segunda-feira, 13 de julho de 2026

Alexandra Moraes - Ombudsman - Avaliação de 'caneta paraguaia' também testa o jornal, FSP

 A Folha testou versões paraguaias das "canetas emagrecedoras" vendidas clandestinamente no Brasil. O procedimento que colocou as substâncias à prova também acabou testando o jornal.

A reportagem foi ao ar no site no dia 4: "Canetas emagrecedoras do Paraguai têm princípio ativo equivalente ao do Mounjaro, mostra análise da Unicamp". Havia ressalvas importantes, algumas já na linha-fina, subtítulo da reportagem: "Análise verificou concentração e estrutura molecular, mas não pureza, eficácia e segurança" e "Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, diz que ter a mesma substância não significa que produtos sejam iguais". Ainda assim, elas eram insuficientes, e o título soava mais inadequado quanto mais a leitura avançava.

Um dos principais alertas ficou enterrado depois do 20º parágrafo: "A amostra de Gluconex (...) apresentou concentração muito maior que a informada pelo fabricante" e "quem utiliza esse medicamento corre risco", segundo José Luiz da Costa, professor de toxicologia e coordenador do CIATox (Centro de Informação e Assistência Toxicológica) da Unicamp, que fez os testes.

Outros especialistas chamavam a atenção, no texto, para eventuais problemas de composição e armazenagem. Advogados alertavam para risco jurídico e crimes que poderiam ser associados à venda e à compra dos produtos. Nesse ponto, havia ruído em relação ao Manual da Redação, segundo o qual "a Folha não admite que seus profissionais pratiquem ato ilegal, antiético ou desonesto para obter informações". O jornal responde que "todo o processo foi desenhado com assessoria jurídica".

Ilustração de uma caneta emagrecedora
Ilustração de Carvall para Ombudsman de 12 de julho de 2026 - Carvall/Folhapress

O final do texto informava que, segundo a Anvisa, análises laboratoriais independentes não substituem o processo completo.

É possível considerar que o teste seja de interesse público: se esses produtos já são vendidos a rodo e sem controle, vale averiguar a composição deles. Nesse caso, porém, o título já deveria deixar claros riscos e limitações. O jornal pode, cinicamente, abraçar a ideia de que não é responsável pela distorção feita nas redes sociais. Mas estamos em 2026.

Outro ponto, anterior, é a relativa falta de sentido em testar só a presença da substância, se a decisão sanitária não se limita a esse aspecto, como o texto informa.

A chefia da Redação da Folha afirma que "a reportagem investigava se os produtos paraguaios, cujo contrabando para o Brasil é crescente, tinham de fato tirzepatida e se havia mistura com semaglutida". "O objetivo foi fornecer ao leitor informação relevante, que não estava disponível. Os riscos estão claramente identificados no texto e, na edição online, destacados no alto. Não dizemos que os produtos são equivalentes, mas que o princípio ativo (tirzepatida) encontrado num produto é equivalente ao do outro (não igual). A Anvisa sabia dos testes e afirmou que eles eram valiosos. O laboratório Eli Lilly foi ouvido durante o processo e sua posição foi registrada no texto."

Após a repercussão da publicação, a Anvisa emitiu nota com um "NÃO" em caixa-alta: "Canetas do Paraguai NÃO demonstraram equivalência com medicamentos registrados no Brasil".

Consultada sobre o termo "valiosos", a assessoria da Anvisa afirma que as informações do teste se inserem num "conjunto de contribuições para o entendimento do risco". "A resposta da Anvisa não indicou que este resultado em específico fosse valioso. Até porque a Anvisa não havia tido acesso aos dados, metodologia e demais detalhes."

O laboratório da Unicamp também emitiu nota crítica ao jornal. A Folha afirma tê-lo consultado a respeito da formulação do título, o que o laboratório confirma, mas diz discordar do uso de "equivalente", segundo Gabriel Cordeiro, gestor de educação e difusão do conhecimento da instituição. "O conteúdo do corpo da matéria está correto. O problema ficou no título, que infelizmente acaba induzindo o público que lê apenas a manchete a ter uma compreensão errada do caso."

Para a SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), a SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes) e a Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica), que publicaram nota conjunta, o problema também estava na "expressão ‘princípio ativo equivalente ao do Mounjaro’, interpretação que não seria possível sem outros critérios".

