quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O alto valor das emendas parlamentares, Bráulio Borges, FSP

 Segundo dados do portal Siga Brasil, do Senado, o gasto total do governo federal com emendas parlamentares atingiu R$ 45,4 bilhões em 2025, levando em conta tanto o pagamento de emendas referentes ao ano passado como os restos a pagar de anos anteriores. Em 2024, esse montante havia sido de R$ 42,6 bilhões (valor já atualizado pela inflação do IPCA). A leitura de 2025 corresponde ao maior valor da série histórica, iniciada em 2015.

Como é amplamente sabido, o grande salto nessas despesas ocorreu de 2020 em diante: na média de 2016/17, o gasto anual havia sido de cerca de R$ 6,6 bilhões. Em 2020 já subiu para quase R$ 30 bilhões, nível que se manteve em 2021 e 2022 (R$ 32 bilhões). No período de 2023 a 2025, tivemos mais uma rodada de elevação, chegando aos R$ 45 bilhões citados anteriormente. O Orçamento aprovado pelo Congresso no final do ano passado previa R$ 61 bilhões em 2026, mas o presidente Lula vetou pouco mais de R$ 7 bilhões desse montante em meados de janeiro.

Área extensa de floresta desmatada e queimada no centro da imagem, cercada por vegetação densa e verde. Uma estrada de terra clara corta a imagem da parte inferior até o topo, passando ao lado da área desmatada. Pequenas construções ou estruturas estão visíveis próximas à estrada, em meio à vegetação.
Trecho de estrada no Acre feita com recursos de emendas parlamentares e sem o devido processo de licenciamento ambiental - Henrique Santana - 3.out.25/Folhapress

A despeito de esse veto presidencial ter sido modesto —afinal, um valor de cerca de R$ 54 bilhões ainda representa um acréscimo expressivo ante os R$ 45 bilhões do ano passado—, os congressistas reclamaram, como se esse patamar já não fosse uma excrescência.

Em um artigo que preparei para a revista Conjuntura Econômica, do FGV Ibre, em meados do ano passado, tentei aquilatar qual deveria ser o montante de gastos com emendas caso tomássemos como referência os Estados Unidos. Se o Brasil adotasse a regra vigente naquele país desde 2021 —que limita as emendas a 1% das despesas discricionárias—, os gastos deveriam ter sido de aproximadamente R$ 2 bilhões, ou seja, apenas 4,4% do valor efetivamente pago no ano passado.

Alguém poderia contra-argumentar dizendo que o montante de despesas discricionárias no Brasil está sendo cada vez mais espremido pelas despesas obrigatórias, de modo que adotar a métrica acima não corresponderia a uma comparação muito "justa".

Desse modo, preparei outras duas comparações: o peso do gasto das emendas no PIB e o peso no total de gastos primários do governo federal. Usando esses referenciais, os gastos com emendas no Brasil deveriam ter sido de no máximo R$ 6 bilhões no ano passado –ou seja, semelhante ao patamar observado em 2016/17, antes do início da "marcha da insensatez".

O gigantismo assumido por essas emendas é altamente antidemocrático, ao conferir uma vantagem muito grande para os congressistas que buscam a reeleição ("incumbentes"), reduzindo a taxa de renovação do Congresso.

Mas talvez o pior aspecto desse fenômeno esteja associado à falta de transparência e rastreabilidade desses gastos, algo que, além de oferecer muitas oportunidades para desvios/corrupção, também dificulta (deliberadamente?) a realização de avaliações de custo-benefício das políticas públicas financiadas com esses recursos.

Dificilmente o Congresso irá reduzir esses montantes por vontade própria. Por isso é louvável o esforço que o ministro Flávio Dino, do STF, vem fazendo para tentar disciplinar esses gastos.

Não obstante, eu acho cada vez mais que somente um evento traumático –como um novo escândalo dos "anões do Orçamento"– permitirá que esses valores sejam reduzidos —idealmente para algo mais próximo do observado antes da pandemia. Não parece ser um cenário que se possa descartar, uma vez que o noticiário aponta que cerca de 80 de parlamentares e ex-parlamentares estão sendo investigados pelo Supremo.

