quinta-feira, 28 de maio de 2026

Polícia de SP quer usar helicóptero de R$ 25 milhões apreendido em operação, FSP

 A Polícia Civil de São Paulo deve pedir autorização à Justiça para incorporar à sua frota um helicóptero, avaliado em cerca de R$ 25 milhões, apreendido durante uma operação nesta quinta-feira (28). A aeronave foi encontrada em um hangar em Osasco, na região metropolitana.

Segundo dados do Registro Aeronáutico Brasileiro, da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), o helicóptero tem como proprietária uma empresa especializada em aviação com sede em Osasco, e como operador autorizado a Center Lopes Distribuidora de Materiais, Terceirização e Locação Ltda., empresa que opera no ramo de aluguel de veículos.

O registro da Anac também informa que a aeronave está em alienação fiduciária, operação na qual o devedor transfere a propriedade resolúvel do bem ao credor como garantia de pagamento.

A Center Lopes tem como sócios familiares de Eduardo Moreno Lopes, um dos principais investigados na Operação Falsa Las Vegas, que resultou na apreensão do helicóptero. A empresa foi investigada na Falso Mercúrio, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro do tráfico de drogas, estelionato e outros tipos de crime.

Helicóptero cinza com detalhes pretos estacionado em hangar com piso de concreto e paredes metálicas. A aeronave está parada, sem pessoas ao redor.
Helicóptero Airbus apreendido durante a Operação Falsa Las Vegas, da Polícia Civil e do MPSP; aeronave é ligada a operador financeiro do esquema investigado - Divulgação Polícia Civil

A Folha procurou tanto a empresa quanto advogados do próprio Eduardo ao longo desta terça, por e-mail e telefonemas entre 7h e 15h, pedindo posicionamentos sobre as suspeitas levantadas na investigação, mas não recebeu resposta.

Em dezembro, para a publicação de uma reportagem sobre as investigações da Falso Mercúrio, a empresa afirmou por meio de nota que "é uma empresa com atuação regular, contínua e transparente no mercado, mantendo inúmeros contratos voltados à distribuição e ao comércio de diversos produtos, bem como à prestação de serviços, inclusive junto ao Poder Público, sempre em estrita conformidade com a legislação vigente".

A reportagem mostrou, à época, que a Center Lopes firmou contratos que somam ao menos R$ 15,5 milhões com a Prefeitura de Barueri desde 2022.

O helicóptero, modelo EC 130 T2 da Airbus, foi fabricada em 2022, pesa 2,5 toneladas e tem capacidade para seis passageiros além do piloto.

Eduardo Lopes é suspeito de ser operador financeiro de um esquema de lavagem de dinheiro que, segundo a Polícia Civil, teria beneficiado inclusive integrantes da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).

Essa suspeita vem de documentos encontrados em celulares apreendidos, que mostram transferências bancárias entre empresas de investigados —que supostamente coletavam dinheiro do tráfico e de casas de apostas ilegais— e empresas que Lopes teria usado para fazer transferências bancárias.

Uma das empresas conectadas a ele, a ASX Participações e Tecnologia, tem um sócio ligado a sites de apostas ilegais.

"As autoridades pedirão à Justiça autorização para utilizar a aeronave em ações policiais", diz nota publicada na tarde desta quinta pela SSP (Secretaria de Segurança Pública).

Duas pessoas foram presas durante a operação, de um total de cinco procurados. A operação, realizada por policiais civis e pelo Gaepp (Grupo de Atuação Especial de Persecução Patrimonial) do Ministério Público, também apreendeu cerca de R$ 500 mil em espécie, cinco carros de luxo e 76 imóveis.

Ao todo, a Justiça determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 5,2 bilhões em bens e ativos financeiros ligados aos investigados.

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Após visita de Flávio Bolsonaro, EUA determinam que CV e PCC são organizações terroristas, FSP

 

Washington

Os Estados Unidos decidiram nesta quinta-feira (28) classificar o CV (Comando Vermelho) e o PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas. A medida passa a valer em 5 de junho.

A decisão acontece após a visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, ao presidente Donald Trump e outros membros do gabinete americano, como Marco Rubio, do Departamento do Estado, e JD Vance, vice-presidente dos EUA.

Pelas redes sociais, Rubio afirmou que as organizações criminosas "são as mais perigosas do Brasil". "Seu alcance se estende por toda a nossa região e ao nosso país. A administração Trump continuará usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossos interesses de segurança nacional e negar o financiamento e recursos narcoterroristas."

Em entrevista a jornalistas na quarta-feira, Flávio tinha dito que Rubio pareceu ser favorável à designação, disse o pré-candidato, que afirmou ter passado cerca de 30 minutos com o secretário. Após o anúncio por parte do governo americano, o senador comemorou a decisão pelas redes sociais e disse que se trata de um "grande dia".

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Muro de casa localizada na comunidade de Mandacaru em Jequié, no estado da Bahia, pichado com símbolo de facção criminosa - Rafaela Araújo/Folhapress

Durante a passagem pelos EUA, Flávio questionado se ao designar as facções não corria o risco dos EUA interferirem em solo brasileiro. Ele negou e disse que não via a medida como uma ameaça militar no Brasil.

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A decisão já era esperada e uma reportagem do UOL no início de março mostrou que o martelo já estava batido sobre esta definição. Segundo o The New York Times, em reportagem publicada também em março, os EUA avaliavam a designação após lobby de dois filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, entre eles Flávio e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro.

