quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Juiz do Trabalho que recebeu salário de R$ 94 mil em dezembro é afastado por ‘baixa produtividade’, OESP

 Notícia de presente

O juiz substituto do Trabalho Rerison Stênio do Nascimento, do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-2), em São Paulo, acusado de baixa produtividade e acúmulo de centenas de processos, foi afastado por 30 dias das funções pelo Conselho Nacional de Justiça. O colegiado reabriu Processo Administrativo Disciplinar e modificou a sanção aplicada anteriormente pelo TRT-2 ao magistrado, que havia recebido uma advertência. O processo tinha sido encerrado porque não houve maioria absoluta de votos para a aplicação da penalidade.

No julgamento do PAD sobre a conduta de Rerison, 37 desembargadores votaram pela advertência e 31 pela absolvição. Na sessão de 8 de novembro de 2021, o procedimento foi arquivado por falta de maioria absoluta para impor a sanção.

Para você

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Estadão pediu manifestação do juiz. O espaço está aberto.

Em dezembro, Rerison Stênio do Nascimento recebeu R$ 94,7 mil líquido de salário.

Investigado desde dezembro de 2020 pelo TRT-2, Rerison teria acumulado “processos pendentes de sentença por mais de 60 dias, por alegada negligência, além de descumprir de forma reiterada os planos de trabalho estabelecidos” pela Corregedoria do tribunal.

Sérgio Rodrigues - De repente, 'Quando eu tiver 64' é agora, -FSP

 

Trecho do vídeo da música 'When I'm 64'
Imagem do vídeo da música 'When I'm 64' - Reprodução

Estou fazendo 64 anos e, para lidar com o absoluto pasmo desse evento banal, penso: é uma idade que não tem nada de mais. Ou não teria, se não fosse o Paul McCartney. Pode não parecer, mas faz diferença.

Começa que 64 não é uma data redonda, como 60, nem de redondez quebrada ao meio, como 65: fica numa posição menor, indecisa. O que pode ter de especial?

À primeira vista, nada. O cidadão, tendo feito 63, e antes disso 60 —o tempo, ele voa—, está farto de saber que não é jovem mais. Que, tecnicamente, até a meia-idade já ficou no passado. E que nunca adiantou alegar que se sente congelado desde sempre numa espécie de 32.

Capa do disco de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" - Reprodução

O álbum em que a mais famosa melô do vovô veio ao mundo é o festejado "Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band". Que, para multidões de fãs da época, teria ficado melhor sem ela.

Canção de music hall, melódica e ligeira, com clarinetes no limite da cafonice, é um tipo de artefato pop que Paul sempre cultivou. Num disco de sabor psicodélico destoa um pouco mesmo, embora o ecletismo seja parte da proposta.

Só agora, ao cruzar esse marco irônico de senectude cravado no coração dos anos 60, me ocorre que aquela geração tinha motivos extramusicais para implicar com a faixa.

Em 1967, estufado de juventude, o pessoal queria quebrar tudo em todas as formas de expressão artística e comportamental da Terra. A tirada de Paul era quase um memento mori, um lembrete de finitude: um dia você vai ter 64.

E não deu outra. A garotada que fazia fila na porta da loja para esperar o próximo disco dos Beatles cruzou esse marco –quer dizer, os que tiveram a sorte faltante a John Lennon, assassinado aos 40. O próprio Paul está com... 83! Não há motivo para pânico.

Eu tinha 5 quando "Sgt. Pepper’s" foi lançado. Só vim a saber do fato muitos anos mais tarde –a música que rolava lá em casa era outra.

O autor de "When I’m Sixty Four" não teve netos chamados Vera, Chuck ou Dave. Transpôs seu próprio marco, bem de saúde e cheio de trabalho, em 2006, quando minha filha mais nova é que ia fazer 5.

