaças do presidente americano Donald Trump de taxar os produtos brasileiros pelo que ele chamava de “práticas irrazoáveis”. Mas quem reservou tempo para destrinchar o longo documento não demorou muito para perceber que o prenúncio de tempos difíceis não reside apenas nas diatribes comerciais americanas. É da China, na verdade, que vêm as maiores ameaças à economia brasileira nestes tempos estranhos de reestruturação da ordem mundial.

O documento chinês não tem subterfúgios. A potência do Extremo Oriente quer reduzir de forma profunda sua vulnerabilidade na produção de alimentos. E isso, dizem os próprios chineses, se traduz em mais produção interna e uma redução sensível na dependência externa de commodities agrícolas estratégicas, em especial a soja e outros grãos. Não é preciso entender chinês para compreender os impactos que essa nova diretriz terá para a economia brasileira, cuja balança comercial é, há mais de década e meia, dependente das exportações de grãos para os chineses.

Hoje 70% da soja que o Brasil exporta têm como destino a China, algo como 86 milhões de toneladas. Com a tonelada da soja valendo pouco mais de US$ 425 na bolsa de Chicago, a matemática do estrago que uma redução, por menor que seja, poderá causar à balança comercial brasileira é ao mesmo tempo simples e assustadora. Pelos planos chineses, até 2030 o país quer reduzir suas importações de soja em 25%, o equivalente a 23,5 milhões de toneladas. O Brasil, que responde por 60% da soja importada pela China, dificilmente passará incólume em uma redução tão drástica. Até agora, nada mudou, mas quem entende do assunto adverte: o Brasil precisa se preparar de maneira urgente para acomodar os potenciais impactos do plano chinês.

O novo plano quinquenal chinês não é um sinônimo de eliminação das compras de alimentos no exterior. Mas Pequim quer reduzir vulnerabilidades e depender menos dos poucos abastecedores que hoje alimentam parte da sua imensa população de 1,4 bilhão de pessoas. O temor dos chineses é se verem hiperdependentes de um só mercado — como é hoje do Brasil — e, assim, estarem expostos a choques de mercado em um mundo marcado pela profunda instabilidade.

Essa não é uma preocupação nova, é claro, mas vem crescendo ano a ano, em especial após as experiências traumáticas da Covid-19. A pandemia acabou expondo falhas nas cadeias de suprimento pelo mundo e a certeza de que fornecedores estarão sempre disponíveis se houver recursos financeiros em abundância foi colocada em xeque. Portos fecharam, fábricas pararam por meses, e um choque de oferta afetou os preços em todos os países. Logo depois, a guerra na Ucrânia piorou o cenário, com uma escassez importante na oferta de fertilizantes, essenciais para a agricultura moderna e de alta produtividade como a brasileira.

Não bastassem as guerras tradicionais, as guerras comerciais com seus tarifaços, sanções e bloqueios têm acrescentado uma camada de complexidade e riscos que os chineses agora buscam mitigar com sua nova política agrícola. Em um país tão populoso, que há poucas décadas experimentou momentos traumáticos por conta da fome, a alimentação é tema de segurança nacional.

A China é uma potência agrícola. Nenhum país produz tantos grãos quanto os chineses. Só no ano passado foram produzidas mais de 700 milhões de toneladas por lá, o dobro do que foi produzido no Brasil. Ainda assim, a China precisa ir ao mercado externo comprar mais cereais para alimentar sua população. Enquanto o país é recordista na produção de trigo e o segundo maior produtor de milho, é profundamente deficitário em soja, grão essencial para converter proteína vegetal em proteína animal na forma de frangos e porcos. Nos próximos cinco anos, a China quer ampliar em mais de 30% a sua produção de soja, hoje na casa de 20 milhões de toneladas.

Os chineses pretendem usar a mesma estratégia que vem sendo aplicada no Brasil: ampliar a produtividade de suas terras agricultáveis com tecnologia. A ideia é aumentar a mecanização do plantio e da colheita, desenvolver sementes transgênicas de maior produtividade e adaptação, além de desbravar terras áridas com o uso massivo de sistemas de irrigação. Outra estratégia é encurtar a distância e o tempo em que os grãos saem da terra e chegam às indústrias ou ao prato dos chineses. Para isso, o país está investindo em aprimorar sua cadeia logística e buscando aproximar as áreas de produção de grandes centros consumidores. A curto prazo, a estratégia tem dado resultado. Em julho de 2026, os alimentos estavam 1,5% mais baratos do que em julho de 2025 na China.

