quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O que a guerra cultural sobre Nossa Senhora pode ensinar ao mundo, Rui Tavares, FSP

 Em bom rigor, eu não queria escrever sobre as eleições no Brasil; mas escrevi um livrinho sobre guerras culturais ("Hipocritões e Olhigarcas: Passado e Futuro das Guerras Culturais", que saiu há uns meses no Brasil pela editora Tinta da China) e o que aconteceu esta semana no Brasil parecia quase um fim alternativo para ele.

Vocês sabem do que eu estou falando: Flávio Bolsonaro anunciando que iria decretar como primeiro ato da sua Presidência que "o Brasil é do senhor Jesus" e o incômodo que ela causou, em setores católicos e não só, pela plausibilidade de que isso pusesse em causa o estatuto de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil.

Multidão de fiéis dentro da Basílica de Aparecida, iluminada por grandes janelas com padrões geométricos. Crucifixo central em destaque acima da congregação.
Multidão de fiéis participa das celebrações do dia de Nossa Senhora Aparecida, dentro da Basílica de Aparecida - Rubens Cavallari - 12.out.25/Folhapress

No livro eu deixei uma definição prática de guerra cultural que operava em três eixos: um acontecimento que polariza a sociedade; construído em torno de narrativas, identidades e valores; de grande intensidade emocional.

O que ficou de fora é verdadeiro impacto econômico e social do evento: ele pode ser nulo ou modesto, pode até não mudar nada na vida das pessoas que estão febrilmente empenhadas na guerra cultural, que isso não determina a importância da guerra cultural.

Do ponto de vista material, muito mais importante é a tecnologia associada à difusão da guerra cultural. Não por acaso, algumas das guerras culturais mais memoráveis estão associadas a revoluções comunicacionais que lhes ampliaram em muito o impacto.

O primeiro exemplo estudado é o de Lutero e da imprensa. Em si, o tópico que levou o jovem teólogo alemão a insurgir-se contra a igreja de Roma —a compra de indulgências por parte dos fiéis— não tinha uma dimensão econômica tão grande quanto isso; o protesto que Lutero lavrou nas suas 95 teses poderia ter passado despercebido não fosse a invenção recente da imprensa que o espalhou rapidamente em panfletos e cartazes aos milhares pela Europa fora.

Foi aliás quando vi uma imagem circulando nas redes que punha Lula e figuras do imaginário católicos ao lado de Nossa Senhora Aparecida contra um campo onde pontificavam Flávio Bolsonaro, Donald Trump, Javier Milei e outros, com Lutero acima deles, que decidi que esta coluna tinha de sair.

Na base de qualquer estratégia vencedora numa guerra cultural está a construção de maiorias: ao posicionar os interesses dos fiéis alemães contra os da Igreja de Roma, Lutero construiu maiorias identitárias no seu tempo.

Quando se diz uma frase aparentemente inócua como "o Brasil é do senhor Jesus", tenta criar-se uma maioria de cristãos contra não cristãos. O que aconteceu na desmontagem dessa frase foi a criação de outra maioria: católicos, sim, mas também fiéis de outras religiões, ateus e até evangélicos não autoritários defendendo a ideia de um Brasil mais festivo e convivial.

O conteúdo dessa última conflagração na guerra cultural brasileira é tão específico que não dei conta de que tenha sido muito falado no exterior. Mas o mundo teria muito a aprender se tivesse prestado atenção: cada guerra cultural é uma tentativa de construir maiorias, e vimos aqui como no mesmo povo, com o mesmo eleitorado e a mesmas identidades, basta uma mudança sutil na construção de narrativas para se formarem maiorias alternativas com valores por vezes opostos.

Brasil tem quase 10% mais gado do que gente em 2025, FSP

 O Brasil tinha rebanho de 234,3 milhões de bovinos em 31 de dezembro de 2025, aponta a nova edição da PPM (Pesquisa da Pecuária Municipal), divulgada nesta quarta-feira (30) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O efetivo caiu 1,7% ante a mesma data de 2024.

Apesar da baixa, o rebanho ainda superou o número de pessoas no país em 9,8%. O Brasil tinha 213,4 milhões de habitantes no ano passado, segundo projeção do IBGE relativa a 1º de julho de 2025.

"Estamos num ciclo de pecuária em que está tendo um abate forte, inclusive de fêmeas. Isso tem sido observado desde 2024. Resultou na menor capacidade reprodutiva e, como reflexo direto, na redução do rebanho em 2025", disse o pesquisador Octavio Costa de Oliveira, do IBGE, ao apresentar os dados da PPM.

O ano passado foi o segundo consecutivo de baixa no número de bovinos, e o ritmo de queda se acentuou. Em 2024, o recuo havia sido de 0,2% frente ao recorde de 2023 (238,6 milhões). A série histórica da PPM reúne dados desde 1974.

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Conforme o IBGE, 2025 teve o maior volume já registrado de abate de bovinos sob inspeção sanitária no Brasil (cerca de 43 milhões de cabeças).

Segundo Oliveira, o aumento ocorreu em meio a um cenário favorável para a pecuária, tanto em termos de mercado quanto de clima.

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As exportações de carne bovina in natura bateram recorde no ano passado. Além de ser o maior exportador, o país virou o principal produtor mundial à época, ultrapassando pela primeira vez os Estados Unidos.

