domingo, 15 de fevereiro de 2026

Medicina já debate se ciúme pode ser doença de verdade, Marcelo Leite FSP

 A linguagem cotidiana já diz quase tudo quando se fala que a pessoa tem um ciúme doentio: a escalada obsessiva dessa paixão escura, tão comum, tem mesmo um quê de doença. Daí a aceitar que passe a fazer parte do rol oficial de distúrbios mentais, bem, é outra história.


Dá o que pensar a pergunta lançada por dois psicólogos da Suécia em artigo de opinião no Jama Psychiatry, um dos periódicos da associação médica dos EUA: "O ciúme obsessivo tem lugar na psiquiatria?" David Mataix-Cols e Johan Åhlén, do Instituto Karolinska, propõem que sim, seria útil contar com uma nova categoria de diagnóstico, algo como transtorno de ciúme obsessivo, ou mórbido.

Psicólogos suecos defendem, em artigo de opinião no Jama Psychiatry, que o ciúme obsessivo tem lugar na psiquiatria - Antonioguillem - stock.adobe.com

Primeira coisa que vem à cabeça: caso seja criado um número CID para essa perturbação, poderia ela vir a ser empregada por advogados de defesa como atenuante em casos de feminicídio? Matei porque estava doidão, literalmente louco de ciúme, e aqui está o médico para testemunhar que não estou inventando.

Seriam os sucedâneos médicos da violenta emoção, da perda momentânea de razão e da legítima defesa da honra que o direito tem banido da argumentação legal, sob pressão da opinião pública enojada com a covardia machista. Nada como um laudo para tirar o próprio da reta, a consagrada saidinha Bolsonaro.

Mulheres, claro, também podem manifestar ciúme doentio. Mas parece óbvio que são os homens, na maioria dos casos, os que se atribuem a prerrogativa de recorrer a agressões e violência letal. Estão aí as estatísticas para provar.

Verdade que, ao pesar prós e contras do novo diagnóstico, Mataix-Cols e Åhlén sequer cogitaram tal possibilidade. Não vivem no Brasil. Limitam-se a discutir se teria cabimento patologizar comportamento tão comum, para não dizer universal.

O busílis, argumentam, está em fixar critérios objetivos para estabelecer quando essa paixão se torna excessiva, intrusiva, persistente e incontrolável, dando margem a comportamentos compulsivos de vigilância, confrontação ou agressão. Com parâmetros para identificar os casos verdadeiramente patológicos, prevenção e tratamento poderiam ser mais eficazes.

Para isso, defendem, é preciso fazer mais pesquisas. Estudo com um milhar de suecos ciumentos, que teve Åhlén entre os autores, indicou que a obsessão prejudica trabalho, lazer e relacionamentos, estando associada com abuso de álcool. Por outro lado, histórico de ciúme em relacionamentos anteriores parece tornar a pessoa mais propensa a buscar assistência psicológica.

Talvez esteja aí a chave da responsabilização moral em caso de violência. Qualquer indivíduo que não esteja imbuído da convicção de superioridade pessoal ou de um sentimento de propriedade sobre o outro, em geral alicerçados em noções emboloradas de gêneros masculino e feminino, saberá reconhecer que passou do limite e precisa de tratamento para não recorrer às vias de fato.

Essa é a doença da atualidade: uma tendência a se fazer de vítima das próprias pulsões ou incapacidades e a brandi-las como álibis para o desempenho antissocial. O corolário disso, na medicina, vem com a proliferação de diagnósticos que estilhaçam numa miríade de transtornos o caroço duro da infelicidade contemporânea.


Em visita à Índia, Lula vai reforçar discurso da soberania e assinar acordo, FSP

  

São Paulo

Com acordos sobre minerais críticos, governança digital e inteligência artificial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende reforçar o discurso da soberania e defesa do multilateralismo, além de fazer contraponto aos Estados Unidos, durante visita de Estado à Índia nesta semana.

Em Nova Déli, Lula participa nesta quinta (19) da Cúpula Impacto da Inteligência Artificial, ao lado de outros 20 chefes de Estado e governo, entre eles o presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez. No sábado (21), o mandatário faz reunião bilateral com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e anuncia ao menos 10 acordos bilaterais.

Folha teve acesso ao conteúdo da Parceria Digital Brasil-Índia para o Futuro, acordo guarda-chuva que será anunciado no próximo fim de semana.

