terça-feira, 22 de setembro de 2026

Menopausa foi uma das melhores coisas que me aconteceram, diz Rosa Montero - Fernanda Mena - FSP

 Fernanda Mena

São Paulo

Envelhecer não significa abrir mão do desejo, tornar-se invisível ou viver entre o luto pelo passado e o temor do futuro cada vez mais pressionado. Aos 75 anos, a escritora espanhola Rosa Montero diz que a passagem do tempo intensifica a experiência de estar viva.

"Cada momento fica pintado de purpurina, de cores, de faíscas, de luzes. A vida fica mais intensa", afirma ela, que diz ter começado um livro sobre o tema enquanto lança no Brasil o seu "A Carne" (Todavia).

Publicado na Espanha há 10 anos, o romance acompanha Soledad, uma mulher de 60 anos que contrata um gigolô para fazer ciúmes no amante que a abandonou, e que teme morrer sem nunca ter sido amada como gostaria.

Retrato da jornalista e escritora espanhola Rosa Montero, que lança no Brasil seu romance "A Carne", lançado dez anos atrás na Espanha - Adriano Vizoni/Adriano Vizoni/Folhapress

Naquela ocasião, Montero foi celebrada pela "coragem de escrever sobre o desejo de uma mulher de 60 anos". "Aquilo me deixou estupefata porque, para mim, era a coisa mais normal do mundo!"

A escritora, que é autora de um curso sobre escrita na Casa Folha, acredita que muitas das narrativas que cercam a maturidade feminina funcionam como prisões para as mulheres e ainda refletem uma visão patriarcal segundo a qual perder a capacidade de gestar é torna-se menos mulher, o que faz com que a menopausa seja "demonizada".

"É um discurso machista e falso porque, ao contrário, você se sente uma maravilha. Liberada de um monte de coisas", afirma sobre o fim das cólicas, das enxaquecas e do receio de engravidar. "A menopausa foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida."

Autora de uma obra marcada por reflexões sobre a morte, a identidade e o tempo, Montero vê conexões entre o avanço na desconstrução do sexismo e o crescimento de forças reacionárias. "Nessas voltas para trás, as mulheres costumam ser as primeiras vítimas."

Para ela, a batalha atual extrapola o âmbito dos costumes para opor democracia a novas formas de tirania. "Não é algo só contra as mulheres. É tremenda a força neofascista que está atravessando o mundo."

Testemunha da ditadura franquista até seus 24 anos, a escritora alerta para o avanço de movimentos que pretendem restringir direitos conquistados ao longo de séculos. "A pior democracia é mil vezes melhor do que a melhor ditadura."

A protagonista de A Carne, Soledad, é uma mulher de 60 anos que deseja uma relação e tem medo de não ser amada. Houve alguma mudança na percepção pública do desejo de uma mulher de 60 anos nesses dez anos entre a publicação de A Carne e sua chegada ao Brasil? Não sei. Quando o livro saiu, há dez anos, me surpreenderam algumas perguntas que me fizeram, casualmente entrevistadores homens. Um deles, por exemplo, ao vivo numa televisão, me disse: "Gostamos muito do livro porque ele é muito corajoso. Você se atreve a falar do desejo de uma mulher de 60 anos".

Aquilo me deixou estupefata! Primeiro porque não era a minha intenção, e esse não era o tema do livro. Depois porque não me parecia corajoso falar do desejo de uma mulher de 60 anos, me parecia a coisa mais normal do mundo.

Eu disse: "Olha, eu tenho um monte de amigas dessa idade e todas temos namorados e amantes. Nunca paramos. É a coisa mais natural. Você diria isso a [o vocalista dos Rolling Stones] Mick Jagger, por exemplo? Acharia estranho o Mick Jagger, com mais de 80 anos, ter namoradas? Não".

Então, não sei se melhoramos nisso ou não. Dez anos também não é muito tempo para mudar preconceitos profundos.

E qual é o tema do seu livro? O que eu queria fazer com esse livro era me perguntar o que acontece com uma pessoa que começa a envelhecer pensa que nunca conheceu o amor e que pode morrer sem conhecê-lo.

E, quando terminei o livro percebi que há muitíssimas mulheres e homens que tiveram amores —casamentos de 20, 30 anos, sete filhos, vidas aparentemente estáveis— e que, no entanto, sentem que nunca foram amados da maneira como queriam ser amados.

