A Kalshi espera reverter a decisão do governo brasileiro de proibir a operação dos chamados mercados preditivos no país, segundo a sua cofundadora, a brasileira Luana Lopes Lara, 29. "Vamos tentar explicar o que a gente faz, porque foi mais um gap educacional do que qualquer outra coisa."
No fim de abril, a Fazenda determinou o bloqueio de sites como a Kalshi, que fazem parte do chamado mercado de previsão. Essas empresas ofertam apostas sobre eleições, jogos, reality shows e celebridades. O entendimento foi de que elas oferecem prognósticos esportivos sem respeitar as regras impostas às bets, como o pagamento de uma licença de R$ 30 milhões e regras contra lavagem de dinheiro.
"A Kalshi não ganha dinheiro quando as pessoas perdem —essa é uma diferença muito grande", disse Luana em entrevista à Folha durante o dia de abertura do evento de tecnologia Web Summit no Rio de Janeiro.
A empresária, que vive nos EUA desde que foi estudar no MIT (Massachusetts Institute of Technology), afirmou que sua empresa cobra uma taxa de corretagem. "Se as pessoas perderem tudo, é ruim para a gente. Precisamos que as pessoas comprem mais."
"Vai ser mais rápido do que foi nos Estados Unidos, onde trabalhamos desde 2019", disse ela sobre a vitória judicial de 2024 que permitiu à companhia vender contratos sobre as eleições que levaram Donald Trump à presidência americana. A decisão impulsionou o valor da Kalshi a US$ 22 bilhões e fez de Luana a mulher mais jovem a conquistar o primeiro US$ 1 bilhão de patrimônio.
Questionada sobre a possibilidade de processar o governo brasileiro, ela desconversa. "A gente quer trabalhar de uma forma construtiva", afirmou.
Como funciona o modelo de negócios da Kalshi e de onde vem a receita da empresa?
Ganhamos dinheiro quando uma pessoa quer comprar um contrato —por exemplo, apostando em um resultado "sim" ou "não"— e outra pessoa, na contraparte, deseja vendê-lo. Retiramos uma taxa de corretagem sobre essa transação. Somando o valor investido pelas duas partes, cobramos uma taxa de aproximadamente 1%, ou um pouco menos. É a mesma mecânica de monetização utilizada pelas Bolsas de valores e pelos mercados de futuros tradicionais.
Quando a Kalshi apresentou sua proposta inicial à CFTC [agência reguladora de derivativos nos EUA], o projeto foi rejeitado sob a alegação de se tratar de jogo de azar. Como a empresa reverteu isso?
Não somos uma casa de apostas. Os usuários não jogam contra a Kalshi. A empresa não lucra quando o cliente perde. Em um cassino ou casa de apostas tradicional, o lucro vem do prejuízo dos participantes. O incentivo deles é que os vencedores parem e os perdedores continuem jogando. Nós operamos como o mercado de ações. Queremos que os usuários ganhem, evoluam e operem mais.
Críticos apontam em consultas públicas da CFTC que eventos de entretenimento ou esportivos não seguem um racional econômico por envolverem critérios imponderáveis.
Discordamos veementemente. É diante de riscos imponderáveis e incontroláveis que o acesso a mecanismos de proteção se faz mais necessário. Quando alguém contrata um seguro residencial contra alagamentos, não há como prever com exatidão quando ou se o evento ocorrerá; ainda assim, a proteção é indispensável.
De que forma setores não estritamente financeiros se enquadram nisso?
O prefeito de Nova York, cidade onde resido, declarou que a chegada dos New York Knicks às finais da NBA gerou um impacto de US$ 220 milhões na economia local. Inúmeros bares e comércios precisam se proteger financeiramente contra as oscilações decorrentes de uma série eliminatória de até sete jogos. É uma indústria imensa que necessita de mecanismos eficientes de gestão de risco.
Obter o direito na Justiça americana de comercializar contratos sobre disputas eleitorais mudou o patamar da companhia?
Há uma Kalshi antes e outra depois dessa decisão. Os mercados eleitorais são os mais importantes dentro do segmento preditivo, é notoriamente difícil obter dados confiáveis sobre tendências de votação.
Cerca de 70% dos usuários que acessam a Kalshi não realizam operações financeiras; eles buscam a plataforma como fonte de informação para entender tendências futuras. Esse ganho informacional atraiu a atenção da mídia internacional e do setor financeiro, alavancando investimentos.
