Negacionismo não é apenas um debate acadêmico nem um capricho de redes sociais. Ele tem impacto em todos os aspectos da vida humana porque desloca a bússola que orienta decisões coletivas: em vez de método, evidência e revisão crítica, instala-se o "acho que", o "sempre foi assim" e o "isso é exagero". Quando essa mentalidade se torna dominante, ela não derruba só argumentos; ela adia obras, compromete manutenção e transforma políticas públicas em slogans.
O Iluminismo –com seus excessos e contradições– nos legou algo decisivo: a ideia de que a realidade pode ser conhecida e governada por regras racionais, submetidas a teste e aperfeiçoamento. Steven Pinker, ao defender um "novo Iluminismo", insiste que o progresso não é milagre nem destino; é produto de ciência, instituições e cooperação. A expectativa de vida é o exemplo mais didático. Ela não cresceu por retórica, mas por decisões técnicas: água tratada, esgoto coletado, vacinação, antibióticos, energia confiável, transporte seguro e planejamento urbano.
A prova está dentro de casa. Moradias são construídas com cabeamento elétrico –e hoje também com redes de dados– porque a vida contemporânea depende de infraestrutura "invisível". Prevemos banheiros, pias e áreas de higiene porque aprendemos, por evidência e por tragédia, que saúde pública começa no cotidiano. Planejamos tubulações sob o piso e redes sob as ruas; padronizamos materiais; fixamos normas técnicas; definimos rotinas de manutenção; atribuímos responsabilidades. Isso só se tornou "normal" porque o paradigma iluminista nos acostumou a exigir prova, cálculo e responsabilidade pública para aquilo que sustenta a vida.
É verdade que infraestruturas existiram antes do Iluminismo. Egípcios e romanos construíram sistemas notáveis de acesso à água. Roma teve a famosa Cloaca Máxima, frequentemente tratada como "rede de esgoto" ancestral; ao que tudo indica, porém, tratava-se sobretudo de um grande projeto de drenagem de áreas alagadiças, com o efeito também de conduzir efluentes. A concepção moderna de saneamento
–rede pública granular, ligações domiciliares, interceptores, estações de tratamento, monitoramento e regulação– é relativamente recente e se consolida no século 19, quando epidemias urbanas e a engenharia sanitária impuseram uma verdade simples: esgoto não é um assunto privado; é risco coletivo.
É aqui que Thomas Kuhn ajuda a entender o perigo contemporâneo. Paradigmas condicionam o que vemos, o que ignoramos e até o que consideramos "normal". O negacionismo é o paradigma mais comezinho, infantil e do dia a dia: seleciona fatos que confortam e rejeita os que exigem revisão. É a lógica de Ouydire, o monstro alegórico de Rabelais, que transforma a simples repetição em critério de verdade e reage com desconfiança a tudo o que exige medição, comparação ou revisão de crenças. Carl Popper mostrou o antídoto: ciência não é dogma, mas um método de conjecturas e refutações –hipóteses testáveis, expostas à possibilidade de falseamento. O negacionismo faz o inverso: constrói crenças imunes ao teste e substitui método por intuição, lealdade tribal e suspeita sistemática do conhecimento especializado.
Quando esse paradigma invade o debate público, ele também rebaixa a própria ideia de infraestrutura. Prefere-se o "inaugurável" ao essencial: é mais fácil cortar a fita de um viaduto do que financiar uma rede de coleta enterrada. É mais popular prometer preço baixo sem discutir custos do que encarar perdas, qualidade da água, dados de demanda, risco climático e manutenção preventiva. Infraestrutura, porém, vive de números e de método; sem isso, decide-se no escuro.
Se quisermos expandir o acesso às infraestruturas do século 21—em especial ao saneamento— precisamos superar esse paradigma. Um novo Iluminismo não é nostalgia; é condição de desenvolvimento. Como isso se traduz no debate brasileiro sobre saneamento, corporativismo e investimento será o tema do meu próximo artigo.

