terça-feira, 27 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro deveria ter saído do Brasil espontaneamente, por patriotismo - Fabiano Lana, OESP

 Mal as urnas se fecharam, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes mostrou suas garras. Determinou que o candidato derrotado nas eleições presidenciais, Flávio Bolsonaro, entregasse seus passaportes à Polícia Federal. Ao que tudo indica, o senador fugiu clandestinamente para os EUA, com passagem pela Argentina. Foi mais uma medida de cunho autoritário do magistrado, que deve acertar suas contas com o novo Senado no começo do próximo ano. Entretanto, melhor seria se Flávio tivesse abandonado o País por vontade própria. Para refletir o que seu movimento faz com o Brasil neste momento. Sufoca opções mais viáveis e permite a continuidade, mais uma vez, do Partido dos Trabalhadores no poder.

Nos Estados Unidos, Flávio e o irmão Eduardo Bolsonaro, autoexilado por lá, deveriam constatar que a radicalidade do bolsonarismo tem impedido que consigam vencer eleições majoritárias. Que não adianta atrair todo o antipetismo se não conseguem também ter ao seu lado setores moderados da sociedade. Os tais isentões, que tanto deploram.

Flávio Bolsonaro em discurso após derrota para Lula
Flávio Bolsonaro em discurso após derrota para Lula Foto: Wilton Junior/Estadão

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Flávio deveria pensar em por que sua imagem de “bolsonarista moderado” não deu certo. De que raios resolveu, durante o primeiro debate na Rede Bandeirantes, quando finalmente boa parte dos brasileiros iria conhecê-lo sem os filtros do marketing de campanha, comportar-se de maneira agressiva e moleque com um senhor de 80 anos (se Flávio fosse leitor de Guimarães Rosa, saberia que idade santifica, por mais que o sujeito tenha aprontado). De que sua biografia pregressa, com história de pedido de dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, acusações de “rachadinhas”, de ligações com milicianos, o deixariam bastante vulnerável.

Com as mãos no queixo, ao admirar uma praia na Flórida, ou alguma larga avenida em Austin, no Texas, Flávio poderia pensar por qual razão, no debate da Globo, chamou o contendor de “9 dedos”, para o espanto de muitos indecisos. Por que razão e a conselho de quem resolveu jogar fora a farsa de que se tratava de alguém prudente.

O irmão Eduardo, por sua vez, precisava entender por que, cada vez que abre a boca, recebe aplausos de seus admiradores ruidosos, mas faz perder votos valiosos de uma minoria que garantiria a vitória. Para que falar sandice como “faxina no Itamaraty”? Por que atacou, de maneira direta ou alusiva, gente do seu próprio grupo? Que, no fundo, ele, pelo repúdio que carrega, é ótimo para a continuidade do PT neste momento.

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Se puderem ligar para o patriarca Jair e para o outro irmão, Carlos, agora eleito senador, todos podem meditar um pouco no sentido de que a desconfiança com os que não são da própria família pode ter causado a ruína eleitoral deles. Que seria mais racional confiar em alguém mais centrado, com menos rejeição, e ter um aliado no poder. Dessa maneira, poderiam negociar a atenuação da pena do pai (sabem muito bem que o STF é uma casa política e aberta aos acordos). Preferiram a prepotência, a arrogância. Vale colocar a ex-primeira-dama Michelle na conversa para evitar dissabores.

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Política
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Nas terras do amigo Donald Trump, Flávio deveria pensar, em particular, no segundo turno dessas eleições. Enquanto escolhia o ministério, o adversário pisava fundo no acelerador dos gastos, das promessas impossíveis, no populismo irresponsável. Que a militância petista foi com tudo nas ruas para virar votos. Por que, afinal, os bolsonaristas deixaram perder o clima de indignação geral, que garantiu a vitória parcial no primeiro turno e uma bancada fortíssima no Congresso?

Todas essas especulações são vãs. Os Bolsonaros, assim como seu antípoda perfeito, o ministro Alexandre de Moraes, não são de recuar. Agirão para desestabilizar, não para construir alternativas. Certamente tentarão articular uma oposição destrutiva com o único objetivo de tentarem mais uma volta ao poder. Eles próprios, mais ninguém, porque não se trata de patriotas, mas de uma família que só pensa em si. Para perderem mais uma vez.

Flávio explorou o antipetismo, mas subestimou o antibolsonarismo, Wilson Gomes FSP

A  surpreendente vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno pode ter sido o acontecimento que tornou possível sua derrota no segundo. O resultado produziu um choque que parte do eleitorado teve três semanas para assimilar. A hipótese pode parecer paradoxal, mas dá para explicar.

