quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Ernesto Rodrigues - Culpar a imprensa é mais fácil que encarar os erros de Lula e a força de redes sociais- FSP

 Ernesto Rodrigues

Jornalista. Autor da trilogia "A Globo"

[RESUMO] A imprensa brasileira, defende o autor, se compara a um par de faróis, às vezes desregulado e geralmente iluminando mais à direita, mas conduzido pela sociedade, com as suas instituições e estruturas de poder. Atribuir à mídia o tsunami de extrema direita nas eleições de 2026 é um fato alternativo que impede que a esquerda promova uma autocrítica nas semanas até o segundo turno.

Bastaram algumas horas depois da totalização dos votos do primeiro turno da eleição presidencial para que uma espécie de síndrome de Kellyanne Conway começasse a aparecer em algumas páginas da banda esquerda da internet.

Lá, colegas jornalistas recorreram, nas suas explicações para a derrota de Lula (PT), a uma variante brasileira do inesquecível conceito de fato alternativo: aquele absurdo empregado em janeiro de 2017 por Conway, a conselheira-sênior de Donald Trump que usou a expressão para justificar uma afirmação factualmente mentirosa de que a posse do chefe recém-eleito tinha reunido "o maior público já visto em uma cerimônia de posse presidencial" nos Estados Unidos.

Homem de camisa azul fala para multidão à noite, cercado por pessoas e câmeras de celular. Criança com boné amarelo observa ao fundo.
Flávio Bolsonaro (PL) em entrevista coletiva em Brasília depois da divulgação do resultado do primeiro turno das eleições - Jin Haoyuan - 4.out.26/Xinhua

O fato alternativo que se insinua no caso brasileiro é a responsabilização da imprensa pelo avanço amplo, geral e irrestrito da extrema direita revelado pelas urnas. Será?

Como ficam o ministro Flávio Dino e os seus casuísmos colhidos aqui e ali na selva de chicanas jurisprudentes do STF? O seu colega Cristiano Zanin, com o seu voto tão discreto quanto eloquente? O decano Gilmar Mendes, misto de imperador longevo sem voto dos destinos da nação e empresário de reuniões lobísticas?

E o terrivelmente evangélico André Mendonça, com aquele jeitinho inofensivo de pastor, jogando o inatingível Alexandre de Moraes e o contrato de cerca de R$ 130 milhões do escritório da patroa com Daniel Vorcaro no colo do presidente Lula e na boca do povo e da urna?

A imprensa? Que responsabilidade ela teve na opção preferencial da campanha petista pelo salto alto marqueteiro de acreditar que Flávio Bolsonaro (PL) era o melhor adversário a ser enfrentado, pela crença de que os eleitores, como se estivessem todos, aos milhões, assistindo ao Estúdio i na GloboNews, não teriam dificuldade de fazer justiça ao "legado histórico de Lula" e aos bons números —números, não sentimentos— da economia e que, além de outros motivos, não seria necessário que Lula arregaçasse as mangas e partisse desde o início do ano para dentro de Flávio para dissecar, um a um, cirúrgico, na rua, na chuva e nos debates, incluindo o da Globo, o desastroso governo do pai —do retorno do Brasil ao mapa da fome à gestão criminosa da pandemia— e o passado miliciano, corrupto e medíocre do tal "Bolsonaro que tomou vacina"?

Grupo de pessoas no palco de um comício, algumas usando camisetas vermelhas com a palavra 'LULA'. Homem no centro fala ao microfone com megafone. Público à frente registra o momento com celulares. Banner grande ao fundo exibe o nome 'LULA' em letras brancas sobre fundo vermelho.
Lula (PT) discursa em São Paulo depois da divulgação do resultado do primeiro turno das eleições - Amanda Perobelli - 4.out.26/Reuters

Que culpa tem a imprensa no resultado eleitoral se Lula, embalado, protegido e também controlado por Janja, para contido desespero de não poucos petistas palacianos —estes vigiados de perto por feministas companheiras—, se esqueceu das lições que colecionou ao longo da sua carreira e, ao buscar a reeleição em um país que ele já sabia estar passionalmente dividido, deixou que a névoa da vaidade e a subestimação do peso dos 80 anos embaçassem o seu tirocínio político e o levassem a ignorar a própria fadiga de material, lançando-se em uma candidatura que agora ameaça manchar a sua biografia espetacular com uma derrota humilhante e um outro tipo de legado: um partido sem rumo e velho como ele e cujo líder e herdeiro potencial, Fernando Haddad, se imolou mais uma vez, não para lançar as bases de um novo petismo, mas para salvar o presidente do naufrágio nas urnas de São Paulo. Onde entra a imprensa nessa conta?