Recorde com petróleo em tempos de transição energética, editorial FSP

 O Brasil fechou 2025 com a marca histórica de produção média de 3,77 milhões de barris de petróleo por dia, um aumento de 12,3% sobre o recorde anterior de 2023. Em plena era de transição energética, o país ainda conta com resultados assim para atrair divisas e reduzir os déficits persistentes nas transações com o exterior e no Orçamento público.

As exportações do produto alcançaram US$ 44,6 bilhões no ano, liderando a pauta nacional. Esse sucesso se deve em grande parte ao saneamento financeiro e operacional da Petrobras após a dilapidação da estatal nas gestões petistas anteriores, marcadas por investimentos perdulários, endividamento excessivo, corrupção e desvios estratégicos.

A partir de 2016, a companhia revisou drasticamente seus negócios, desinvestiu em ativos não essenciais e concentrou recursos em exploração e produção. Com contas em ordem, mais enxuta e eficiente, no ano passado a Petrobras adicionou 1,7 bilhão de barris às reservas, descobrindo 1,7 barril para cada barril produzido —o suficiente para quase 13 anos de extração no ritmo atual.

O foco em maximizar a eficiência de extração em campos petrolíferos já descobertos, como Tupi, Búzios, Mero e Itapu, permitiu elevar a produção em bases financeiramente saudáveis, sem os excessos do passado.

Os recordes também irrigam as contas públicas. Royalties e participações especiais representam parcela relevante das receitas federais e, sobretudo, dos estados e municípios produtores. Esses recursos financiam saúdeeducação e programas sociais, demonstrando que o petróleo, quando bem gerido, ainda pode contribuir diretamente para o bem-estar da população.

Outro aspecto positivo é a participação crescente de empresas privadas no setor. Em dezembro de 2025, a Petrobras respondeu por menos de dois terços da produção total, o que prova o acerto da abertura, iniciada com o fim do monopólio estatal em 1997 e depois aprofundada, apesar das resistências ideológicas do PT.

Não se pode ignorar, entretanto, o contexto global de busca por energia não poluente. Investimentos futuros precisam avaliar cuidadosamente a viabilidade econômica à luz da descarbonização, e as divisas obtidas devem ajudar a financiar a transição.

Tudo indica que, enquanto houver demanda mundial, o que persistirá por décadas, o Brasil continuará apostando em combustíveis fósseis. Novas fronteiras —com destaque para a margem equatorial, na bacia da Foz do Amazonas— atraem a cobiça de governantes e investidores.

Compreende-se que uma economia de renda média não pretenda abrir mão de seus recursos naturais, porém cumpre planejar o futuro. A crença no desenvolvimento à base de receitas do petróleo explorado pelo Estado, espalhada da esquerda à direita no país, já se mostrava obsoleta antes mesmo das preocupações globais com a crise climática.

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Decisão de Dino sobre fim dos supersalários pode destravar reforma administrativa, diz relator, OESP

 BRASÍLIA – O deputado federal Pedro Paulo (PSD-RJ), relator da reforma administrativa disse ao Estadão que a decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF) de determinar a suspensão de pagamentos de penduricalhos pelos Três Poderes, poderá fazer acelerar a tramitação da proposta na Câmara.

Ele, que estava descrente que o tema pudesse sequer entrar em pauta neste ano, agora crê que há uma razão para o Parlamento votar a matéria.

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“O ambiente que você tinha no passado, que você tinha ontem, da política querendo empurrar para frente, ‘vamos falar depois da eleição’, a decisão do ministro Dino pode ir ao contrário e acelerar essa discussão”, afirmou.

O texto da reforma administrativa prevê o fim dos penduricalhos e um limite no salário de funcionários públicos. Benefícios fora do teto deverão ser transitórios e pagos em situações excepcionais, e não mais a todos os servidores de uma categoria de forma indistinta e generalizada, como acontece hoje. Nesse caso, as verbas que podem ser pagas fora do limite deverão ser aprovadas em lei pelo Congresso Nacional.

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O placar do Estadão revelou que 217 dos 513 deputados federais são favoráveis à extinção de remunerações pagas acima do teto salarial do funcionalismo público, os chamados supersalários, presente no texto da reforma administrativa.

Pela decisão, os pagamentos de adicionais que não estão previstos em lei devem ser suspensos após 60 dias. Até lá, os Três Poderes deverão rever todos os itens pagos como adicionais salariais e que acabam contribuindo para que vencimentos no funcionalismo ultrapassem o teto que é o salário de um ministro do STF, equivalente hoje a R$ 46,3 mil.

