quinta-feira, 5 de março de 2026

Empresa demite 4.000 por causa da IA e ações disparam 20% - Ronaldo Lemos - FSP

 Os acontecimentos da semana passada deram uma amostra do tamanho da ansiedade dos mercados com relação ao avanço da inteligência artificial. Na quinta-feira (26), a empresa de pagamentos Block demitiu 4.000 pessoas, 40% da sua força de trabalho. Motivo anunciado: inteligência artificial. As ações dispararam 20%. Para entender como isso aconteceu, é preciso voltar alguns dias.

No dia 22 de fevereiro, uma empresa de pesquisa econômica praticamente desconhecida, chamada Citrini, publicou um artigo sobre o impacto econômico da IA de hoje até 2028.

Na segunda (23), vários dos setores analisados no texto desabaram. A IBM caiu 13% com o temor de que parte dos seus serviços possa ser feita por IA. Perdeu US$ 31 bilhões, sua pior queda diária desde 2000. Empresas de software corporativo e serviços também desabaram, como a gigante SAP e empresas indianas, seguidas pela Accenture. Os setores de delivery, transporte por aplicativo e finanças também foram afetados.

A imagem mostra uma mão robótica segurando um dardo, prestes a lançá-lo em um alvo de dardos. O alvo é circular, com seções coloridas em vermelho, verde, azul e amarelo, contra um fundo verde. A mão do robô é detalhada, com articulações visíveis e uma aparência estilizada.
Ilustração - Catarina Pignato/Folhapress

Desde janeiro, o pano de fundo por trás do texto já tinha começado a se desenrolar. Empresas de inteligência artificial estão ingressando no mercado corporativo. Tarefas complexas que antes exigiam times organizados e bem-informados agora começam a ser realizadas por IA.

O relatório da Citrini aponta que a IA está se tornando eficiente no manejo de habilidades corporativas tradicionais: gestão de projetos, organização de relatórios, planilhas, rotinas, análises jurídicas, contábeis, apresentações, design e, sobretudo, programação.

Em 2028, boa parte do trabalho será feito usando agentes de IA. Da mesma forma, software complexo poderá ser feito com comandos claros dados para uma IA em português (ou qualquer outra língua).

A Citrini criou a partir disso o conceito de "PIB fantasma". A produção econômica cresce, mas o dinheiro não circula mais pelas famílias, porque muitos dos empregos serão eliminados. A participação do trabalho no PIB em 2028 cairia dos atuais 56% para 46%. O dinheiro que circulava como salário ficaria retido na empresa como lucro, descontado o gasto com IA.

Quatro dias depois do relatório, a empresa Block (que opera a Square), fundada por Jack Dorsey, o criador original do Twitter, decidiu fazer exatamente o movimento que o artigo descreveu. Na quinta, ele anunciou publicamente que estava demitindo 40% dos funcionários (4.000 pessoas) de uma vez. No anúncio, ele diz aos acionistas que "ferramentas de inteligência artificial mudaram o que significa construir e administrar uma empresa hoje".

O mercado premiou a empresa, com suas ações subindo 20% na sequência. Isso mostra que a análise da Citrini vai além da mera especulação. Se esse padrão se consolidar, é possível que o movimento se repita. Estamos entrando em um território de ainda mais incerteza. A era da ansiedade está entre nós.

READER

Já era – impacto da IA no mundo corporativo ainda como possibilidade remota

Já é – automatização de tarefas corporativas com uso da IA

Já vem – PIB Fantasma?

Casquinha e sundaes do McDonald’s são sorvetes? Carf decide que não - OESP

 BRASÍLIA — Parece sorvete, tem gosto de sorvete e é gelado como sorvete, mas é... bebida láctea. Pelo menos foi esse o entendimento da 1ª Turma da 1ª Câmara da 3ª Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). Em uma vitória estratégica para a Arcos Dourados, operadora do McDonald’s no Brasil, o tribunal decidiu, por 5 votos a 1, que as famosas casquinhas, sundaes e milk-shakes da rede não se enquadram na categoria de “gelados comestíveis”.