Além de ampliar a produção, os chineses também querem reduzir o consumo de grãos estratégicos, em especial a soja, na qual reside sua principal vulnerabilidade. Para isso, iniciaram um processo de substituição de ingredientes da ração básica para animais, dando mais espaço para um subproduto processado do milho, o DDG, e reduzindo o uso do farelo de soja. A longo prazo, a China não esconde que pretende se transformar em um país autossuficiente na produção do grão.

Mas essa, no entanto, não será uma tarefa fácil. Apesar de ser o maior país do mundo, a China não tem terras agricultáveis em volume suficiente para conseguir expandir sua produção de alimentos sem uma verdadeira revolução tecnológica no campo. Há espaço para aumento na produção, mas o limitador de terras talvez seja o principal empecilho para um crescimento exponencial no volume produzido no país. Hoje quase 30% do território chinês é composto por desertos, que demandariam esforços incríveis de logística e energia para torná-los aptos à produção. “A China dificilmente substituirá dezenas de milhões de toneladas de soja importada apenas aumentando sua produção doméstica”, diz Alê Delara, especialista em agro e diretor da Cartago Escola de Negócios. Delara sabe do que fala. Ele acompanha o agronegócio há quase 30 anos e examina com uma lupa as variações na produção chinesa. Para ele, a produção chinesa de soja seguirá limitada pela disponibilidade de terra e água, pelo clima e pela concorrência direta com outras culturas.

Esse parece ser um consenso entre analistas brasileiros que acompanham o mercado chinês. O economista Bruno Capuzzi, do Insper Agro Global, reforça esse diagnóstico. Ele diz que “não há espaço para aumento de área”, e o que resta à China é investir em ganhos de produtividade por hectare plantado. Pablo Ibañez, professor de geopolítica e coordenador do Centro de Estudos Avançados da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) concorda. Segundo ele, o setor agrícola não funciona como os setores industriais em que a China já obteve sucesso acelerado, como o de carros elétricos e a indústria de defesa. Agricultura, diz Ibañez, envolve variáveis que não podem ser totalmente domadas pela tecnologia. “Há condições climáticas, condições do solo, condições geomorfológicas, não é como desenvolver um novo motor e passar a fabricá-lo num ambiente controlado”, diz.

“Nós sabemos que quando a China põe metas nos planos quinquenais ela busca cumprir. Mas nos últimos anos a China tem comprado mais soja do que nunca”, diz Lucas Beber, produtor rural e presidente da Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja). Beber, assim como Ibañez e outros especialistas ouvidos pelo Meio, é cético em imaginar a China autossuficiente na produção de soja a curto e médio prazo. Os números explicam esse ceticismo: se a produção doméstica chinesa de soja gira em torno de 20 milhões de toneladas por ano, as importações somam mais de 100 milhões de toneladas na mesma safra. A distância entre esses dois números é grande demais para ser fechada apenas com ganhos de eficiência.

A aparente incapacidade chinesa de se tornar autossuficiente em soja não significa que o Brasil esteja livre de impactos importantes na balança comercial. Pouca gente acredita que haverá uma redução súbita nos embarques para a China se o plano agrícola divulgado recentemente for, de fato, colocado em prática. O risco está em uma desaceleração gradual, porém constante, da demanda chinesa. “O que preocupa, na verdade, é mais uma redução no poder de negociação do que um corte brusco no volume embarcado”, diz Henry Quaresma, conselheiro de administração da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Segundo ele, quando um comprador depende menos de um fornecedor específico, ganha margem para impor condições mais duras em preços, prazos e exigências sanitárias.

Por isso, especialistas como Delara acreditam que o efeito mais imediato de uma eventual redução de compras da China recairia sobre os preços, não sobre os volumes. Afinal, a soja que deixasse de ser comprada pela China precisaria encontrar outro destino e, como poucos países têm capacidade de absorção semelhante, o mercado teria de oferecer preços mais baixos para estimular a demanda. “Isso pressionaria Chicago, os prêmios nos portos brasileiros e, consequentemente, o preço recebido pelo produtor”, completa.

Ao mesmo tempo, Bruno Capuzzi descreve essa relação como uma dependência de mão dupla. “Se der um problema na safra brasileira, a China tem grande parte da sua segurança alimentar comprometida”, argumenta. “Do nosso lado, como a gente fala aqui, se a China espirrar, a gente pega um resfriado, tamanha a participação deles”. Ainda assim, ele pondera que essa mesma concentração pode se transformar em vantagem em um cenário de tensão entre Pequim e Washington, já que o Brasil se consolidou como um “fornecedor tradicional e seguro” para os chineses.

