quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Ruy Castro - Legados ao vento, FSP

 Todo dia morre um artista ou intelectual –jovem ou velho, famoso ou quase, de qualquer ramo. Consternado, vou à internet, às TVs e às reportagens e ouço ou leio a infalível declaração: "Perdemos Fulano, mas seu legado jamais será esquecido". Será? Antes cêsse, mas não ésse, penso eu. Será esquecido, sim, e esse esquecimento começará assim que encerrarem o velório, e o jornal com seu obituário for forrar a gaiola do papagaio. No Brasil, é um erro morrer.

E não importa o tamanho do morto. Exemplo? De 1930 a 1960, ninguém mais presente, poderoso e influente na música popular do que Ary Barroso (1903-1964). E dava razões para isso: fora o primeiro sambista a ficar famoso, o principal abastecedor de Carmen Miranda e Francisco Alves e fixador de gêneros como o samba dolente ("Faceira", 1931), o samba-canção ("Maria", 1934), o samba de Carnaval ("Foi Ela", 1935), o samba dramático ("Na Batucada da Vida", 1935), o samba baiano ("Na Baixa do Sapateiro", 1938), o samba-exaltação ("Aquarela do Brasil", 1939) e muitas outras variantes. Como compositor de piano, tinha uma orquestra nos dedos.

Não só. Foi também o primeiro compositor brasileiro a ser chamado por Hollywood; o mais ouvido locutor esportivo de seu tempo; sinônimo do Flamengo, do qual foi cartola secreto; descobridor de talentos em seu programa de auditório; inspirador da bossa nova (Tom Jobim e João Gilberto o adoravam); e, embora provocasse ciúmes até em Villa-Lobos, dizia-se, com orgulho, um sambista. Pois, com tudo isso, Ary está esquecido.

Estou falando de Ary Barroso, mas poderia citar outros compositores, cantores, atores, escritores, pintores ou bailarinos de calibre equivalente, no masculino ou feminino, cujo "legado" –a obra que deixaram-- está há muito fora dos palcos, das telas, das prateleiras, das páginas dos livros e da memória do Brasil. Você poderá citar outros.

Em compensação, Tom Jobim, Cartola, Cazuza, Carlos Drummond, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Tarsila do Amaral nunca morreram. Por enquanto.

A conta do vento, Le monde Diplomatique Brasil


Como o Centrão capturou a agenda das energias renováveis enquanto o governo de esquerda passou a defender tecnicamente as térmicas como fonte de reserva. Uma inversão observada ao longo dos últimos 15 anos, evidenciada pela disputa em torno do maior leilão de potência da história do setor elétrico

Em 21 de maio, a Agência Nacional de Energia Elétrica homologou por unanimidade os primeiros contratos do Leilão de Reserva de Capacidade 2026. Treze usinas termelétricas, com entrega prevista para o ano que vem. A decisão fecha o capítulo mais ruidoso de uma disputa que envolveu duas ações na Justiça Federal, parecer do Ministério Público Federal, deslocamentos no Tribunal de Contas, intervenções da Fiesp e da CNI e questionamentos parlamentares. Os lotes restantes, com entrega entre 2027 e 2031, ainda serão votados.

O cálculo do governo era simples. Em 13 de maio, o Ministério de Minas e Energia despachou ofício à Aneel pedindo prioridade máxima para antecipar a entrada das térmicas em agosto, alegando confiabilidade operativa. Em tradução direta: apagão se cobra de quem está no Planalto na hora em que ele acontece, não de quem patrocinou a campanha contra o leilão. Com risco operacional mapeado para os próximos verões e ano eleitoral à vista, a margem do governo Lula para tratar reserva firme como pauta partidária era estreita.

Por trás do barulho, ficou exposta outra coisa. Uma inversão que poucos enxergaram – talvez porque o vocabulário disponível para ler o caso ainda é o de quinze anos atrás.

A Frente Parlamentar em Defesa das Energias Renováveis nasceu em 2015, com 220 deputados e 13 senadores. Seu primeiro presidente foi Beto Rosado, do PP, do Rio Grande do Norte, estado que concentra um quarto da geração eólica do país. Pela presidência passaram parlamentares do PSDB, do União Brasil e, agora, novamente do PP. A trajetória partidária do atual presidente, Danilo Forte, resume o objeto: PMDB, PSB, DEM, PSDB, União Brasil, PP. Seis legendas em duas décadas – e nenhuma traição, se o critério for o pragmatismo. Ele próprio se define, depois de migrar para o PP em abril, como “pragmático e menos ancorado em diretrizes ideológicas consolidadas”.