Qual, enfim, tem sido o tamanho da responsabilidade da imprensa, se pensarmos no comportamento de uma elite empresarial cuja frouxidão democrática e civilizatória demonstrada até agora foi exposta com nome, sobrenome e CNPJ em um artigo histórico de João Moreira Salles —no caso, uma fonte e testemunha tão precisa quanto insuspeita da revista piauí?

E o que dizer do impacto, mais uma vez, no eleitorado brasileiro, do tsunami de extrema direita que há anos vem varrendo o mundo, à medida que a classe trabalhadora —lembram desse termo?—, ao ser obrigada a pagar a conta amarga da globalização e do liberalismo, se entrega à chamada utopia regressiva e embarca no que um colega, o jornalista Sérgio Martins, chamou de aposta ideológica no individualismo e na desagregação do laço social?

Não estou em outro planeta. É claro que a imprensa sempre teve um papel importante na política brasileira. Tanto pelo silêncio da subserviência, imposta ou oferecida, que ajudou a sustentar a ditadura de 1964 quanto pela cobertura das Diretas Já, ainda que a adesão crescente, incluindo a da Globo, do meio para o fim do movimento, não tenha sido suficiente —a gente tende a esquecer— para a aprovação da emenda Dante de Oliveira.

O que defendo é que o protagonismo da imprensa, aqui ou em qualquer outra democracia, sempre foi e será secundário, coadjuvante, complementar e, no máximo, paralelo, como vetor incontornável, sim, mas não tão decisivo na chamada correlação de forças —lembram desse termo?— vigente no país, em cada momento histórico.

Muito mais importante e precedente é o papel da sociedade e o estado de saúde das suas instituições. Ou alguém acredita que Carl Bernstein e Bob Woodward, heróis mundiais do jornalismo que "derrubaram" o presidente Richard Nixon em 1974 a partir de uma reportagem do Washington Post sobre a invasão de uma sala no edifício Watergate, conseguiriam proeza semelhante na Rússia, trabalhando em um jornal de Moscou da era Vladimir Putin?

No caso do Brasil das últimas décadas, é inegável que houve momentos em que o antilulismo das grandes empresas de mídia, evidente nos editoriais e subjacente à dosimetria do noticiário impresso, digital e eletrônico, foi importante, ainda que, na minha opinião, não determinante para resultados históricos como a eleição de Fernando Collor em 1989, o segundo turno imposto a Lula em 2006, o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e a derrota de Fernando Haddad para Jair Bolsonaro em 2018.

Mas houve também momentos em que essa mesma mídia, usando a carga máxima da sua estrutura jornalística —incluindo, no caso da Globo, a desfiguração de tempo e conteúdo do Jornal Nacional para criminalizar os governos petistas na época do Mensalão e da Operação Lava Jato—, não conseguiu evitar a vitória de Lula em 2002, a sua reeleição no segundo turno de 2006, a eleição de Dilma em 2010 e a sua recondução em 2014.

Vem agora o primeiro turno de 2026 e, mais uma vez, com o ressurgimento de fatos alternativos, é mais fácil e simples culpar a imprensa em vez de aproveitar as próximas semanas não para buscar os suspeitos de sempre, mas para fazer uma radical autocrítica dos erros cometidos pela campanha de Lula no primeiro turno.

Além disso, reconhecer que, em um contexto social e tecnológico agora muito maior, a chave do tesouro de uma eleição, no Brasil e no resto do mundo, em vez de ser a famosa advertência "É a economia, estúpido!", cunhada por James Carville, estrategista-chefe da campanha presidencial de Bill Clinton em 1992, talvez seja: "São as redes sociais, idiotas!". Com ou sem a vírgula.

