sexta-feira, 22 de maio de 2026

Escolhas políticas de Neymar são irrelevantes quando o assunto é ganhar ou perder, João Pereira Coutinho - FSP

 Mérito é palavra feia nas sociedades igualitárias em que vivemos. Como falar de mérito quando cada indivíduo é um caso à parte, com sua história de vida, sua família, sua educação e seus contatos?

O esforço conta. Mas, em certos contextos, conta menos do que imagina a meritocracia. Quem nasce pobre, sem saúde, sem pais presentes, sem grandes possibilidades de ascensão social, já parte vários quilômetros atrás na corrida até a meta.

Concordo com o argumento, até certo ponto. Mas abro uma exceção: o futebol. Nas outras atividades, a biografia e a sorte podem ter a palavra decisiva. No futebol, ambas se reduzem ao essencial: mérito ou falta dele.

Existem "nepo babies" em todas as áreas: empresários filhos de empresários, jornalistas filhos de jornalistas, advogados filhos de advogados e por aí vai. Mas jogadores filhos de jogadores só sobrevivem na competição selvagem do gramado se tiverem talento para mostrar.

O levantador Bruninho, multicampeão com a seleção brasileira, filho dos ex-jogadores Vera Mossa e Bernardinho (este atual treinador da seleção masculina) - Mauro Pimentel - 23.mai.24/AFP

Nunca vi um técnico escalar o próprio filho para o time titular se o filho tem dois pés esquerdos. O time, a torcida, a mídia e o resultado do jogo acabariam com as duas carreiras.

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Infelizmente, a "hiperpolítica" já invadiu o último reduto da mais pura excelência humana. Devo esse termo ao filósofo Anton Jäger, em ensaio com esse título, que assim descreve o mundo em que vivemos desde 2016: tudo é política, mesmo o que não é. Tudo é protesto, indignação viral, luta fratricida –e virtual. Um excesso de ruído que dura pouco e rapidamente se converte em nada para ser tomado por novo protesto, nova indignação, nova luta.

Neymar durante conversa virtual com o candidato Bolsonaro, entre o primeiro e o segundo turno da eleição de 2022 - 22.out.22/@Jair Bolsonaro no Youtube

Eu mesmo assisti a isso na minha recente passagem pelo Brasil. Há Copa do Mundo no próximo mês? O país não está excitado. Nem otimista. Falar do hexa é quase um insulto para os brasileiros, que já preveem derrotas históricas contra Marrocos, Haiti e Escócia.

Como português, posso compreender a ansiedade com Marrocos: histórica e futebolisticamente, daquelas bandas nunca veio coisa boa. Até um rei lusitano ficou por lá, numa batalha traumática que nos custou a independência para a Espanha no século 16. Mas prudência não é o mesmo que desistência antes de o torneio começar.

Só um nome, porém, anima metade dos torcedores: Neymar. Curiosamente, é o mesmo nome que deprime ainda mais a outra metade. Como se explica essa polarização afetiva em torno do jogador?

Com a própria polarização política, como mostrou uma pesquisa repercutida pela revista Veja. A maioria à direita apoia a escolha de Carlo Ancelotti de levar Neymar para a Copa. A maioria à esquerda se opõe: não por razões técnicas ou táticas; as razões são ideológicas. Um apoiador de Bolsonaro não deveria vestir a camisa da seleção.

Eu rio. A única questão que deveria mover os brasileiros era saber se o jogador está apto a contribuir para as vitórias. Nada mais. Suas escolhas políticas, gastronômicas, musicais ou íntimas seriam irrelevantes quando o assunto é mais básico: ganhar ou perder.

Imagem de Neymar durante a convocação para a Copa de 2026 - 18.mai.26/Reuters

Mas a "hiperpolítica" não perdoa, derrubando até a lógica meritocrática que fazia do futebol um reino de justiça à parte. O que me leva a perguntar: o que seria da seleção brasileira se os seus jogadores tivessem de passar primeiro por um teste de pureza ideológica?

E o que teria sido do Brasil se esse teste já existisse em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002?

A essas perguntas eu respondo: nem penta, nem hexa. Apenas uma bela medalha de participação –com certificado de bom comportamento político.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O que vemos hoje não é metáfora, é o fascismo mesmo, diz Vladimir Safatle, FSP

  

Marcos Augusto Gonçalves
Marcos Augusto Gonçalves

Editor da Ilustríssima, formado em administração com mestrado em comunicação pela UFRJ. Foi editor de Opinião.

Vladimir Safatle, filósofo e professor da Universidade de São Paulo, está lançando um livro intitulado "A Ameaça Interna —Psicanálise dos Novos Fascismos Globais", pela editora Ubu.

