quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Mauricio Portugal Ribeiro - O vento e as estradas, FSP

 "O vento sopra onde quer; ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai." A frase é do Evangelho de João. Jesus a diz a Nicodemos, um fariseu que o procura de noite, para não ser visto, querendo entender quem ele é. Nicodemos pede uma explicação; Jesus lhe dá uma imagem. O espírito é como o vento (em grego, são a mesma palavra): ninguém vê, ninguém controla, todos sentem.

Durante muito tempo li a frase como um limite, um "não tente explicar". Mas ela também diz que a voz do vento se ouve. E uma voz que saiu de uma aldeia da Galileia e chegou até aqui, 2.000 anos depois, passou por algum lugar. Dá para perguntar por onde.

Resquício de um templo romano em Zavenaar, no centro da Holanda
Resquício de um templo romano em Zavenaar, no centro da Holanda - Raap - 21.mar.22/Reuters

O que a mensagem cristã tem a ver com infraestrutura? Mais do que se costuma admitir. Uma rede de transporte e comunicação, com estradas, portos, estalagens, um serviço oficial de transporte, uma língua comum, casas de reunião em cada cidade, um suporte barato para o texto e um modelo de prédio público: tudo o que a fé precisou para circular já estava construído, e por outras razões.

É possível que o cristianismo não tivesse chegado até nós sem isso. Sem essa rede, Jesus talvez fosse lembrado como um dos profetas de Israel, que é o que o islã vê nele, ou como um rabi galileu de palavra incomum, como o veem muitos judeus de hoje, e não como o centro de uma fé que reúne quase um terço da humanidade. O que nos trouxe o cristianismo foi a combinação de duas coisas: a obstinação de um punhado de pescadores, artesãos e um fabricante de tendas e uma rede que lhes permitiu ir aonde ninguém os mandara ir.

Obstinação é pouco. Durante quase três séculos, de Nero a Diocleciano, ser cristão podia custar a vida, e muitos a deram sem que a rede os protegesse. A rede apenas garantiu que a notícia da morte deles chegasse longe, a ponto de Tertuliano escrever, por volta do ano 200, que o sangue dos mártires era semente de cristãos.

Essa rede tinha nome: Pax Romana. Pompeu limpara o mar dos piratas, e os engenheiros das legiões haviam estendido, estima-se, mais de 80 mil quilômetros de vias pavimentadas, com pontes, estalagens e um serviço de transporte oficial. No oriente do império falava-se o grego comum, a koiné, a infraestrutura invisível da rede: herança de Alexandre que sobreviveu ao império macedônio e que Roma teve a prudência de não substituir pelo latim. Era o que o francês das chancelarias foi para a Europa e o inglês é para o mundo de hoje: a língua em que um sírio negociava com um egípcio e em que os quatro evangelhos canônicos seriam escritos.

Em cada cidade importante havia uma sinagoga da diáspora, um ponto de acesso à rede, onde um forasteiro podia falar e ser ouvido. Paulo de Tarso, judeu e cidadão romano, percorreu mais de 15 mil quilômetros por essas vias, segundo as estimativas correntes: entrou na Macedônia pela Via Egnácia, pregou em Filipos e Tessalônica e escreveu cartas que seguiam pelos mesmos caminhos das cargas e dos tributos.

Os primeiros cristãos ainda foram pioneiros no uso do códice, o livro de folhas costuradas, no lugar do rolo: cabia mais texto por menos dinheiro e viajava na sacola de quem pregava. A fé viajou como mercadoria porque havia por onde.

Os marcos seguintes também se apoiam em obras. Em 313, Constantino e Licínio garantiram a liberdade de culto pelo Edito de Milão, e o imperador convertido passou a erguer basílicas. A palavra designava um edifício civil, o salão coberto ao lado do fórum onde se julgavam causas e se fechavam negócios, algo como um palácio de justiça com uma bolsa de valores no mesmo prédio; a Basílica Júlia e a Basílica Emília, no Fórum Romano, eram exatamente isso. A nova fé não inventou um templo: herdou a planta do prédio em que Roma fazia justiça e dinheiro.

Em 325, para reunir em Niceia cerca de 300 bispos, Constantino lhes concedeu o uso do transporte oficial do império, o cursus publicus, com suas estações de troca de cavalos, segundo conta Eusébio de Cesareia: o primeiro concílio ecumênico foi também uma operação logística.

Em 367, Atanásio de Alexandria enviou uma carta pascal fixando os 27 livros do Novo Testamento, e a lista circulou pela mesma rede. Cada século acrescentou uma camada: em 380, Teodósio fez do cristianismo a religião do império; depois vieram os mosteiros, que copiaram; o Caminho de Santiago, que ergueu pontes e hospedarias; Gutenberg, cujo primeiro grande livro impresso foi uma Bíblia.

Não escrevo para reduzir o espírito à engenharia. Escrevo porque quem constrói estradas raramente sabe o que vai passar por elas. Roma pavimentou o mundo para que suas legiões chegassem a toda parte. Chegaram. E atrás delas, a pé, com cartas na sacola, chegou outra coisa, que as legiões não previram e os impérios não detiveram. As vias romanas há muito viraram pó e museu. O que elas carregaram ainda chega, todos os domingos, a lugares que Roma nunca alcançou.

O vento sopra onde quer. A voz, essa veio pela estrada.

