terça-feira, 26 de maio de 2026

Bolsa Família: de intocável, o programa entrou na tesoura, Luciano; quanto queremos gastar?, Pedro Fernado Nery - OESP

 Ajuda, Luciano. Cortaram o Bolsa Família. O programa perdeu R$ 30 bilhões em apenas dois anos. R$ 30 bilhões é o que o Bolsa Família gastava antes da pandemia. Tiraram um Bolsa Família velho do Bolsa Família novo, e ninguém está falando disso.

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Em março, a despesa acumulada com o Bolsa em 12 meses caiu abaixo de R$ 160 bilhões. Há dois anos, eram quase R$ 190 bilhões. O Bolsa Família tem passado por sucessivos cortes reais em seu orçamento.

Claro, o programa cresceu muito na esteira da pandemia, e o mercado de trabalho melhorou. Mas, na sua história, ele jamais sofreu cortes tão significativos. Enquanto sociedade, nunca discutimos: quanto queremos gastar com o programa? De intocável, o programa entrou na tesoura.

Luciano Huck fez algum questionamento sobre as portas de saída do Bolsa Família, em um evento do Esfera
Luciano Huck fez algum questionamento sobre as portas de saída do Bolsa Família, em um evento do Esfera Foto: Werther Santana/Estadão

Ajuda, Luciano. Em 2020, o Congresso botou R$ 600 como valor da ajuda para os mais pobres diante do distanciamento social. O presidente Lula prometeu voltar o valor nas eleições. E o valor é o mesmo até agora. Nunca foi reajustado.

Se mantivesse o valor de abril de 2020 neste abril de 2026, os R$ 600 seriam R$ 840. O benefício pago a famílias pobres perdeu 30% do seu valor. Benefícios do INSS, o FAT e até o BPC são protegidos da inflação. O governo deu reajuste a servidores. O Bolsa Família não recebeu, e ninguém fala disso.

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Qual deve ser o valor do Bolsa? É outra pergunta que não fizemos. Como o silencioso corte no seu orçamento, o piso do benefício também tem sido reduzido sem ninguém perceber.

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Luciano Huck fez algum questionamento sobre as portas de saída do Bolsa Família, em um evento do Esfera. Recebeu críticas. O ímpeto dos defensores do programa poderia ser redirecionado. O governo vem cortando o orçamento e o valor real do benefício, talvez porque concorde em algum grau com questionamentos como o feito por Luciano.

A discussão deveria se dar de forma mais aberta. Para a preocupação de Huck, insisto na ideia da renda universal infantil, solução adotada por vários países que evita desestimular o trabalho de beneficiários. A vulnerabilidade da família é atestada pela presença de crianças no domicílio, não por quanto ela ganha.

Se um adulto consegue emprego, a família continua recebendo do mesmo jeito. Uma regra simples e de fácil operacionalização, que faz sentido em um país em que a pobreza está desproporcionalmente concentrada em crianças.

IBGE divulgou neste mês um alerta para a renda dos mais pobres: “apesar do expressivo crescimento acumulado no período de 2019 a 2025, nota-se, no último ano, um arrefecimento da taxa de expansão do rendimento desse grupo”. Por que não falar sobre o Bolsa Família?



Além de Vorcaro, filho 01 teme mais escândalos no Rio, Alvaro costa e Silva - FSP

 Com as provas obtidas pela Operação Unha e Carne, a Polícia Federal não tem dúvida: Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro —atualmente preso por ter obstruído a Justiça e vazado informações para o Comando Vermelho—, exerceu papel central na estrutura de poder do estado, com mais influência do que o ex-governador Cláudio Castro, a quem pretendia suceder para dar continuidade ao esquema de corrupção.

