terça-feira, 13 de outubro de 2026

Em ditadura, o indivíduo é destruído pela submissão ou pela recusa dela- João Pereira Coutinho - FSP

 Lamento. Nunca li Anne Carson, prêmio Nobel de Literatura. Digo que lamento porque, nos minutos seguintes ao anúncio do prêmio, fiquei pasmo com a quantidade de especialistas e leitores que conheciam a escritora desde o berço.

Não é a primeira vez. Sempre que o Nobel é anunciado para autores menos comerciais, a mídia e as redes são tomadas de assalto por legiões de fãs que aplaudem e declaram como "óbvia" a escolha da Academia Sueca.

Labirinto retangular desenhado em vermelho com caminhos estreitos e múltiplas bifurcações. Entrada visível no canto inferior direito e saída no canto superior direito.
Angelo Abu

O vexame é meu, não nego: sempre chego atrasado a coisas óbvias. Só agora, para dar um exemplo, conheci Herta Müller, premiada em 2009. Sinto que ainda estou em tempo. Romances como "Fera d’Alma" ou "O Compromisso" são, na literatura contemporânea, retratos ímpares do que significa a vida sob o jugo totalitário.

Nesse particular capítulo, Herta Müller tinha um conhecimento pessoal da matéria: nascida na Romênia, no seio de uma família germânica, ela cresceu à sombra do passado nazista da sua comunidade suábia, que marchara voluntariamente por Hitler; e conheceu depois o zelo com que tantos romenos serviram ao regime comunista.

Os romances merecem ser lidos, repito. Mas, antes deles, aconselho uma longa conversa autobiográfica com Angelika Klammer, publicada no Brasil pela Biblioteca Azul com o título "Minha Pátria era um Caroço de Maçã". É uma das minhas leituras de 2026.

A pátria é a Romênia do tempo de Nicolae Ceausescu, seguramente um dos mais repressivos regimes do Leste Europeu. Repressivo e involuntariamente cômico, como é habitual nas grandes tragédias humanas: no mundo de escassez material em que Müller cresceu, as páginas do jornal substituíam muitas vezes o papel higiênico. Desde que, naturalmente, fotos com o rosto de Ceausescu não fossem usadas para o serviço.

Rimos de episódios desses. Mas o riso se apaga quando encontramos reflexões mais sombrias sobre a natureza do poder ditatorial. O indivíduo, na Romênia, era destruído de duas formas: pela submissão e pela recusa da submissão, explica a autora. É uma forma paradoxal de descrever o labirinto da tirania.

Pela submissão, o indivíduo tinha uma carreira e, com sorte, a possibilidade de ascender à "nomenklatura". Pelo caminho, perdia apenas a sua humanidade.

A opção pela insubmissão poderia salvar a alma, mas nem sempre o corpo: a Securitate, polícia política do regime, encarregava-se dessa dolorosa verdade com os seus métodos de tortura.

Herta Müller descreve os interrogatórios a que foi submetida com uma desconcertante mistura de coragem e incredulidade. E descreve, como raramente vi, o tipo de "igualdade" que o regime permitia: a igualdade da feiura.

Edifícios, ruas, roupas, carros —um mundo deliberadamente cinzento, como se até a beleza fosse suspeita. "A sede de viver nos torna espontâneos e, por isso, imprevisíveis", diz ela. Não há nada que mais atemorize uma ditadura do que a espontaneidade dos seus cidadãos. A feiura entediante e o álcool barato eram as únicas abundâncias que o regime produzia.

Era também por isso, acrescenta Müller, que ela fazia questão de comparecer aos interrogatórios na sua melhor versão: as roupas mais belas, a maquiagem mais cuidada. Quando não podemos gritar, esperamos que o corpo grite por nós.

Não que isso alterasse significativamente o jogo. A Securitate estava em toda parte e nem precisava de grandes gestos de terror. Bastavam os pequenos. Como, por exemplo, deixar alguns objetos da casa da escritora fora do lugar. Uma forma perversa e sutil de anunciar: "Temos as chaves."

Aliás, por falar em gestos perversos e sutis, como esquecer a data que o regime carimbou no passaporte da escritora quando finalmente permitiu que ela partisse para a Alemanha em 1987? "29 de fevereiro". Um dia inexistente naquele ano, só para que as autoridades alemãs desconfiassem de que estavam recebendo uma espiã, não uma exilada política.

O regime ruiu em 1989. Ceausescu e a mulher foram julgados sumariamente e fuzilados por militares. Já muitos dos seus lacaios passaram discretamente para a vida civil e democrática da nova Romênia.

Herta Müller testemunhou essa metamorfose: regressou a Bucareste em 1990 e, como que por ironia do destino, reencontrou na rua o seu antigo inquisidor. O homem tremeu de medo ao vê-la porque havia sempre a possibilidade de ser denunciado e linchado pela população ao redor.

Não conto o desfecho do encontro porque, a rigor, nunca há um desfecho para as vítimas do poder autocrático. A obra de Herta Müller, de uma beleza misteriosa e violenta, é essa ferida aberta.