quarta-feira, 15 de abril de 2026

Infraestrutura, renda mínima e o mito da Cocanha, Mauricio Portugal Ribeiro - FSP (definitivo)

 O mundo produz hoje o suficiente para todos, e, ainda assim, muitos não têm acesso aos bens. Em 2024, cerca de 847 milhões de pessoas permaneciam em extrema pobreza; mais de 2 bilhões não têm acesso seguro à água potável; mais de 3 bilhões vivem sem saneamento adequado e cerca de 730 milhões enfrentam fome. O problema contemporâneo deixou de ser apenas produzir mais. Como ensinou Amartya Sen, a privação moderna nasce geralmente de falhas de acesso, e não da ausência física de bens. O desafio é transformar capacidade produtiva em acesso efetivo.

Para compreender isso, é preciso distinguir dois tipos de bens. De um lado, os bens facilmente repartíveis: alimentos, vestuário, itens básicos de consumo. Neles, o obstáculo é sobretudo distributivo –renda, preços, poder de compra. Doutro lado, há os bens que não se distribuem por simples transferência: água tratada, saneamento, energia, mobilidade, logística. Esses dependem de redes, território, coordenação e continuidade institucional. São sistemas territoriais de provisão. Em uma palavra: são infraestruturas.

Obras da Sabesp na vila Jacuí, na zona leste de São Paulo
Obras da Sabesp na vila Jacuí, na zona leste de São Paulo - Danilo Verpa - 25.mar.25/Folhapress

É nesse terreno que Vaclav Smil recoloca o debate. A vida moderna repousa sobre bases físicas pesadas –cimento, aço, plásticos e amônia– intensivas em capital, energia e organização. Infraestrutura não é apêndice do crescimento. Ela é ossatura material que viabiliza inclusive a produção dos bens divisíveis.

A amônia ilustra isso com precisão. Produzida pelo processo Haber-Bosch, ela é o insumo central dos fertilizantes nitrogenados que sustentam a agricultura moderna. Sem ela, a produtividade agrícola cairia drasticamente e bilhões de pessoas não poderiam ser alimentadas. O que parece ser o mais "repartível" dos bens, o alimento, depende, portanto, de uma cadeia infraestrutural complexa: fartura de energia, plantas industriais, logística global e sistemas de distribuição. Em outras palavras, mesmo os bens divisíveis repousam sobre sistemas indivisíveis. A abundância, quando existe, é sempre algo construído.

Essa distinção é decisiva. A escassez de bens repartíveis pode ser mitigada, em grande medida, por mecanismos de renda mínima, como o Bolsa Família, ou de renda básica universal. Já a escassez de infraestrutura exige outra gramática: planejamento, investimento, regulação e capacidade estatal. É por isso que o maior desafio da humanidade hoje não é apenas repartir melhor os bens divisíveis, mas prover adequadamente aqueles que dependem de infraestruturas: redes coletivas e "territorializadas".

Isso não reduz a importância da renda mínima. Ao contrário. Mesmo quando a infraestrutura existe, barreiras econômicas podem impedir o acesso efetivo. A renda mínima, nesse contexto, deixa de ser assistencial e passa a ser instrumento de acesso às infraestruturas. Experiências analisadas por Guy Standing mostram que a renda básica universal melhora a nutrição, reduz endividamento e ativa capacidades, sobretudo quando combinada a serviços públicos robustos, que podem e em muitos casos só serão providos se usarmos as capacidades da iniciativa privada.

Resta, porém, um segundo problema: o dos limites materiais. A universalização dos padrões de consumo das economias ricas, atualmente, não é possível. Nenhum país hoje satisfaz plenamente as necessidades básicas de sua população dentro de níveis sustentáveis de uso de recursos. Em termos simples: é possível universalizar dignidade; não é possível universalizar excesso. Kate Raworth, no seu "Economia em Donut", sintetiza bem o dilema: garantir a todos um piso social sem romper o teto ecológico.

É nesse contexto que o mito medieval da Cocanha ou o do Paraíso do Gênesis merecem ser relidos com mais rigor. Eles não representam a fantasia de uma vida sem esforço, mas a aspiração a um mundo em que a sobrevivência deixe de consumir quase toda a energia humana. A Cocanha não prometia abundância ilimitada, mas a superação da escassez como condição permanente.

A tarefa da nossa geração não é celebrar uma abundância imaginária. É mais exigente: construir sistemas de provisão dos serviços e bens que não são divisíveis, corrigir os mecanismos de distribuição dos bens que são, e definir padrões de consumo compatíveis com a universalização. Se a Cocanha ou o Paraíso ainda podem ter algum sentido, ele não estará no excesso, mas na dignidade material para todos.