O centrão brasileiro, conjunto de legendas regionais que media o orçamento federal, encontrou nas energias renováveis um setor desenhado sob medida. Eólicas e solares se instalam sobretudo no semiárido nordestino, região historicamente subdesenvolvida, com terra barata, dependência do orçamento público e estrutura política dominada por famílias tradicionais. Cada parque eólico gera, no mesmo movimento, arrendamentos baratos de trinta anos, royalties municipais, empregos temporários de construção, demandas por estrada e por transmissão, contratos com fornecedores locais. Tudo aquilo que o vocabulário do centrão sabe processar tão bem.

O controle do setor está em outro lugar. TotalEnergies, EDP Renováveis, Engie, Iberdrola, Enel, Acciona, Voltalia, Neoenergia, AES. A Casa dos Ventos, do Ceará, é a única empresa de grande porte ainda majoritariamente brasileira – em parte, porque a TotalEnergies entrou em 2023 com 34% do capital. Os pequenos arrendadores estão presos a contratos longos e abusivos, como documentaram Inesc, Repórter Brasil e organizações sociais da região. Mas o ecossistema político que organiza essa cadeia – licenciamento ambiental, transmissão, muita subvenção tarifária, prorrogação de descontos, leilão de baterias – esse é centrão. E haja subvenção, sempre com o consumidor pagando a conta.

A MP 1.118, de 2022, foi apelidada no setor de “MP Mário Araripe”: tratava de combustíveis e recebeu emendas de Danilo Forte que ampliaram benefícios tarifários a parques renováveis. A MP 1.212, de 2024, exigia que empreendimentos em zonas de processamento e exportação usassem exclusivamente energia renovável de novas usinas – desenho que favorecia diretamente o maior desenvolvedor eólico do país. Em fevereiro, o TCU derrubou pontos centrais da regulamentação no Acórdão 292/2026.

O capital renovável brasileiro construiu, em 15 anos, uma rede política que atravessa governos, partidos e mandatos. Tudo à luz do dia, com retórica ambiental e patrocínio de imprensa especializada. Resta uma pergunta: por que essa engrenagem, montada sob governos de matrizes ideológicas distintas, se voltou agora contra um leilão técnico convocado para evitar apagão a partir de 2027?

Foto: Delatfrut/Flickr

A resposta exige sair do vocabulário herdado. Térmica como retrocesso. Renovável como futuro. Quem defende térmica defende lucro fóssil. Como se a defesa da reserva firme fosse traição da agenda ambiental. É essa moldura que sustentou a ofensiva contra o LRCap, e ela é cada vez mais difícil de manter.

A Agência Internacional de Energia registrou em seu relatório Electricity 2025 que térmicas despacháveis seguirão sendo “fornecedoras importantes de capacidade segura”, mesmo quando “operam pouco ao longo do ano”. Em português direto: pagar para que estejam disponíveis no início da noite, quando o sol se vai, o vento oscila e a demanda dispara. Não é falta de energia. É falta de potência em algumas horas críticas – distinção que separa quem entende o sistema de quem fala dele de longe.

Os países que mais avançaram na transição energética – Reino Unido, Alemanha – foram também os que mais pagaram para sustentar essa reserva. Mas é o caso ibérico que mais incomoda. Em 28 de abril de 2025, Espanha e Portugal mergulharam em trinta segundos no maior colapso elétrico da Europa em duas décadas. O relatório final do painel da ENTSO-E, publicado em março, distribui responsabilidade entre o operador espanhol Red Eléctrica, geradores convencionais, geradores renováveis e o ambiente regulatório. As 440 páginas, disponíveis em entsoe.eu, identificam como causas raiz oscilações sustentadas, lacunas no controle de tensão e na gestão de potência reativa, e reduções abruptas de geração seguidas de desconexões em cascata.