A imprensa brasileira, não nos iludamos, é muito mais um par de faróis às vezes desregulados, geralmente iluminando mais à direita, em uma estrada perigosa cheia de curvas, buracos e ciladas no meio de uma floresta em noite de chuva. Quem está no volante, decidindo os caminhos a iluminar e seguir, seja para despencarmos todos em um abismo inesperado mais à frente seja para chegarmos a um bom destino, é a sociedade, com as suas instituições e estruturas de poder.

Achar que a imprensa é um farol a guiar a sociedade em noites de mar revolto é bonito, mas também irreal. Ela é, quase sempre, mera mensageira da caminhada para a história e pouco ou nada pode fazer para realizar sonhos ou evitar pesadelos. Não cria nem impede golpes ou revoluções, mas conta, mal ou bem, como eles acontecem e, quando muito, às vezes, precipita o seu início ou o seu fim.

Hélio Schwartsman - Corra, Lula, corra, FSP

 É cedo para Lula desistir. Suas chances de virar no segundo turno são reduzidas, mas diferentes de zero. Até o dia 25, tudo pode acontecer. De todo modo, o petista já deve implementar um plano de redução de danos institucionais, que começa pelo preenchimento de cargos estratégicos que estão em aberto.

Refiro-me a quatro ou cinco dezenas de postos de direção em órgãos federais e vagas em tribunais que estão sem titular. Essas posições são providas com nomes indicados pelo presidente e aprovados pelo Senado. Para dar alguns exemplos, estão em aberto uma cadeira no STF, três no STJ, duas diretorias no BC, uma na CVM e três no Cade.

Homem de cabelos grisalhos e barba branca veste camisa branca e segura microfone com a mão direita enquanto gesticula com a esquerda. Ao fundo, bandeira do Brasil parcialmente visível contra cortina marrom.
O presidente Lula (PT) participa de reunião com parlamentares e dirigentes da coligação de sua campanha em Brasília - Pedro Ladeira - 5.out.26/Folhapress

O acúmulo de tantos cargos vagos é uma anomalia que podemos atribuir a desentendimentos entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Mas o mundo que existia até domingo (4), no qual as rusgas tinham suas razões de ser, não existe mais.

Lula possivelmente encerrará sua carreira, Alcolumbre viu minguarem suas chances de ser reconduzido ao comando da Câmara Alta e 18 dos 32 senadores que tentaram a reeleição perderam. Estão dadas as condições políticas para desatar o travamento. Na prática, é um pouco mais complicado. Mesmo se Lula mandasse todos os nomes amanhã, não haveria tempo hábil para votar tantas indicações até dezembro. Isso significa que Lula precisa não só correr como também ser seletivo.

A joia da coroa é a vaga no STF. Lula, que já teve uma indicação rejeitada, o que não ocorria desde o século 19, pode tentar de novo. Tem o direito legal de fazê-lo e o dever moral de procurar impedir que uma eventual administração Bolsonaro indique quatro ou mais nomes para a corte (além da vaga aberta, há três aposentadorias programadas até 2030, sem considerar impeachments e outras intercorrências).

É claro que, para dar certo, Lula não poderia apontar um apaniguado; teria de indicar um jurista com importante produção acadêmica e alta respeitabilidade. A dúvida é se, na atual conjuntura, uma pessoa de alta respeitabilidade toparia entrar para o STF.

Cinema de rua só deixa a cidade melhor- FSP

 Vicente Vilardaga

São Paulo

Em uma semana surgiram duas notícias de abertura de cinemas de rua em São Paulo. O tradicional e luxuoso Cine Rosário, no térreo do edifício Martinelli, vai voltar a funcionar em 2028, depois de 70 anos parado. Alguns dias antes foi anunciado o início do funcionamento do Cine Tutu, na Vila Madalena, com 114 lugares e projeto do arquiteto Isay Weinfeld. É algo para se comemorar.

Nos últimos anos surgiram várias salas de rua na cidade. O Nubank está patrocinando a volta do Cine Copan, prevista para 2027. Outras iniciativas que prosperam são o Satyros Bijou, reaberto na praça Roosevelt em 2022, e o Espaço Petrobras de Cinema, reinaugurado com novo patrocínio em 2025, na rua Augusta, mesmo endereço outrora ocupado pelo histórico Majestic.