Nesse sentido, lembro de uma frase tremenda do Oscar Wilde: "Para a maioria de nós, a verdadeira vida é a que não vivemos". Há pessoas que têm marido, esposa, uma relação de décadas e mesmo assim sentem que nunca foram amadas de verdade.

E quando você começa a ficar bem mais velha, como começa a acontecer comigo, existe uma sensação tão vertiginosa de que o tempo está acabando que a vida começa a ficar ainda mais intensa. É bonito.

Rosa Montero

autora de "A Carne"

Você já citou outra frase do Oscar Wilde sobre o fato de a pessoa envelhecer por fora, mas não por dentro. Como a tensão entre o desejo e um corpo que envelhece aparece em "A Carne"? Neste, como em absolutamente todos os meus romances, se fala da morte. Sou uma escritora muito obcecada pela morte, pelo sentido da vida diante da morte, pelo passar do tempo e pelo que o tempo faz conosco. Porque viver é desfazer-se no tempo.

Para mim, envelhecemos desde o berço. Você começa a precipitar-se rumo à morte e a perder coisas. O tempo vai tirando possibilidades, tirando futuro. E o que isso nos dá? Poucas coisas, mas algumas.

Se você estudar e refletir, você pode se tornar mais sábio. Não é que a sabedoria venha automaticamente com a velhice. Conheço muitos velhos completamente imbecis.

E quando você começa a ficar bem mais velha, como começa a acontecer comigo, existe uma sensação tão vertiginosa de que o tempo está acabando que a vida começa a ficar ainda mais intensa. É bonito. Há uma sensação de que cada momento está pintado de purpurina, de cores, de faíscas, de luzes. Porque cada momento importa, é bonito e vale a pena.

Acho que você começa a viver como nos primeiros cinco anos de vida, quando estava descobrindo o mundo. E agora, quando chega a uma certa idade, é como se estivesse quase se despedindo do mundo de alguma maneira. E isso dá a mesma intensidade.

Ilustração mostra uma mulher de costas com cabelos longos e grisalhos, usando maiô preto, segurando uma romã aberta acima da cabeça. Fundo noturno com lua crescente e estrelas, e vegetação verde ao redor.
Capa do livro "A Carne" (Todavia), da escritora e jornalista espanhola Rosa Montero - Divulgação

Quando você escreveu o livro, menopausa e perimenopausa eram temas pouco discutidos. O que mais surpreende você neste debate atual? Essa obsessão com a menopausa, por um lado, é positiva, porque estamos adquirindo voz pública e falando de coisas importantes para nós. Acho que ainda circulam muitíssimos preconceitos sobre a menopausa, dos quais nós mulheres somos prisioneiras, porque também somos educadas no machismo e na ideologia sexista.

A menopausa está sendo demonizada, transformada publicamente numa doença. Claro que pode haver mulheres que sofram muito, não duvido disso. Mas é um percentual mínimo. Claro que há incômodos: suores, insônia, calorões. Mas os homens também têm andropausa. A diferença é que nós passamos por isso em três ou quatro anos, e eles, em dez. Só que ninguém fala disso.

Para mim, por exemplo, a menopausa foi maravilhosa, uma das melhores coisas que me aconteceram na vida. Tive enxaquecas horríveis ligadas a hormônios desde os 13 anos. Passei a vida me drogando para suportar dores espantosas. Tive menstruações dolorosas a vida toda. E, de repente, tudo isso desaparece. Não tenho mais dores de cabeça, não tenho mais aquelas regras horríveis. E você não engravida mais. Que libertação maravilhosa! Conheço muitas mulheres que se sentiram exatamente assim.

Qual é a importância da história que contamos a nós mesmas sobre essa fase da vida? Tremenda. É muito bom que coloquemos as nossas coisas em primeiro plano. O discurso sobre a menopausa está preso ao discurso patriarcal. A ideia de que a menopausa é uma doença, de que você perde o "ser mulher" porque perde a capacidade de gestar, como se esse fosse o único propósito da mulher.

Ao contrário: você se sente maravilhosa. Libertada de um monte de coisas. Pode fazer amor sem medo de engravidar. É maravilhoso. Insisto: uma das melhores coisas que me aconteceram na vida.

Você já disse algumas vezes que as pessoas vão se desfazendo no tempo. Neste processo, uma mulher pode desaparecer socialmente? Esse é outro clichê terrível. É um tópico absurdo.