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A decisão deste mês permite que a empresa usufrua da alíquota zero de PIS/Cofins, um benefício fiscal reservado a bebidas lácteas, anulando uma autuação da Receita Federal que somava R$ 324 milhões.

Ao Estadão, o McDonalds afirmou que as sobremesas “seguem os padrões globais da marca” e que “a decisão se refere exclusivamente a uma classificação tributária e que as sobremesas geladas não sofreram qualquer alteração em sua receita”. “Reforçamos que os produtos mantêm a mesma composição, à base de leite, como comunicado amplamente em todos os canais de venda”, completa o comunicado (leia na íntegra ao fim do texto).

Para você

A tese vencedora: ‘Líquido de alta viscosidade’

A disputa girou em torno da física e da química dos alimentos. A fiscalização da Receita Federal argumentava que os produtos eram sorvetes do tipo soft, sujeitos à tributação normal, e que chamá-los de bebida seria um “extremo de tecnicidade” para evitar o imposto, já que o produto não é líquido aos olhos do consumidor comum.

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No entanto, a defesa do McDonald’s prevaleceu com argumentos técnicos extraídos de laudos periciais. A tese aceita pelos conselheiros baseou-se em dois pilares principais:

  1. Não é congelado: Para ser considerado sorvete (gelado comestível) pela legislação regulatória, o produto precisaria ser armazenado ou servido em temperaturas iguais ou inferiores a -8°C ou -12°C. A empresa comprovou que suas sobremesas são servidas ao consumidor entre -4°C e -6°C. Tecnicamente, elas estariam apenas “resfriadas”.
  2. É um líquido viscoso: Laudos do laboratório Food Intelligence e do Instituto Nacional de Tecnologia (INT) apresentados no processo classificaram a massa da casquinha como um “líquido de alta viscosidade” ou “pasta cremosa”. O argumento é que a máquina do restaurante apenas resfria a bebida láctea comprada dos fornecedores (como Vigor e Polenghi), sem alterar sua composição química.

O impacto no milk-shake

A decisão também abrangeu o McShake. A Receita questionava se o produto final mantinha as características de bebida láctea após a mistura de xaropes e sabores.

Os dados apresentados pela empresa, contudo, mostraram que o milk-shake mantém uma base láctea (leite e soro de leite) muito superior aos 51% exigidos pela Instrução Normativa nº 16/2005 do Ministério da Agricultura para ser considerado bebida. No caso do sabor Flocos, por exemplo, a base láctea chega a 73,1%; no de Chocolate, a 64,3%.

Os dilemas da polilaminina e da cura - Marcelo Rubens Paiva -FSP

 Muitos de vocês sabem que sou lesionado medular. Alguns devem saber que já fui colunista, articulista e repórter especial da Folha. Parti para outras marginais, parei e voltei. Por que voltei?

Por conta dos dilemas da polilaminina, o composto derivado da proteína da placenta. Quando li a primeira reportagem sobre a pesquisa, como não lembrar da célula-tronco?

A revista Veja deu capa dizendo que pessoas como eu estariam "curadas". Um programa da Globo financiou a viagem de um cadeirante à China, único país que autorizava o experimento. Será que ele está vivo?

Coloquei "curadas" em destaque em homenagem a uma senhora que me parou num supermercado para dizer que o pastor da sua igreja me curaria. Cínico, como um militante em alta voltagem, perguntei: "Me curar do quê?".

Desenho em linha contínua mostra cadeira de rodas estilizada em tons de marrom e verde, com formas abstratas ao fundo.
CutRiska/Adobe Stock

O que ela disse me pareceu mais capacitista do que transcendental. Desde o começo da minha carreira de cadeirante, a cura é a questão que revela mais do que uma cura. É também a incapacidade de aceitar como alguém é.

Existem curas e curas. O exoesqueleto não é uma cura, mas um tremendo passo para a humanidade e um ótimo equipamento de reabilitação. Investe-se na sua pesquisa, pois contém orçamento militar envolvido.

