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Notícias, idéias, e impressões de um mundo particular
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Muitos dizem que maconha é uma erva natural, inofensiva. Dizem até que não causa dependência nem apresenta efeitos colaterais. Tal benevolência não encontra respaldo na neurobiologia, tema da coluna de hoje.
O princípio ativo da maconha, o THC, exerce suas ações ao se ligar a dois tipos de receptores celulares, denominados canabinoides. Um deles, CB1, está localizado predominantemente no cérebro; o outro, CB2, no sistema imunológico, fígado, coração, músculos, pele e órgãos reprodutores.
O THC exerce sua função psicoativa quando se liga aos receptores CB1, encontrados em circuitos de neurônios envolvidos na memória (hipocampo), nas respostas emocionais (amígdala), na cognição (córtex cerebral), na motivação (sistema límbico) e na coordenação motora (cerebelo).
Em laboratório, camundongos tornados dependentes, que aprenderam a acionar alavancas para receber doses adicionais de THC, perdem o interesse em pressioná-las depois de tratados com medicamentos que bloqueiam os receptores CB1. O mesmo bloqueio em seres humanos provoca efeito semelhante.

Os circuitos neuronais responsáveis pelo mecanismo de recompensa contêm receptores CB1 que respondem ao estímulo do THC, aumentando a síntese e a liberação de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer. As concentrações de dopamina obtidas com a maconha são mais baixas do que as da cocaína, da morfina e das anfetaminas, mas a liberação é mais rápida.
A dopamina tem papel decisivo no controle da cognição, da atenção, das emoções e da motivação.
A meia-vida do THC é de duas horas. Ou seja, o organismo leva duas horas para excretar 50% da droga presente na circulação sanguínea.
A atividade do THC nos centros da memória e do controle motor modifica a função psicomotora, o controle dos movimentos, a força muscular, a velocidade das reações e a percepção do tempo —o que explica por que o usuário tem a impressão de que se passaram minutos, quando na realidade foram horas.
Uma das consequências é o comprometimento da habilidade de dirigir automóveis e de operar máquinas, especialmente em usuários ocasionais. Ocorre aumento do risco de acidentes fatais e não fatais no trânsito. Quando associada ao álcool, à cocaína e a outras drogas psicoativas, o risco é potencializado.
Experiências em animais e em seres humanos demostraram que o impacto nas funções cognitivas e psicomotoras se manifesta logo após o uso, mas pode persistir por alguns dias.
O consumo por anos ou décadas consecutivas pode comprometer a memória e a cognição, especialmente quando foi iniciado na adolescência.
Exames de imagem que avaliam o fluxo sanguíneo no tecido cerebral mostram que usuários crônicos apresentam redução da perfusão.
A ressonância magnética cerebral dos que fumam por anos consecutivos revela alterações estruturais: redução do volume do hipocampo, da amígdala, do cerebelo e do córtex frontal. É provável que essas modificações guardem relação com deficiências de memória, do processamento de emoções, da motricidade e da tomada de decisões, respectivamente. Algumas dessas anormalidades persistem por períodos variáveis, mesmo depois da abstinência.
O uso crônico provoca redução do número de receptores CB1 nos neurônios cerebrais. Em animais expostos à droga desde a puberdade, a perda é mais acentuada. A diminuição do número desses receptores, provocada pela repetição dos impactos cerebrais do THC, explica a tolerância que o usuário desenvolve com o passar do tempo e é responsável pelo aumento progressivo das doses em busca do mesmo efeito.
É por essa razão que os maconheiros mais velhos se queixam da qualidade da maconha atual. Na realidade, os teores de THC na planta hoje vendida nas ruas são cada vez mais altos.
Em adolescentes que fazem uso frequente, a capacidade de sintetizar e liberar dopamina fica comprometida, efeito colateral que explica a incidência mais alta de emoções negativas e da síndrome amotivacional encontrada entre eles.
Maconha é a droga mais consumida entre nós. Décadas de repressão só serviram para criarmos a terceira população carcerária do mundo. É fundamental ensinarmos crianças e adolescentes de que se trata de uma droga psicoativa que pode levar à dependência e causar efeitos colaterais imediatos e a longo prazo, como vamos mostrar nas próximas colunas.
Nunca foi fácil realizar debate eleitoral profundo nas democracias de massa. Ainda menos em sociedades tão desiguais e diversas. A competição por votos tende a convidar a demagogia e a mentira. Fair-play é para losers.
Por isso o ideal de eleições "livres e justas", em que cidadãos se informem e façam escolhas autônomas, sempre pareceu inflacionado. Nos contentamos com regulação de campanhas, com a contagem fidedigna dos votos, a regularidade formal do processo.
E ficou muito mais difícil na última década.

A frustração com a insegurança material que a democracia tem entregado, somado a um ambiente informacional governado por plataformas pluto-algorítmicas, só fazem turbinar as dissonâncias cognitivas, o medo do futuro e a tentação por soluções messiânicas. O voto se descolou ainda mais de fatos, da análise comparativa de políticas públicas, das soluções para angústias reais.
Laerte, em meio aos protestos de junho de 2013, publicou uma tira: "A Grande Ficha. Em algum momento... ela vai cair". Em março de 2020, início da pandemia, Laerte gritou em caixa alta nas redes: "A Ficha caiu porraaaa!!!" A metáfora expressou nossa inabilidade para entender, senão tardiamente, as causas de nossas aflições e o tamanho dos desafios coletivos.
A Grande Ficha demora a cair. É mais fácil vê-la em retrospectiva. Foi mais fácil ver em 2022 o que se temia em 2018.
A Grande Ficha continua a mostrar que a continuidade da democracia está pressionada por muitas frentes. A desigualdade, a crise climática, o crime organizado, a tensão militar, a expansão do poder corporativo sobre o poder político, a apropriação privada do bem comum, o definhamento de capacidades estatais. Projetos autocráticos não saíram do vácuo.
Nesta eleição, nenhuma candidatura tem vocação ou capacidade para entregar um Brasil digno das promessas constitucionais ou à altura dos nossos problemas. Nenhuma salva a democracia dos seus múltiplos riscos existenciais que marcam a época histórica.
Mas apenas uma candidatura está inscrita oficialmente no projeto global de autocratização. Um projeto que combate nossa liberdade individual, profissional e econômica. E busca tirar do Estado até os meios para proteger a vida, a família e a propriedade. Até mesmo as competências para viabilizar o livre-mercado de ideias, bens e serviços.
A institucionalidade pública, afinal, dificulta o projeto. A ordem pública é adversária. O servidor público imparcial é adversário. O jornalista, o cientista, o professor, o juiz íntegro são inimigos.
Essa candidatura propõe um Brasil que renuncia a qualquer pretensão à soberania territorial, financeira ou tecnológica, à soberania alimentar, mineral ou ambiental. Uma autocratização de tipo subalterno. Nela não cabe sequer a ideia de interesse nacional.
Está comprometida com privatizar o futuro. Mais precisamente, sequestra qualquer projeto coletivo e contrata futuro oligárquico.
Essa Grande Ficha, ela tem que cair. Resta saber o quão tarde e o grau de destruição e sofrimento necessários para perceber a gravidade do erro. Ou se vamos dar conta de nossa cumplicidade e elaborar visão alternativa de futuro. Futuros nunca estão inteiramente abertos, nem inteiramente fechados.