terça-feira, 31 de março de 2026

Para o PSD, o inimigo agora é Flávio, Dora Kramer, FSP

 

Brasília

Na escolha de Ronaldo Caiado em detrimento de Eduardo Leite, o PSD deixou claro seu plano, ao menos na linha inicial: avançar no eleitorado de Flávio Bolsonaro (PL) para tentar uma vaga no segundo turno.

Ou seja, investir em 2026 e não na construção de possibilidade para 2030. Assim seria se a opção tivesse sido pelo governador gaúcho, hipótese preferida pela ala de centro com plumagem tucana que orbita em torno do projeto alternativo, hoje tendo como referência Gilberto Kassab, mas sem garantia de efeito duradouro.

.)Dois homens de terno, um de cabelo branco e outro de cabelo escuro, se cumprimentam com sorrisos em evento. Pessoas ao fundo aplaudem e observam a interação, com microfones à frente.
Ronaldo Caiado (à esq.), presidenciável do PSD, ao lado de Gilberto Kassab, presidente do partido, durante anúncio da pré-candidatura, em São Paulo - Rafaela Araújo - 30.mar.26/Folhapress, Política

No ato inicial da indicação, a ideia obvia foi garantir impacto em termos de manchetes e cortes de internet com a retomada do tema anistia para Jair Bolsonaro e companhia. Isso enquanto o primogênito do ex-presidente precisa deixar certos radicalismos de lado para emplacar a figura do moderado.

Por ora, tal anistia é um terreno na Lua, mas serve para mexer no bolsonarismo e nos setores à direita que ainda não demonstraram especial entusiasmo com Flávio Bolsonaro. Dois são mais evidentes: os evangélicos e o agronegócio. Um candidato com identificação conservadora nítida teria, na visão dos arquitetos auxiliares de Kassab, potencial para estabelecer pontes e deslocar apoios.

Caiado pegou leve com o presidente Luiz Inácio da Silva, limitando-se a pregar a retirada do PT da cena do poder. Em relação a Flávio Bolsonaro, foi específico: atacou nos flancos da inexperiência e no ímpeto da juventude versus predicados de equilíbrio.

Outra aposta do PSD é na resistência do goiano para neutralizar e rebater ataques. Um político "cascudo", no dizer dos correligionários, tem mais capacidade de enfrentar Lula nos debates e fazer frente à ofensiva do PT ao longo da campanha.

Eduardo Leite daria à candidatura um colorido mais ao centro com pitadas de esquerda. Mas dificilmente conseguiria tirar a direita da disputa final.

Nessa perspectiva, Caiado falaria mais à maioria conservadora refratária a fanatismos. Dará certo? Impossível saber, mas esse é o plano.

O Congresso fatura com a indignação moral, Wilson Gomes, FSP (definitivo)

 A política brasileira atravessa um processo de transformação que, apesar de barulhento e exaustivo, pode passar despercebido. Não se trata apenas da radicalização do debate público nem da intensificação das disputas ideológicas. O que está em curso é algo mais complicado: a política parlamentar passou a viver de ondas de indignação moral.

Não por acaso, nos últimos anos, aprendemos a reconhecer esse fenômeno nas redes sociais. Plataformas digitais passaram a premiar conteúdos que despertam indignação, convocam juízos morais extremos e se baseiam em uma classificação nítida entre bons e maus. Nada engaja mais —nem estimula tanto a produção de conteúdo— do que uma boa revolta moral.

O que talvez ainda não tenhamos formulado com suficiente clareza é que essa lógica transbordou das redes e passou a organizar também a política institucional. O Parlamento —que deveria operar como espaço de deliberação e negociação— passou a mimetizar o padrão de interação das plataformas digitais. O governo também.

A dinâmica é reconhecível. Em vez de discutir políticas públicas, intervenções governamentais ou projetos de lei em termos de consequências e prioridades, o debate se organiza como uma competição moral. O adversário, evidentemente, não é alguém de quem se discorda, mas alguém que encarna o erro ou a perversidade.

Ilustração de Ariel Severino com fundo em degradê vibrante, do verde ao amarelo. No primeiríssimo plano, a cara de um congressista, no lugar dos olhos dois celulares. Nas telas se vê um feixe de dinamite vermelha com o pavio exposto e um isqueiro aceso prestes a detoná-los. Um dos aparelhos mostra apenas os explosivos; o outro inclui também o gesto de ignição, sugerindo ação iminente. A política aparece como espetáculo inflamado, em que narrativas são montadas e amplificadas digitalmente, incentivando conflitos visíveis e moralmente carregados.
Ariel Severino/Folhapress

Os episódios recentes no Congresso são ilustrativos. A criminalização da misoginia, o debate em torno da representação de Erika Hilton, a tipificação do vicaricídio, a acusação feita por dois senadores contra o relator da CPI do INSS de estupro de vulnerável e tentativa de suborno —todos esses casos compartilham uma mesma estrutura. Não são apenas controvérsias políticas, mas um conjunto de "performances de virtude".