Apesar disso, o governo Lula tentava evitar que esta designação fosse imposta pelos EUA, pelo receio de influenciar nas eleições e interferência americana no Brasil. Lula afirmou que, durante a conversa de mais de três horas que teve com Trump há cerca de 20 dias, o assunto não foi tratado, mas foi entregue a proposta de uma cooperação entre os dois países.

Chefe da assessoria especial de Lula, Celso Amorim, comentou sobre a possibilidade de designação nesta quinta-feira, antes do anúncio. "O crime organizado deve ser combatido com a máxima energia e determinação. Equiparar o crime organizado ao terrorismo, contudo, não é útil. Compreender as motivações é essencial para a eficácia do combate a todas as formas de criminalidade."

Em março, em evento em Dallas (Texas), Flávio chegou a falar que, se encontrasse com o presidente Donald Trump, não pediria que o PCC e CV fossem considerados terroristas, pois ele mesmo faria isso.

"Não vou pedir para o Trump designar ninguém, eu vou designar PCC e CV como terroristas. Já que o Lula não teve coragem de fazer", disse.

Agora, durante o encontro com o republicano, a Folha apurou que Trump ouviu sobre o pedido feito por Flávio e disse a funcionários que estavam na reunião: "Temos que ajudar esses caras".

A designação acontece também em meio ao momento mais crítico da pré-candidatura de Flávio, após a descoberta, pelo site Intercept Brasil, que o senador pediu dinheiro para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme "Dark Horse", sobre seu pai. A crise foi agravada após a revelação de que ele se encontrou pessoalmente com o ex-banqueiro quando este já usava tornozeleira eletrônica.

O QUE PODE ACONTECER AGORA?

A classificação do que é terrorismo varia em cada país. A versão mais aceita é a que o classifica como uma ação violenta deliberada contra civis que tem por objetivo intimidar a população ou o governo, normalmente em associação a uma causa política e/ou religiosa.

Segundo o Departamento de Defesa, os EUA classificam grupos terroristas quando eles integram alguns critérios, como a violência e a ameaça ao território americano --as organizações, claro, tem que ser estrangeiras. Antes do anúncio, a pasta já havia manifestado que considerava ambas as organizações como um "perigo" para a região.

A partir dessa designação, é criminalizado qualquer tipo de apoio, bloqueio de recursos e isolamento destas organizações. De acordo com o departamento, integrantes destas organizações não podem entrar nos EUA e podem ser expulsos se já estiverem no país.

Além disso, bancos americanos com contas destes membros devem bloquear fundos ligados ao grupo e reportar ao governo. O Brasil, porém, discorda da denominação, uma vez que no território brasileiro a designação de terrorismo é aplicada para atos violentos motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito para provocar terror social generalizado.

As conversas sobre a possibilidade de designar facções criminosas brasileiras como terroristas acontecem desde o ano passado.

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo, que participou de um dos encontros com integrantes do governo Trump, afirmou que os americanos não deram espaço para o Brasil apresentar qual a sua interpretação em relação ao terrorismo e apenas solicitaram informações a respeito do funcionamento das facções.

Ele defende que, apesar dos perigos de crimes praticados pelas organizações, elas não são terroristas, já que o termo só seria aplicado a grupos que praticam atos de terror com objetivo político ou ideológico.

Histórico de negociações

Apesar dos esforços do governo federal, no ano passado, parlamentares e governadores da direita brasileiros solicitaram ao governo Trump a classificação do Comando Vermelho como grupo terrorista. O governo Cláudio Castro (PL) chegou a enviar um documento para Washington com o pedido. A facção tem origem no Rio de Janeiro.

Por outro lado, o governo Lula trabalhava para tentar evitar essa classificação e encaminhou, no fim do ano passado, uma proposta para que os países firmassem um acordo para combate ao crime organizado.

Porém, o governo dos EUA considerou a proposta inadequada e sugeriu, como mostrou uma reportagem da Folha, que o Brasil recebesse estrangeiros capturados nos EUA e exigiu um plano para acabar com o PCC e CV.

Na visão do governo Lula, a designação abriria brecha legal para intervenções dos EUA em território brasileiro. O governo teme ainda a exploração política do tema pelos bolsonaristas durante a campanha eleitoral.

Oura preocupação é que as leis antiterrorismo dos EUA preveem punições não apenas para as facções, mas também para pessoas e instituições financeiras que possuam ou tenham conhecimento de fundos relacionados a essas organizações.

Como a Folha mostrou em uma série de reportagens, o CV e o PCC já estão presentes em todos os estados brasileiros e exercem hegemonia em ao menos 13 deles. As facções também expandiram sua atuação para além das fronteiras: o CV mantém negócios com ao menos oito países da América Latina, enquanto o PCC tem presença em ao menos 16 nações.

Facções na mira do governo Trump

O PCC foi incluído em 2021 na lista de organizações designadas do Ofac (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos EUA), o que resulta no confisco de todas as propriedades e ativos nos EUA ligadas a seus membros e proibição de instituições e cidadãos americanos de manterem qualquer relacionamento comercial com a facção. Mas o grupo criminoso não foi classificado como organização terrorista.

Em visita a Brasília em maio do ano passado, o responsável pelo setor de sanções do Departamento de Estado, David Gamble, pediu formalmente que o Brasil adotasse a designação de organizações terroristas para o PCC e CV. Representantes do Ministério da Justiça rejeitaram o pedido.

A Lei Antiterrorismo brasileira, de 2016, define como atos terroristas aqueles motivados por "xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública".

Governadores de direita e parlamentares da oposição pressionam pela votação de um projeto de lei de autoria do deputado Danilo Forte (União Brasil-CE) que equipara facções criminosas brasileiras a organizações terroristas.