François Ozon adapta 'O Estrangeiro', de Albert Camus, para os cinemas, FSP

 

Veneza (Itália)

"Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei." As desconcertantes primeiras frases do romance "O Estrangeiro", que Albert Camus publicou em 1942, estão ainda hoje entre as mais lembradas de toda a literatura francesa, e não à toa impressionaram o então adolescente François Ozon, quando leu o livro pela primeira vez, na década de 1980.

Mas o futuro cineasta não foi especialmente marcado pela obra como um todo na época –o livro era mais um daqueles clássicos franceses que todos eram obrigados a ler no colégio. Foi só quando o releu em 2024, aos 56 anos, é que esse grande marco da literatura existencialista de fato falou à sensibilidade do diretor, que decidiu transformá-lo em filme.

Cena do filme 'O Estrangeiro', de François Ozon - Carole Bethuel/Divulgação

"Fiquei impressionado com o quanto ainda é poderoso, misterioso e belamente escrito. E me vieram tantas perguntas sobre tudo ali", disse Ozon, no último Festival de Veneza, quando exibiu o filme na competição. "Fiquei animado para fazer uma adaptação, mas também com muito medo, porque é uma obra-prima muito conhecida. Então eu sabia que todos estariam me esperando com uma arma na mão."

Embora não tenha sido recebido na base da artilharia em sua estreia em Veneza, o filme acabou alvo de críticas por uma suposta cosmetização da história de Meursault. Interpretado por Benjamin Voisin, o personagem é um francês niilista que leva uma vida burocrática e apática na Argélia colonizada por seu país. Ele até ensaia algum interesse —como no romance com a bela Marie—, mas seu grau de indiferença é tão profundo que nem esse envolvimento o mobiliza: trata-o com o mesmo desdém com que reage à morte da própria mãe.

É só quando certo dia, em um impulso, Meursault assassina um árabe em uma praia é que parece relembrar que tem sangue nas veias. É submetido a um julgamento cheio de detalhes absurdos, mas àquela altura já não havia nada capaz de obliterar seu desencantamento com o mundo. A vida de Meursault se tornaria um epítome da falta de sentido da existência humana de meados do século 20.

Muitos críticos acharam que o preto e branco escolhido por Ozon embeleza demais as imagens. "Aquele mundo do livro é um mundo perdido. Nós o redescobrimos, viajamos ao passado. E, pelo fato de ser um livro filosófico, eu tinha a sensação de que as cores nos perturbariam, afastando-nos da pureza, da abstração e do pensamento de Camus. Sem cores, seria mais fácil criar a atmosfera, o peso, o sol. E a estranheza também. Acho que em preto e branco, entramos no mundo do colonialismo", defende-se o cineasta.

"Mas teve outro motivo, econômico. Eu não tinha o orçamento de um blockbuster para recriar Argel como eu queria. Então, filmar em preto e branco simplificou muitas coisas", reconhece Ozon, que não conseguiu rodar o longa na Argélia por questões políticas atuais no país –as filmagens se deram no Marrocos.

Embora preserve o núcleo da obra de Albert Camus, o filme adota uma leitura afinada com releituras contemporâneas de "O Estrangeiro", que identificam um resquício de superioridade colonial no modo como se trata o argelino assassinado. François Ozon não demoniza o autor, mas faz uma escolha significativa: em vez de abrir com a morte da mãe de Meursault, inicia a narrativa com sua chegada à prisão. Ali, ao ser questionado por um companheiro de cela sobre o motivo de estar ali, ele responde de forma direta: "Eu matei um árabe".

"Para nós, atualmente, essa é uma frase de fato chocante. E começar por ela foi uma forma de explicar qual é a minha visão do livro hoje", diz Ozon. "Porque é impossível hoje invisibilizar o árabe como foi feito em 1942. Na época, isso não era absolutamente racista. Era parte do processo de escrita descrever um arquétipo de personagem."

Até a cena final do longa desloca o olhar para quem, na obra de Camus, aparece quase de passagem —em parte porque o romance privilegia questões de outra ordem, mais existenciais do que políticas. Para Ozon, isso não diminui o livro. "É por isso que ainda é relevante como livro. Pode levar alguém a uma crise como a de Meursault, com o mundo. Eu não sei por que ele matou [o árabe]. Mas ele queria quebrar a harmonia da época."

A dificuldade de compreender o mal-estar do personagem foi um dos impulsos para Ozon fazer o filme. "Nessa história tudo é tão ambíguo, tão misterioso. Eu queria manter isso", diz o cineasta, que busca em seu novo trabalho instigar, mas não tanto provocar como tantas vezes fez desde que foi revelado, com "Sitcom - Nossa Linda Família", de 1998.

"Não quis a facilidade, fazer nada muito explicativo. Se fizesse isso, seria um filme da Netflix. O que, definitivamente, não é o que eu queria fazer." Pensando bem, Ozon ainda adora uma provocação.

O Estrangeiro