O Conselho Monetário Nacional (CMN) restringiu a liquidação de contratos futuros a eventos diretamente ligados a indicadores macroeconômicos. A Kalshi planeja trabalhar para reverter essa decisão?
Estamos trabalhando com o governo. Os mercados preditivos são inevitáveis, eles estão crescendo muito. É muito importante para a gente continuar fazendo coisas do jeito legalizado e regulado. Vamos trabalhar com o governo para tentar explicar o que a gente faz, porque eu acho que é mais um gap educacional do que qualquer outra coisa. Nos Estados Unidos, a gente começou a trabalhar com governo em 2019. Passamos muitos anos explicando o que a gente faz.
Os planos de abrir uma operação local no Brasil permanecem ativos mesmo após a restrição regulatória do CMN?
Sim, os planos continuam. É uma questão de cronograma, priorização e conformidade regulatória. Sendo brasileira, considero primordial trazer a operação para o país; não faria sentido expandirmos globalmente e nos ausentarmos do mercado brasileiro. Acredito que a maturação regulatória por aqui será mais rápida do que os quatro anos exigidos nos Estados Unidos.
Acionar a Justiça brasileira, nos moldes do litígio ocorrido nos EUA, está no horizonte da empresa?
Não há definição sobre isso. Nosso foco está em chegar a uma relação construtiva com as autoridades brasileiras.
Dados de mercado apontam que cerca de 70% dos usuários que depositam em plataformas preditivas registram perdas financeiras. Esse índice gera preocupação interna quanto ao endividamento das pessoas?
É preciso contextualizar esse número. Em mercados tradicionais de opções, futuros e operações de day trading no varejo financeiro, o índice de investidores que perdem dinheiro frequentemente ultrapassa a marca de 90%. Como os mercados preditivos operam com lógica mais intuitiva, a taxa de sinistralidade tende a ser menor do que no mercado de ações de curto prazo.
A Kalshi opera sob regime de margem total: o usuário só pode perder o montante que previamente depositou na conta. Implementamos travas de segurança rigorosas, como limites de depósito programáveis e a suspensão de determinados mercados. Se detectamos perdas recorrentes, exigimos comprovação de capacidade financeira.
Episódios de suposto uso de informação privilegiada por agentes públicos repercutiram na imprensa internacional. A Kalshi possui estrutura tecnológica suficiente para monitorar e coibir manipulações em escala global?
O caso divulgado envolvendo um militar norte-americano ocorreu na Polymarket, uma plataforma que opera sem regulação nos EUA. A Kalshi é uma instituição regulada.
Por sermos regulados, a prática de manipulação ou "insider trading" constitui crime federal. Casos suspeitos são reportados ao Departamento de Justiça dos EUA (DoJ) para persecução penal.
Nossos sistemas barram preventivamente usuários com conflitos de interesse evidentes: atletas profissionais são bloqueados de mercados esportivos correlatos, e quadros do Partido Democrata ou Republicano não podem transacionar contratos eleitorais específicos.
Existem limites nos temas dos contratos criados na plataforma ou qualquer assunto do mundo real pode ser precificado?
Existem restrições severas. Não autorizamos a abertura de mercados vinculados a guerras, assassinatos, atos terroristas ou qualquer atividade de natureza imoral. Embora eventos violentos gerem impactos em ações de grandes companhias cotadas em Bolsa, estabelecemos uma linha ética intransigível: a plataforma não deve gerar incentivos financeiros diretos para a ocorrência de tragédias.
Sua participação na Kalshi a alçou à posição de mulher mais jovem a conquistar o primeiro US$ 1 bilhão. Existe espaço para fazer esse pedaço da empresa valer mais?
Estamos pensando em como a gente chegará a uma empresa entre US$ 100 bilhões e US$ 1 trilhão. A gente quer fazer essa empresa ficar o maior possível.
Houve nas redes sociais quem dissesse que seu sucesso se devia a sua origem familiar e acesso a recursos. Isso bastou ou precisou de trabalho duro?
Eu tive muita sorte com tudo que eu fiz e muito apoio da minha família, dos meus professores, muito apoio de muita gente para chegar onde eu cheguei. Mas eu trabalhei muito duro e estudei muito. Eu fico no escritório de 14 a 16 horas por dia. São sempre os dois lados. E eu continuarei trabalhando para chegar aos US$ 100 bilhões.
RAIO-X - LUANA LOPES LARA, 29
É fundadora da Kalshi, uma plataforma financeira que permite apostar em qualquer coisa. Egressa do MIT, foi bailarina da Escola de Teatro Bolshoi, em Joinville (SC).