quinta-feira, 18 de junho de 2026

Marcos Augusto Gonçalves - Gilmar Mendes expõe racha e atitude suspeita sobre Master, FSP

 A recente refrega entre Gilmar Mendes e André Mendonça, em torno da prisão do pai de Daniel Vorcaro, expôs mais uma vez os antagonismos no interior do Supremo Tribunal Federal, além das conhecidas atitudes suspeitas de juízes diante do caso Master. O decano da instituição não ficou bem na fotografia.

Já está mais do que claro que pelo menos dois magistrados têm envolvimento com o banqueiro mafioso. Alexandre de Moraes deve explicações sobre o contrato de cerca de R$ 130 milhões que o escritório de advocacia de sua família firmou com o banco.

Já Dias Toffoli, depois de tentar uma frustrada operação abafa, deixou a relatoria e declarou-se impedido de participar de votações. Seus laços pessoais e familiares com Vorcaro tornaram-se evidentes nas negociações com o famigerado Tayayá Aqua Resort.

Homem de meia-idade com óculos e terno azul sentado em cadeira de couro marrom claro. Ao fundo, bandeiras desfocadas nas cores verde, amarelo e azul.
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal - Adriano Machado - 10.dez.25/Reuters

Deveriam ambos, Moraes e Toffoli, ser objeto de um inquérito promovido pela própria corte, que, aliás, mantém há sete anos um procedimento desse tipo, sobre fake news e ofensas ao tribunal, usado como instrumento de intimidação em defesa de interesses de magistrados.

Tal situação certamente não ajuda a Operação Compliance Zero, que apura o esquema de fraudes, sob os cuidados de Mendonça. Até prova em contrário, contudo, o relator vem cumprindo o seu papel.

O decano Gilmar Mendes, notório talento em matéria de acomodações institucionais e acordões está insatisfeito com o andar da carruagem. Por que será?

Ao se posicionar pela prisão domiciliar do pai de Vorcaro, Mendes argumentou que a relatoria de Mendonça candidata-se a uma nova Lava Jato. Ou seja, estaria dando margem a abusos que poderiam levar a uma futura anulação das decisões. O raciocínio pareceu suspeito a alguns.

A título de posar de paladino de garantias constitucionais e da democracia, Mendes sinalizaria sua inclinação a retomar o modo "abafa o caso" antes acionado por Toffoli e afrouxar o cerco em torno de Vorcaro. A consequência previsível seria ajudar a salvar a pele de gente graúda e de seus companheiros de toga, em prejuízo da Justiça e dos interesses da sociedade.

O principal problema para Mendes —além de ele não controlar o relator— foi o vazamento de conversas íntimas entre Vorcaro e a noiva e influenciadora Martha Graeff, retiradas de um celular do dono do banco. De fato, a publicidade foi indevida, mas daí apontar o dedo para Mendonça, que pediu investigação, acusando-o de repetir a Lava Jato, vai uma distância.

Gilmar Mendes, não esqueçamos, foi protagonista de um episódio bastante rumoroso na operação de Sergio Moro, ao impedir, em canetada monocrática e abusiva, a presidente da República de exercer o direito de nomear ministros —no caso Lula. E o fez com base num áudio vazado ilegalmente. É frágil sua coreografia de escudo contra o lavajatismo.

Presenciamos uma nova onda de revelações que deixam o país de queixo caído. Como disse Mendonça, o que se configura é uma gigantesca fraude orquestrada por uma máfia com tentáculos nas finanças e nas instituições, que suborna, intimida e manda "moer" desafetos.

O caso de Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro e presidente do PP, fala por si. Hugo Motta também apareceu no bolso de Vorcaro. Quem mais vem aí?

Quem avisa os portugueses que eles vão coorganizar a Copa de 2030?, Rodrigo Tavares, FSP

 Lembram-se de quando, em 2013 e 2014, milhões de brasileiros foram às ruas exigir "hospitais padrão Fifa"? Lembram-se de que, mais de uma década antes do pontapé inicial, o Qatar já era obrigado a se defender de acusações de corrupção e violação dos direitos humanos? Lembram-se de que a África do Sul apresentou a Copa como um projeto nacional de desenvolvimento?

Um mundial é sempre mais do que um mês de futebol. É um processo longo de debate público, investimentos estatais e privados, disputas de poder e organização logística.

