segunda-feira, 29 de junho de 2026

Figura do Diabo aprimorou o processo criativo de Guimarães Rosa, Alvaro Costa e SIlva, FSP

 O encontro está narrado na excelente biografia de João Guimarães Rosa escrita pelo jornalista Leonencio Nossa.

Em 1966, o escritor viajou a Nova York para participar do 34º Congresso Internacional do Pen Club, ao lado de Arthur Miller, Saul Bellow, Pablo Neruda, Mario Vargas Llosa. O poeta Haroldo de Campos estava lá, e Rosa resolveu conversar com ele sobre sua experiência com o Diabo:

"Quando me vem o texto, eu fico nu, rolo no chão, luto com o Demo de madrugada no meu escritório, e depois, naquele contexto, naquele impacto, eu escrevo".

Para Haroldo de Campos, o Demo de Guimarães Rosa —que aparece no "Grande Sertão: Veredas" com dezenas de nomes (o Arrenegado, o Cramulhão, o Coisa-Ruim, o Pé-Preto, o Coxo)— não era uma simples metáfora da personificação do mal, mas uma figura que estava presente no processo de criação do autor.

Na cena em que o jagunço Riobaldo se dirige a um lugar ermo de nome assombrado, Veredas-Mortas, com a intenção de vender sua alma, não fica claro para o leitor se ele aceita o pacto. Na redemunho do personagem, o Diabo "vive dentro do homem", é o "homem arruinado", o "homem dos avessos". Portanto, é legítimo material de inspiração artística —que mal haverá nisso?

Dois homens sentados sob uma árvore, um deles despeja café de um bule metálico em uma xícara que o outro segura. Ambos vestem roupas casuais, um usa chapéu e o outro óculos.
O escritor mineiro João Guimarães Rosa - Israel Crispim Jr/Acervo Dimus

Rosa cercou Satã pelos sete lados. Ouviu de vaqueiros de Minas e Bahia histórias endiabradas e as recontou a seu modo, reinventando a linguagem.

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Um de seus primeiros contos é uma adaptação de "O Demônio da Garrafa", de Stevenson. O influxo está nos monólogos filosóficos e poéticos do "Fausto" de Goethe. E também em "Doutor Fausto", de Thomas Mann, alegoria sobre a decisão da Alemanha de abraçar o nazismo, à qual o escritor assistiu de perto como diplomata em Hamburgo entre 1938 e 1942.

Em 1952, Rosa comprou a prestações um apartamento entre Copacabana e Ipanema, perto do Arpoador. Com o tempo, subiram outros prédios de um lado e de outro. Do escritório onde ele escreveu "Grande Sertão: Veredas", restou apenas a vista de parte do mar que bate num estreito pedaço de areia —a Praia do Diabo.

Pacifistas não distinguem a guerra que fazemos daquela que nos é imposta, João Pereira Coutinho - FSP

 

É nos bons momentos que mais sinto saudade do meu pai. Curioso paradoxo. Não é nos momentos difíceis, nas provações e nos acidentes de percurso que mais sinto a sua morte precoce. É nas alegrias. Podem ser coisas irrisórias, como a vitória do seu time de futebol. Ou coisas solenes, como a entrada
recente do historiador Marc Bloch no Panthéon da França
.

Meu pai foi professor de história —assim como minha mãe, aliás. A Idade Média era a sua praia, e Marc Bloch, um de seus heróis.

Ilustração de Angelo Abu para coluna de João Pereira Coutinho de 30 de junho de 2026 - Angelo Abu /Folhapress

Herdei dele o gosto pela figura e, nestes dias de consagração institucional, reli o exemplar paterno de "A Estranha Derrota", o testemunho que o autor escreveu nos meses seguintes à capitulação da França na Segunda Guerra Mundial. Sorri muitas vezes. Os sublinhados e os comentários do meu pai são exatamente os mesmos que eu teria feito se encontrasse esse texto pela primeira vez. De certa forma, foi como falar e concordar com ele.

"A Estranha Derrota" é, como o título indica, uma análise das razões que levaram ao colapso da França em 1940 e à invasão dos nazistas. Para Bloch, a causa principal não foi só militar ou estratégica. Foi intelectual e moral.

A primeira acusação é aos oficiais e às chefias que, na Segunda Guerra, ainda viviam como se estivessem na Primeira Guerra. Tudo era lento, arcaico, burocrático, pusilânime. Marc Bloch, que participou dos dois conflitos como soldado, tinha ainda a vantagem da comparação histórica.

Os nazistas lutavam com velocidade. Como escreve Bloch, com ironia trágica, "os alemães mantiveram o péssimo hábito de aparecer onde não deveriam estar."

Os oficiais franceses viviam atônitos com a surpresa perpétua. Atônitos e paralisados, experimentando pela primeira vez o terror que os nativos das colônias francesas deviam ter sentido diante dos poderosos exércitos da potência colonial.

"Em suma, revivemos os combates tão familiares à nossa história colonial: a lança contra o fuzil", observa Bloch. E conclui com esta extraordinária lição de humildade e empatia: "Mas, desta vez, éramos nós que estávamos no papel dos primitivos". Meu pai anotou, a lápis: "civilização/barbárie, conceitos relativos".