Dois homens de cabelos brancos e barbas, vestidos formalmente, posam juntos sorrindo. Um deles usa colete azul e camisa branca com medalha pendurada no pescoço, enquanto o outro veste terno azul e segura o braço do primeiro, fazendo sinal de positivo com a mão direita. Fundo com parede dourada e reflexiva.
O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reúnem no palácio da Alvorada em julho de 2025. Na ocasião, Lula deu a Modi a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. - EVARISTO SA/AFP

A Parceria prevê um centro de excelência conjunto em infraestrutura pública, com colaboração em identidade digital, pagamentos digitais e compartilhamento de dados, e uma rede aberta de IA para ação climática em países em desenvolvimento. Também inclui cooperação em inteligência artificial, na adoção e desenvolvimento de grandes modelos de linguagem, além de parceria em semicondutores – a Índia está construindo uma fábrica de chips avançados com investimentos de US$ 20 bilhões.

Também serão anunciados acordos sobre governança de internet e inovação em IA com respeito a direitos autorais.

A cooperação com um grande país do chamado "Sul Global" em minerais críticos e inteligência artificial faz parte da agenda do presidente Lula de combate à desigualdade.

O pano de fundo, segundo disseram funcionários de vários ministérios, é impedir que o chamado "Sul Global" fique para trás na revolução tecnológica da IA. Combate à desigualdade, nessa visão, não se resume a reduzir a fome e a pobreza, mas também evitar que se aprofunde o poço de desigualdade no acesso e no desenvolvimento das tecnologias.

"A cadeia de IA que vai desde as terras raras até o software não pode levar a um maior desequilíbrio entre países nem aprofundar a desigualdade dentro dos países. É muito importante debater quem vai produzir a tecnologia, como ela vai ser distribuída, e como o Brasil se insere nisso de uma maneira diferente das últimas mudanças tecnológicas, em que ficamos correndo atrás", disse à Folha Esther Dweck, ministra da Gestão e da Inovação.

Lula também deve reforçar a defesa da soberania do Brasil para estabelecer regulação das Big Techs.

O governo Trump vem ameaçando retaliar com tarifas a União Europeia por causa de suas leis de regulação de serviços digitais, IA e taxação de big tech. No Brasil, medidas do governo e do Supremo que atingem as Big Tech foram citadas como um dos motivos para a imposição do tarifaço de Trump, em julho do ano passado, e ainda são alvo da investigação da seção 301 do Escritório de Comércio da Casa Branca, que pode resultar em sanções.

O mandatário também vai voltar a fazer uma defesa da ONU e do sistema multilateral, sob ataque do governo Trump, e da necessidade de uma governança global de IA, que enfrenta enorme oposição dos EUA.

Outro acordo a ser lançado será um memorando de entendimento sobre minerais críticos. Ainda que se restrinja a aspectos mais gerais, é significativo por ser o primeiro acordo bilateral do Brasil específico para minerais críticos e se dê com a Índia, longe da disputa entre Estados Unidos e China para dominar a cadeia de suprimento dos minerais essenciais para alta tecnologia.

O acordo e as declarações do presidente Lula na Índia devem sinalizar os princípios do Brasil em relação a minerais críticos. Um deles é a universalidade: o Brasil se recusa a assinar tratados que exigem exclusividade no fornecimento. Os EUA vêm pressionando países a fecharem entendimentos com essas amarras, rechaçadas pelo governo do Brasil, que tem a segunda maior reserva de minerais críticos do mundo. Também deve ser enfatizado o princípio de estimular o processamento em solo brasileiro, e não apenas o fornecimento das matérias primas.

Do ponto de vista da Índia, um dos objetivos é reduzir a dependência da China, líder em produção e processamento de minerais críticos. O governo indiano já fechou acordos nesse setor com Argentina, Austrália e Japão.

Na questão da governança de IA, alinhar-se a Nova Déli traz riscos. Brasil e Índia compartilham o objetivo de investir em soluções locais, para não ficar excessivamente dependentes de Estados Unidos e China em relação a inteligência artificial e minerais críticos. Mas há diferenças importantes. Enquanto a Índia foca aumentar o uso de IA no país e desenvolver aplicativos locais, o Brasil tem uma agenda forte de regulação dos riscos e danos dessa tecnologia.

"A Índia aposta muito na moderação de conteúdo, inclusive muitas vezes o governo tem mão pesada nessa área; mas para além disso, o foco é se vender como destino de investimentos, e a maioria das regras são compromissos voluntários das próprias empresas de tecnologia, sem fiscalização ou responsabilização", diz Astha Kapoor, diretora do Instituto Aapti. "Já o enfoque em democratização do acesso é para ampliar o uso, mas não para assegurar que os direitos das pessoas sejam respeitados, nem para que haja medidas de transparência."

Estão confirmados na comitiva de Lula os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores); Camilo Santana Educação); Alexandre Padilha (Saúde); Esther Dweck (Gestão e Inovação); Luciana Santos (Ciência e Tecnologia); Wellington Dias (Desenvolvimento Social); e Frederico de Siqueira Filho (Comunicações), além de Audo Faleiro, assessor-adjunto da Assessoria Internacional do Planalto.