Menos em Portugal. A quatro anos do início do evento, os portugueses esqueceram-se de que têm uma Copa para coorganizar, juntamente com Marrocos e Espanha. Salvo raras notícias em jornais esportivos e reuniões burocráticas na Fifa, o país comporta-se como se não lhe tivesse sido atribuída a coorganização do maior evento midiático do planeta.

Pessoas em pé na arquibancada de um estádio, algumas usando roupas esportivas, observam o campo. Na frente, banner grande com a palavra "PORTUGAL" em letras brancas sobre fundo vermelho e verde.
Torcedores de Portugal no centro de treinamento da seleção portuguesa na Flórida durante Copa do Mundo deste ano - Patricia de Melo Moreira - 13.jun.26/AFP

Os otimistas dirão que não há razão para dramatismo. Portugal organizou a Eurocopa de 2004, ganhou experiência, construiu estádios, recebeu milhares de torcedores estrangeiros e projetou uma imagem de competência. Em 2030, acrescentarão, o país receberá apenas seis jogos, distribuídos por três estádios já existentes (Luz, Alvalade e Dragão). Não haverá, portanto, necessidade de grandes obras, grandes sacrifícios orçamentários ou grandes debates nacionais.

O problema é que Portugal, hoje, não está preparado para essa pressão. O velho aeroporto de Lisboa é uma infraestrutura moribunda, mantida de pé por remendos e negação política. O novo, a ser inaugurado só em 2037, está sendo planejado desde 1954.

Os hospitais enfrentam rupturas cíclicas, urgências encerradas e falta de profissionais. Os transportes metropolitanos continuam insuficientes para a escala das áreas urbanas que servem. A ligação ferroviária entre Lisboa e Porto (Alfa Pendular e Intercidades) oferece um serviço irregular, caro, com atrasos recorrentes e material circulante herdado dos anos 1990. A habitação e a hotelaria, sobretudo em Lisboa e no Porto, já funcionam sob uma pressão turística e imobiliária que o mundial tenderá a agravar.

O mais inquietante, porém, é que quase nada disso está sendo discutido. Não há verdadeiro debate público sobre a Copa de 2030 em Portugal. Não há uma conversa nacional sobre custos, prioridades, riscos, responsabilidades ou legado. Não há escrutínio sobre o que caberá ao Estado, às prefeituras, à Federação Portuguesa de Futebol, aos clubes e à iniciativa privada.

Não se fala de responsabilidades, porque as responsabilidades, quando nomeadas cedo demais, perdem a delicada utilidade de poderem ser repartidas depois. Não há discussão séria sobre transportes, saúde, segurança, hospedagem, preços, mobilidade urbana ou impacto turístico. O país se candidatou, celebrou timidamente a escolha em 2024 e depois mergulhou num silêncio profundo.

Na Espanha, o governo criou por decreto uma Comissão Interministerial para coordenar a organização da Copa de 2030, presidida pela ministra da Educação, Formação Profissional e Esportes, com representantes de 15 ministérios. A estrutura foi posteriormente desdobrada em grupos de trabalho para articular a ação pública em torno do evento.

Marrocos, por outro lado, criou a Fundação Marrocos 2030, um órgão específico para coordenar a preparação da Copa entre governo, autoridades locais, setor privado e federação. E vinculou o evento a uma agenda de investimentos em ferrovias, aeroportos, rodovias, hotéis e requalificação urbana.

A última notícia publicada pelo Público, o maior diário português, sobre a organização do evento em Portugal data de dezembro de 2024. O título dizia quase tudo: "É oficial: Portugal vai receber Mundial 2030 —mas não sabe que retorno financeiro terá." Segundo o jornal, o governo admitia desconhecer quanto teria de investir e qual seria o retorno, embora acreditasse que o saldo final seria positivo.

As últimas palavras públicas relevantes de Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal, sobre a Copa remetem também a dezembro de 2024, quando o país foi confirmado como coanfitrião e ele classificou a escolha como um "momento muito positivo".

Mas não nos preocupemos. Portugal sabe improvisar bem. É uma tecnologia antiga, aperfeiçoada nas repartições, nos gabinetes e nas antecâmaras do poder. Adia-se sem parecer ocioso, hesita-se sem parecer medroso, espera-se que o acaso faça metade do serviço e, depois, assina-se o resultado com ar de estadista. O atraso, quando bem apresentado, também pode parecer uma forma superior de governo.

Onde descartar o papel em que a figurinha da Copa vem colada?, Fernanda Mena, FSP

 Fernanda Mena

São Paulo

Você sabe onde jogar aquele papelzinho em que as figurinhas da Copa vêm coladas?

