Os bancos brasileiros passaram os últimos meses aprendendo a ser fazendeiros. Com a inadimplência no agronegócio, a retomada de terras oferecidas em garantia ganhou espaço em seus patrimônios. Agora, perigam tornar-se verdadeiros "bancos imobiliários".
Bradesco, Itaú e Santander encareceram o financiamento da casa própria, mesmo com os recentes cortes da Selic. Eles se amparam nos juros futuros, que indicam quanto o mercado espera pagar pelo dinheiro nos próximos anos. Afinal, o banco empresta por décadas, não até a próxima reunião do Copom.
O mercado já cobra mais caro pelo futuro, diante da trajetória de gastos do governo Lula, agora reeleito, e do custo das bondades anunciadas na campanha.
Segundo reportagem da Folha, o Bradesco elevou uma de suas taxas de financiamento de 11,69% para 13,60% ao ano, um salto de quase dois pontos percentuais. No Santander, a taxa mínima subiu para 12,49%, enquanto o Itaú aumentou seus juros de 11,99% para 12,95% ao ano. Essas taxas ainda podem vir acompanhadas da TR (Taxa Referencial), que corrige o saldo devedor, além de seguros e despesas.
O aumento encontra famílias já sem espaço no orçamento. Em setembro, 81,7% estavam endividadas, segundo a Confederação Nacional do Comércio; quase 3 em cada 10 tinham contas em atraso.
Quem já contratou financiamento prefixado não verá a taxa mudar de uma hora para outra. Mas famílias atoladas que entrarem em um financiamento com taxas sufocantes estão propensas a, em caso de dor de barriga, perder o imóvel para o banco.
Com a inadimplência imobiliária, a retomada de garantias pode aumentar, como no caso das fazendas. Mas vou contar um segredo: bancos detestam ter imóveis, pois são ativos que geram custos e se deterioram em suas mãos. Para quem tiver dinheiro no bolso e souber avaliar documentação, preço e risco, leilões de imóveis retomados podem ser um excelente investimento. É onde os bancos acabam "queimando o estoque".
Não se pode tratar dessa questão com leviandade, como se envolvesse apenas clientes, bancos e investidores. O aumento do preço do financiamento, da inadimplência e, possivelmente, da retomada de imóveis é uma doença para a economia do país.
Lula foi eleito presidente pela quarta vez. A meu ver, o fato de Flávio Bolsonaro ser intragável pesou mais do que a aprovação da política econômica. A eleição passou, mas a conta dos gastos públicos continua aberta e a mudança das taxas mostra que ela atrapalha a prosperidade.
Conversando sobre os possíveis ajustes com Tatiana Pinheiro, economista e pesquisadora da FGV-EESP, ela chamou a atenção para uma gordura que costuma sobreviver às reformas: os gastos tributários, benefícios e renúncias de impostos para apoiar setores específicos. O TCU estima que o governo deixará de arrecadar R$ 612,8 bilhões com isso em 2026.
Reduzir essa conta não significa sair aumentando impostos, mas perguntar se o tributo que deixamos de cobrar produziu emprego, investimento e produtividade. A conta pública pode ser ajustada com régua ou com incêndio. Quanto mais Brasília adia a conversa, mais se aproxima da segunda opção, com taxas exorbitantes afastando a população da casa própria.

