quarta-feira, 25 de março de 2026

Hipocrisia puritana contra a maconha, Mariliz Pereira Jorge, FSP

 Eu era adolescente e o Brasil ainda tateava sua saída da ditadura, quando um amigo foi em cana porque fumava um "beck" na rua. Tinha 16 anos. Desde então, sou favorável à legalização. Que risco a sociedade correria porque um moleque com espinha na cara queimava baseado, sossegado? Décadas depois, a cena se repete com João Gordo em Belo Horizonte, detido por portar um grama de maconha.

O episódio com o roqueiro de 62 anos é o sintoma de um país que se recusa a amadurecer. Um dos resquícios da ditadura, uma fixação pelo controle de comportamentos privados que não geram dano a terceiros. Enquanto o mercado americano fatura bilhões de dólares, cria tecnologias e gera empregos com essa indústria, o Brasil prefere o custo do policiamento inútil e do estigma.

João Gordo em entrevista ao programa de Pedro Bial na Globo em 2022 - 1º.jun.2022/Globo

Essa conversa não avança porque não há disposição para discutir prós e contras de uma legalização. A cegueira brasileira prefere endossar o discurso de "proteger nossas crianças do mundo das drogas", enquanto ignora perigos reais a que elas têm sido submetidas: o isolamento, a solidão, o buraco violento das redes sociais, o aliciamento dos red pills.

Numa entrevista recente, Scott Galloway, autor de "Notes of being a Man", diz que a pior coisa que pode acontecer entre jovens é o culto ao não consumo de álcool –um raciocínio ousado e polêmico, claro. Para o escritor, essa geração de solitários, antissociais, assexuados, que serão péssimos cidadãos, precisa sair, beber, socializar, fazer merda e aprender a se responsabilizar.

Minha geração fez isso com relativo sucesso; então, ouso dizer que vale também para a maconha, historicamente um lubrificante social, algo que se compartilha em roda. Por mais desafiador que seja ser pai e mãe hoje, talvez o mais sensato seja temer menos a rua e o convívio imperfeito do que o quarto fechado e o algoritmo.

Portanto, manter essa política de terror em relação ao porte de entorpecentes não é garantia de ordem nem de justiça; é hipocrisia puritana. É manter o Brasil em um eterno 1980, enquanto parte do mundo civilizado já entendeu que o perigo real está na falta de liberdade, de convívio humano, de relações saudáveis.

Já existem mais academias, spas e creches do que lojas nos EUA (deu no NYT) The News

 


 
ECONOMIA

Já existem mais academias, spas e creches do que lojas nos EUA 🏋🏻‍♂️

(Imagem: Erik Borzi | Reprodução)

Se você pensar em cultura americana, é possível que pense na cultura do consumo. Shoppings, lojas, outlets… Pela primeira vez na história dos EUA, existem mais academias, salões de beleza, creches e spas do que lojas de produtos.

Sendo mais específicos no dado: Há mais espaço comercial sendo alugados por estabelecimentos focados em serviços do que espaço comercial alugado por estabelecimento focado em mercadorias.

Por que importa? Isso revela (i) o aumento de uma tendência no interesse de onde as pessoas têm gastado o dinheiro delas e (ii) uma mudança estrutural para o setor comercial imobiliário. Em números:

  • Pouco mais de 50% de todos os novos contratos de aluguel em centros comerciais de vizinhança agora são assinados por prestadores de serviços.

  • A taxa de disponibilidade para espaços no varejo cair para o nível mais baixo em 20 anos (4,1%).

  • Enquanto o valor de prédios de escritórios caiu cerca de 35% desde 2022, as propriedades de varejo voltadas para serviços subiram 12% no mesmo período.

  • O aluguel médio para esses espaços subiu 5,4% no último ano, acima da inflação, indicando a alta demanda.

O movimento tem impactado na estratégia do setor. Proprietários de shoppings e centros comerciais estão substituindo lojas de roupas e eletrônicos — que sofrem com o e-commerce — por clínicas médicas, academias e estúdios de pilates.

