segunda-feira, 8 de junho de 2026

Nova sede do Itaú Cultural na Paulista será desenhada pelo Estúdio Módulo, FSP

 João Perassolo

São Paulo

O novo prédio do Itaú Cultural será desenhado pelo Estúdio Módulo, escritório de arquitetura de Marcus Vinicius Damon, Guilherme Bravin e Erica Tomasoni. O projeto do trio para o novo centro cultural na avenida Paulista —o vencedor entre seis concorrentes— foi apresentado numa coletiva de imprensa, nesta segunda-feira.

Situado ao lado do edifício da Fiesp, quase na esquina com a rua Pamplona, a nova sede do Itaú Cultural terá seis andares expositivos, um teatro de 428 lugares e um auditório com capacidade para 104 pessoas, que pode abrigar eventos e espetáculos de teatro infantil ou de caráter mais experimental. Haverá também um restaurante, um café e uma área para crianças pequenas, todos localizados no subsolo.

Prédio alto com fachada em painéis verticais claros e estrutura angular escura em destaque, localizado em avenida movimentada com trânsito e pedestres. Edifícios residenciais e comerciais cercam a construção sob céu parcialmente nublado.
Fachada do novo Itaú Cultural, desenhada pelo Estúdio Módulo - Divulgação

A previsão é de três a quatro anos de obras, com conclusão esperada para 2031. Segundo Alfredo Setubal, presidente do Conselho do Itaú Cultural, o orçamento do prédio ainda não foi definido e ele será integralmente construído com verbas da Fundação Itaú —ligada ao banco de mesmo nome—, sem usar leis de incentivo como a Rouanet.

Com onze anos de existência, o Estúdio Módulo venceu uma disputa entre seis firmas convidadas a concorrerem —FGMF e Libeskindllovet, que foram as outras duas finalistas, Studio MK27, SPBR Arquitetos e Bernardes Arquitetura. Nenhum escritório estrangeiro foi chamado para apresentar projeto, porque segundo Setubal o Brasil tem uma "tradição arquitetônica suficientemente boa".

Pela maquete e imagens apresentadas, o novo Itaú Cultural se desenha muito diferente do atual. O prédio será composto de dois volumes retangulares de tamanhos diferentes sobrepostos, com recortes nas fachadas que estabelecem uma comunicação com a rua. Tais volumes serão recobertos por uma pele branca vazada —brises de ripas metálicas ou cerâmicas, a ser definido—, sendo que nas fachadas laterais haverá uma parede atrás dos brises com cores aplicadas.

A ideia é criar movimento nas laterais, ilusão que pode ser experimentada pelos pedestres conforme eles circulam nos entornos do prédio, de acordo com Marcus Vinicius Damon, um dos sócios do Estúdio Módulo. Ele exemplificou o conceito apresentando uma obra de Carlos Cruz-Díez, mestre da arte cinética com suas obras coloridas que simulam a ideia de movimento.

A parte frontal do prédio, quase na porta do metrô Trianon Masp, terá uma entrada ampla, sem catracas ou vidros de separação com a calçada, de modo a convidar os passantes a ingressarem no centro cultural. Neste andar, o piso será de pedra portuguesa, o mesmo utilizado por décadas na Paulista e que remete à ideia de uma praça pública.

Na fachada frontal —que utilizará mais vidro que as laterais— ficam também um terraço aberto com vista para a rua e as escadas de circulação entre os andares, estas em tonalidade terracota, cor que faz referência às artes populares brasileiras feitas em barro.

Damon, do Estúdio Módulo, disse que o escritório "queria criar uma presença na Paulista, mas com alguma sutileza", e por isso ele e seus parceiros de projeto imaginaram um "edifício com características convidativas para o usuário". Além disso, Damon destacou a dificuldade de projetar ao lado da Fiesp, um prédio "com uma presença muito forte".

Setubal, do Itaú, argumentou que o projeto vencedor era o que melhor solucionava "o equilíbrio entre funcionalidade e arquitetura". De acordo com ele, um dos incentivos para a construção do novo prédio, num terreno de aproximadamente 1.300 metros quadrados, foi o fato de que o Itaú Cultural atual não atende bem o tanto de público que recebe.