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Mato Grosso concentrou a principal parcela do rebanho brasileiro em 31 de dezembro. O estado somava 31,6 milhões de cabeças, o equivalente a 13,5% do total. Pará (25,6 milhões) e Goiás (22,5 milhões) completaram a relação dos três primeiros.

A liderança entre os municípios continuou com o paraense São Félix do Xingu (a cerca de 1.050 km de Belém). A cidade da região Norte somava 2,7 milhões de animais no final do ano passado (1,2% do total).

No país, o rebanho bovino supera o número de pessoas de forma ininterrupta desde 2002, segundo o cruzamento realizado pela Folha entre os dados da PPM e as estimativas populacionais mais recentes do IBGE.

Rebanho de gado caminha por estrada de terra vermelha entre áreas verdes e morro coberto por vegetação ao fundo.
Gado se desloca em estrada em São Félix do Xingu (PA); município tem maior rebanho bovino do Brasil - Nelson Almeida - 20.jun.25/AFP

Ao contrário do gado, os galináceos registraram nova alta em 2025. Essa segunda categoria inclui frangos de corte e galinhas produtoras de ovos, além de galos, pintos e pintainhas.

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No ano passado, o total de galináceos cresceu 1,6%, para 1,6 bilhão de animais. Trata-se do novo recorde da PPM.

Caprinos (13,5 milhões) e ovinos (22,3 milhões) também alcançaram as máximas da série no ano passado. Caprinos abrangem bodes, cabras e cabritos, enquanto ovinos incluem ovelhas e carneiros.

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PRODUÇÃO DE OVOS CRESCE SEM PARAR DESDE 1999

O IBGE afirma que a produção de ovos de galinha mantém uma trajetória de crescimento contínuo desde 1999 no Brasil. O volume avançou 5,7% no ano passado, registrando o patamar recorde de 5,7 bilhões de dúzias.

Por ser uma fonte de proteína mais barata, o ovo pode funcionar como substituto da carne bovina em tempos de pressão inflacionária, indicou Octavio Costa de Oliveira, do IBGE.

Segundo o técnico, também é possível associar o aumento da produção à busca de parte da população por uma dieta saudável e à demanda da indústria de alimentos.

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O ovo é um item que costuma estar presente no cardápio de praticantes de musculação em academias.

Em uma situação hipotética, se a produção do ano passado fosse dividida igualmente pela população brasileira, cada morador ficaria com cerca de 323 ovos.

São Paulo é o estado que lidera a atividade, com quase 1,3 bilhão de dúzias em 2025 (22,5% do total). Minas Gerais (553,2 milhões de dúzias) e Paraná (535,7 milhões de dúzias) aparecem na sequência.

Santa Maria de Jetibá, na região serrana do Espírito Santo (a 85 km de Vitória), segue no topo do ranking dos municípios. A cidade capixaba produziu 352,5 milhões de dúzias (6,1% do total), permanecendo acima da paulista Bastos (280,1 milhões de dúzias).

Reportagem da Folha mostrou, em janeiro de 2024, que Santa Maria de Jetibá se destaca na atividade devido a uma combinação de fatores.

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A lista inclui investimentos em tecnologia e proximidade de centros com grande potencial de consumo e pouca tradição na avicultura, como é o caso do Rio de Janeiro, além de condições favoráveis de clima e relevo.

Foto mostra estátua de galinha gigante em Santa Maria de Jetibá (ES). Caminhões estão em uma estrada ao lado da estátua.
Estátua de galinha gigante em Santa Maria de Jetibá (ES); município lidera produção de ovos no Brasil - Eduardo Anizelli - 7.dez.23/Folhapress

LEITE BATE RECORDE ENQUANTO NÚMERO DE VACAS DIMINUI

Outro item que renovou o recorde da PPM foi o leite de vaca. A produção cresceu 2,7% em 2025, alcançando a máxima de 36,7 bilhões de litros.

A marca ocorre apesar da queda do número de vacas ordenhadas. O plantel de animais envolvido na atividade foi de 14,7 milhões de cabeças no ano passado. É o menor desde 1978 (14,2 milhões).

O aumento na produção com menos vacas reflete ganhos de produtividade. Esse indicador cresceu 5,6% em 2025, para quase 2.499 litros por animal no ano.

Segundo o IBGE, o cenário reflete investimentos em tecnologia e melhoramento genético por parte dos produtores que conseguiram se manter na atividade. A redução do número de animais estaria associada à saída de pecuaristas menos especializados ou com poucos recursos financeiros.

Minas Gerais liderou a produção de leite nos estados, com 10,1 bilhões de litros em 2025 (27,5% do total). Paraná (4,8 bilhões) e Rio Grande do Sul (4,2 bilhões) apareceram na sequência.

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O paranaense Castro (a cerca de 160 km de Curitiba) chama a atenção entre os municípios. A cidade contabilizou 532,8 milhões de litros no ano passado (1,5% do total).

MEL TAMBÉM REGISTRA MÁXIMA

O Brasil também bateu recorde na produção de mel: 71,3 mil toneladas. O volume subiu 4,5% em 2025.

"O avanço da produção de mel é sustentado tanto pelas condições climáticas favoráveis, que garantem oferta de recursos alimentares para as abelhas, quanto pela crescente demanda por produtos naturais e saudáveis, em nível nacional e internacional", aponta a PPM.