Já a Eli Lilly, dona do Mounjaro, afirma que "um veículo de extrema relevância e credibilidade como a Folha de S.Paulo, ao chancelar erroneamente a ‘equivalência’ de um produto sem registro no país, pode incentivar leitores a consumir medicamentos de procedência duvidosa e potencialmente perigosos".

Nas redes, o título da Folha foi usado como confirmação da segurança por vendedores e até políticos que se promovem em cima de gargalos reais —alto custo e dificuldade de acesso aos remédios. Para a Anvisa, "o título da matéria e a afirmação de que os princípios ativos eram equivalentes (incorretos do ponto de vista farmacológico) motivaram a circulação dos conteúdos desinformativos, induzindo a população ao erro".

Neste sábado (11), o jornal publicou um vídeo em que destaca as limitações do teste e ouve novamente o laboratório e a SBEM. Nos comentários desse novo vídeo, muita gente (e talvez alguns robôs) defende a soberania da Dinavisa, a vigilância sanitária do Paraguai, agradece ao país vizinho por ter perdido dezenas de quilos e questiona os interesses da indústria farmacêutica.

Uma questão menor, mas ainda assim relevante, é por que chamar esses produtos paraguaios de "caneta", se eles não vêm com os aplicadores que deram o apelido aos remédios originais. A própria reportagem do dia 4 informa que "o paciente precisa aspirar a dose com uma seringa, o que aumenta o risco de erros de dosagem e pode levar a complicações". Chamar esses produtos que vêm em ampolas de "canetas" em texto jornalístico não ajudaria também a subsidiar a equivalência pleiteada por quem os vende ilegalmente?

A Secretaria de Redação da Folha responde que "‘caneta' virou um sinônimo, no uso popular, para as substâncias emagrecedoras; no decorrer do texto, inclusive com fotos, fica clara a diferença".


O banheiro como política pública, FSP

  

Renê de Castro

Arquiteto e urbanista, fundador e diretor da Vermelho Arquitetura e Urbanismo; passou pelo Habitat para a Humanidade Brasil e pela Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo

O Brasil ainda convive com um déficit habitacional que ultrapassa 8 milhões de moradias. Em muitos casos, o resultado da falta de habitação digna significa famílias vivendo sem saneamento básico, em casas precárias e sem banheiro adequado. Essa realidade impacta diretamente a saúde, a segurança e a qualidade de vida, principalmente nas periferias. É latente a necessidade de políticas públicas de todos os governos —federal, estadual e municipal— para consolidar o direito à moradia, previsto na Constituição brasileira.

Diante desse cenário, o Diário Oficial da União publicou, nas últimas semanas, o resultado de um chamamento da Secretaria Nacional das Periferias, vinculado ao Ministério das Cidades, para obras de melhorias habitacionais, com foco em banheiros. O edital faz parte do Programa Periferia Viva, que busca erradicar a falta de infraestrutura básica em casas em locais considerados vulneráveis. São mais de 30 mil domicílios beneficiados em 130 municípios de todo o Brasil, com até R$ 40 mil em verba máxima para cada residência contemplada.

Banheiro simples com paredes de madeira com frestas, vaso sanitário de plástico marrom à direita, baldes e recipientes no chão, e toalha pendurada na parede à esquerda.
O banheiro em uma casa de palafita às margens do rio Tucunduba (PA), sem acesso a saneamento básico 08.ago.2024 - Alessandro Falco/Folhapress

Mais do que pequenas reformas em casas, esse tipo de iniciativa melhora condições básicas de moradia e fortalece políticas de habitação de interesse social. O programa mostra que investir em melhorias habitacionais não é caridade nem ação pontual: é política pública estruturada, com impacto direto na vida das famílias atendidas.

Agora começa a etapa mais importante: a execução. O desafio é garantir obras bem feitas, compatíveis com a realidade das comunidades, usando a experiência acumulada ao longo dos anos de atuação de arquitetos e urbanistas pelo país. O resultado do programa não depende apenas da seleção das propostas, mas da qualidade da entrega e do compromisso com as famílias atendidas.