Foram 500 mil pessoas no ano passado, que tiveram de lidar com elevadores pequenos e espaços expositivos não ideais, de pé-direito baixo para mostras de arte contemporânea, com obras que exigem mais espaço. No novo edifício, o pé-direito de algumas galerias terá seis metros de altura, quase o dobro da metragem atual, e os elevadores carregarão até 40 pessoas ao mesmo tempo.

Toda a programação do Itaú Cultural futuro será gratuita, como é hoje, e ainda não está definido se o prédio atual ficará ou não ativo. O projeto Ocupação, as exposições permanentes e as temporárias passarão para a nova construção, que faz parte das comemorações de 40 anos da instituição, a serem completados no ano que vem.

No fim do ano passado, o banco Itaú comprou o terreno na avenida Paulista onde vai construir uma nova torre para abrigar o seu centro cultural, hoje num prédio na mesma avenida paulistana desenhado por Roberto Loeb. Só o terreno, com 200 metros quadrados a mais que o espaço da sede atual, custou R$ 50 milhões aos cofres do banco.

A comissão que selecionou o projeto vencedor foi composta por Setubal, Elizabeth Machado, presidente do Museu de Arte Moderna de São Paulo, Heitor Martins, presidente do Masp, o Museu de Arte de São Paulo, Jader Rosa, superintendente do Itaú Cultural, o arquiteto Jaime Cupertino, que trabalhou no grupo Itaú, e Rodrigo Villela, também da Fundação Itaú.

O Estúdio Módulo ganhou o concurso para o projeto do Centro Cultural Rio-África, no Rio de Janeiro —com obras previstas para começarem em semanas—, e tem no currículo o complexo Ágora Tech Park, em Joinville, em Santa Catarina. Na cidade de São Paulo, também projetaram o Oscar 2525, prédio da incorporadora Idea!Zarvos que está subindo em frente a Unibes Cultural, numa das entradas do metrô Sumaré.

Antes de entrar para o escritório, Damon, um dos sócios, ajudou a desenvolver o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago, no Chile.

O Brasil na era do token, Roberto Campos Neto, FSP

 Roberto Campos Neto

A Revolução Industrial foi movida a carvão. O século 20 rodou a petróleo. O recurso definidor do século 21 é algo muito menos visível: o token, a menor unidade de linguagem consumida cada vez que um modelo de inteligência artificial pensa, escreve ou decide. Estamos entrando em uma nova era, e suas restrições são surpreendentemente antigas: energia, minerais e geografia.

Em minha última coluna abordei os efeitos da IA sobre o mercado de trabalho e o potencial de ganhos de eficiência para o setor público. A evidência não é especulativa: a IA tem sido um dos motores da economia, e as empresas estão incorporando crescentemente a tecnologia em seus processos.

A proporção de empresas que usam IA saltou de 20% em 2017 para 88% em 2025, de acordo com a McKinsey. A adoção de IA não está no horizonte; ela já remodela a economia global em alta velocidade.

Duas mãos robóticas posicionadas sobre teclas de teclado preto em primeiro plano. Ao fundo, texto iluminado em branco com as palavras 'AI artificial intelligence' em fundo azul.
Ilustração de mãos robóticas sobre um teclado, com a mensagem "inteligência artificial" ao fundo - Dado Ruvic/REUTERS

Nos últimos meses, observamos uma grande transformação. O que chamamos de text coding —a capacidade de produzir programas e projetos por meio de linguagem simples— democratizou a programação. Pessoas sem formação técnica profunda agora entregam projetos com eficiência próxima à de desenvolvedores experientes.

As empresas correm para se tornar AI First: organizações verdadeiramente lideradas pela inteligência artificial. O que começou como automatização de fluxos de trabalho evolui rapidamente para um novo patamar: a IA como geradora de ideias, não apenas executora de tarefas. Quem acompanha esse movimento de perto já vê isso claramente no dia a dia.

Uma mudança cultural revela a profundidade dessa transformação. Em Palo Alto, quando se contrata alguém, a negociação não gira mais apenas em torno do bônus ou do pacote de benefícios. O candidato pergunta quantos tokens poderá gastar. A produtividade passou a depender diretamente do volume de tokens disponíveis.