O histórico recente reforça esse pessimismo moderado. Beber, da Aprosoja, lembra que fatores internos chineses tendem a sustentar a demanda mesmo com o discurso oficial de contenção. “A população chinesa começa a envelhecer também, porque a taxa de natalidade é menor”, pondera. “Mas os chineses nos últimos anos têm melhorado a sua renda per capita, e ainda ocorre o êxodo rural, ou seja, pessoas indo para os centros urbanos que vão trabalhar na indústria, melhoram também essa capacidade de compra, e isso pode manter esse mercado estável.”

Isso não significa, porém, que o setor recomende acomodação. O momento, dizem os produtores, é de buscar novos parceiros comerciais, sem que isso signifique que a China deixe de ser o principal cliente do agronegócio brasileiro. Beber cita a Índia como um mercado de grande potencial futuro, tanto para a soja quanto para o milho. Mesmo com a peculiaridade de que cerca de 40% dos indianos sejam vegetarianos e mais de 80% limitam de alguma forma o consumo de carnes, o Brasil poderia impulsionar seu mercado de lácteos e, no caso do milho, se não for para a ração animal, o grão pode ser direcionado à produção de biocombustíveis, dado o compromisso indiano com metas de redução de emissões de gases poluentes.

Mas a saída mesmo para um problema que se aproxima, dizem os especialistas, seria o Brasil ampliar o valor do que produz. “Ainda exportamos muitas commodities e capturamos apenas uma parte do valor gerado pelas cadeias produtivas”, diz Henry Quaresma. Mais processamento e mais tecnologia no produto gerariam mais renda. Até lá o país precisa se preparar para os impactos de uma política estatal que, sem dúvida alguma, trará impactos importantes para a economia brasileira. Procurados, o Ministério da Agricultura e da Pecuária e o Ministério da Fazenda não se manifestaram sobre o tema.



Ruy Castro - Lixão de cacarecos em órbita, FSP

 Começou em outubro de 1957, quando a URSS botou no espaço o Sputnik, o primeiro satélite artificial. Dava 15 voltas por dia ao redor da Terra e, quando passava sobre os EUA, seu "bip-bip" —o único som que emitia— era captado pelos radioamadores e aterrorizava os ingênuos americanos. Um mês depois, em novembro, antes que os EUA pudessem respirar, a URSS mandou outro, o Sputnik 2, tendo a bordo uma infeliz cachorrinha vira-lata, Laika, que não sobreviveu para contar. Os EUA, já com 2 a 0 contra, lançaram o deles em janeiro de 1958, o Explorer, e logo depois equilibraram o jogo. Começava a guerra nas estrelas, com um infernal disparo de satélites.

Em 1959, um deles caiu no galinheiro de Oscarito, no filme "O Homem do Sputnik", dirigido por Carlos Manga, talvez a melhor chanchada da Atlântida. No Carnaval de 1961, em "A Lua é dos Namorados", marchinha de Klecius Caldas e Armando Cavalcanti, Ângela Maria protestou com "Lua, ó Lua/ Querem te passar pra trás/ Lua, ó Lua/ Querem te tirar a paz".

Em 1965, Pery Ribeiro e Leny Andrade intitularam "Gemini V", missão tripulada da Nasa que ficou uma semana no espaço, um dos shows mais vibrantes da chamada Space Age. E, em 1967, Gilberto Gil fez coro à angústia de "A Lua é dos Namorados" com a marcha bossa nova "Lunik 9", sonda soviética que pousara na Lua e enviava fotos para a Terra.

O problema é que tudo que se manda para o espaço, exceto os humanos, fica por lá e, nesses quase 70 anos, o cinturão de cacarecos em órbita chegou a níveis dramáticos. Estima-se que haja hoje 1 milhão de objetos de até 10 cm em órbita, voando a 28 mil quilômetros por hora, e dezenas de milhares maiores do que isso. Só que o choque de uma arruela de 2 cm contra uma nave pode furar o revestimento desta e provocar despressurização. Colisões geram mais detritos e estes, ainda mais poluição.

O homem não se contenta em emporcalhar as terras, os mares e a atmosfera. Manda sua sujeira até para o espaço e periga fazer de nós o galinheiro do Oscarito.

Lixo espacial
Imagem gerada pela Agência Espacial Europeia (ESA) mostra a Terra cercada por milhares de pontos que representam o lixo espacial - Divulgação/ESA

Celso Frateschi, agora em 'Dois Papas', narra sua vida pelos palcos e pela política, FSP

 Cristina Camargo

São Paulo

Um teatro engolido por uma grande obra, em uma cidade que beira o caos, parece um argumento instigante para uma dramaturgia. Porém, a história é real e faz parte da trajetória do ator e diretor Celso Frateschi, 74, há cinco décadas nos palcos.

