segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Hélio Schwartsman- Aprendendo coisa errada, FSP

 Onde aprendemos o certo e o errado? Há respostas para todos os gostos. Para alguns, tudo o que é preciso saber acerca do bem e do mal está nas Escrituras. Para outros, é questão de berço: são os pais que ensinam aos filhos o que deve ou não ser feito. Há até quem diga que são os livros de filosofia que cumprem essa função.

Não afirmo que essas explicações estão todas erradas, mas elas me parecem subcasos de uma resposta mais geral. Para saber como devemos nos comportar, nós olhamos para o lado e vemos o que as pessoas costumam fazer. Não é uma coincidência que as palavras "ética" e "moral" derivem respectivamente dos termos grego ("éthe") e latino ("mores") para "costumes". Assim, se você vive numa comunidade religiosa, se comportará como os religiosos a seu lado, que se inspiram numa determinada escola de interpretação da Bíblia. Se vive num bairro afluente de cidade grande, se comportará como seus vizinhos e todos dirão que o padrão foi fixado pela educação recebida no lar.

A imagem mostra uma vista panorâmica da Esplanada dos Ministérios em Brasília, com a bandeira do Brasil em primeiro plano. Ao fundo, destacam-se os edifícios do Congresso Nacional e o Palácio da Alvorada, além de uma ampla área verde e ruas. O céu está nublado, sugerindo um clima encoberto.
Vista aérea da praça dos Três Poderes, em Brasília - Pedro Ladeira - 31.jan.25/Folhapress

Gosto dessa resposta porque ela dá conta de diferenças entre povos e da própria história. Explica, por exemplo, por que a escravidão foi aceita como natural durante tanto tempo. Explica até mesmo a mudança. Já comentei aqui o processo de normalização do voto na direita radical.

Fiz esse longo introito para falar de corrupção. No Brasil já não temos um problema de pequena corrupção generalizada, pela qual cidadãos são achacados para conseguir coisas básicas como uma vaga na escola pública ou uma consulta no SUS. Nas altas esferas da política, porém, como atesta a sucessão de escândalos envolvendo os dois polos e os três Poderes, desvios e conflitos de interesse ainda parecem ser a regra. Os agentes olham para o lado, constatam que todos (ou grande parte, ao menos) estão fazendo e se sentem liberados para fazer também.

A Operação Lava Jato foi uma tentativa de romper o padrão, mas seus condutores cometeram erros, o sistema reagiu e, realizando a profecia de Jucá, a sangria foi estancada com Supremo e com tudo.

Autonomia financeira dá lugar às alianças partidárias, Dora Kramer- FSP

 Nesta eleição, está combinado, a maioria dos partidos vai jogar separado. Só o PT entra na disputa presidencial do jeito tradicional, coligado a seis legendas: PSB, PSOL-Rede, PDT, PV e PC do B.

Não deixa de ser uma ironia o partido com vocação a protagonista, cuja política de alianças só foi aceita por imposição da realidade, ser o único que concorre acompanhado. No campo limitado à esquerda, é verdade, mas ali com um Geraldo Alckmin (PSB) na figuração do centro.

À esquerda, homem de barba branca e chapéu de palha claro fala ao microfone, vestindo camisa branca. À direita, homem de cabelo escuro e terno preto segura microfone, com alfinete de tesoura na lapela, em fundo escuro com outra pessoa desfocada ao fundo.
Montagem com os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que lideram as pesquisas - Montagem

Sabemos, contudo, que a força da candidatura não está nos aliados; está onde sempre esteve nas últimas décadas: em Lula. Fosse outro o candidato e não ocupasse a Presidência, provavelmente nem essa aliança existiria.

Alterações nas regras eleitorais e no equilíbrio de forças entre Executivo e Legislativo mudaram a cena. Acabaram as coligações proporcionais, os partidos têm autonomia financeira, há uma barreira de desempenho a ser ultrapassada e pouco a disputar no plano nacional onde imperam os eleitorados cativos dos favoritos.

Manifestam-se preocupações entre os espectadores da política com o fato de ser esta a primeira eleição desde a volta das diretas a praticamente não ter alianças na corrida ao Palácio do Planalto. Mas ninguém explicita qual o risco presumidamente embutido; por acaso a fartura anterior de coligações influiu para melhor ou pior na performance dos dois Poderes em questão?

