domingo, 19 de julho de 2026

Quem paga a conta do futuro? Candido Bracher - FSP

 "É preciso fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo."

Eu nem sequer chegara à adolescência quando ouvi minha mãe, indignada, repetir ironicamente a frase e criticar o seu autor, o então todo-poderoso ministro Delfim Netto.

Aos meus ouvidos infantis a ideia fazia sentido, mas minha mãe sempre tinha uma forma didática de explicar-me suas afirmações. Primeiro me disse que o "bolo" era apenas uma imagem para representar toda a economia, tudo o que se produzia. Em seguida afirmou que era injusta, porque a experiência demonstrava que o crescimento do bolo não beneficiaria aqueles que deveriam renunciar à sua fatia imediatamente, justamente os mais necessitados.

Ilustração mostra duas mãos em fundo vermelho pontilhado. A mão esquerda segura uma moeda laranja redonda, enquanto a mão direita exibe uma moeda laranja em formato de cruz tridimensional.
Ilustração para coluna de Candido Bracher - Luciano Salles/Folhapress

A desastrada frase, em que pese seu caráter caricatural, continua representado de uma forma esquemática a diferença do pensamento econômico entre conservadores e progressistas. Enquanto os primeiros dão prioridade ao equilíbrio das contas públicas, considerando-o requisito indispensável para o crescimento sustentável, os segundos privilegiam a expansão do consumo por meio da ampliação dos gastos do Estado, como forma de aceleração do desenvolvimento econômico.

Em linha com essa ideia, encontrei recentemente em "Kolkhoze", de Emmanuel Carrère, uma bela citação da escritora francesa Françoise Sagan: "A diferença entre a esquerda e a direita é que, enquanto a direita diz: ‘Há injustiça, e ela é inevitável’, a esquerda diz: ‘Há injustiça, e ela é insuportável’". A distância entre os graus de tolerância à iniquidade social explicaria o imediatismo das propostas econômicas dos progressistas em oposição ao gradualismo dos conservadores.

Sempre imaginei que essa diferença de atitude diante da desigualdade também explicasse a distinta relação que conservadores e progressistas parecem manter com o tempo; os primeiros mais dispostos a aceitar sacrifícios presentes em nome de benefícios futuros, e os segundos mais preocupados com benefícios imediatos. Os acontecimentos das últimas semanas, tendo por pano de fundo as ondas de calor na Europa, fizeram-me rever essa interpretação.

Este foi o mês de junho mais quente já vivido pela Europa em qualquer época; a temperatura média foi de inacreditáveis 3,06ºC superior à média de 1991 a 2020. A França viveu em junho os seus três dias mais quentes de todos os tempos. Neste início de julho, a Europa enfrenta sua terceira onda de calor em seis semanas, com temperaturas voltando aos 40ºC na França e na Espanha.

Também na França e na Espanha, a seca generalizada transforma pequenos focos de fogo acidentais em grandes incêndios descontrolados. No início de julho, as áreas afetadas por incêndios já eram três vezes superiores à média histórica na Espanha e quatro vezes na França. Enquanto escrevo, os jornais noticiam 23 desaparecidos e 13 mortos em um incêndio ainda fora de controle na Andaluzia.

A World Weather Attribution (WWA), consórcio de cientistas especializado em estudos que atribuem eventos climáticos extremos a suas causas, foi categórica ao afirmar que essas ondas de calor seriam praticamente impossíveis sem a mudança climática provocada pela ação humana.

E como reagiram os políticos conservadores a fatos que confirmam de forma tão "candente" a realidade do aquecimento global, que desde sempre procuram minimizar e a cujos esforços de superação têm se oposto sistematicamente?

A resposta, a meu ver, é clara: por meio de uma estratégia de fuga para a frente; "a melhor defesa é o ataque". Tomarei o exemplo da França, que, embora mais explícito, não difere fundamentalmente do que se verificou na Alemanha ou na Inglaterra.

Diante do fenômeno da "canícula", partidos de direita radical que sistematicamente defenderam o corte de políticas de descarbonização procuraram auferir ganhos eleitorais acusando o governo de falhar em tornar o país mais resistente às ondas de calor. Marine Le Pen, candidata à Presidência pelo Rassemblement National (RN) —partido de direita radical—, prometeu implementar um amplo plano de instalação de ar-condicionado, começando pela população mais vulnerável.

Há razoável concordância quanto à necessidade de prover ar-condicionado em hospitais, escolas e asilos; a discórdia se situa na questão de adotar o equipamento como solução generalizada para combater a elevação da temperatura.

O que chamou a minha atenção na postura conservadora nesse conflito é que esta se limita a propor medidas de adaptação às consequências do aquecimento global, enquanto obstrui, ou quando muito silencia, as medidas de mitigação, aquelas que atuam sobre as causas do problema.

À primeira vista, os investimentos em mitigação lembram a lógica do "bolo do Delfim Netto"; exigem sacrifícios presentes para produzir benefícios futuros. A analogia, entretanto, é imperfeita. O ponto decisivo, como veremos, não é o tempo, mas quem suporta esses sacrifícios.