Mas a fraqueza não se limitou aos homens com armas. Foi um fenômeno coletivo, um êxodo em massa que tomou conta de toda a sociedade francesa da época.

Bombeiros que fugiam com seus bens em vez de apagar incêndios. Patrões que abandonavam as fábricas sem pagar os trabalhadores. Intelectuais e jornalistas que mentiam sobre o desastre no front de batalha, da mesma forma que antes ignoraram o avanço da ideologia nazista. Burgueses que desprezavam as massas e jamais aceitaram plenamente a emancipação política trazida pela democracia.

E, claro, havia os "pacifistas" —essa fauna eterna— que clamavam pela paz sem distinguir "a guerra que decidimos fazer voluntariamente e aquela que nos é imposta". Meu pai, à margem, anotou uma data seguida de um ponto de interrogação: "1941?".

Sorri de novo. Marc Bloch escreveu "A Estranha Derrota" no verão de 1940, quando ainda vigorava o pacto germano-soviético, dito de "não agressão", mas que contemplava também a divisão da Polônia por Adolf Hitler e Josef Stálin. Para muitos daqueles pacifistas, a paz era, na prática, um eufemismo para a rendição.

Não surpreende que parte deles tenha mudado de posição depois que Hitler invadiu a União Soviética, em junho de 1941. O apelo às armas para derrotar o fascismo nunca pareceu tão urgente.

Por fim, é notável a maneira como Bloch, um progressista moderado, também se apresenta como um patriota. Amamos os nossos filhos. Amamos a nossa pátria. Amamos a humanidade. "Pobre é o coração que é impedido de acolher mais de uma ternura." No livro, a frase aparece sublinhada, sem comentário.

Marc Bloch voltaria à vida civil na França ocupada. Era judeu, mas nunca atribuiu importância especial ao fato. "Só reivindico a minha origem num caso: diante de um antissemita", escreveu.

Palavras sábias e proféticas. Membro ativo da Resistência na luta contra o ocupante, acabou capturado pela Gestapo em 1944, torturado e fuzilado. A chegada dos Aliados à Normandia, dias antes, aconteceu tarde para ele.

Teremos sempre Paris, dizia Humphrey Bogart. Dizia bem. Eu, que sempre desprezei a fanfarronice dos panteões, desta vez abrirei uma exceção. Quando passar pela cidade, levarei a Marc Bloch os respeitosos cumprimentos daquele leitor de lápis na mão.


O desmonte calculado das agências reguladoras, André Borges, FSP

 

Brasília

O indiciamento de diretores da ANM (Agência Nacional de Mineração), apontados pela Polícia Federal como peças de uma associação criminosa que mirava a Serra do Curral, em Minas Gerais, escreve mais um capítulo corrosivo na história das agências reguladoras.

Se a corrupção brota a olho nu em órgãos bem estruturados, o que esperar daqueles que são esvaziados, sem gente suficiente, sem dinheiro para fiscalização e até mesmo para contas básicas, de serviços de limpeza à manutenção de elevador?

Serra do Curral, em MG, é alvo de operações de mineradoras
A Serra do Curral, em MG, alvo de investigações da Polícia Federal contra diretores da Agência Nacional de Mineração 23.ago.2024 - Alex Lanza/Divulgação/MPMG

Há três décadas, o Brasil apostou na criação dessas agências para ter uma instância independente do governo. Elas fiscalizam o que for privatizado. Por isso, devem ter autonomia técnica e financeira.

O que se vê, no entanto, é o desmonte de órgãos que, todo mês, precisam encarar o vexame de passar o chapéu e pedir algum trocado ao governo, ainda que seja só para manter a luz acesa. O esculacho é geral e não é de hoje.

A ANM, que volta a frequentar páginas policiais, pediu liberação urgente de R$ 22,7 milhões, senão vai ficar sem dinheiro para fiscalizar barragens, fazer leilões, arrecadar royalties e até manter sistemas de computação funcionando.

A Agência Nacional de Energia Elétrica cobra desbloqueio de R$ 34,3 milhões, senão pode ficar no escuro. Na Agência Nacional de Aviação Civil, faltam mais de R$ 70 milhões para bancar os custos deste ano.

Nada é diferente na Agência Nacional do Petróleo, que não tem servidor para encarar novas obrigações que assumiu e conta com a mesma estrutura de 20 anos atrás.

Placa em frente ao prédio da Agência Nacional de Transportes Terrestres em Brasília
Sede da Agência Nacional de Transportes Terrestres, em Brasília 18.out.2022 - Divulgação/ANTT

A Agência Nacional de Transportes Terrestres já teve de renegociar até o aluguel de sua sede. A Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) pediu adiantamento para evitar o "colapso" da fiscalização. São escolhas. Para fechar suas contas, o governo passa a faca. Ocorre que é justamente essa turma que fiscaliza os setores que mais engordam os cofres públicos. A quem interessa manter uma agência frágil? À corrupção. A explicação pode estar aqui.