Empresas enxugam estrutura, e Brasil elimina mais de 300 mil vagas de gerente e diretor em 6 anos, FSP

 Na contramão do mercado de trabalho aquecido dos últimos anos, e em meio a um processo de modernização e enxugamento de custos pelas empresas, o Brasil eliminou 322 mil vagas de gerência e diretoria de 2020 para cá.

Dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostram que em 2025 o saldo das contratações para esses cargos de liderança ficou negativo em 112,3 mil postos.

O movimento mostra um descolamento do mercado de trabalho como um todo: nos últimos seis anos, foram geradas 9 milhões de vagas com carteira assinada no Brasil, 1,2 milhão delas em 2025.

A imagem mostra uma mão segurando uma carteira de trabalho, que é de cor azul. A carteira está posicionada sobre uma superfície de cor azul clara. O texto na capa da carteira diz "CARTEIRA DE TRABALHO" e "PREVIDÊNCIA SOCIAL".
Desde a pandemia, foram eliminadas mais de 300 mil vagas de gerentes e diretores - Gabriel Cabral/Folhapress

Os cortes de vagas de gerência e diretoria vêm se intensificando desde 2023, quando foram eliminadas 89,6 mil dessas ocupações; em 2024, foram cortadas 98,3 mil.

O encolhimento no número de líderes pode ser explicado por algumas razões, e uma das principais é o caminho sem volta da horizontalização dentro das empresas, que reduz a quantidade de níveis hierárquicos nas grandes corporações.

Esse processo já vinha acontecendo na década passada, mas ganhou fôlego em meio ao forte impulso recente da digitalização, que facilita a fiscalização e gestão, permitindo que menos gerentes supervisionem mais pessoas.

"Nos anos 1980 e 1990, havia estruturas extremamente verticalizadas e compartimentadas. Isso foi mudando", diz Leonardo Berto, gerente regional da consultoria de recrutamento Robert Half. "Hoje há menos áreas generalistas, e mais especialistas, mais líderes de projetos. Os processos passaram a ser mais modernos e integrados", diz.

A pandemia acabou estimulando esse processo com a melhoria nas infraestruturas tecnológicas das companhias, com grandes avanços no desenvolvimento de softwares de gestão.

"Muitas empresas reduziram seus corpos diretivos afunilando níveis, reduzindo em um, dois e até três escalões para cortar custos", diz Lucas Oggiam, diretor executivo da Michael Page. "Antes, uma pessoa se dedicava somente a uma atividade, e hoje não é estranho que se dedique a duas. Acumula-se mais responsabilidade em menos indivíduos."

Mas esse é apenas um dos aspectos que explicam os cortes das posições de liderança. Outro motivo é o efeito da taxa de juros elevada por um longo tempo sobre as empresas brasileiras. Desde fevereiro de 2022, a taxa básica de juros (Selic), hoje em 15% ao ano, está em dois dígitos.

"Em um cenário de juros altos e restrição de investimentos, você prioriza as funções essenciais, colocando em primeiro lugar a manutenção das operações", diz Berto. "Já em um cenário positivo, em que vai investir, a empresa provavelmente está gerando novos empregos, e isso exige liderança estratégica."

Para os especialistas, a decisão de cortar cargos de gerência e diretoria acaba sendo muito influenciada pelo cenário macroeconômico.

"Nos últimos anos, o mundo ficou de ponta cabeça por causa da Covid, e o mercado se ajustou, focando na rentabilidade e na gestão de caixa. Isso, com os juros altos, tem sido um desafio para parte das empresas", diz Oggiam.

Outro ponto é que muitas multinacionais sofreram com uma sucessão de crises que se acumularam nos últimos anos. Além da pandemia, houve a invasão da Ucrânia pela Rússia, os conflitos no Oriente Médio e, mais recentemente, a imposição de tarifas a produtos importados pelo presidente americano, Donald Trump.

Quando empresas americanas ou europeias decidem eliminar determinados cargos, essas medidas costumam ser replicadas por suas filiais no Brasil.

"Após a pandemia, as cadeias de suprimentos começaram a se desestabilizar, e isso levou ao achatamento das estruturas", diz o especialista da Michael Page. "Houve uma cadeia de fatores que fizeram com que as empresas tivessem que optar pela sobrevivência, cortar a mão para não cortar o braço."

Apesar dos cortes de cargos de liderança, a avaliação é que esses gerentes e diretores não ficaram sem emprego. Para Berto, há uma redistribuição de vagas, com as pessoas encontrando outros caminhos de carreira.

"A mão de obra passou a ser absorvida de outras formas, como em funções de consultor ou analista, que envolvem algum nível de liderança", diz. "Além disso, muita gente não segue mais um caminho linear e tradicional de carreira."