Mulheres de 40 anos me disseram: "Você fica invisível". E eu olho hoje para os meus 40 anos e me vejo quase adolescente. Eu digo para essas mulheres: "Vocês acham que são invisíveis? Olhem para os homens mais jovens e verão como eles olham para vocês".

Antes nós não tínhamos visibilidade social porque ocupávamos apenas os calendários de mulheres de maiô. Mas agora ocupamos todos os tipos de cargos, somos presidentes de países, cientistas, escritoras. Ainda não é totalmente igualitário, mas mudou muitíssimo.

Nesses dez anos houve um avanço na desconstrução do sexismo, mas também vimos crescer no mundo inteiro uma força reacionária muito grande, que quer nos levar de volta a situações obsoletas e terríveis.

Então existe uma parte da sociedade muito mais adaptada às múltiplas realidades da vida e outra força retrógrada que se escandaliza com essas coisas.

Por que o avanço dos direitos das mulheres provoca tanta reação? Não é só esse conflito. Estamos numa verdadeira batalha entre democracia e novas formas de tirania. E quando há uma força retrógrada, as primeiras que querem colocar dentro de casa somos nós, mulheres. Mas não é algo só contra as mulheres. É tremenda a força neofascista que está atravessando o mundo.

Precisamos ficar muito atentos para manter conquistas sociais obtidas com muito sangue, suor e lágrimas nos últimos dois séculos porque podemos perdê-las.E precisamos refundar a democracia, porque a democracia que temos é uma democracia falida, que deu origem a esses problemas. Grande parte da população mundial não se sente defendida pela democracia —e tem razão.

Mas eu, que nasci e vivi até os 24 anos numa ditadura, posso garantir que a pior democracia é mil vezes melhor do que a melhor ditadura. Hoje existem pessoas muito poderosas, como o bilionário do Vale do Silício, Peter Thiel, dizendo abertamente que a democracia precisa acabar. Então precisamos estar muito atentos. Nessa volta para trás, as mulheres sempre somos as primeiras vítimas.

Você já disse que escreve para lutar contra o tempo e a morte. Como isso se relaciona com a tatuagem que fez do verso "Nem pena nem medo"? É um verso maravilhoso do poeta chileno Raúl Zurita que foi escavado no deserto do Atacama. Caminhei sobre essas letras ciclópicas de 1,4 quilômetro com 100 metros de altura cada letra. Achei muito bonito, sobretudo para esta etapa da vida, para envelhecer. Porque, à medida que você envelhece, sente mais pena pelo tempo passado e mais medo do que pode vir. E acho que precisamos tentar viver sem pena e sem medo.

RAIO-X
Rosa
Montero, 75

Nasceu em Madri em 1951. Entrou no jornal El País em 1977, onde é colunista até hoje, e estreou na ficção em 1979. Publicou mais de 30 livros, entre coletâneas jornalísticas, romances e literatura infantojuvenil. No Brasil, foram publicadas obras como "Lágrimas na Chuva" (Nova Fronteira), "A Ridícula Ideia de Nunca Mais te Ver", "A Boa Sorte", "O Perigo de Estar Lúcida" (os três da Todavia) e "A Louca da Casa" (editado pela Rocco, HarperCollins e agora reeditado na Todavia).

A Carne

  • Preço R$ 84,90 (208 págs.); e-book R$ 59,90
  • Autoria Rosa Montero
  • Editora Todavia

Brasil não cabe no quintal de ninguém, diz Lula na ONU sem mencionar EUA - FSP

Nova York

"O Brasil não cabe no quintal de ninguém", disse o presidente Lula (PT) na ONU, nesta terça-feira (22), em discurso marcado por constantes referências contrárias à interferência externa na América Latina. Sem mencionar nominalmente os Estados Unidos, o presidente falou reiteradamente sobre as ações do governo de Donald Trump.

"Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais", disse o petista. "Diferências ideológicas não devem ser obstáculo para integração entre vizinhos. A democracia está em xeque", seguiu, após mencionar interferências praticadas pela "maior potência militar do mundo", os EUA.

Homem de terno escuro e gravata listrada fala em púlpito com símbolo da ONU. Segurança uniformizado está ao fundo.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa na 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, nesta terça-feira (22) - Angela Weiss/AFP

O tema permeou sua fala e voltou com maior clareza ao final. Lula mencionou as eleições do próximo dia 4, nas quais concorre à reeleição e tem no senador Flávio Bolsonaro (PL) o seu maior adversário. Afirmou que o país terá um pleito transparente e competitivo.