No podcast Ilustríssima Conversa, o autor argumenta que aquilo a que estamos assistindo na cena política contemporânea, com a emergência do populismo autoritário em diversos países, não é uma metáfora do fascismo ou uma regressão ao fascismo, é o próprio fascismo que se constitui na sociedade em que vivemos.

Safatle estabelece uma relação muito próxima entre o que chama de fascismo global e as mentalidades e ideologias vigentes nas sociedades ditas neoliberais, o individualismo acirrado, a competição, a ideia de que alguém vai sempre perder. Ele prefere chamar esses regimes não de democracias, mas de fascismos restritos.

O neoliberalismo criou as condições para que, numa situação de crise estrutural, a opção fascista se torne uma opção racional. A gente esquece que o projeto neoliberal também nasce com a ditadura de Pinochet, no Chile

Vladimir Safatle

Filósofo e professor da USP

O professor também destaca a pouca consideração que se costuma dar ao fato de que o Brasil teve o maior partido fascista fora da Europa, o Partido Integralista, na década de 1930, fundado por Plínio Salgado, que teve participação no movimento modernista.

Seria preciso perceber, segundo ele, que o processo de modernização tem em si, como uma possiblidade de desdobramento, o fascismo.

O filósofo e professor da Universidade de São Paulo Vladimir Safatle - Daniela Toviansky - 2.jun.25/UOL

O autor também problematiza as explicações que buscam a ascensão do autoritarismo em regressões históricas ou nos ressentimentos de setores sociais. "O fascismo não é uma marcha à ré!", afirma.

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O professor ainda fala, no podcast, sobre a polêmica que se criou em torno de um artigo sobre as teorias decoloniais que publicou na revista piauí ("Estudos decoloniais e o grande FMI universitário").

O Ilustríssima Conversa está disponível nos principais aplicativos, como Apple Podcasts e Spotify. Ouvintes podem assinar gratuitamente o podcast nos aplicativos para receber notificações de novos episódios.

O podcast entrevista, a cada duas semanas, autores de livros de não ficção e intelectuais para discutir suas obras e seus temas de pesquisa.

Já participaram do Ilustríssima Conversa Elvia Bezerra, pesquisadora da obra de Manuel Bandeira, Leonardo Avritzer, para quem Bolsonaro tentou dar um golpe de Estado no fim do seu mandato, o arquiteto Gabriel Weber, autor de livro sobre a chamada linha do inferno do Rio de Janeiro, Rosane Borges, que discutiu como mulheres negras enfrentam o imaginário racista, a chef Bel Coelho, autora de obra sobre a cultura alimentar da amazônia, o sociólogo Reginaldo Prandi, pesquisador das religiões afro-brasileiras, a jornalista Marina Rossi, que apontou os impactos ambientais da pecuária na amazônia, o psicanalista Leopold Nosek, crítico da ideologia do empreendedorismo e da meritocracia, o diplomata Ernesto Mané, que afirma que o colonialismo e o racismo se entrelaçaram com a sua história familiar, o jornalista Jamil Chade, que debateu a corrosão da democracia dos Estados Unidos, entre outros convidados.

A lista completa de episódios está disponível no índice do podcast.

Gestão Nunes compra Palácio dos Correios, no Vale do Anhanhgabaú, por R$ 79 milhões, FSP

 Carlos Petrocilo

São Paulo

A Prefeitura de São Paulo irá adquirir por R$ 79.526.165,31 o histórico prédio dos Correios, no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo.

A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e a cúpula dos Correios chegaram a um acordo em reunião na quinta-feira (14).

Palácio dos Correios, na região central de São Paulo - Eduardo Knapp - 20.jan.17/Folhapress

No prédio, de 1922, a prefeitura já trabalha para instalar centrais de monitoramento do Smart Sampa, da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas) e SPTrans (gestão do transporte público), além de uma unidade do Descomplica que funcionará 24 horas.

A ideia é de que o local seja batizado como SP24, em referência ao funcionamento ininterrupto. A gestão Nunes tenta acelerar as obras para reinaugurar o espaço até julho.

O local também deverá servir de ponto de monitoramento para outras pastas, como as de Infraestrutura e Obras e das Subprefeituras, responsável por serviços de zeladoria.

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Por ser tombado, a prefeitura não poderá fazer mudanças no imóvel. A agência dos Correios que funciona no local deverá ser mantida, mas em um espaço reduzido.

Em maio de 2025, a prefeitura assinou junto aos Correios um termo de cessão de uso gratuito por 15 anos. No entanto, a gestão Nunes vinha tentando comprar o prédio desde o último ano do governo Jair Bolsonaro (PL).

O prédio, tombado desde 2012, tem 11 mil metros quadrados.

Pelo termo de cessão, a prefeitura já vinha realizando uma ampla reforma, estimada em quase R$ 30 milhões, e seria a responsável pelos gastos mensais com manutenção —algo em torno de R$ 3,5 milhões.