domingo, 30 de agosto de 2026

Precisamos nos arriscar mais na ciência', diz Hugo Aguilaniu, que se prepara para deixar o Serrapilheira- FSP

 Ana Bottallo

São Paulo

A ciência brasileira ainda se arrisca pouco. Não porque os pesquisadores brasileiros não saibam formular perguntas de risco, mas porque as agências de fomento —sejam públicas ou privadas— ainda não aprenderam a avaliar projetos com capacidade de fracasso.

A análise é do geneticista francês Hugo Aguilaniu, 50, que deixará a direção-executiva do Serrapilheira no fim deste ano. Ele está há quase dez anos à frente do instituto, a primeira instituição privada formada no país especificamente para financiar ciência fundamental. Seu sucessor será escolhido por meio de uma chamada pública, com inscrições abertas até 4 de setembro.

"Acredito que hoje, no Brasil e no [resto do] mundo de maneira geral, não sabemos avaliar o risco. Sabemos que muitas vezes o projeto vai fracassar e, de vez em quando, vai levar a uma descoberta totalmente incrível. Como avaliar esse risco é a questão", diz ele.

Homem de meia-idade com cabelos castanhos escuros e óculos de armação preta está encostado em uma parede de vidro com persiana, olhando para frente com expressão neutra. Ele veste camisa azul escura e o fundo é desfocado.
O geneticista Hugo Aguilaniu, 50, diretor-executivo do Serrapilheira, na sede do Serrapilheira, no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli/Folhapress

O ex-pesquisador do CNRS (agência de ciência francesa) assumiu a direção do Serrapilheira em 2017, visando um modelo de fomento à pesquisa distinto daquele adotado tradicionalmente em agências.

Com financiamento flexível, o instituto se dedica sobretudo aos jovens pesquisadores e à redução dos entraves burocráticos. Desde seu surgimento, em março daquele ano, houve apoio a 297 projetos de ciências nas áreas da vida, exatas, engenharia e computação.

O Serrapilheira diz ter investido R$ 130 milhões em 453 projetos de ciência e divulgação científica, com a formação de cerca de 180 estudantes. Além disso, afirma que destinou em torno de R$ 30 milhões a ações de diversidade, com editais para grupos considerados invisibilizados e inclusão nas equipes apoiadas. Os dados são de julho deste ano.

Aguilaniu considera que um dos principais desafios continua ser encontrar pesquisas verdadeiramente arriscadas. "O nosso fracasso é quando um pesquisador submete para o nosso apoio um projeto igualzinho ao que mandaria à Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo] ou ao CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. Ele vai ter uma produção científica robusta, mas não tem o risco."

A avaliação de que a filantropia permite à ciência produzir pesquisas mais arrojadas e com alto risco é também de Guilherme Ary Plonski, professor do Instituto de Estudos Avançados da USP.

"Não é uma ideia de substituir o setor público, mas sim de complementar com o financiamento à pesquisa de risco, menos sujeita a regras que são normais quando os recursos vêm do setor público", avalia o docente, coordenador do Gema (Grupo de Estudos de Modelos de Apoio à Ciência), que estuda filantropia na ciência.

Com orçamento anual de R$ 30 milhões, o Serrapilheira precisou conquistar a confiança de pesquisadores pouco acostumados ao investimento privado.

Enquanto a filantropia nacional antes se concentrava em doações a universidades, o Serrapilheira abriu uma linha de fomento privado à ciência, diz Plonski. "Olhando o ecossistema [de filantropia], o Serrapilheira é de fato pioneiro."

Segundo Aguilaniu, o instituto buscou "provocar" políticas integrativas, como cotas na pós-graduação, com formação de jovens pesquisadores negros, indígenas e periféricos. "Nós produzimos formações focalizadas e demos liberdade. Isto fez com que muitos saíssem pensando em ideias que tradicionalmente em um laboratório talvez não seguissem", diz ele sobre a chamada para pós-doutorandos negros e indígenas.

Pessoa sentada em mesa de madeira em escritório com estantes cheias de livros e objetos. Parede de vidro ao fundo com anotações escritas em marcador azul. Iluminação quente de luminária pendente sobre a mesa.
Aguilaniu tem graduação em agronomia na França, doutorado na Suécia e pós-doutorado nos EUA - Eduardo Anizelli/Folhapress

Um dos pontos centrais, que ele próprio criticava nos modelos de fomento tradicionais, era o tempo e a energia gastos por pesquisadores com importações de insumos, prestações de contas e outras atividades administrativas. "Nós sabemos centavo por centavo onde o nosso dinheiro foi gasto, mas deixamos na mão dos pesquisadores decidirem. Se ele avalia que um modelo de computador é melhor para ele, não precisa mostrar que é o mais barato, simplesmente damos o dinheiro para a compra. Nunca nos passaram a perna."

O geneticista deixará o Serrapilheira para assumir a liderança do Instituto Relva, criado a partir de um projeto-piloto da própria organização. Diferentemente do "irmão" mais velho, o Relva não será uma agência de fomento, mas um centro dedicado a produzir pesquisa na área ambiental e a aproximar o conhecimento científico das políticas públicas. A ideia é que as equipes investigem problemas ambientais para propor soluções a gestores.