Em meio à febre do álbum da Copa do Mundo de 2026, o papel que sobra depois que a figurinha é destacada e colada não deve ir nem para o lixo comum nem para aquele dos itens recicláveis que vão para a coleta seletiva tradicional.

Conhecido na indústria como liner, esse tipo de papel é a base do autoadesivo. Trata-se de um papel revestido por uma fina camada de silicone que impede a cola da figurinha de aderir permanentemente à superfície, permitindo que ela seja destacada e colada no álbum.

O problema é que essa mesma característica dificulta a sua reciclagem. Se descartado no lixo comum, o liner acaba em aterros sanitários. Se enviado para a coleta seletiva, costuma ser rejeitado pelas cooperativas e centrais de triagem, já que a maior parte das recicladoras de papel não possui tecnologia para processá-lo.

Homem e mulher sentados lado a lado em mesa coberta por muitos papéis dobrados. Ambos sorriem para a câmera em ambiente interno com quadro na parede ao fundo.
Sérgio Talocchi e Patrícia Meirelles começaram na Copa de 2022 a campanha de coleta e destinação correta dos papeizinhos em que as figurinhas vêm coladas - Divulgação

"Existem fábricas pequenas que estão testando formas de reciclar o liner. Mas, hoje, é a Polpel que pode receber liners em volume", afirma Fábio Suetugui, conselheiro da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap).

A empresa citada é a Polpel, recicladora de Guarulhos (SP) que afirma operar a única tecnologia da América do Sul capaz de transformar liners em celulose. O processo é mantido em sigilo industrial, mas permite que o material seja reaproveitado na fabricação de novos papéis, como embalagens, papel-cartão e papel-toalha.

Até 10 de agosto, a empresa está recebendo liners de figurinhas da Copa enviados por pessoas físicas, escolas, condomínios e outros grupos organizados. Toda a renda obtida com a comercialização da celulose resultante da reciclagem dos liners das figurinhas da Copa será revertida para o GRAACC (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer).

A iniciativa nasceu durante a Copa de 2022, a partir de uma inquietação doméstica.

A designer gráfica e gestora ambiental Patrícia Meirelles de Azeredo Coutinho acompanhava os três filhos na coleção das figurinhas quando começou a se incomodar com a quantidade de liners descartados. Seu marido, Sérgio Talocchi, gerente sênior de sustentabilidade da Natura, sabia que a empresa já enviava para a Polpel os liners gerados pelos rótulos de seus produtos.

A ideia inicial era simples: recolher o material no condomínio e encaminhá-lo junto aos resíduos enviados pela Natura. Patrícia comentou a proposta em grupos de WhatsApp da escola dos filhos e foi surpreendida pela reação.

"Achei que meu celular tinha sido clonado. De repente havia centenas de mensagens de pessoas querendo participar da iniciativa", lembra.

O que seria uma ação pontual se transformou em uma campanha nacional. Escolas, empresas e famílias passaram a organizar pontos de coleta. Com apoio financeiro da Panini, editora do álbum, foi possível contratar uma empresa para recolher e encaminhar o material coletado.

Ao final da campanha, cerca de 230 quilos de liners —aproximadamente 1 milhão de unidades— foram reciclados e transformados novamente em celulose.

Neste ano, porém, a mobilização ocorre sem o apoio financeiro da editora. Procurada pela Folha, a Panini não respondeu aos questionamentos até a publicação desta reportagem.

A campanha depende principalmente da participação voluntária. Algumas escolas, como Oswald de Andrade, Piaget e Elvira Brandão, criaram pontos de coleta abertos à comunidade em suas unidades. O perfil do Movimento Sobre Nós no Instagram divulga novos locais de recebimento à medida que eles surgem.

Quem não encontrar um ponto próximo pode reunir os liners e enviá-los diretamente para a Polpel até 10 de agosto. O endereço é rua Padre Marcos, 761, CEP 07250-071, em Guarulhos.

Para Patrícia, o valor da iniciativa vai além da reciclagem. "As crianças criaram gincanas, projetos e ações de conscientização. É uma oportunidade de educação ambiental que nasce de algo presente no cotidiano delas."

Enquanto milhões de figurinhas são coladas nos álbuns da Copa, o pequeno papel que sobra deixa de ser um resíduo sem destino e passa a integrar uma cadeia de reciclagem que começou com uma pergunta simples: onde jogar o papel em que a figurinha vem colada?