quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Tarcísio reorganiza secretariado de olho na sucessão na capital e em 2030, FSP

 

São Paulo

A equipe que Tarcísio de Freitas (Republicanos) está montando para seu segundo mandato mira criar condições para que ele chegue a 2030 capaz de disputar a Presidência e de fazer um sucessor no governo paulista, além de garantir que seu grupo político fique à frente da prefeitura da capital paulista, segundo alguns de seus principais aliados e auxiliares.

Para isso, ele deve reformular o núcleo da gestão do estado, dar espaço para aliados que o ajudaram na eleição e reforçar o apoio a Ricardo Nunes (MDB) na cidade de São Paulo.

Tarcísio foi reeleito em primeiro turno, com quase 63% dos votos válidos. Contudo, teve problemas que agora pretende resolver nas duas secretarias mais importantes do governo: a da Casa Civil, responsável por coordenar a execução de políticas públicas, e a de Governo, encarregada da articulação política, em especial com os deputados estaduais.

Homem com camisa amarela da seleção brasileira fala ao microfone, apontando com a mão direita. Ao fundo, pessoas desfocadas e faixa azul com texto parcialmente visível.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), em Guarulhos, na Grande São Paulo, durante evento de campanha de Flávio Bolsonaro - Zanone Fraissat - 21.out.26/Folhapress

No primeiro mandato, o governador havia nomeado Gilberto Kassab, presidente do PSD, para a Secretaria de Governo, e Arthur Lima, seu amigo de infância, para a Casa Civil. Ao longo dos anos, o arranjo mostrou limites e desagradou a Tarcísio.

Em meio à expansão de filiações do PSD tocada por Kassab, Tarcísio dizia a interlocutores que o secretário usava o cargo para reforçar o próprio prestígio político. Ao mesmo tempo, ouvia reclamações de deputados sobre o trabalho de Lima. Ambos deixaram os cargos antes do período eleitoral. Kassab afirmou que a saída seria para se dedicar às eleições.

Os dois postos-chave devem ser tocados agora por secretários que chegam prestigiados por Tarcísio. A articulação política será feita na Secretaria de Governo pelo presidente do Republicanos em São Paulo, Roberto Carneiro —nome cuja capacidade de diálogo é elogiada pelos deputados estaduais. A gestão da máquina deve ficar com a atual secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende, que migrará para a Casa Civil.

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Carneiro havia ido para o governo em janeiro deste ano, em meio a reclamações de deputados nos bastidores sobre o trabalho de Lima, que demoraria para liberar emendas parlamentares. Em março, ele substituiu Kassab na Secretaria de Governo, cargo que deixou temporariamente para atuar na campanha de Tarcísio. Já Natália, que Tarcísio sempre chamou de "supersecretária", foi responsável por coordenar o plano de governo apresentado na campanha eleitoral.

Tarcísio e outros secretários do Palácio dos Bandeirantes, como Laís Vita, da Comunicação, sempre negaram veementemente que o governador tivesse planos políticos para Natália. Aliados do governador no PL, no Republicanos e no MDB, porém, a apontam como uma de suas opções para concorrer ao governo em 2030.

Outra opção de Tarcísio para sua sucessão é o prefeito Nunes, que terá de deixar a prefeitura daqui a dois anos e, até o momento, vem se posicionando como seu principal aliado político. Para se viabilizar, na visão de aliados, ele precisa chegar ao término do mandato bem avaliado e conseguir fazer um sucessor na prefeitura em 2028.

A reportagem procurou o governo para comentar o assunto, mas não teve resposta. Desde o segundo turno das eleições, após gravar um vídeo em que ressalta que a eleição presidencial acabou, Tarcísio tem sido alvo de ataques nas redes sociais por grupos bolsonaristas, iniciados após críticas feitas a ele por Eduardo Bolsonaro.

Interlocutores que conversaram com Tarcísio nesta semana dão como certo que Nunes terá espaço no governo assim que deixar o mandato, mas sem detalhar em qual posto. Dizem ainda que o governador deve tomar medidas para ajudar o aliado.

Uma é dar mais espaço ao MDB, que deve avançar sobre pastas que eram controladas pelo PSD de Kassab, como a Saúde —a sigla, que com Kassab ocupou cinco secretarias, perde também pelo distanciamento na campanha. Outra é manter o delegado da Polícia Civil Osvaldo Nico Gonçalves na Segurança Pública.

Com participação constante em programas de TV policialescos vespertinos enquanto atuava como delegado, "Doutor Nico" chegou a ser opção de aliados para vice de Nunes em 2024, mas terminou preterido porque Jair Bolsonaro (PL) indicou o coronel Mello Araújo (PL) para o posto. Mantido na secretaria no novo mandato, Nico seguiria viável, na visão de aliados do governador, como opção de vice na chapa de um candidato escolhido por Nunes e aprovado por Tarcísio.