Sala de cinema com decoração verde e detalhes ornamentais no teto. Fileiras de poltronas vermelhas ocupam o centro, com tela ao fundo exibindo cena de filme. À direita, área de bar iluminada. Entrada do Cine Rosário visível à esquerda.
Após 70 anos fechado, Cine Rosário será reformado e reaberto em 2028 no edifício Martinelli - Grupo Tokyo/Divulgação

Resiste também o Multiplex Playarte Marabá, na avenida Ipiranga, que agora corre o risco de fechar por causa de uma ordem de despejo, e o Olido, na avenida São João. Os dois são os últimos remanescentes da Cinelândia Paulistana, que, nos anos 1950, concentrava dezenas de salas e se estendia por toda a região. Os ambientes eram gigantescos e podiam receber de 1.000 a 3.000 pessoas.

É bom pensar que novos cinemas de rua estão surgindo ou sendo reativados, mas é ruim perceber que ainda são tão poucos, cerca de 20, quando já estiveram em torno de 150, segundo minhas estimativas. Hoje representam 5% do total de salas da cidade. A imensa maioria daquelas com entrada pela calçada foi varrida do mapa, tanto no centro como nos bairros, e substituída pelas salas de shopping.

Isso começou em 1966, com o shopping Iguatemi, seguiu com o Ibirapuera em 1976 e, a partir daí, não parou mais. Os dois nasceram com cinemas em funcionamento, oferecendo todas as vantagens de uma fortaleza privada, como praticidade, conforto e segurança, que se tornaram o padrão do serviço. As salas de rua, que já tinham tomado uma surra da televisão e estavam na bancarrota, não resistiram ao novo golpe.

Várias fileiras de poltronas estofadas com tecido floral em tons escuros, alinhadas em uma sala de cinema com iluminação suave na parede lateral.
Poltronas com estampa assinada por Isay Weinfeld no Tutu, cinema de rua aberto na Vila Madalena - Karime Xavier/Folhapress

Acompanhei bem essa agonia no final dos anos 1970 com os cinemas de bairro entrando em decadência e quebrando. As salas que frequentei na minha infância ficavam todas na avenida Santo Amaro, na altura da Vila Nova Conceição, na zona sul. Lembro-me do nome de três delas: Vila Rica, Vila Nova e Graúna. Mas eram cinco ou seis num trecho pequeno de uma mesma avenida, formando uma minicinelândia. Caíram uma a uma.

Lá assisti, entre outros filmes, "Alien, o Oitavo Passageiro" e "Os Caçadores da Arca Perdida". Um no Vila Rica e outro no Vila Nova. O sobradão do Vila Rica resistia até há pouco tempo no mesmo lugar, ao lado da antiga pista de skate Wave Park. Não fui ver se ainda está de pé.

Entrada iluminada do bar Bijou com letreiro luminoso. Em primeiro plano, mesa redonda de madeira com cardápio sobre ela. Ambiente interno com balcão e pessoa ao fundo.
Sala Patrícia Pillar do Cine Satyros Bijou, que foi reaberto em 2022 na Praça Franklin Roosevelt . - Ronny Santos/Folhapress

Com a quase extinção dos cinemas de rua, a cidade perde atrativos. Eles trazem pedestres para as calçadas e movimentam o comércio local de padarias, bares e restaurantes. Contribuem para a segurança da região, contam com programação alternativa e são um ambiente propício para que as pessoas discutam cinema, não só assistam. Além disso, são mais cosmopolitas, têm uma atmosfera apropriada para ver bons filmes e estimulam conexões humanas e caminhadas na rua.

É provável que em torno do futuro Cine Rosário, no Martinelli, se repita o que aconteceu com a Casa de Francisca e se impulsione ainda mais a vida noturna no entorno, unindo dois vértices do Triângulo Histórico da cidade pela arte e pela diversão.

É importante que surjam novos cinemas de rua. Já existem algumas opções óbvias, como reativar o Cine Metrópole, na galeria do mesmo nome, que foi uma das melhores salas de São Paulo, ou resgatar das trevas o Cine Marrocos, joia da antiga Cinelândia Paulistana, hoje abandonado. O governo do estado pretende privatizar o prédio e torná-lo residencial, mantendo o cinema funcionando embaixo. Veremos.