"Um pleito no qual os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão", seguiu. E acrescentou, em referência indireta à família Bolsonaro: "Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país."

"Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular", continuou o presidente, que adendou que "a democracia brasileira pertence aos brasileiros".

Ele não foi aplaudido pela delegação dos EUA presente na plenária das Nações Unidas, ainda que depois, quando Trump discursou na sua sequência, tenha aplaudido o americano, com pouco entusiasmo.

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A fala do brasileiro, arredondada com cuidado durante a tarde desta segunda-feira (21), teve forte tom eleitoreiro. Lula fez menção a diversos feitos de seu terceiro mandato em Brasília, como programas de combate à desigualdade de gênero e combate ao crime.

E se referiu a si próprio como "um operário eleito três vezes presidente e que retirou o Brasil do Mapa da Fome".

Nesse sentido, ele também fez breve menção às tarifas impostas por Washington a produtos brasileiros, tema central na mesa de debate dos dois países. Lula disse que, a despeito do chamado tarifaço, o Brasil bateu novo recorde de exportações este ano. Também lembrou o Pix, ferramenta de pagamentos instantâneos do Banco Central que foi alvo de críticas dos EUA.

Ele abriu os discursos de chefe de Estado no evento, função que cabe tradicionalmente ao Brasil. Como era esperado, também falou sobre o crime organizado, bandeira dos EUA nas Américas: "O Brasil não subestima o crime organizado. Estamos preparados para enfrentar os criminosos. Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas armas."

Mais uma vez, tratava-se de uma referência indireta a Washington, que tem promovido ataques a embarcações no Caribe, que afirma serem de traficantes.

Lula está entre os chefes de Estado que por mais vezes discursaram na Assembleia Geral. Hoje em seu terceiro mandato, ele já compareceu ao evento dez vezes —ficou de fora em 2005, na época do escândalo do Mensalão, e em 2010, quando preparava a campanha da ex-presidente Dilma Rousseff para sucedê-lo.

Há temas que aparecem em seu discurso independentemente da agenda doméstica ou internacional naquele ano: a necessidade de reforma do Conselho de Segurança da ONU, o órgão que, com seus cinco membros permanentes com poder de veto tem o maior poder decisório da organização; e a necessidade de combater a fome e pobreza no mundo.

Não foi diferente desta vez. Lula falou longamente sobre o fracasso do Conselho, que descreveu como não cumpridor de seu papel, e do imobilismo global. Lembrou, como é fato, que no ano passado o mundo acumulou o maior número de conflitos desde a Segunra Guerra Mundial. E disse que há uma nova guerra armamentista em curso.

Sobre os dilemais mundiais, fez menção especial ao que ocorre no Oriente Médio, mais especificamente em Gaza, com os ataques de Israel, e no estreito de Hormuz, afetado pela guerra no Irã.

"Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo [de Beyamin] Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza", disse, ao que logo somou: "[E] civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas."

Neste ano, sua ida a Nova York se dá sob dois precedentes importantes. O primeiro, a eleição no Brasil daqui a duas semanas. O segundo, a frágil relação bilateral com o governo de Trump, que aplicou tarifas econômicas contra o Brasil, muito maiores que as designadas a outros países, e tem tentado interferir no processo internacional.

Boa parte do que disse na ONU já havia sido adiantado pelo petista em outras declarações dadas em Nova York, em especial a defesa da soberania brasileira contra interferências de outros países.

Na véspera de discursar no plenário, ele se reuniu com adversários de Trump: primeiro, o prefeito de Nova York, o socialista democrata Zohran Mamdani; depois, o senador independente Bernie Sanders. Ele também concedeu entrevista à CNN internacional, quando voltou a chamar o republicano de "imperador" e criticar o que chama de uma guerra econômica em curso no mundo.

A delegação brasileira também recebeu, entre muitos outros, um pedido para se reunir com a líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, feito há mais de uma semana. A delegação de Caracas ficou sem resposta, deixando em aberto a possibilidade de que ainda haja um encontro com o chanceler Mauro Vieira, que segue em Nova York.

O presidente retornou ao Brasil pouco após discursar no plenário da organização para seguir com sua agenda de campanha. Ele não falou com a imprensa.