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A pesquisa recente tem dado nome a esse fenômeno: ostentação moral ("moral grandstanding"). Trata-se do uso da retórica moral como instrumento de afirmação pública da própria virtude. E ele opera em duas direções complementares. De um lado, a busca de prestígio: apresentar-se como mais justo, mais sensível, mais comprometido do que os demais, conquistando admiração dentro do próprio campo. De outro, a busca de dominância: constranger, desqualificar e expor o adversário como moralmente inferior, afirmando superioridade por meio da humilhação pública.

Essas duas lógicas estruturam o comportamento parlamentar contemporâneo. Discursos em plenários ou comissões, declarações a jornalistas e os inúmeros posts em redes sociais que se seguem não são apenas argumentos. São performances voltadas à obtenção de reconhecimento. Intervenções não visam apenas convencer —visam também marcar posição em uma hierarquia moral visível. Acompanhe uma semana de seu deputado ou senador favorito e veja como esse jogo se joga.

Em ambientes digitais, expressões de indignação moral geram visibilidade, aprovação e engajamento. E, logo, à performance parlamentar juntam-se ativistas, jornalismo profissional, influenciadores e outras figuras públicas, todos ávidos por participar da grande competição de moralismo nacional. À medida que o bolo do engajamento cresce —na mídia digital, eletrônica e impressa—, cria-se um incentivo poderoso: vale a pena moralizar, acusar, dramatizar. Ao longo do tempo, forma-se um padrão de aprendizado coletivo em que a moralização tende a aumentar.

Por um lado, os benefícios individuais do exibicionismo moral são claros e crescentes: mais atenção, reconhecimento e capital político. Cada autor de um projeto de lei —desses apresentados como resposta a uma "injustiça que clama aos céus" ou como restauração da decência diante de uma "situação de calamidade ética"— torna-se o campeão moral de sua tribo. Por outro lado, os custos dessa dinâmica são difusos e coletivos: aumento da polarização, deterioração do debate e redução da capacidade de deliberação. O ator individual ganha ao participar do jogo; o sistema perde.

O Parlamento, mimetizando as redes, torna-se um palco privilegiado dessa dinâmica. Sessões se convertem em performances, discursos são moldados para circulação digital e conflitos se intensificam porque é deles que depende a atenção pública. Quanto mais gente chocada, furiosa ou brigando, melhor para o exibicionismo moral.

Não se trata de injetar mais ética no sistema, e sim de maximizar o lucro pessoal do parlamentar no mercado de indignação. A prioridade não são discussões substantivas em nome do interesse público, mas prevalecer na luta de pavões, vistosamente empenhados em exibir superioridade moral.

Promotoria de Mato Grosso é investigada por receber patrocínio do agro, FSP

 Lázaro Thor

Cuiabá

O CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) abriu investigação para apurar pagamentos que totalizam R$ 2,7 milhões por empresas e entidades ao Ministério Público de Mato Grosso de 2024 a 2025 para projeto de entrevistas. Entre elas, estão empresas do agronegócio e do setor madeireiro investigadas pelo próprio órgão.

Na denúncia que motivou a investigação, é afirmado que as doadoras disputam em processos judiciais como partes contrárias ao Ministério Público em ao menos oito casos e seis inquéritos civis, o que configura conflito de interesse, no entendimento do procurador responsável pela ação. Não há, porém, citação de benefício identificado às empresas doadoras.

Em nota, o Ministério Público de Mato Grosso afirma que a AMMP (Associação Mato-Grossense do Ministério Público) é quem recebe os aportes financeiros para as campanhas de interesse da sociedade e que o projeto "observa rigorosamente os princípios da transparência e da responsabilidade institucional" e não implica "qualquer conflito de interesses".

A AMMP diz ainda que as contas da ação foram aprovadas. Procurados, os doadores afirmaram que participam de projetos em favor da sociedade e que observam critérios de conformidade, legalidade e transparência.

Cinco pessoas em pé em frente a parede com logotipos do Ministério Público de Mato Grosso e Procuradoria Geral. Homem central segura placa de reconhecimento. Mesa com microfones e placas de identificação à frente.
O ex-procurador-geral de Justiça Deosdete Cruz Júnior, segundo à esquerda, homenageando o presidente da Aprosoja (ao centro), Lucas Costa Beber, pela parceria no projeto Diálogos com a Sociedade, em novembro de 2024 - Ministério Público de Mato Grosso/Divulgação

A denúncia, feita pelo ex-procurador-geral de Justiça José Antônio Borges Pereira, indica que a AMMP recebeu dinheiro de doações e utilizou o recurso em um projeto institucional do Ministério Público chamado de Diálogos com a Sociedade.

Na iniciativa, são realizadas rodadas de entrevistas com promotores e procuradores em uma "bolha" de vidro instalada em um shopping de Cuiabá.

A construção da estrutura custou R$ 268 mil, feita pela D’Lux Empreendimentos LTDA, sem licitação, conforme a denúncia. As entrevistas aconteceram inicialmente às quintas e, depois, quinzenalmente, de 2024 a 2025.