O tempo, pois é. O truque é manter a calma, ir à academia, não abusar de alimentos gordurosos. Não tenho aqueles medos do Paul, como o de chegar em casa tarde e descobrir que a mulher passou o trinco na porta.

Trecho do vídeo da música 'When I'm 64'
Imagem do vídeo da música 'When I'm 64' - Reprodução

Só o que me assusta é um pesadelo linguístico: ser rebaixado a diminutivo pela brava turma da enfermagem brasileira, viciada em tratar o pessoal de 64 como se tivesse 60 a menos: "Dá o bracinho, fofinho. É só uma picadinha".

Isso não, por favor! O resto, pode mandar vir.

Sérgio Rodrigues - Este texto foi escrito sem auxílio de IA, FSP

 A controvérsia levantada pelo caso de Natalia Beauty —que defendeu em sua coluna nesta Folha mandar a inteligência artificial escrever por ela— vai ser, a médio prazo, a menor das nossas preocupações.

Por mais importante que seja debater o que constitui a autoria, tanto no mundo jornalístico como no editorial ou no acadêmico, a IA generativa apresenta um desafio ainda maior à nossa espécie.

No caso do jornalismo, a questão deve se sedimentar em poucos anos. Como é difícil imaginar um modelo de negócio em que empresas de comunicação consigam cobrar por textos que qualquer pessoa poderia gerar sozinha em casa, algum código de ética promete se impor.

Logotipo branco do ChatGPT à direita sobre fundo preto. À esquerda, código binário verde em sequência vertical, com efeito de ondulação.
Sebastien Bozon - 11.fev.25/AFP

Não é coisa simples de fazer. Há uma diferença ululante entre encomendar ao ChatGPT trinta linhas sobre um tema e publicá-las —ou usar a IA para pesquisar sobre esse tema, ler aquilo criticamente, peneirar alucinações e escrever trinta linhas com a própria cabeça.

No primeiro modo de interação com a máquina, o resultado é um texto genérico; no segundo, um texto particular. No primeiro, mediania de expressão, tendência ao já dito —ou falsidade, se o robô aloprar. No segundo, a possibilidade de uma fagulha no entrechoque de palavras, quem sabe de luz nova sobre algum aspecto do mundo.

Isso se deve a uma limitação estrutural dos Large Language Models (LLMs). Eles não lidam com o problema, mas, de modo estatístico, com as palavras um dia usadas para lidar com o problema. Sua resposta é uma pasta sintética de linguagem, não a expressão de um pensamento real.

Se os dois modos de uso da IA na escrita profissional não se confundem, há incontáveis tons de cinza entre eles. Destrinchar essa paleta é a missão dos códigos de ética futuros.

Naquela parte —não pequena— da massa textual jornalística que tem puro valor informativo e prescinde da ideia de autoria, a lógica econômica aponta para a adoção em massa do primeiro modo, com o trabalho humano limitado ao de filtrar as cascatas.

Quando se exigir alguma medida de autoria, pensamento original ou responsabilidade testemunhal, é improvável que o jornalismo abra mão do texto produzido artesanalmente. Seria perder de 7 a 1 com sete gols contra.

Nada disso, contudo, vai importar tanto assim se a humanidade terceirizar toda a sua escrita para a IA. Sendo a espécie que inventou o elevador e o controle remoto, será uma surpresa se não fizermos exatamente isso.

Desaprendendo a trabalhosa escrita —consequência inapelável dessa escolha—, teremos perdido em duas gerações o domínio da tecnologia em que se basearam milhares de anos de produção e acumulação de conhecimento e pensamento crítico.

Para quem não souber escrever, a IA não poderá ser "ferramenta" de escrita. Troque-se escrita por qualquer outra atividade e a frase permanecerá válida. Nunca houve um projeto humano que tivesse, nem de longe, tamanho poder de alienação.

O ser humano ideal das empresas de IA é aquele que só faz o que o robô manda e continua se achando agente. E ainda nem falamos do custo ambiental apocalíptico da bagaça.