A suspeita é que o critério de análise esteja superado. Considerando que fidelidade partidária e identificação doutrinária foram critérios de ferro e fogo, o que vemos de novo é a remoção do verniz da teoria para dar lugar à corriqueira prática, agora sem as máscaras.

Não é real a alegada neutralidade, pois há engajamento frenético nos estados. onde grassam as alianças. Nas diferentes bases, os partidos preferem apostar na eleição de grande quantidade de congressistas.

Cabe ao eleitorado acionar o modo olho vivo e faro fino para investir na melhoria da qualidade dos respectivos representantes.

IA não completa frases - e sim inventa rumos, Alvaro Machado DIas, FSP

 A noção de que os grandes modelos de linguagem preveem a próxima palavra é a mais disseminada e a mais equivocada maneira de descrever seu funcionamento.

LLMs são treinados em duas fases. Na primeira, uma rede neural recebe trilhões de trechos da internet com buracos no meio e tenta preenchê-los. Cada tentativa é comparada com o que estava no texto original, o acerto vira pontuação e o processo se repete até o modelo preencher bem as lacunas de qualquer assunto. Isso é previsão do próximo token (ou palavra) no sentido estrito, e é daí que vem a fama da IA de ser um grande "autocomplete".

Sete pessoas em pé conversam e observam uma fileira de servidores iluminados por luzes azuis em ambiente interno moderno. O local tem teto com iluminação circular e painéis digitais nas paredes.
Evento da Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai, na China, em julho deste ano - Fang Zhe/Xinhua

Na segunda fase, entram outros métodos de aprendizado, para que o algoritmo aja como querem seus fabricantes. Restrições temáticas, puxa-saquismo, respostas padronizadas sobre a própria consciência, tudo é moldado nesta etapa, que hoje concentra grande parte do dinheiro e do esforço científico e reduz dramaticamente o peso relativo do "autocomplete".

Mas o ponto decisivo é outro. Se aquilo que vemos na tela fosse fruto de previsão, aconteceria o seguinte: você descreveria ao Claude um experimento de química e pediria o resultado, que seria calculado pela seleção correta de cada uma das palavras, letras e números até o final, a despeito do fato de as sequências possíveis superarem os átomos do universo.

Cada resposta demoraria semanas e teria confiabilidade nula, já que acertar deste modo seria como ganhar na Mega-Sena em todas as rodadas da história com um único cartão.

No mundo real, a resposta sai certa e em minutos porque a IA não tenta prever as palavras que devem ser encadeadas, mas opera com os princípios da química, que aplica ao cenário descrito, tal como aplica os do humor quando converte uma história qualquer em piada.

O equívoco está em confundir uma fase do treinamento com a produção de respostas no mundo real, onde a previsão só serve para eventos fechados, como se vai chover amanhã.

Seria o caso de se dizer que o trabalho da IA é decidir em vez de de prever? Também não.

Veja, o pensamento, assim como o caminhar, não é um conjunto de deliberações, passo a passo —e é sabido que pacientes neurológicos que param para escolher cada pisada não chegam ao destino.

Prever e decidir são atos. O que perseguimos enquanto andamos, refletimos e compartilhamos ideias com as outras pessoas são sobretudo rumos, zonas de sentido.

Rumos são o nosso jeito privilegiado de existir e a tônica dominante da IA, que extrai do conjunto de treinamento nossos princípios reflexivos, com algumas limitações (mais dedução e menos abdução, o salto que inventa hipóteses, do que nós).

Navegamos a vida social com três bússolas simultâneas: a do espaço, a da conversa e a da cultura, que nos orientam sem precisar converter direção em coordenadas precisas a todo instante. Uma língua funciona assim. Ninguém decidiu matar o "vós" no Brasil; ele simplesmente se tornou uma zona menos visitada.

A IA faz uma navegação aparentada, com a diferença de que ela é feita da fala de todos, emprestada e roubada.

Por isso, perguntar algo a ela é perguntar à cultura, que não produz apenas repetição, mas pensamento novo a partir do velho, como agora se vê nas provas matemáticas de máquina. A cultura não se autocompleta; ela se autoinventa. E são os ecos dos seus rumos que vemos surgir na tela.