O que está em jogo não é apenas a execução de reformas, mas a capacidade de demonstrar que políticas de melhoria habitacional funcionam quando há planejamento, responsabilidade técnica e compromisso com a realidade das comunidades. Cada projeto entregue com qualidade fortalece a defesa de novos investimentos e amplia a presença do Estado onde ela ainda é mais necessária.

A atuação em periferias exige escuta, presença e soluções técnicas adequadas à realidade local. Quando projetos são realizados com qualidade, ajudam a consolidar a arquitetura e o urbanismo como ferramentas importantes para melhorar as condições urbanas e ampliar o alcance das políticas públicas.

PUBLICIDADE

As conquistas institucionais são importantes, mas o que realmente sustenta esse trabalho é a continuidade. Muita gente atuou por anos, muitas vezes longe dos holofotes e em territórios historicamente negligenciados pelo poder público, e é essa experiência prática que precisa continuar orientando os próximos passos.

Como resume a arquiteta Socorro Leite, diretora-executiva do Habitat para a Humanidade Brasil, "agora é o momento de trabalharmos, fazer o melhor trabalho possível e mostrar que funciona". Porque, afinal, não é apenas sobre o banheiro. É sobre dignidade, respeito, oportunidade e políticas públicas para quem mais precisa delas.

Ruge um tigre de papel - Muniz Sodré - FSP

 Fato patibular não é só que os colombianos tenham elegido um presidente de extrema direita, mas que Abelardo de la Espriella seja um outsider da política e da realidade do país, terceira economia sul-americana, fornecedor de dois terços da cocaína consumida no mundo. Advogado, empresário, milionário, com dupla nacionalidade (colombiana e americana), residente entre Florença e Miami, em meio a rumores de ligação com a CIA, ele atraiu multidões a seus comícios com camisa amarela da seleção, rugindo como um tigre. Citando Trump, Bukele e Milei para garantir que pode administrar o Estado como uma empresa, diz que, em seu governo, "bandido que não se submeter será abatido".

De empresa e bandidagem, "O Tigre", como se intitula, sabe muito. Defendendo com sucesso nos tribunais astros de futebol paramilitares, narcotraficantes e políticos corruptos, ele acumulou fortuna suficiente para abrir a loja "De la Espriella Style", onde comercializa marcas próprias, desde rum e vinho até camisas e lenços de seda para "defensores da pátria". Aos criminosos comuns, acena com medidas duríssimas: prisioneiros confinados em megapresídios de dez andares abaixo da terra e alimentados "a pão e água". Antes, tinha prometido "estripar a esquerda".

Homem de cabelo curto e barba faz saudação com a mão direita na testa. Ele veste camiseta amarela com detalhes vermelhos e escudo no peito, com a frase 'FIRME PELA PÁTRIA'. O funda é escuro.
O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, durante encontro com apoiadores em Barranquilla - Juan Barreto - 22.jun.26/AFP

Venceu por um ponto de diferença. Para entender o fenômeno, é preciso considerar o cansaço dos colombianos com a progressão da violência e do crime organizado. Levaram a sério o rugido de Espriella, enquanto outros ouviam apenas miado de gato. Daí a oportuna distinção entre povo republicano e massa, numa escala de conscientização civil que pode decrescer até a estupidez terminal. Índice máximo da pior forma de iletramento, segundo Bertolt Brecht: o analfabetismo político. E, no entanto, são bons, comparados à média sul-americana, os índices de leitura livresca na Colômbia.

Mas não tem a ver com leitura. Há elementos no avanço internacional da ultradireita que reescrevem o mito fascista do "homem novo" na forma do outsider da política, assim como o estupor estático diante de líderes carismáticos por admiração a personagens com discursos esdrúxulos. Não mais ritos de união mística do chefe com a multidão nem dramatizações simbólicas de unidade nacional por meio da liderança. O mote direitista de regeneração da política não resiste à degeneração de caráter dos militantes.

A nova massa se reconhece na videogenia de aplicativos como Instagram e TikTok, adequada a caricatos fac-símiles humanos tipo Trump, Milei, Bukele, Bolsonaro. Um reencena Nero como imperador do mundo; outro é cantor de rock, assessorado por cachorros mortos; outro, presidente de presídios, após acordos secretos com as facções; aquele outro, já encarcerado, era bufão do golpismo permanente. Na Colômbia, um showman no papel de tigre.