Pense que, para um centro comercial, ter uma academia ou um spa faz sentido, uma vez que eles geram tráfego recorrente de pessoas. É só pensar quantas vezes você vai a uma academia e quantas vezes você vai a uma loja de roupa.

Bottom-line: O mercado de bem-estar está em rápida expansão nos EUA, totalizando US$ 2,1 trilhões em 2024.

Penduricalhos são legais, como era legal a prebenda do século 19, Elio Gaspari, FSP

 Com a palavra o príncipe de Salinas, aristocrata siciliano, personagem de "O Leopardo", genial romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: "Tudo isso não deveria poder durar; mas vai durar, sempre; o sempre humano, é claro, um século, dois séculos...; e depois será diferente, porém pior".

Em 2026 sabe-se que 6 dos 10 ministros do Supremo Tribunal Federal receberam da Viúva valores superiores ao teto (o salário deles, R$ 46.366,19). São os conhecidos penduricalhos, todos legais.

Ministros do Supremo Tribunal Federal em pé ao redor do plenário, com parede de fundo em relevo e crucifixo central. Ambiente amplo com iluminação no teto e bandeira do Brasil à esquerda.
Ministros do STF durante a sessão de abertura do ano judiciário - Antonio Augusto - 2.fev.26/Divulgação STF

O ministro Flávio Dinoque pretende limitar essas prebendas, em dezembro de 2024, quando já estava no STF, recebeu cerca de R$ 30 mil líquidos. Era produto de um penduricalho de verbas retroativas referentes a direitos não usufruídos enquanto ainda era juiz federal, como férias e folgas —além do salário. Naquele mês o doutor recebeu R$ 55 mil líquidos. Em dezembro de 2020, ao tempo em que ele era governador do Maranhão, por conta de direitos retroativos, Dino recebeu R$ 106 mil líquidos.

reportagem de Luany Galdeano, Arthur Guimarães de Oliveira e Idiana Tomazelli mostrou que outros cinco ministros do Supremo foram beneficiados por prebendas semelhantes e, desde 2019, essa bancada recebeu R$ 2,8 milhões em valores correntes: Alexandre de Moraes (mais de R$ 1 milhão), Gilmar Mendes (R$ 880 mil desde 2019), Kassio Nunes Marques (R$ 277 mil), André Mendonça (R$ 491 mil). Não há registro de pagamentos para os ministros Edson Fachin, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin, advogado de banca privada.

Vale repetir, todos esses penduricalhos eram legais, como era legal a prebenda do século 19. Naquele século a elite de Pindorama, na qual estiveram pelo menos dois magistrados do Supremo Tribunal de Justiça (o STF do Império), aninhava-se na prebenda dos negros livres.

Explicando: desde 1831 a lei dizia que seriam livres todos os negros trazidos da África e capturados em Pindorama. Eles devem ter sido uns 10 mil, enquanto o contrabando trouxe cerca de meio milhão de escravizados. Os negros tornavam-se escravos da Coroa e alguém teve a ideia de privatizá-los. A Coroa os mandava para cidadãos ilustres (inclusive jornalistas). O concessionário pagava uma taxa anual que podia ser amortizada alugando o negro por um mês.

Um negro privatizado era vantajoso, porque enquanto um fazendeiro perdia seu capital quando ele morresse, com a privataria bastava requerer outro.

A professora Beatriz Gallotti Mamigonian listou 570 beneficiados pela prebenda. Ali há de tudo, do genro e da neta de José Bonifácio a três ilustres Lima e Silva, um tio, o pai barão e seu filho, então Marquês de Caxias. Há lotes de barões, viscondes e marqueses. Mais alguns desembargadores e os ministros do STJ Francisco José Alves Carneiro e José Paulo de Figueirôa Nabuco de Araújo.

Nessa boquinha entraram uns dez jornalistas, inclusive o maior deles, Justiniano José da Rocha. O Marquês de Paraná, um dos maiores políticos do Império, e sua mulher receberam 21 negros.

A prebenda foi extinta, vieram a Abolição e as Repúblicas. Tudo aquilo não deveria poder durar; mas durou o sempre humano, um século, dois séculos.