O projeto recebeu doações de empresas bilionárias do agronegócio como a Amaggi, do ex-governador Blairo Maggi, e da Bom Futuro, que pertenceu ao seu primo Eraí Maggi. De 2024 a 2025, a Amaggi doou R$ 143 mil, e a Bom Futuro, R$ 44 mil. Procuradas, as empresas não se manifestaram.

A maior doadora foi a Aprosoja-MT (Associação de Produtores Rurais de Soja e Milho de Mato Grosso), que forneceu R$ 630 mil. Também patrocinaram o projeto a Ampa (Associação Mato-Grossense dos Produtores de Algodão), com R$ 123 mil, e o Cipem (Centro das Indústrias Produtoras e Exportadoras de Madeira do Estado de Mato Grosso), com R$ 35 mil.

Mulher de cabelo longo e loiro veste blazer azul e fala em microfone vermelho durante entrevista em estúdio com parede verde e logo do Ministério Público do Estado de Mato Grosso ao fundo.
A primeira-dama Virginia Mendes em entrevista no projeto Diálogos com a Sociedade, realizado pelo Ministério Público de Mato Grosso - Ministério Público de Mato Grosso/Divulgação

"A prática adotada para execução do projeto institucional revela nítido conflito de interesse entre o MPMT e as empresas patrocinadoras do projeto, especialmente aquelas que abrangem construção civil e esfera ambiental, visto ser de conhecimento público as diversas medidas judiciais e extrajudiciais adotadas", diz a denúncia.

Pereira cita a Aprosoja como um dos exemplos em que considera haver conflito. Ele relata que foi procurado pela entidade quando chefiava o órgão para ouvir reclamações sobre a atuação de uma promotora que conduzia investigação sobre irregularidades ambientais suspeitas de terem sido praticadas pela associação.

Outro caso narrado por Pereira é o de empresários da construção civil que apontaram dificuldades em iniciar empreendimentos em razão do projeto Águas Para o Futuro, criado por um procurador para identificar e proteger nascentes no perímetro urbano das cidades. Empresas do setor também foram doadoras.

Após receber a denúncia, o conselheiro Clementino Augusto Ruffeil Rodrigues notificou o atual procurador-geral de Justiça, Rodrigo Fonseca, para que apresente manifestação no processo.

Além de companhias do agronegócio e da construção civil, um bar, restaurantes, um banco e até uma academia fizeram doações. Pereira diz ter encontrado ainda 11 doações sem identificação nominal, que somam R$ 127 mil.

No caso da Aprosoja, o procurador identificou doação de R$ 400 mil sem menção à entidade, que só foi possível de ser identificada após cruzamento de documentos e dados da prestação de contas do projeto.

Concessionárias de serviços como a Nova Rota do Oeste, que cobra pedágio na BR-163, e a Águas Cuiabá, de água e esgoto na capital, doaram R$ 256 mil e R$ 108 mil, respectivamente. Da Energisa Mato Grosso, de energia elétrica, foram R$ 256 mil.

Outros lados

Em nota, a Procuradoria diz que o Diálogos com a Sociedade não compromete "a atuação institucional do Ministério Público, que preserva sua independência funcional e imparcialidade em todos os seus procedimentos".

Procurado, o presidente da AMMP, o promotor Milton Mattos da Silveira Neto, afirmou que as contas do projeto são de responsabilidade do ex-presidente, o procurador Mauro Benedito Pouso Curvo. Silveira Neto afirmou, no entanto, que a assembleia geral da AMMP aprovou as contas da gestão Curvo.

"A AMMP tem por escopo a promoção do nome do Ministério Público, e o projeto Diálogos faz justamente isso: leva assuntos de interesse da sociedade como violência doméstica, abusos sexuais e outros ao conhecimento da população", afirmou o presidente. A reportagem procurou também Curvo, que não respondeu.

O Cipem e a Ampa não se manifestaram. O Iagro (Instituto Mato-grossense do Agronegócio), que representa a Aprosoja no Diálogos com a Sociedade, por sua vez, disse em nota que a participação em projetos é prevista em estatuto.

"O projeto está alinhado às finalidades estatutárias e legais do Iagro, ao promover a aproximação entre instituições e sociedade, disseminar informações de utilidade pública e fomentar o debate sobre temas de relevante interesse social, como a violência contra a mulher, a assistência ao público idoso e a proteção ao meio ambiente."

A concessionária Nova Rota do Oeste afirmou que todas as suas iniciativas seguem critérios técnicos, de governança e de conformidade, observando as orientações dos órgãos de controle.

A Energisa disse que as doações foram feitas sem qualquer contrapartida. "A companhia reafirma que sua eventual participação em iniciativas institucionais ou de interesse público observa critérios de conformidade, legalidade e transparência."

A Águas Cuiabá afirmou que aderiu ao projeto ao avaliar a importância dos temas abordados. "A empresa ressalta que pauta suas ações em rigorosos processos de governança e compliance."