Em psicologia política, chama-se "priming" o processo pelo qual acontecimentos reativam lembranças e avaliações, aumentando seu peso nos julgamentos. Não é necessário que alguém mude de opinião para mudar de voto. Basta que razões anteriormente secundárias passem a ser consideradas decisivas. O eleitor pode continuar insatisfeito com Lula, preocupado com o custo de vida, mas, diante da possibilidade concreta de outro Bolsonaro na Presidência, passar a dar importância muito maior àquilo que recorda do governo anterior.

E havia muito a recordar. As mortes da pandemia, os ataques às instituições, a tentativa de golpe de Estado, a brutalidade da pauta ambiental, a agressividade, as afrontas, o desprezo por adversários e críticos. Tudo aquilo que, para muitos, havia transformado os anos Bolsonaro numa experiência política exaustiva e angustiante. A eleição deixou de ser apenas um julgamento sobre o governo Lula e passou a envolver também a pergunta que não se imaginava precisar fazer novamente: vamos viver tudo aquilo outra vez? Essas pessoas que mudaram de foco talvez representem numericamente uma parte da diferença de votos.

Ilustração de um homem de terno, curvado sob o peso de uma grande mochila militar, que avança por uma rampa se apoiando numa bandeira dos Estados Unidos. Na mochila, há um boné vermelho com a inscrição “MAGA”, armas, uma imagem do Cristo Redentor e uma faixa de presidente verde e amarela. Uma corrente presa à sua perna arrasta uma grande bola azul com o 2018 inscrito.
Ariel Severino/Folhapress

A reação pode ter ocorrido de duas maneiras. Entre lulistas até então desanimados ou convencidos da própria impotência, a perspectiva da derrota teria produzido uma mobilização defensiva extraordinária. Entre eleitores independentes, sem especial apreço pelo lulismo, pode ter reativado a rejeição ao bolsonarismo. Os primeiros encontraram razões urgentes para agir. Os segundos, razões suficientemente fortes para vetar Flávio.

A campanha bolsonarista, embalada pelo primeiro turno, talvez tenha ajudado involuntariamente nesse processo. O clima de vitória antecipada tornou-se predominante. Flávio anunciou que receberia a faixa presidencial das mãos do próprio pai, como se a sucessão fosse um assunto de família e o eleitorado já tivesse cumprido sua parte. Nos bastidores, aliados já disputavam ministérios, enquanto integrantes da futura equipe se apresentavam publicamente como se já estivessem no poder. Para os apoiadores, tudo isso podia parecer confiança na vitória. Para outros eleitores, porém, podia despertar lembranças da arrogância, da insensibilidade e da voracidade associadas aos bolsonaristas no poder.

Os debates forneceram outros estímulos. No primeiro, Flávio era um combo. Marçal nas provocações, ataques pessoais e tentativas de substituir a discussão política pelo espetáculo da hostilidade. Trump na projeção corporal intimidatória e humilhante do adversário. No intervalo, Nikolas e Pavanato davam o toque "zoeiro e moleque" no tratamento dos adversários. No segundo debate, Flávio chamou Lula de "nove dedos". Pediu desculpas, mas o episódio já havia exposto o estilo malcriado associado ao bolsonarismo.

Para parte dos espectadores, aqueles comportamentos poderiam ser reconhecidos como sinais familiares de uma maneira de fazer política que julgavam superada. Quanto mais seu comportamento evocava o repertório do pai, mais podia despertar as lembranças que sua campanha precisava neutralizar. O passado reaparecia como antecipação do que poderia voltar a acontecer.

Vi pessoas profundamente angustiadas, algumas em verdadeiro estado de aflição, diante da possibilidade de retorno do bolsonarismo. Quando a campanha e os apoiadores de Flávio passaram a se comportar como "bolsonaristas empossados", para muitos o medo deu lugar ao pânico. Surgiu então uma pergunta urgente: o que posso fazer para impedir isso? Janones ofereceu uma resposta, com instrumentos e oportunidades de mobilização. Mas de onde veio a disposição extraordinária para utilizá-los? Minha hipótese, ainda a ser testada, é que a surpresa do primeiro turno reativou a memória dos anos Bolsonaro, enquanto o comportamento dos próprios bolsonaristas tornou o retorno daquele passado assustadoramente próximo.

Empolgados com a vitória no primeiro turno, Flávio e seu entorno talvez tenham subestimado o horror que a memória do bolsonarismo no poder ainda desperta em muitos. Tão concentrados em explorar o antipetismo, não perceberam que o antibolsonarismo podia ser decisivo. Flávio talvez tenha começado a perder a eleição quando sua vitória pareceu iminente, mas ainda podia ser impedida.