"Tentou engolir. A gente não entrega os pontos assim. Acho que tem muita coisa para acontecer", ele corrige sobre o antigo prédio do teatro Ágora, localizado no Bexiga, que desabou parcialmente em dezembro de 2024, após a abertura de uma cratera nas obras da linha 6-laranja do metrô na capital paulista.

O novo prédio do teatro, onde também fica a casa de Frateschi e de sua mulher, a arquiteta e cenógrafa Sylvia Moreira, não foi danificado e há a expectativa de que o antigo seja recuperado pelo Metrô, após o final das obras.

A negociação, segundo ele, é civilizada e não tem a violência sentida por grupos como a Cia. Munguzá, despejada pela prefeitura do Teatro de Contêiner, na Luz, onde o terreno dará origem a um projeto habitacional.

"Eu, particularmente, não gosto muito da vitimização que fazemos de nós mesmos. Parece que, quando a gente se vitimiza, a gente já perdeu", afirma.

O segundo Ágora, na rua Rui Barbosa, tem uma sala com 50 lugares, escritório, café e jardim. Antes da obra, funcionava como uma extensão do primeiro. No dia do desabamento, Frateschi estava no espaço e foi avisado por um funcionário do Metrô sobre a necessidade de sair com urgência. "Foi um susto", diz. Três horas depois, o prédio foi liberado e segue intacto.

Não foi o primeiro sobressalto do artista, preso aos 17 anos, na ditadura, quando integrava a Ala Vermelha, dissidência do Partido Comunista do Brasil. Estudava teatro com Cecília Boal e Heleny Guariba, depois torturada e assassinada na Casa da Morte, em Petrópolis.

"Eu fui preso, a Dulce [Muniz] foi presa, o [Augusto] Boal foi preso, torturado e exilado, o Izaías Almada foi preso, a Denise [Del Vecchio] foi presa. Esse era o clima que se vivia", diz.

A segunda prisão, no inverno de 1973, na sobreloja do Theatro São Pedro, na Barra Funda, aconteceu no meio do espetáculo "A Queda da Bastilha", que começava na rua. Frateschi interpretava um guardador de carros e Denise, com quem era casado, uma vendedora de flores.

O grupo teatral já havia percebido uma movimentação estranha de Chevrolet Veraneios nos arredores, um dos sinais de alerta mais temidos da época. O elenco sabia identificar quando os veículos pertenciam à polícia: havia um miolo pintado de branco nas rodas.

"Quando entrei, eles mostraram o revólver e me prenderam", lembra. A atriz explicou que o homem detido era um ator e seu marido e, em seguida, também recebeu ordem de prisão.

Foram três semanas sob pressão psicológica no DOI-Codi, um centro de detenção, tortura e morte na rua Tutóia, na Vila Mariana. O ator sabia que a mulher também estava ali, o que aumentava o desespero. Em uma das noites, foi colocado na mesma cela que o irmão, Paulo Frateschi, militante da ALN, a Aliança Libertadora Nacional.

"Acho que talvez fosse alguma estratégia para fazer com que meu irmão confessasse alguma coisa para mim", diz.

Nascido na Lapa, na zona oeste, Frateschi está nos palcos desde a década de 1970, quando o Teatro de Arena era sua segunda casa e Boal, referência —inclusive, fez parte do Teatro Jornal 1ª Edição, embrião do Teatro do Oprimido.

Perdeu as contas dos papéis no teatro, cinema e televisão até chegar a "Dois Papas", peça agora em cartaz no Tuca, em sequência ao sucesso iniciado no ano passado e que já passou por várias cidades do país. No papel do cardeal Jorge Bergoglio, depois papa Francisco, ele apresenta um duelo moral e religioso ao lado do amigo Zécarlos Machado, como o papa Bento 16, sob a direção de Munir Kanaan.

Frateschi diz ter tido espaço próprio nos grupos de que participou. Depois do Arena e do São Pedro, criou o Teatro Núcleo Independente, em São Miguel Paulista, na zona leste, em parceria com associações de bairro, igrejas e escolas.

Homem idoso com óculos e expressão neutra veste batina preta com detalhes vermelhos e crucifixo prateado pendurado no pescoço, fundo preto.
Celso Frateschi caracterizado como o cardeal Jorge Bergoglio, depois papa Francisco, na peça 'Dois Papas' - Divulgação/Ale Catan

O teatro no Bexiga é fruto de duas derrotas, depois que ele e o diretor Roberto Lage não tiveram os projetos selecionados em um edital para ocupação do Teatro de Arena Eugênio Kusnet.