Há um ângulo internacional mais incômodo. Em janeiro, Donald Trump congelou autorizações federais para eólica offshore nos Estados Unidos. Em julho, a Big Beautiful Bill Act acelerou o phase-out de créditos fiscais para solar e eólica do Inflation Reduction Act. A direita europeia, da AfD ao Reagrupamento Nacional, ataca metas renováveis em nome do custo da energia. Opor-se às renováveis virou marcador de pertencimento à direita global pós-Trump.

No Brasil, não. A direita parlamentar defende as renováveis. Não por convicção climática. Porque elas viraram, no Nordeste, uma indústria de centenas de milhões anuais em arrendamentos, dezenas de milhares de empregos diretos e indiretos, contratos bilionários com fornecedores, royalties municipais, financiamento do BNDES e do Banco do Nordeste. A base eleitoral nordestina do centrão depende dessa engrenagem. Atacar renovável no Brasil é atacar o próprio eleitorado.

O paradoxo que organiza o debate energético brasileiro não é direita contra esquerda. É interesse político regional contra necessidade operacional do sistema. O centrão, operador histórico do capital nacional, mudou de cor sem mudar de função. Segue mediando o orçamento federal, agora pintado de verde.

A defesa das térmicas como reserva aproximou o governo Lula de uma escolha já feita por vários governos europeus: manter fontes despacháveis para sustentar sistemas cada vez mais dependentes de solar e eólica. A diferença é o ambiente. Lá, imprensa, oposição e sociedade civil reconhecem a complexidade técnica. Aqui, ela é processada em chave moralista.

A homologação desta quinta passa a página da disputa imediata, mas não da disputa. A próxima rodada, dos produtos de 2027 e 2028, vai encontrar a mesma rede política intacta, com o mesmo vocabulário ideológico recauchutado. Capital antigo, travestido de verde.

Daniel Santos Garroux é advogado especialista em Direito Econômico, com foco em Direito do Consumidor e Direito Ambiental. É presidente do Instituto Brasileiro de Direito Econômico e Políticas Sociais (IBDeps).

Minha irmã não acreditou quando viu sua casa em foto de casal alemão- Paulo Reali Nunes - Casos do Acaso FSP

 Paulo Reali Nunes

Promotor de Justiça, mora em São Paulo

Sylvia foi morar na Alemanha no final dos anos 1960. Foi para uma temporada de dois anos, acompanhando o marido em uma pós-graduação, levando o filho de um ano e meio.

O marido só falava português. Sua primeira tarefa seria aprender a língua alemã, de modo que permitisse acompanhar as atividades do curso. Isso lhe custou alguns meses de imersão em alemão, de manhã à noite.

Sylvia era a retaguarda, cuidando do filho e do pequeno apartamento que lhes foi destinado.

Ela falava bem inglês, chegara a dar aulas na escola normal, mas de alemão não sabia patavina.

Lembremos, estou falando de 1968. O homem só iria à Lua no ano seguinte, e os alemães ainda curavam as feridas da guerra, terminada havia pouco mais de duas décadas. Na Alemanha, dividida pela Guerra Fria, só se falava alemão. Nem mesmo em inglês eles se comunicavam, ou porque não soubessem ou talvez porque não quisessem fazê-lo.

Com o filho de um ano e meio para cuidar, Sylvia não tinha como estudar alemão. Haveria de se virar como pudesse.

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Ainda nos primeiros dias, ela lutava para se fazer entender com a atendente de uma loja usando meia dúzia de palavras alemãs que já tinha aprendido, misturando inglês e, claro, deixando escapar diversas palavras em português. Sem sucesso, a balconista não entendia.

Atenta ao palavrório e à dificuldade, aproximou-se uma mulher bem mais velha. Em um português perfeito, apesar do sotaque carregadíssimo, perguntou se queria ajuda. Dá para imaginar o alívio com que o auxílio foi aceito.

Feita a intermediação, realizada a compra, puseram-se a conversar. A mulher —que vou chamar de Bertha porque não me acorre o nome verdadeiro— explicou que falava português porque havia morado no Brasil muito tempo antes. O marido era gerente de uma fábrica, e eles estavam na Alemanha para férias quando estourou a guerra de 1939. Ficaram retidos e nunca mais puderam voltar.

De São Paulo, disse Sylvia quando perguntada de onde era. Pois foi em São Paulo em que eles haviam morado, informou a outra, complementando que não na capital, mas em uma cidade pequena do interior chamada São Carlos.