Como legado, Aguilaniu destaca o papel do Serrapilheira na ciência e divulgação científica e espera continuar apoiando pesquisadores e mídia na produção de dados. "Entendo que não necessariamente o cientista tem que fazer a divulgação por conta própria —tem cientistas que têm vocação para isso e outros não, e está tudo bem. Mas uma divulgação científica bem feita demanda bastante esforço."


Metrô de São Paulo aposenta de vez bilhete magnético após mais de 50 anos -FSP

  

São Paulo

Em setembro de 1974, paulistanos curiosos com o revolucionário transporte público a ser inaugurado no dia 14 daquele mês, tinham a oportunidade de conhecer o metrô. Para circular pelas estações, porém, precisavam passar um cartão magnético pelas catracas, mesmo sem cobrança de tarifa pelo fato de aquela ser uma fase de "treinamento para a população", como rotulado na época.

Esses bilhetes em papel-cartão gratuitos foram substituídos pelos pagos quando os trens começaram a rodar de verdade —o modelo marrom, de 1974, tinha a singela mensagem "economize gasolina". Ao longo do tempo vieram cerca de três dezenas de outros, mas agora acabou. A partir de novembro, não passarão mais pelas poucas catracas que ainda os aceitam.

O Edmonson, como esses cartões magnéticos são chamados —em homenagem ao sistema criado pelo inglês Thomas Edmondson no século 19— finalmente vai se aposentar.

Dois homens seguram bilhetes antigos do metrô de São Paulo em foco próximo. O homem à esquerda segura um bilhete amarelo com o logo do metrô e a letra 'S'. O homem à direita segura um bilhete cinza com o logo do metrô, a palavra 'METRO SP' e um desenho de trem.
Anisio Oliveira Silva e Fábio Siqueira Neto, funcionários do Metrô, mostram bilhetes magnéticos antigos: o primeiro comercial a ser usado, de 1974 (à esq), e o de integração com trens da Fepasa, de 1986; sistema não será mais aceito nas catracas de embarque - Eduardo Knapp/Folhapress

Segundo o Metrô, em julho passado foi estipulado internamente um prazo de 90 dias, que vence em 31 de outubro, para os passageiros que ainda contam com eles usarem os bilhetes.

Depois disso, os usuários ainda poderão trocar os remanescentes até janeiro de 2027 em postos de atendimento específicos que serão definidos.

Os bilhetes magnéticos estavam praticamente aposentados desde 2021, quando deixaram de ser fabricados com a implantação de tecnologias digitais, como leitura de QR code. Mas em março do ano passado, funcionários da companhia estatal acharam um lote com oito milhões de unidades, que acabou colocado à venda.

Esse estoque deixou praticamente de circular em junho passado, diz Anísio Oliveira Silva, 67, coordenador de Arrecadação e Comercialização do Metrô.

Segundo ele, 6,5 milhões desses bilhetes entraram no sistema. Os outros 1,5 milhão podem ter ficado com pessoas que guardaram os objetos como recordação e que se ainda quiserem usar, terão de correr contra o tempo.

Esses milhões de cartões estão sendo fragmentados em uma máquina no pátio do Metrô em Itaquera, na zona leste de São Paulo —nesta quinta-feira (27), quando a reportagem esteve ao local, havia ao menos uma tonelada desses papéis picados prontos para serem enviados à reciclagem.

Ficaram algumas poucas unidades para preservação. Anísio começou a trabalhar no metrô há 44 anos justamente na bilheteria, ou seja, vendia os cartões, onde ficou por dois anos. Hoje ele é responsável por manter um acervo. Todos os modelos, desde os de treinamento até o último tipo a ser confeccionado em 2007 (e que continuou sem mudanças até 2021), estão guardados em pastas catalogadas por ele.

"Isso aqui é um passo a passo da vida do metrô", diz o funcionário, que conhece como poucos a história da evolução desses bilhetes magnéticos.

Lembra, por exemplo, quando a companhia encomendou para o fornecedor argentino, que havia ganhado a concorrência para confecção dos bilhetes, um lote comemorativo aos 30 anos de circulação dos trens, em 2004. No caminho do aeroporto até a sede da empresa no centro de São Paulo, a carga foi roubada e nunca chegou às mãos dos passageiros.

Cada vez mais raros, os Edmonson são bens colecionáveis e valiosos. Em um site de venda pela internet, um dos modelos de testes de 1974 é comercializado por R$ 250.

Uma unidade desse bilhete e do primeiro comercial, além de outros históricos, está em um quadro na sala do Fábio Siqueira Neto, 54, diretor de operações do Metrô.

O material pendurado na parede é do acervo pessoal do executivo, funcionário da empresa há 35 anos e que afirma ter como primeira memória de criança quando foi levado pelo pai para uma viagem na fase de testes do metrô.

Ele não revela o tamanho da sua coleção. Ela é formada por bilhetes usados ou que apresentaram defeitos. Há também alguns especiais que afirma ter comprado, como o da edição comemorativa pelos 450 anos da cidade de São Paulo, de 2004.