Tarcísio e Nunes devem ter a primeira agenda conjunta da nova etapa de governo na próxima semana, em uma cerimônia para marcar as obras do veículo leve elétrico (VLE) do centro, um projeto que, ao lado do novo centro administrativo do estado, deve repaginar o centro velho da cidade. A repaginação da região deverá ser um dos motes da campanha de Nunes para emplacar um sucessor na cidade.

Conforme a Folha publicou, há ainda mudanças que devem ocorrer em pastas menores, como Turismo e Viagens, Esportes e Políticas para a Mulher.

Os arranjos debatidos pelo governo não contemplam, por ora, segundo os relatos colhidos pela Folha, a opção de Tarcísio lançar seu vice, Felicio Ramuth, para o governo em 2030. Ramuth, que era do partido de Kassab, migrou para o MDB de Nunes e ficou com Tarcísio quando sua antiga sigla se afastou. Se Tarcísio conseguir se lançar à Presidência, terá de se afastar do governo até abril de 2030, e Felício será governador.

Nomes fortes do primeiro governo de Tarcísio

Gilberto Kassab, ex-secretário de Governo e Relações Institucionais
Presidente do PSD com fama de ser um articulador político habilidoso, se desgastou em meio a críticas de que priorizou a expansão de seu partido no estado.

Arthur Lima, ex-secretário da Casa Civil
Amigo de infância de Tarcísio, militar reformado e ex-presidente da estatal federal EPL (Empresa de Planejamento e Logística), ficou encarregado de supervisionar a máquina estatal. Críticas de deputados diante de atrasos na execução de contratos, foi transferido para a Secretaria da Justiça.

Nomes fortes do segundo governo Tarcísio

Roberto Carneiro, secretário de Governo e Relações Institucionais
Advogado, foi secretário de governo do Espírito Santo. É ppresidente do Republicanosem São Paulo. Ao chegar no governo paulista, ocupou a Casa Civil.

Natália Resende, possível secretária da Casa Civil
Engenheira civil e advogada, é secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística e apontada como auxiliar de confiança de Tarcísio.

Com maioria no Congresso dos EUA, democratas podem fazer vida de Trump até 2028 um inferno - FSP

 Victor Lacombe

São Paulo

Com a vitória avassaladora obtida nas eleições de meio de mandato nesta terça-feira (3) nos Estados Unidos, o Partido Democrata ganhou maioria no Senado e na Câmara —e, com isso, poder para causar sérios problemas para Donald Trump nos seus últimos dois anos à frente da Casa Branca, se assim desejar.

Antes da votação, havia um receio entre democratas de que as pesquisas estivessem subestimando o voto republicano e que apenas a Câmara voltaria à mão da oposição ou que, no Senado, a maioria fosse magra.

O Capitólio dos EUA, sede do Congresso americano, é visto em Washington - Jemal Countess - 2.nov.26/AFP

Não foi o que ocorreu: projeções apontam que as duas Casas terão margens confortáveis para o partido, liderado no Senado por Chuck Schumer e na Câmara, por Hakeem Jeffries —que provavelmente será eleito em 3 de janeiro de 2027 o primeiro homem negro presidente da Câmara na história dos EUA.

Os democratas conquistaram uma maioria de pelo menos 54 assentos no Senado, resultado ainda mais impressionante porque o desenho constitucional da Casa a torna, historicamente, mais refratária ao controle desse partido.

Isso acontece graças ao fato de que, como são eleitos dois senadores por estado, unidades da federação menos populosas e eleitores em zonas rurais são favorecidos, dando uma vantagem a republicanos. Pesquisas estimam que o Senado é, em média, seis a dez pontos percentuais mais à direita do que a população americana em geral.

A eleição desta terça caminha para ser a maior virada democrata desde 1958, quando eleitores puniram o republicano Dwight D. Eisenhower por uma recessão econômica e pela percepção de que os EUA perdiam a corrida espacial após o lançamento do Sputnik, o primeiro satélite da história, pela URSS.

Trump reagiu ao resultado dizendo que o Partido Republicano, que está quase totalmente sob o seu comando, perdeu porque ele próprio não estava na cédula. "Eu não estava lá, e por causa disso, não conseguimos fazer as pessoas saírem para votar", disse ao New York Times. Seu vice-presidente, J. D. Vance, tentou se distanciar do chefe e mencionou a guerra no Irã como o principal motivo para a derrota histórica.

Entretanto, por mais superlativa que seja a vitória democrata, a margem não dá ao partido o poder de aprovar leis sem negociar com os republicanos. Isso porque a minoria no Senado americano possui à sua disposição um mecanismo de obstrução poderosíssimo, chamado de filibuster.