Aqui eu retorno à questão para a qual eu tive minha curiosidade despertada: por que, na questão do aquecimento global, os papéis parecem se inverter, com os conservadores privilegiando medidas de adaptação, cujos efeitos são imediatos, em detrimento de políticas de mitigação que garantam a estabilidade a longo prazo, enquanto a esquerda, mais contida nas medidas imediatistas, concentra seus esforços nas medidas de descarbonização, que visam à solução definitiva do problema a longo prazo?

Minha hipótese é que a resposta não diz respeito ao horizonte temporal das medidas —imediatistas ou de longo prazo—, mas sim a quem arca com os ônus de sua implementação. Na economia, o ônus da contenção fiscal afeta mais diretamente os mais pobres, daí a resistência da esquerda.

Já no clima, o ônus da descarbonização é concentrado em poucos setores —especialmente o de combustíveis fósseis— com alto poder de influência na economia, o que lhes garante a proteção da direita. A esquerda, por sua vez, tende a apoiar a medida, por seus benefícios difusos, que favorecem toda a sociedade, inclusive as gerações futuras.

Se essa hipótese estiver correta, a inversão de papéis é apenas aparente; esquerda e direita se mantêm coerentes na defesa de interesses distintos. O verdadeiro desafio das democracias contemporâneas talvez não seja a escolha entre o presente e o futuro, mas sim decidir quem pagará a conta do futuro.


Boné de Trump pode custar caro a Tarcísio - Elio Gaspari, FSP

 Com 16 pontos de vantagem sobre Fernando Haddad na disputa pelo governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas sofreu o seu primeiro contratempo. Ele terá tempo até outubro para explicar o vídeo de janeiro de 2025 no qual aparece usando um boné da campanha de Donald Trump com a sigla Maga (Make America Great Again).

Um homem está olhando para a câmera, usando um boné vermelho com a frase 'MAKE AMERICA GREAT AGAIN' em letras brancas. Ele tem cabelo curto e uma expressão neutra. O fundo é claro, possivelmente uma parede branca.
Tarcísio de Freitas com boné MAGA (Make América Great Again) em apoio a Donald Trump

Noves fora os insultos dirigidos a Lula, o segundo tarifaço de Trump poderá travar negócios e provocar demissões.

Tarcísio havia sido avisado de que a presepada poderia vir a custar caro.

O poderoso Diosdado

Nem um raivoso anti-americano seria capaz de imaginar que, depois de oferecer até US$ 25 milhões pela captura de Diosdado Cabello, o poderoso ministro do Interior da ditadura chavista, a diplomacia trumpista sequestraria Nicolás Maduro e tomaria conta do país, mantendo o doutor Cabello na pasta.

Ele era acusado de ter traficado toneladas de cocaína. Do jeito que ficaram as coisas, Donald Trump e Marco Rubio tornaram-se os patronos do maior traficante de cocaína que denunciavam.

FGC tomou mordida de R$ 40,3 bilhões - Elio Gaspari, FSP

 

Hoje vai-se saber quem leva a Copa, mas o certame será lembrado como Copa das Apostas. Elas dominaram o evento, com jogadores servindo de garotos-propaganda de casas de jogo. No mundo dos jogos sérios, a seleção brasileira teve um desempenho sofrível porque não jogou com responsabilidade.

O governo legalizou a jogatina sem medir consequências, interessado apenas em arrecadar, mas não está conseguindo fazê-lo com responsabilidade.

Jogador com uniforme amarelo e azul se prepara para chutar a bola em cobrança de pênalti. Goleiro adversário, com uniforme verde, está posicionado na frente do gol, pronto para defender. Sete jogadores da equipe adversária, com uniformes vermelhos e azuis, formam uma barreira fora da área.
Cobrança de pênalti a favor do Brasil em jogo contra a Noruega; seleção pentacampeã terminou eliminada - Mike Segar - 5.jul.26/Reuters

Decadência

A rainha consorte do Reino Unido, Mary of Teck (1867-1953), adorava joias e comprou a esplêndida tiara Vladimir a preço de banana de uma grã-duquesa russa destronada. Além disso, gostava de levar lembrancinhas das casas por onde passava, sem consultar os donos. Já Lord Mountbatten (1900-1979) apreciava bibelôs alheios. (A duquesa de Windsor trancava os seus quando ele ia visitá-la.)

FGC tomou mordida de R$ 40,3 bilhões

  • Fundo foi criado para proteger investidores, não para ser casa da sogra
  • Alto comando petista teme uma surpresa eleitoral amarga na Bahia
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O setor privado orgulha-se de ter uma capacidade regeneradora que falta ao setor público. Será? O Fundo Garantidor de Créditos foi criado na crise bancária de 1995 para proteger investidores de até R$ 250 mil, mas não pretendia ser uma casa da sogra.