Os dois e Sylvia Moreira alugaram um espaço que estava fechado e idealizaram o centro cultural inaugurado em 1999, voltado para apresentações, cursos e reflexões teatrais. O trio estabeleceu quatro eixos que ainda norteiam as atividades, mas hoje Lage não faz mais parte da sociedade.

Frateschi afastou-se do espaço quando foi secretário de Cultura de Marta Suplicy, entre 2003 e 2004, após ter sido secretário de Educação e Cultura de Santo André na gestão Celso Daniel. Presidiu ainda a Funarte entre 2007 e 2008, no segundo governo Lula, experiência que deixou cicatrizes.

O ator renunciou ao cargo por meio de carta enviada ao então ministro da Cultura, Juca Ferreira, dois dias após O Globo publicar uma reportagem sobre suposto favorecimento ao Ágora. Havia também atritos com funcionários —a associação que representa a categoria acusou a gestão de Frateschi de ser autoritária e criar um clima de intimidação.

"Eu não tive um dia que não fosse de greve, desde que entrei até o dia em que saí", afirma.

Com Juca Ferreira, os embates eram em torno da forma de administrar a cultura. "Ele era um dos adeptos da indústria cultural. Todos os argumentos eram o quanto a cultura gera em termos de dinheiro. Tudo isso eu acho um equívoco total, mas era isso".

Os projetos atrasados da Lei Rouanet e a localização da sede da Funarte no Rio de Janeiro, longe de Brasília, também foram entraves para a gestão.

Frateschi acredita ter sido vítima de um processo de fritura, vindo de cima. Segundo ele, a acusação de favorecer o Ágora é mentirosa e foi criada após o teatro receber atrasado o segundo pagamento de um projeto aprovado anteriormente pela Petrobras.

Ao contrário do que muitos pensam, o ator diz que não é filiado ao PT e critica a gestão federal da cultura sem preocupação com possíveis reprimendas partidárias. "Sinceramente, ainda vejo o Ministério da Cultura preso nos padrões mais neoliberais da indústria cultural. Não consigo ver nenhuma ação mais concreta."

Para ele, as leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo, de incentivo cultural, deveriam ser um laboratório para o Sistema Nacional de Cultura, mas isso não ocorre por problemas de definição de critérios e fiscalização sobre o destino dos recursos.

Frateschi também enxerga um ainda mal aproveitado potencial de desenvolvimento do cinema brasileiro. Diz compreender, no entanto, que nada acontece por decreto e que há a necessidade de muita negociação em relação às decisões governamentais.

Curso de teatro na antiga sede do Ágora, em 2018 - Keiny Andrade/5.mai.18/Folhapress

Antes de ser secretário, integrou o Arte contra a Barbárie, movimento de grupos teatrais paulistanos contra a mercantilização das artes no fim da década de 1990. Ele mantém a defesa da cultura como direito de cidadania, "muito diferente do que está acontecendo agora".

"O cidadão tinha que ter acesso ao bem cultural, aos instrumentos para se desenvolver culturalmente. Isso eu acho que seria o papel do Estado. E hoje o papel é financiar grupos".

As mobilizações também são diferentes, na visão do artista, e ocorrem apenas nas urgências. Um exemplo seria a "situação nonsense" enfrentada por grupos teatrais em relação à Lei de Fomento, com entraves burocráticos e atrasos na gestão Ricardo Nunes, do MDB.

Enxuto e aberto também à locação para filmagens, o Ágora sobrevive com marido e mulher segurando as pontas, muitas vezes com recursos de trabalhos realizados fora do espaço cultural do Bexiga.

O espírito de Augusto Boal paira no local por meio de um grupo comunitário que se reúne aos domingos. Moradores da região e de outros bairros fazem ali um teatro não profissional, com expectativa de se apresentarem ao público até o fim do ano.

Outra lembrança inevitável é a do irmão morto aos 75 anos após ser esfaqueado pelo filho durante um surto psiquiátrico, em novembro do ano passado. "Meu irmão era meu herói. Um baita cara", diz sobre o ex-deputado estadual Paulo Frateschi.

O dirigente histórico do PT já perdera dois filhos, de sete e 16 anos, em acidentes distintos, em 2002 e 2003. Francisco Frateschi, que matou o pai, sofreu acidente grave, passou por cirurgias, faz tratamento com medicamentos e foi internado após o crime.

"Encaro como uma tragédia mesmo. A tragédia não pressupõe culpados. O teatro ensina a gente a ver essa fragilidade humana, que conhecemos muito pouco", diz sobre o destino do irmão.

Dois Papas