O token tornou-se a nova unidade monetária da inteligência, o equivalente ao barril de petróleo do século passado. As entidades capazes de produzi-lo de forma barata e em escala dominarão o comércio global, a ciência, a defesa e a economia. Empresas e países que não compreenderem essa lógica a tempo pagarão o preço da dependência.

Diante desse avanço e do consumo explosivo de tokens, há duas grandes barreiras que definirão o futuro: energia e poder computacional. O consumo global de eletricidade por data centers chegou a 415 TWh em 2024. A IEA (Agência Internacional de Energia) projeta que alcançará 945 TWh em 2030.

Nos Estados Unidos, data centers de IA podem demandar 123 gigawatts de capacidade até 2035, cerca de 30 vezes mais do que em 2024. As cinco maiores empresas de tecnologia destinaram mais de US$ 400 bilhões em investimentos de capital em 2025, alta de 72% em um ano, com previsão de crescimento adicional expressivo em 2026.

Jensen Huang, da Nvidia, foi categórico: "A receita de IA é limitada pela energia". O gargalo não é mais o código. São os quilowatts.

Além da energia, os minerais completam o binômio por trás dessa corrida. Para produzir semicondutores — o substrato físico da IA — são necessários elementos de terras raras. A China controla hoje cerca de 60% da mineração mundial e 90% da capacidade global de refino.

Em outubro de 2025, Pequim impôs controles de exportação sobre minerais críticos, provocando aumento de preços na Europa e cortes de produção. A revolução da IA colidiu com um ponto de estrangulamento geopolítico de fornecedor único. A resposta foi imediata: os EUA formaram uma coalizão de nações para garantir cadeias de suprimento de minerais críticos. A corrida por recursos que definiu os impérios coloniais retornou, desta vez impulsionada pelo silício, não pelo vapor. O petróleo continua importante, mas saímos do debate exclusivo sobre ele para tratar de energia e minerais como um todo.


domingo, 7 de junho de 2026

Estudantes de medicina brasileiros são cooptados pelo crime para contrabandear canetas paraguaias, FSP

Foz do Iguaçu (PR)

A cooptação de estudantes brasileiros que se deslocam diariamente para o Paraguai para cursar medicina nas universidades da região de Ciudad del Este, polo educacional que atrai jovens de todo o Brasil, tem chamado a atenção da fiscalização aduaneira em Foz do Iguaçu (PR).

Os universitários têm sido usados pelo crime para contrabandear canetas emagrecedoras paraguaias para o Brasil. No último dia 25, um estudante foi preso quando tentava entrar no país com medicamentos presos ao corpo por fita adesiva.

Ele e uma colega, também aluna de medicina, foram detidos em flagrante com 200 caixas de tirzepatida de 15 mg fabricada no país vizinho, cada caixa contendo quatro ampolas. A mulher carregava os medicamentos num casaco, dentro de uma bolsa.

Brasileiro que cursa medicina no Paraguai foi detido na aduana de Foz do Iguaçu ao tentar entrar no país com caixas de ampolas de tirzepatida presas ao corpo, em 25 de maio - Divulgação/Receita Federal

Cada caixa, que contém quatro ampolas, custa cerca de R$ 430 nas farmácias paraguaias —a dupla, portanto, transportava aproximadamente R$ 86 mil em medicamentos. No Brasil, o Mounjaro (tirzepatida) na mesma dosagem é vendido por R$ 3.499.

Os estudantes estavam em um táxi paraguaio que os levaria de Ciudad del Este até um estacionamento às margens da BR-277, rodovia que liga Foz do Iguaçu a Curitiba, quando foram abordados por agentes da Receita Federal na Ponte da Amizade.

Eles foram encaminhados à Polícia Federal, e o taxista paraguaio foi liberado.

Chefe da aduana brasileira na Ponte da Amizade, Daniel Messias Linck afirma que o que vem acontecendo é também reflexo de falta de informação.

"A população como um todo não considera ilegal trazer caneta emagrecedora do Paraguai, não vê como contrabando, então você vê que há muitas pessoas comuns contrabandeando. Existe um aliciamento forte dos estudantes de medicina, porque aqui tem muitos estudantes de medicina, muitos mesmo."