Era demasiada coincidência: encontrar uma alemã que falava português, tinha morado no Brasil, na mesma cidade onde nasceu e viveu até o casamento, dois anos antes. Claro, a conversa se estendeu e, para abreviar, digo que ficou esclarecido que o marido tinha sido gerente da Lápis Johann Faber (hoje Faber-Castell), filial de empresa alemã, então a maior fábrica de lápis da América Latina —e orgulho de todos nós, são-carlenses.

A foto mostra uma máquina gigante com três esteiras de onde saem lápis de cor amarela para serem colocados em caixa. Há uma janela do lado esquerdo, por onde entra a luz do sol. Um funcionário está sentado junto à janela supervisionando o trabalho da máquina
Fábrica da Faber-Castell, em São Carlos (SP) - Fabiano Cerchiari - 25.jul.00/Folhapress

Tantas as coincidências, emoções seriam mesmo inevitáveis. Posso ver, como se lá estivesse presente, a emotiva Sylvia em lágrimas. E, ainda que os alemães sejam conhecidos por sua rigidez e contenção, Bertha também há de ter se emocionado. Tanto que, em uma atitude que fugia ao figurino, convidou a recém-conhecida para um jantar, queria que o marido os conhecesse.

Pois foi assim que, no dia tal, precisamente às tantas horas —obedecendo a ortodoxa praxe alemã—, os três aportaram nos Ascherfeld.

Não sei como se desenrolou o jantar, se a comida era boa ou mesmo se tomaram algum daqueles horríveis vinhos alemães. O que sei é que a conversa fluiu —em português. Após a aposentadoria, Helmut tornara-se tradutor oficial da língua portuguesa e a cultivava.

Entremeada de lembranças de São Carlos, de lugares e de pessoas que todos conheciam, cada um contou sua história. A dos Ascherfeld era um bocado triste. A guerra não apenas impediu o retorno ao Brasil, custou também a morte do filho, não me lembro se lutando ou vítima de bombardeio.

À sobremesa, Bertha resolveu mostrar-lhes o filho. De uma gaveta, tirou uma caixa com fotos, escolheu uma delas e o apontou, ainda criança, na varanda de uma casa. Ao apanhar a foto, Sylvia empalideceu e foi às lágrimas. Não acreditava naquilo que via. Conhecia bem aquela varanda. Era a varanda da casa de seus pais em São Carlos, onde viveu e cresceu. Os Ascherfeld haviam morado lá até 1939.

Se esse relato causou arrepios e lágrimas em todos os que o leram em carta enviada na ocasião, imagine-se o que deve ter acontecido naquela mesa de jantar. Ela viajou milhares de quilômetros e atravessou o Atlântico para encontrar em Murnau, uma pequena cidade alemã, aqueles que a antecederam na casa que o pai comprou em 1941, ano do seu nascimento —a casa que abrigou a família por décadas, até a morte da mãe.

Na foto, é possível ver a praça, com várias árvores altas fazendo sombra numa estrutura circular de concreto. No fundo, prédios altos do centro de São Carlos. Não aparecem pessoas na praça
Praça Coronel Salles no centro de São Carlos - Silva Junior - 03.mai.12/Folhapress

A suma é que essa coincidência e as emoções que desencadeou resultaram em uma grande amizade que facilitou muito a vida na Alemanha e se estendeu por muito tempo depois da volta ao Brasil. Os Ascherfeld se tornaram uma espécie de cônsules do círculo familiar e de amigos. Por muito tempo, quem ia à Europa dava um jeito de visitá-los, levando dicionários, livros e revistas em português para Helmut. Se bem me lembro, ele gostava bastante da revista Playboy.

Sylvia Helena Nunes Brighenti era minha irmã. Morreu em fevereiro de 2021. Salvo pela carta mencionada, não me consta que tenha escrito esta história. Eu a escrevi por ela.

​Para participar da série Casos do Acaso, o leitor deve enviar seu relato para o email casosdoacaso@grupofolha.com.br. Os textos devem ter, no máximo, 5.000 caracteres com espaços e precisam ser inéditos, não podem ter sido publicados em site, blog ou redes sociais. As histórias têm que ser reais e o autor não deve utilizar pseudônimo ou criar fatos ou personagens fictícios.