sexta-feira, 10 de julho de 2026

STF deveria ler Maquiavel, Hélio Schwartsman, FSP

 São Paulo

A grande sacada de Nicolau Maquiavel foi ter separado a política da moral, o que lhe deu liberdade para analisar as relações de poder como elas são e não como gostaríamos que fossem. Não é uma coincidência que ele seja considerado o fundador da ciência política.

Está faltando ao STF ler um pouco de Maquiavel. Se os ministros da corte querem deixar para trás a crise de credibilidade em que se meteram, muito por causa do escândalo do Master, estão fazendo tudo errado.

Seis homens de terno sentados ao redor de uma mesa de reunião, cada um segurando um celular e enviando mensagens de texto com 'Bom dia' acompanhadas de emojis de sol e coração.
Charge de João Montanaro publicada na página A2 do jornal Folha de S.Paulo, em 9 de março de 2026, retrata ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) sentados em silêncio durante reunião, enquanto trocam entre si mensagens de "bom dia" com emojis pelo celular. - João Montanaro/Folhapress

Apesar de poderosas forças em contrário, as apurações da PF sobre as transgressões de Daniel Vorcaro estão avançando. Já são formalmente investigados Ciro Nogueira, Jaques Wagner e Claudio Castro. O "irmão" Flávio Bolsonaro poderá em breve integrar a lista. A PGR pediu para que ele seja incluído entre os investigados. Relatórios da PF também mencionam Hugo Motta, Michel Temer, Guido Mantega e ACM Neto, para citar só alguns dos mais ilustres. Não será uma surpresa se o ministro relator do caso no STF, André Mendonça, em algum momento autorizar diligências contra eles.

Os notórios ausentes são Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que também figuram em posição não exatamente enaltecedora em relatórios da PF, mas que já foram de algum modo previamente exculpados pela PGR, que recusou representações questionando o papel desses magistrados.

Ora, se o núcleo do Judiciário quer de fato superar a crise de credibilidade, deveria ter posto os ministros sob investigação para depois inocentá-los. Ao conceder um amplo habeas corpus preventivo só alimentou as dúvidas. Minha impressão é que os ministros do STF cultivam uma imagem tão elevada de si mesmos que não admitem nem a possibilidade de ser investigados, mesmo que esse seja o melhor remédio para a situação.

O adjetivo "maquiavélico" é injusto para com o pensador florentino. Refletir sob o prisma do realismo político não nos torna necessariamente seres amorais. Deixar-se levar por raciocínios moralizantes e outras formas de militância é que nos leva a não entender o mundo.


Jessika Moreira - O Brasil buscado pelo STF nem Deus explica, FSP

 Jessika Moreira

Especialista em gestão pública e inovação no serviço público, é diretora-executiva do Movimento Pessoas à Frente

Nos últimos dias, os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) decidiram pela ampliação do pagamento de penduricalhos aos magistrados e, de quebra, reafirmaram um limite de 35% adicional ao teto para o pagamento das chamadas verbas indenizatórias. Mais uma vez, uma instância de poder desafia a memória do país.

Estamos diante de interesses cada vez mais dissociados do bem comum. Foi essa a percepção ao acompanhar o que se tornou a promessa de 25 de março, quando o STF fixou uma tese que parecia, finalmente, começar a devolver sentido ao teto constitucional. Proibiu diversos penduricalhos, impôs limites e vedou a transformação de algumas licenças em dinheiro. Era insuficiente, mas houve algum tipo de avanço.

O cartum mostra uma cena na Praça dos Três Poderes, em Brasília.  Ao fundo aparece o Congresso Nacional, desenhado de forma limpa e monumental, enquanto, acima dele, o céu está tomado por objetos voadores inusitados: jatinhos, pizzas e mamadeiras, que carregam os rótulos “Penduricalhos” e “Emendas”. Dois cachorros observam a cena. Um deles, um vira-lata, está no teto do Palácio do Planalto. Ele comenta: “Tráfego intenso no céu de Brasília!” Um outro, um cão salsicha, está no teto do Supremo Tribunal Federal, tendo na frente a Estátua da Justiça. Ele exclama: “E só aumenta!”
Praça dos Três Poderes - Cláudio de Oliveira /Cláudio/Folhapress

O que não imaginávamos era a velocidade do recuo. Em abril, os conselhos que deveriam fazer cumprir a decisão editaram uma resolução que fez o contrário: tentaram trazer de volta o auxílio-moradia, que o STF havia sepultado, e inventaram uma gratificação de primeira infância que nenhuma lei previa.

Em junho, o próprio Supremo, ao julgar os recursos contra si mesmo, desfez parte do que havia construído. Liberou a conversão de férias e plantões em dinheiro e reabriu o cofre dos retroativos, somando esses retrocessos à volta do adicional por tempo de serviço.

Outro absurdo na recente decisão do STF é a manutenção do pagamento do adicional por tempo de serviço com pagamento fixado em 5% a cada cinco anos de atividade, limitado a outros 35% além do teto. Além da manutenção do pagamento em si, a corte decidiu que o benefício vale de forma imediata e automática, sem a necessidade de requerimento, e se aplica também a inativos e pensionistas, o que torna a decisão ainda mais onerosa aos cofres públicos.