Temos portáteis agora, servido ao camarada sem deficiência: na Muralha da China, são alugados para facilitar a caminhada de turistas.

Existe a tentativa de cura por chips, eletrodos, que substituiriam as funções nervosas. Há alguns anos, nos Estados Unidos, aplicavam uma dose alta de metilprednisolona, um corticoide sintético, em no máximo oito horas depois da lesão.

O resultado não foi eficiente, o risco de infecção era enorme, como o da célula-tronco, e não se aplica mais. O mais importante procedimento por lá ainda é o de uso de vasopressores, para diminuir a pressão sobre a medula.

Por intuição, desconfiei do alcance da descoberta da pesquisadora Tatiana Sampaio e sua equipe da UFRJ. Sorry...

Mulher de cabelos claros usa blusa branca com bordados vermelhos e pretos, braços cruzados, em jardim com plantas verdes e flores vermelhas ao fundo.
A pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, professora-doutora da UFRJ - Eduardo Anizelli - 27.nov.25/Folhapress

A revista americana mais séria sobre o assunto, feita por lesionados medulares, NewMobility, não deu uma linha sobre o assunto. Nem a Lancet, publicação científica mais importante.

Caso a cura tivesse sido descoberta, seria manchete do New York Times. No entanto, o nome da cientista brasileira nunca foi citado naquele jornal, nem no britânico The Guardian, no Washington Post e no francês Le Monde.

Mandei mensagens para a Folha para pedir aos amigos cautela com o entusiasmo. Expliquei os paradoxos, o "só que não" e o porém. Combinamos, então, que eu a entrevistaria. Mandei duas mensagens para o zap dela em janeiro, deixei recado no seu departamento de pesquisa.

"Queria fazer uma entrevista para a Folha sob o ponto de vista de alguém que tem intimidade com o assunto. Poderia ser online mesmo, você topa? Um grande abraço e parabéns a toda sua equipe."

Ela não me retornou. Está no seu direito. Sua primeira entrevista de repercussão nacional foi para um programa do SBT. Depois, para a Globo. Buscava visibilidade, para obter mais parceiros e financiamento. Justo.

Virou a Fernanda Torres da ciência e candidata ao Nobel. Mas passou a ser criticada por seus pares.

Tatiana caiu na armadilha da ignorância e das falsas promessas. Sem traquejo para contratar uma eficiente agência de comunicação, mede a repercussão da sua pesquisa e passa a regular as expectativas.

Fiquei tetraplégico em dezembro de 1979, num mergulho num açude em Campinas. Muita gente acha que mergulhei no laguinho da Unicamp. Tudo porque circula um filme em super-8 em que estou pelado colocando a faixa "Abaixo a Ditadura" nele. Ah, anos 70... Ficar pelado era um ato de subversão.

Na chegada a uma UTI, eu não mexia nada. Enfrentava um choque medular: toda a medula estava em pane, devido à hemorragia e à compressão. Apesar de a minha lesão ter sido entre a quinta e a sexta vértebra cervical, eu não sentia nada abaixo nem acima dela.

Fui sedado e entubado. A primeira intervenção cirúrgica foi a descompressão, pois eu podia morrer em 48 horas se o choque chegasse ao controle da respiração. Em um mês de UTI, tomei rios de morfina (ah, anos 80 começavam...). Rezei até para deuses astronautas.

Minha família diria: tem uma droga experimental, a Anvisa não aprovou, não passaram pela fase 3; você tem poucas semanas para tomar, já que está na fase aguda, ou pode ficar tetra a vida toda.

Tomar ou esperar e ter 50% de chance de receber um placebo? Ah, sem chance... A ciência é empírica e cega. Não existe amor na fase 3. "Entrem com uma liminar e me garantam a injeção experimental. Judicialização, já!".

Nos primeiros anos, é inconcebível a vida numa cadeira de rodas. Com o tempo, se acostuma. Hoje não sei se eu deixaria injetarem um corpo estranho dentro da minha medula. Mas no começo... Sacou o dilema?