"Os bilhetes foram como eu entendi que conseguiria guardar a cronologia do metrô."

Segundo dados do Metrô, desde o início da operação comercial até julho passado, foram utilizados 13.759.071.500 bilhetes Edmonson. Enfileirados, chegariam a quase 900 mil km e poderiam dar aproximadamente 22 voltas na Terra, conforme cálculos feitos a partir de inteligência artificial.

EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA

Tanto os primeiros equipamentos de leitura quanto os próprios bilhetes magnéticos dos anos iniciais foram importados da França.Houve nacionalização do processo, com produção na Casa da Moeda, e a fase dos fabricados na Argentina.

A logística ia muito além daquele pequeno pedaço de papel com 6,5 cm de comprimento e 3 cm de largura. Fora a produção, havia gastos com transporte, armazenamento seguro —há um cofre com grades nas paredes internas em Itaquera—, distribuição às estações e reposição constante dos estoques.

Só na fragmentação, o processo diário chegou a envolver cinco pessoas. Tudo isso passou a ser substituído com a implantação do Bilhete Único —cartão de leitura eletrônica com armazenamento de créditos —em meados dos anos 2000.

Bem diferente do início. Numa época em que não se sonhava com internet, todo o processamento de dados era feito por um único computador central, que precisaria ler e ter capacidade de aprovar simultaneamente a passagem de bilhetes por 340 catracas da linha 1-azul, a primeira do metrô paulistano. "Era um negócio extraordinário para a época", diz Siqueira.

Hoje, passageiros podem encostar seus telefones celulares ou relógios inteligentes para fazer o pagamento da passagem direto nas mesmas catracas que deixarão de receber os bilhetes com seus mais de 50 anos de história gravados em tarjas magnéticas.

Diretor de órgão da Prefeitura de SP relatou ameaça de empresa desclassificada de licitação da iluminação, FSP

 

São Paulo

O diretor da SP Regula, João Manoel da Costa Neto, disse em uma reunião no início do ano que se sentiu ameaçado com o teor de uma carta que recebeu da Walks, consórcio desclassificado da bilionária licitação da iluminação pública na capital paulista.

A SP Regula, que fiscaliza as concessões na gestão do prefeiro da capital, Ricardo Nunes (MDB), manteve como parceira pelo serviço o consórcio Ilumina SP, que venceu o certame em 2018 por aproximadamente R$ 6,9 bilhões.

A Walks tenta suspender o processo após obter uma decisão transitada em julgado, em dezembro de 2024, pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

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Vista da região do elevado presidente João Goulart, o Minhocão, no centro de São Paulo, com parte da iluminação apagada - Ronny Santos - 27.mai.22/Folhapress

A ameaça foi relatada por Costa Neto em uma reunião com procuradores do município e representantes da Walks realizada em janeiro. No encontro, o diretor da SP Regula fez menção ao texto da carta, enviada em dezembro de 2025 para ele e para o gabinete de Nunes, dizendo que continha acusações e ameaças na tentativa de influenciar o certame.

Segundo a ata da reunião, obtida pelo Painel, Costa Neto "ressaltou ter ficado profundamente inconformado com o recebimento da carta".

O diretor afirmou ainda, diz a ata, que "ao longo de toda a sua carreira pública, jamais vivenciou situação semelhante, especialmente no que se refere a ameaças dirigidas a agentes públicos no exercício regular de suas atribuições".

Costa Neto também afirmou na reunião "que eventual intento de coação não produzirá qualquer efeito, tendo toda a equipe da SP-Regula recebido a carta como manifestação de absoluto desrespeito institucional".

Na carta, os representantes da Walks escreveram que "a persistência do atual quadro [manutenção da Ilumina SP como concessionária] tornará inevitável a adoção de todas as medidas judiciais cabíveis, inclusive aquelas destinadas à responsabilização pessoal dos agentes públicos que, por ação ou omissão, contribuírem para exposição indevida do ente público a prejuízos evitáveis".

Na reunião, Sérgio Gonçalves, presidente da Walks, negou a intenção de ameaça e atribuiu o tom à falta de respostas ao pedido de reuniões com a gestão Nunes.

O empresário questionou Costa Neto se não causava indignação a prefeitura gastar, por mês, R$ 10 milhões a mais por ter escolhido a Ilumina SP, vencedora da licitação.

Advogado da Walks e um dos autores da carta, Gustavo Ungaro afirmou que não houve ameaça e que Costa Neto foi apenas formalmente instado a cumprir a decisão judicial transitada em julgado.

A prefeitura afirmou, em nota, que a carta foi levada ao conhecimento de sua diretoria e, após análise, arquivada. "Em relação à manifestação da presidência da SP Regula, ela consta na ata mencionada pela reportagem", diz a nota.

Como o Painel mostrou nesta quarta, houve um mal-estar na prefeitura após o vice de Nunes, o coronel Ricardo Mello Araújo, ter recebido Ungaro.

No dia seguinte, Araújo interpelou Costa Neto e o próprio prefeito, questionando por que a prefeitura não havia cumprido a decisão do STF.