SP trava batalha contra o mar e usa engenharia para impedir que nova ilha se forme no litoral

Objetivo é evitar abertura de barra no Estreito do Melão; processo erosivo já desalojou famílias e ameaça 3 comunidades. Crédito: Fundação Florestal/Divulgação
Barreiras com tubos geotêxteis cheios de areia estão sendo instaladas para conter a erosão marinha que ameaça dividir uma parte da Ilha do Cardoso, em Cananéia, no litoral sul do Estado de São Paulo. De acordo com o governo estadual, serão instaladas duas barreiras de 450 metros, uma em cada lado do Estreito do Melão, onde as marés ameaçam abrir uma nova barra (ligação) entre o oceano e o Canal de Ararapira.

O Estreito já havia perdido uma parte de seu território em 2018, quando a primeira barra se abriu e atualmente supera os 200 metros de largura. Na época, as comunidades Vila Rápida e Enseada foram obrigadas a se mudar. Se a nova barra abrir, serão impactadas as comunidades de Restinga, Vila Mendonça e Nova Enseada – esta pode ter sua segunda mudança causada pelas erosões.
Para você
No dia 9 de março deste ano, a Justiça concedeu nova liminar com o objetivo de conter a erosão na Ilha do Cardoso. A decisão atende a pedido da Promotoria Regional do Meio Ambiente do Vale do Ribeira com o objetivo de fazer com que o Estado de São Paulo e a Fundação Florestal adotem medidas para conter o problema e proteger as famílias que moram no local.
Técnica é usada em praia de Santos
Cada tubo geotêxtil, semelhante aos que foram usados para conter o avanço do mar na Ponta da Praia, em Santos, tem 25 metros de comprimento e 1,8 de altura e são preenchidos com areia do próprio Canal de Ararapira. Eles estão fixados em linha no ponto de arrebentação das ondas no lado do oceano e junto à margem do canal no lado oposto.
A intervenção, conduzida pela Fundação Florestal em parceria com a SP Águas, marca o início da execução de uma solução técnica construída a partir de estudos especializados, monitoramentos em campo e diálogo com a comunidade local, segundo o governo. O investimento será de cerca de R$ 12 milhões (veja o vídeo acima).

A obra prevê a dragagem e o reposicionamento de sedimentos para recomposição e estabilização do cordão arenoso no Estreito do Melão, a área mais impactada pela dinâmica costeira da região. Com duração prevista de nove meses, os trabalhos têm como objetivo a segurança das comunidades tradicionais que vivem na Ilha do Cardoso, reduzir efeitos do processo erosivo e proteger os ecossistemas locais.
Mudanças foram aceleradas
Conforme a Fundação Florestal, o processo erosivo está associado a fenômenos naturais característicos da região, influenciados pela interação entre marés, correntes marítimas, ventos, ressacas e movimentação de sedimentos. Nos últimos anos, o Estado intensificou o monitoramento da área diante da aceleração dessas transformações devido às mudanças climáticas e dos potenciais impactos ambientais e sociais decorrentes da alteração do cordão arenoso.

O fenômeno foi registrado por imagens captadas por satélites da chamada Constelação Dove, da empresa Planet, que reúne cerca de 100 satélites. Elas são fornecidas pela plataforma SCCON, que faz o monitoramento com a detecção de mudanças e emissão de alertas. A iniciativa integra o Programa Brasil MAIS (Meio Ambiente Integrado e Seguro), maior projeto de sensoriamento remoto do País.
A Fundação contratou a intervenção após a conclusão do projeto executivo elaborado pela SP Águas. O processo foi acompanhado pelo Ministério Público durante vistorias técnicas realizadas na região, que também contaram com a participação de representantes das comunidades locais, da Defensoria Pública e de equipes especializadas dos órgãos estaduais.
Comunidades não querem sair
Para Jorge Cardoso, engenheiro ambiental, caiçara e que vive na Enseada da Baleia - comunidade que precisou ser realocada em 2017 devido ao avanço do mar -, a intervenção é um marco para os moradores. “As comunidades não desejam sair dos seus espaços. Existe um vínculo afetivo com seu território. A intervenção representa uma resposta a uma demanda construída coletivamente”, diz.
Tatiana Cardoso, assessora técnica comunitária da Articulação dos Povos e Comunidades Tradicionais da Ilha do Cardoso, diz que a obra é resultado de anos de mobilização comunitária e contribuirá para reduzir os riscos enfrentados pelas comunidades tradicionais, ajudando a garantir a permanência das famílias em seus territórios e a continuidade dos modos de vida caiçaras.
Antes do início das atividades operacionais, foram executadas etapas preparatórias para a obra, incluindo sondagens geotécnicas, análises laboratoriais dos sedimentos, levantamentos batimétricos - que medem a profundidade e as características do fundo do canal -, elaboração do projeto executivo, contratação da empresa responsável e mobilização dos equipamentos e embarcações necessários para a execução dos trabalhos.
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Nesta fase, as equipes iniciam a dragagem e o reposicionamento controlado de sedimentos em pontos previamente definidos pelos estudos técnicos. O método consiste na retirada e redistribuição de material arenoso para recompor a faixa afetada pela erosão e aumentar sua estabilidade diante da dinâmica costeira local. A barreira geotêxtil ajudará a conter os sedimentos e reduzir o impacto das marés.
Visitação controlada
Localizado no Parque Estadual da Ilha do Cardoso, o Estreito do Melão é considerado o trecho mais vulnerável da Unidade de Conservação em relação ao avanço da erosão costeira.
Estudos já realizados na região apontam que, na parte sul da ilha, esse processo erosivo foi causado pela ação do homem, com a abertura do Canal do Varadouro nos anos 1950. O processo se intensificou ao longo do tempo e, nos últimos anos, foi acelerado devido à crise climática, com mais ressacas.
A região integra um dos mais importantes mosaicos ambientais do País, reunindo remanescentes preservados de Mata Atlântica, manguezais, restingas e comunidades caiçaras que mantêm uma relação histórica com o território e os recursos naturais. O entorno da ilha é propício para o avistamento de baleias e golfinhos. O acesso ao parque é feito exclusivamente por transporte náutico e a visitação é controlada.