Enquanto no ano passado foram apreendidas 7.479 canetas e ampolas de tirzepatida paraguaia em Foz, neste ano a fiscalização já apreendeu 71.860 unidades, 860,8% mais, segundo a Receita Federal.

É possível estudar medicina em instituições privadas paraguaias por valores muito abaixo dos praticados pelas universidades brasileiras. No Paraguai as mensalidades ficam em torno de R$ 2.000, ante parcelas que ultrapassam R$ 10 mil nas instituições nacionais.

Dados do Ministério das Relações Exteriores apontam que em 2025 o Paraguai contava com 43 faculdades de medicina habilitadas pelo conselho de educação superior do país, das quais 23 acreditadas.

A estimativa é que 3 em cada 4 matriculados em cursos de medicina no país vizinho sejam brasileiros —cerca de 35 mil, de um total de 45 mil alunos. Após a conclusão do curso, eles precisam passar pelo Revalida (Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos) para exercer a profissão no Brasil.

Esses universitários integram as chamadas "formiguinhas do contrabando", que atravessam a fronteira com quantidades pequenas de medicamentos. Uma vez no lado brasileiro, os emagrecedores são colocados em veículos —ou carretas— para então abastecer o mercado ilegal no país.

Em fevereiro, um brasileiro que cursava medicina em Ciudad del Este foi preso numa rodovia transportando 462 canetas emagrecedoras do Paraná para Campinas, no interior paulista. Ele receberia R$ 6.000 pelo transporte dos medicamentos, segundo a polícia.

O principal destino das canetas paraguaias que entram no Brasil por Foz do Iguaçu é o estado de São Paulo, além do próprio Paraná, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

A presença de estudantes no contrabando dos remédios não é exclusiva de Foz do Iguaçu e ocorre também em outras regiões do país. Em janeiro, uma aluna de medicina em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, foi detida em Maracaju (MS) com 134 emagrecedores das mesmas marcas comumente apreendidas em Foz.

No mês seguinte, outra estudante de medicina foi detida em Almirante Tamandaré (PR) sob a suspeita de vender e divulgar canetas emagrecedoras provenientes do Paraguai nas redes sociais.

A reportagem também conversou com dois universitários brasileiros que cursam medicina no Paraguai. Eles disseram ter colegas que já trouxeram ampolas de tirzepatida para o Brasil, mas com o objetivo de vender por conta própria para auxiliar no pagamento das mensalidades ou ter uma renda extra. No país vizinho não há retenção da receita médica, a venda é livre.

Na chegada ao Brasil pela Ponte da Amizade, um painel luminoso na aduana repete o dia todo para pedestres e motoristas a mensagem de proibição do ingresso no país de canetas emagrecedoras paraguaias, o que não inibe o crescimento dessa modalidade de comércio ilegal.

No momento em que a Folha estava na ponte que une os dois países, duas mulheres paraguaias tiveram as cerca de 200 ampolas de tirzepatida que carregavam consigo apreendidas por agentes da PF e da Receita. O medicamento estava escondido em meio a outros produtos que elas traziam do Paraguai, como cigarros.

"Todo contrabando segue uma obviedade econômica, é uma lógica inafastável. Você tem a possibilidade de oferecer produtos a preços mais baratos no Brasil e, por não pagar imposto, não atende a nenhuma norma técnica, seja da Anvisa, não importa. Essa é a tradição de décadas do comércio ilícito do Paraguai", afirma Edson Vismona, presidente do FNCP (Fórum Nacional contra a Pirataria e Ilegalidade).

Fabricante do Mounjaro, a farmacêutica Eli Lilly afirma que, quando produtos que alegam conter tirzepatida circulam fora dos canais autorizados e da cadeia de distribuição regulada, não há garantia de que os requisitos de segurança foram cumpridos.

A empresa diz ainda que os produtos paraguaios não foram avaliados nem aprovados pela Anvisa, não passaram pelos estudos clínicos e controles exigidos pela legislação brasileira e que seu uso pode significar "um sério risco à saúde dos pacientes".

"A tirzepatida exige controle de temperatura em toda a cadeia de suprimento, com condições rigorosas de armazenamento, transporte e manuseio para preservar qualidade, segurança e eficácia", diz a empresa.