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Política
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Dino defendeu que o Congresso regule uma lei que defina quais são as verbas indenizatórias “realmente admissíveis como exceção ao teto e ao subteto”.

Ele intimou o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para que tomem as medidas políticas para suprir a omissão inconstitucional.

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A decisão de Dino foi bem recebida por Pedro Paulo. Ele acredita que uma ação “excepcional, moralizadora, provoca o debate e é corajosa”. “Fiquei feliz que ele traz no texto elementos que tratei na reforma”, afirmou. “Essa decisão reflete a indignação da sociedade.”

Para o parlamentar isso também é fruto da indisposição da elite do funcionalismo público em dialogar com o Congresso para encontrar uma solução pelo consenso no Legislativo.

“Essa negativa da política (por representantes da elite dos servidores públicos brasileiros) em negociar dá nisso. Veio aí uma decisão extemporânea. Se não foi por bem, vai à força, ao invés de fazer no ambiente do Parlamento. A negativa desses segmentos não quererem negociar acaba nisso”, afirmou.

Ele acredita que haverá reação e por isso a determinação é “corajosa”. “O ministro jogou uma granada. Jogou uma bomba com efeito nuclear. A quantidade hoje dessa elite do servidor que recebe esses penduricalhos é muito grande. Vai ter uma fortíssima reação. Por isso é corajosa. Aliás a decisão é mais radical que um texto, que tem um aspecto negociado”, disse.

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Antes da determinação, Paulo acreditava que a reforma dificilmente avançaria na Câmara, e que em ano eleitoral dificilmente os parlamentares vão querer tratar de temas espinhosos que envolvem corte de supersalários e penduricalhos do funcionalismo público.

Entre os governistas, a determinação do ministro do STF foi celebrada. “Nós aplaudimos a decisão do ministro Flávio Dino, e ele na verdade se antecipa a uma decisão que o presidente Lula já tinha tomado, de vetar todos os aumentos acima do teto, seja do Judiciário, do Legislativo. Essa coisa o presidente ia fazer. Nós da bancada temos uma proposta, para que nenhum servidor ganhe acima do teto e a sociedade vai aplaudir”, afirmou Lindbergh Farias (PT-RJ), que foi líder do PT na Casa até o final de janeiro.

O líder do PDT na Câmara, Mário Heringer (MG) vê com bons olhos a decisão do ministro Flávio Dino e crê que pode dar impulso para a reforma administrativa neste ano. “Eu acredito que pode ajudar a avançar a reforma administrativa. Agora é um texto difícil, porque interesses de tudo quanto é Poder. E quando tem muito interesse, tem muita dificuldade de concatenar interesses e sair uma coisa razoável. Mas de certa forma possibilita avanço”, afirmou.

A determinação teve boa repercussão até mesmo na oposição. “É uma avaliação correta, da transparência, da moralidade e do cumprimento daquilo que está previsto na Constituição. Sempre se cria uma artifício para furar esse limite”, disse o deputado federal Mendonça Filho (União-PE), que fez críticas ao governo. “O governo do PT nunca olhou pra isso, deixou isso de lado.”

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Já o senador Carlos Portinho (RJ), líder do PL no Senado afirmou que é uma “decisão que tem que ser elogiada”. “Temos cobrado, eu pessoalmente na CCJ, em todas as reuniões, o avanço do fim dos penduricalhos”, afirmou. Um projeto sobre o tema tramita nessa Casa – essa matéria já tinha sido aprovada na Câmara em 2021 e está travada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) desde aquele ano.

“A decisão vem em boa hora e obriga o Parlamento a se manifestar, a avançar num projeto de lei. Não dá”, disse o senador.

A avaliação inicial de outros líderes da Câmara é que não deverá haver maior reação do Parlamento dada a popularidade do tema do fim dos supersalários e pelo entendimento que o Congresso Nacional não é o maior beneficiário disso.

Apesar dos pontos elencados, nesta última terça-feira, 3, um projeto de lei que concede reajuste “fura-teto” no salário de servidores da Câmara e outra proposta que estabelece um novo plano de carreira para servidores do Senado, também com reajustes na remuneração.