Os números sustentam a indignação. O Brasil gastou cerca de R$ 20 bilhões acima do teto em um único ano. Os brasileiros (93%) são contra servidores públicos receberem acima do teto constitucional e defendem (83%) o fim dos supersalários com uma regulamentação que resgate a autoridade do limite remuneratório determinado na Constituição Federal. Esses dados são a prova de que não estamos sozinhos. E também de que a saída não virá dos céus.


Não perdemos o argumento, os dados nem o apoio popular. Perdemos, porém, para a falta de bom senso de quem encontra sempre uma nova forma de se beneficiar, chamando de indenização aquilo que é salário, de direito adquirido aquilo que é privilégio renovado.

Não vamos apelar a Deus, mas à persistência de quem ainda acredita no Brasil. Vamos continuar documentando cada manobra, defendendo cada proposta e cobrando, com nomes e datas, cada autoridade que confunde o cargo que ocupa com o benefício que tira dele. A indignação cansa, é verdade, mas também fortalece quem já entendeu que a luta será longa e, mesmo assim, decidiu continuar nela.

O teto constitucional precisa ser cumprido, e isso não vai acontecer por intervenção divina. As regras, ao contrário das preces, não dependem de fé, mas de decisão humana bem-intencionada e de vontade real de fazê-las valer.

Janela de Overton se fechou: Leitora reflete sobre percepção do que é aceitável -FSP

 Christiane Disconsi

Uma pesquisa Datafolha de abril indicava que a avaliação negativa do governo Lula (PT) chegou a 40%, enquanto a positiva recuou para 29%. Assim como outros eventos, essa queda de popularidade não pode ser simplificada por um único fator. No entanto, há um conceito que ajuda a entender esse movimento: a Janela de Overton.

Criado nos anos 1990 pelo analista político Joseph Overton, esse conceito considera que existe um limite para o que é socialmente aceitável, uma régua que vai do impensável ao popular. O ponto central está na volatilidade dessa movimentação: ideias antes aceitáveis podem, com o tempo, passar a ser vistas como radicais. O contrário também ocorre.

A agenda woke é um exemplo claro desse deslocamento. O movimento ganhou força nos Estados Unidos a partir dos anos 2010, especialmente com marcos como o Black Lives Matter, e rapidamente se expandiu. O que começou como uma pauta de consciência racial passou a incorporar temas como diversidade, equidade, inclusão, gênero e justiça social.

No auge, essa agenda ultrapassou o campo político e chegou ao ambiente corporativo. Empresas passaram a adotar metas de diversidade e critérios de ESG, vinculando essas pautas à reputação e ao desempenho. O que era considerado radical tornou-se sensato e, em muitos casos, desejado.

Com o tempo, a intensificação da militância e a polarização geraram uma percepção de imposição dessas agendas. O que havia se consolidado como consenso passou a ser tensionado. Esse movimento se tornou mais evidente no cenário político americano recente, com a volta de Donald Trump ao poder em 2024. Isso não é apenas um evento eleitoral, mas um sinal de mudança no ambiente de aceitabilidade.

Homem de cabelos grisalhos, vestido com terno azul escuro, camisa branca e gravata amarela, está em pé atrás de um púlpito com microfone, olhando para a frente em ambiente escuro.
Presidente dos EUA Donald Trump fala com a imprensa em evento da Otan - SAUL LOEB/AFP

A reviravolta reverberou na América Latina, com Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast no Chile e Daniel Noboa no Equador, além de lideranças alinhadas, como Santiago Peña no Paraguai. Soma-se a isso a queda de Nicolás Maduro, em um cenário de ruptura.

No Brasil, assim como nos Estados Unidos, inflação, custo de vida, insegurança e frustração com resultados econômicos passaram a dominar o debate. O eleitor deixou de responder prioritariamente a narrativas simbólicas e passou a exigir entregas tangíveis, como encher o carrinho no supermercado.

Esse deslocamento cria espaço para discursos mais conservadores, não necessariamente por adesão ideológica, mas por percepção de eficácia. E, às vésperas da corrida eleitoral, o que se observa é o fechamento da janela woke e o deslocamento do eixo do debate. Isso não significa que essas pautas desapareceram. Significa que perderam centralidade.

Esse reposicionamento em escala global ocorre diante de uma classe média pressionada por impostos, juros altos e perda de poder de compra. E, apesar de parecer regressão sair do campo filosófico para o prático, isso apenas revela o que ficou evidente: faltou o básico. E, quando falta o básico, a régua se move. O que era aceitável passa a ser visto como excesso, e o essencial volta ao centro.

A janela não se fechou por acaso, mas porque, sem entrega, nenhuma agenda se sustenta. Acordamos da ilusão de justiça social, quando a realidade entrou pela janela, reposicionando o conceito. A justiça social deixa de ser ideologia e volta a ser o básico. Renda, segurança e comida na mesa.


Christiane Disconsi é jornalista e cientista política. Ela escreve de Praia Grande (SP).

O blog Praça do Leitor é espaço colaborativo em que leitores do jornal podem publicar suas próprias produções. Para submeter materiais, envie uma mensagem para leitor@grupofolha.com.br