Homem de cabelos escuros penteados para trás, vestido com terno preto, camisa branca e gravata cinza, segura microfone com a mão direita enquanto fala sentado em cadeira branca. Ao lado direito, há uma garrafa de água e um copo sobre uma mesa pequena. Fundo azul com logotipos da empresa 'esfera' visíveis.
O ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro - Rubens Cavallari - 22.abr.24/Folhapress

Um finório como Daniel Vorcaro podia embolsar dois funcionários do Banco Central, podia até mesmo tentar fabricar uma elevação do teto da garantia para R$ 1 milhão. Alguém devia ter desconfiado que havia gato na tuba, e muita gente desconfiou. Nada disseram, e o FGC tomou uma mordida de R$ 40,3 bilhões.

A menos que os diretores dos bancos liquidados percam boa parte de seus patrimônios, essa conta irá para a clientela, embutida em taxas e juros.

Falta de aviso não foi.

Elisabeth, a menina de Renoir, viveu beleza de um século e ruindade de outro

  • Retratada aos 6 anos, ela foi deportada para Auschwitz aos 69
  • 'Rosa e Azul' atravessou a Europa e as Américas antes de chegar ao Masp
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Um dos mais admirados quadros do Museu de Arte de São Paulo é do pintor francês Renoir e chama-se "Rosa e Azul". Retrata duas meninas: Alice (a de vestido rosa), de cinco anos, e Elisabeth (de azul), de seis, filhas do casal Louis e Louise Cahen d'Anvers, estrelas da granfinagem parisiense. Renoir recebeu 1.500 francos pelo serviço, não ficou muito satisfeito, mas o quadro foi bem recebido pela crítica. Acaba de sair nos Estados Unidos o livro "The Renoir Girls", com sua história.

Pintura mostra duas meninas de pé, vestindo vestidos claros com detalhes em azul e rosa, segurando as mãos. Moldura dourada ornamentada cerca a obra, que está pendurada em parede branca. Pessoa observa a pintura de perfil, desfocada, à direita.
Quadro "Rosa e Azul" de Renoir, no Masp - Eduardo Knapp/Folhapress

No fim do século 19, os Rothschild, com seu banco e seus castelos, eram conhecidos como os "reis dos judeus", e os Cahen d'Anvers (também judeus) estavam ligados aos Ephrussi, os reis do trigo. Faziam parte da elite francesa ou supunham fazer parte dela, pois o ranço antissemita estava sempre pronto para mais um bote.

As duas meninas viveram no esplendor. Hoje esse mundo denomina-se proustiano, rico e refinado. Elisabeth casou-se duas vezes. Essa parte da história é conhecida e o quadro a ilustra.

Mas o tempo passou e, depois da invasão da França pela Alemanha, em 1940, o antissemitismo tornou-se uma política de Estado. A partir desse momento, o livro da jornalista inglesa Catherine Ostler difere das narrativas habituais, entrando nas trevas do século 20. Alice casou-se com um oficial inglês e foi viver em Londres, enquanto Elisabeth (a menina de azul) converteu-se ao catolicismo e ficou na França.

Em janeiro de 1944, Elisabeth tinha 69 anos e vivia reclusa, por receio e por causa de sua artrite. A guerra estava perdida para a Alemanha. O Exército Vermelho já havia entrado na Polônia e, em Londres, os Aliados planejavam a invasão da Normandia e o general americano Dwight D. Eisenhower havia sido colocado no comando do Dia D. Os Aliados haviam desembarcado na Itália. (O Vaticano pediu que não entrassem em Roma com soldados negros.) Em Paris, as porteiras dos judeus depenaram suas casas. Nesse período, no interior da França, uma patrulha chegou a uma casa: procuravam uma judia. A senhora não andava sem ajuda. Elisabeth Cahen d'Anvers foi presa e colocada num Citroën.

O prefeito do lugar era um antissemita extremado e neto de Eugène Schneider, um titã da indústria francesa, e as duas famílias já se haviam cruzado. Ele informou que a senhora havia sido judia até os 20 anos. A menina de Renoir foi para uma prisão próxima e de lá para um campo de trânsito. Dias depois, estava em Drancy, a antessala da morte.

No dia 27 de março de 1944, ela foi colocada num vagão com destino ao campo de extermínio de Auschwitz. No comboio foram cerca de 1.000 pessoas (só 152 sobreviveriam). A viagem durou 55 horas, e cada prisioneiro recebeu apenas um pedaço de pão.

Elisabeth, a menina de vestido azul, desapareceu.

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O caminho do quadro

A família Cahen d'Anvers vendeu o quadro e, em 1909, ele foi comprado por uma família alemã. Passou para as mãos de galeristas e do governo francês. Em 1939, estava na Argentina, como parte de uma exposição. Passou por vários museus americanos. Em 1951, ele estava em Nova York, na coleção do galerista Sam Salz.

Em setembro, com o provável aconselhamento de Pietro Maria Bardi, que organizava o Masp, Salz ofereceu o quadro ao jornalista Assis Chateaubriand, que o comprou por US$ 120 mil (cerca de US$ 1,5 milhão em valores atuais). Ao seu estilo, Chatô conseguiu quem pagasse, e nele há a informação de que foi doado pela Cidade de São Paulo. Em 1954, quando a tela chegou a São Paulo, uma neta de Alice (a menina de rosa) posou diante dela.