CVM multa Cerveró em R$ 16 milhões por propina em Pasadena; executivo foi inabilitado por 15 anos- OESP

 RIO - A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) condenou Nestor Cerveró, ex-diretor da área internacional da Petrobras, a uma multa de R$ 16.122.750 por desvio de poder e quebra do dever de lealdade quando da aquisição da Refinaria de Pasadena, em 2006. O executivo também foi punido com inabilitação temporária, pelo prazo de 15 anos, para atuar como administrador ou conselheiro fiscal de companhia aberta.

Cerveró já havia admitido propina e feito acordos de colaboração premiada com o Ministério Público Federal (MPF) – leia mais abaixo.

Nestor Cerveró era diretor da área internacional da Petrobras em 2006
Nestor Cerveró era diretor da área internacional da Petrobras em 2006 Foto: André Dusek/Estadão

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A decisão foi tomada por unanimidade pelo colegiado da reguladora, com o presidente Otto Lobo e a diretora Marina Copola seguindo o diretor relator, João Accioly. O diretor Igor Muniz se declarou impedido e não participou do julgamento.

O então diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, foi alvo da mesma acusação, mas o executivo morreu em 2022, e o Colegiado reconheceu a extinção de sua punibilidade.

Outros dez ex-conselheiros e executivos da estatal, incluindo a ex-presidente Dilma Rousseff, que presidia o conselho de administração na época, foram acusados de descumprimento de deveres fiduciários no contexto da mesma operação. Porém, o caso já prescreveu para essas acusações. Já o caso de propina não prescreveu porque configura crime.

Foram acusados Almir Barbassa, Guilherme Estrella, Antônio Palocci, Fábio Coletti Barbosa, José Sérgio Gabrielli, Renato Duque, Ildo Sauer, Gleuber Vieira e Cláudio Haddad. Dilma, Palocci, Barbosa, Gleuber e Haddad integravam o Conselho; Barbassa, Estrella, Duque e Sauer, a Diretoria Executiva; e Gabrielli, que era presidente da companhia, participava de ambos.

Camila Farani -Quatro anos, uma chance: o que o Brasil que empreende tem a cobrar do Lula 4- OESP

 Notícia de presente

Acompanhei de perto o que aconteceu com empresas brasileiras nos últimos anos. Conversei com fundadores que tentaram manter folha de pagamento com crédito inacessível quando a Selic, a taxa básica de juros do Brasil definida pelo Banco Central, chegou a 13,75% ao ano em 2022 e ficou lá por meses. Dinheiro caro para todo mundo.

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O empresário que precisava de capital de giro pagou caro. O que queria expandir, mais ainda. E o que tinha dívida contratada quando os juros subiram, descobriu que o custo do passivo cresceu mais rápido do que o faturamento. Essa conta ainda está sendo paga.

Por isso, o primeiro movimento que qualquer negócio precisa fazer agora é proteger o caixa. Empresa não quebra por falta de lucro. Quebra por falta de caixa. Toda despesa que não gera resultado direto precisa ser revisada sem piedade. Não é pessimismo. É gestão. E é exatamente o que empresas que atravessaram crises longas aprenderam: sobrevive quem controla o caixa antes de precisar.

O segundo movimento é construir geração de caixa própria. Quem depende de empréstimo para operar está jogando com regras que o banco define, não você. Em ciclo de juro alto, a empresa criativa é a que encontra dentro do próprio negócio formas de gerar liquidez: antecipação de recebíveis com clientes âncora, venda de estoque parado, revisão de mix de produto priorizando o que tem margem maior e giro mais rápido.

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Uma marca brasileira de vestuário que acompanhei de perto fez exatamente isso quando passou por reestruturação: reduziu a quantidade de produtos do portfólio, concentrou energia nos itens que geravam caixa real e saiu do ciclo de expansão para um ciclo de eficiência. Não cresceu para fora. Cresceu para dentro. E foi essa disciplina que manteve a empresa de pé enquanto o setor inteiro sangrava.

O que você está pagando de juro hoje, e quanto desse custo poderia ser eliminado com uma negociação que você ainda não fez?

O terceiro ponto é vender mais e melhor. Em tempo difícil, o cliente fica mais seletivo. Ele não para de comprar, mas passa a escolher com mais cuidado. Ganha quem tem time comercial treinado, processo de vendas estruturado e marketing gerando demanda todo dia. Não de vez em quando. Todo dia. Empresa que depende de indicação e de cliente antigo para sobreviver está em terreno frágil num ciclo de juros altos, porque o cliente antigo também está apertado.

No Lula 4, Banco Central precisa reduzir juros e baratear credito
No Lula 4, Banco Central precisa reduzir juros e baratear credito Foto: Wilton Junior/Estadão

E o quarto ponto é dos que poucos estão levando a sério ainda: a reforma tributária. A transição começa em 2027. Parece longe. Não é. O novo sistema vai mudar alíquotas, regimes e a forma como o imposto incide sobre cada setor. Empresa que não revisar preço, margem e enquadramento tributário com o contador antes disso vai descobrir tarde demais que o modelo que funcionava no sistema antigo não funciona mais no novo. Esse é o tipo de problema que não aparece no balanço do mês. Aparece quando já é difícil corrigir.

O que o setor produtivo cobra do Lula 4, portanto, não é só política econômica. É condição de operação. Juro que caiba no fluxo de caixa. Crédito que chegue antes da empresa quebrar. Regulamentação da reforma tributária que dê tempo de adaptação real, não só legal. E um governo que entenda que previsibilidade não é luxo. É o mínimo que qualquer negócio precisa para tomar decisão de contratação, de investimento e de crescimento. Essa é a conta que, como empresária, espero que feche.