Em termos gerais, e ao contrário do que acontece no Brasil, quando um senador começa a discursar, ninguém pode interrompê-lo até que ele mesmo decida parar. Isso dá à minoria a possibilidade de paralisar completamente os trabalhos da Casa por longuíssimos períodos de tempo.

A única maneira de interromper os discursos é por meio de um voto que requer uma maioria de três quintos, isto é, 60 senadores. Isso significa que poucas leis são aprovadas nos EUA sem alguma medida de cooperação bipartidária.

"Entretanto, se os democratas chegarem a 55 ou 56 assentos, não estarão muito distantes de 60", diz à Folha o analista político Gabe Fleisher, do portal Wake Up to Politics. "São apenas quatro votos para superar a filibuster. Talvez leis muito progressistas não passem, mas propostas mais ao centro, como o fim da guerra no Irã, podem angariar apoio de republicanos moderados, como Lisa Murkowski."

Murkowski, do Alasca, Rand Paul, do Kentucky, e Thom Tillis, da Carolina do Norte (derrotado na eleição desta terça) são os três republicanos que se uniram aos democratas para aprovar uma lei em setembro deste ano que colocava fim à guerra, altamente impopular.

Outra opção é que os democratas usem sua maioria simples para atualizar as regras internas do Senado e acabar com a filibuster —uma medida que nenhum dos partidos que controlou a Casa ousou fazer ao longo das últimas décadas por medo de perder essa ferramenta uma vez de volta à minoria.

"Se os democratas vencerem a Presidência, o Senado e a Câmara em 2028, fica mais difícil argumentar contra o fim da filibuster", diz Fleisher. "A partir de 2029, acho que ela está com os dias contados."

Porém, mesmo que aprovem leis, os democratas encontrariam uma barreira ainda maior para derrubar um veto presidencial, que Trump já prometeu usar com frequência se a oposição vencesse. São necessários dois terços dos votos, ou 67 senadores. No Brasil, o veto é derrubado por maioria absoluta, isto é, 257 deputados e 41 senadores.

Na nova configuração do Senado americano, considerando 56 votos para democratas, seria necessário que 11 dos 44 republicanos votassem contra Trump para encerrar a guerra, por exemplo.

Há, entretanto, poderes à disposição do Partido Democrata que não dependem de uma maioria qualificada. Talvez o mais relevante deles seja o de investigação: comitês na Câmara e no Senado podem convocar membros do governo Trump ou aliados no setor privado a depor —e quebrar seus sigilos.

Eles poderão investigar temas considerados sensíveis para o governo, incluindo os negócios da família Trump e a relação entre autoridades federais e empresas privadas que tentaram exercer influência sobre a Casa Branca, bem como desdobramentos sobre o caso do criminoso sexual Jeffrey Epstein.

"Basicamente, todo mundo de John F. Kennedy a Elon Musk vai ter seu sigilo quebrado", afirma Fleisher. "É difícil dizer se isso vai levar a impeachments, mas certamente haverá maior pressão dos democratas." Remover secretários ou o próprio presidente do cargo também requer maioria de dois terços nas duas Casas.

A partir de 2027, os democratas também ganham o importante poder de vetar os nomes que Trump sugerir para qualquer uma das centenas de vagas a cargos públicos que dependem de confirmação no Senado.

As posições ministeriais mais importantes, como Estado (que cuida da política externa), Defesa, Tesouro e Justiça já estão ocupadas, mas se algo mudar, o presidente precisará da anuência do Partido Democrata. A oposição critica duramente as ações de alguns secretários, como Pete Hegseth, que vem comandando o Pentágono durante a guerra no Irã.

O mesmo vale para vagas na Suprema Corte. Como são vitalícias, não é incomum que magistrados morram no cargo. Se isso acontecer nos dois anos que ainda restam no mandato de Trump, os democratas podem ter grande influência na confirmação de um substituto ou até mesmo evitar preencher a vaga até as próximas eleições.

"Ninguém estava esperando uma maioria democrata tão expressiva, o que significa que qualquer coisa pode acontecer", diz o analista político. "Agora, não sabemos o que vem por aí —e indicações à Corte são o legado mais longevo de qualquer presidente."

Por fim, o resultado das eleições significa que Trump está refém da oposição para aprovar o orçamento do governo federal. A partir de 2027, seu partido não terá mais os votos nem sequer para financiar partes do governo por medida emergencial, como fez muitas vezes neste segundo mandato do republicano.

Chuck Schumer, futuro líder da maioria no Senado, já disse que pretende usar essa vantagem na mesa de negociação para encerrar a guerra no Irã. "Alguns republicanos já se juntaram a nós para acabar com essa guerra, e os Fundadores disseram que o poder orçamentário é capaz de deter um presidente que vai à guerra sem apoio do povo americano", afirmou nesta quarta.