De acordo com documentos enviados ao Supremo Tribunal Federal, Bacellar interferiu diretamente na escolha de cargos do primeiro escalão durante o tempo —quase seis anos— em que Castro ocupou o Palácio Guanabara. O homem forte da Alerj nomeou os titulares das secretarias de Fazenda, Educação e Assistência Social e das polícias Militar e Civil.

Desde que o cargo lhe caiu no colo, após o afastamento de Wilson Witzel, seu antigo chefe, Castro se comportou como um boneco nas mãos de Flávio Bolsonaro —que também mandava e desmandava no governo— e aceitou dividir a cadeira e a caneta com Bacellar, aproveitando para ir de jatinho, em viagens custeadas pelo estado, para eventos como o Carnaval de Salvador e a corrida de Fórmula 1 em São Paulo.

Dois homens com barba aparecem lado a lado em fotos separadas. O homem à esquerda usa óculos, terno azul e camisa azul clara, sentado em cadeira preta com fundo interno. O homem à direita veste terno preto, camisa branca e broche, com fundo desfocado azul e branco.
Ricardo Magro (esq.), dono da Refit, e o ex-governador Cláudio Castro - Divulgação e Agência Brasil

Castro, contudo, não abdicou de manobrar a máquina. Jogou fora R$ 2,6 bilhões do Rioprevidência ao investir em fundos controlados por Daniel Vorcaro, o "irmãozão" de Flávio. A PF acusa o ex-governador de facilitar operações fraudulentas da refinaria Refit, de Ricardo Magro, maior sonegador de impostos do país. As investigações indicam que agentes públicos recebiam R$ 300 mil por mês para falsificar declarações fiscais.

Na tradicional galeria de governadores fluminenses presos, falta o retrato de Cláudio Castro, o qual, dizem, já está com a moldura pronta. Enfraquecida pelo caso Dark Horse, a campanha presidencial do filho 01 tenta evitar uma contaminação. Tarefa difícil. Bacellar era o candidato ao governo; Castro, ao Senado. Desde 2018, tudo o que acontece na política corrompida do Rio passa por Flávio Bolsonaro.


Projeto de Nunes reduz multa do Psiu e dá chance extra antes de interdição por barulho, FSP

 Priscila Mengue

São Paulo

Embora divulgado pela gestão Ricardo Nunes (MDB) como um endurecimento, o projeto de lei que revisa o Psiu (Programa Silêncio Urbano) na cidade de São Paulo flexibiliza as penalizações. A proposta enviada à Câmara Municipal na quarta-feira (20) inclui redução no valor das multas, transformação da primeira autuação em advertência e criação de uma chance "extra" antes do fechamento administrativo.

A protelação da interdição até a quarta infração teve parecer desfavorável da área técnica do Psiu em 2025, relativo a projeto de lei semelhante. Em documento ao qual a Folha teve acesso, a Coordenadoria de Posturas da Secretaria Municipal de Subprefeituras chegou a apontar que iria "beneficiar os infratores contumazes", que representariam até 20% do total.

Em março, o STF (Supremo Tribunal Federal) derrubou tentativa de flexibilizar o Psiu no entorno de grandes espaços de eventos, o que é defendido pelo prefeito e teve repercussão especialmente após série de multas ao Allianz Parque (hoje Nubank Parque) em 2024. Essa alteração não está na nova proposição, mas pode ser incluída em texto substitutivo ou emenda parlamentar até a deliberação final dos vereadores.

A imagem mostra uma mão segurando um medidor de decibéis, que exibe o valor de 96.3 dB. Ao fundo, há um espetáculo de fogos de artifício iluminando o céu noturno, com um grande edifício visível, possivelmente um estádio, onde está escrito 'Allianz Parque'. A cena é urbana, com luzes de carros e árvores na parte inferior da imagem.
Morador mede emissão de ruído no entorno do Allianz Parque; espaço da zona oeste tem histórico de reclamações - Adriano Vizoni - 5.jun.2025/Folhapress

O projeto de lei foi divulgado pela prefeitura em meio a uma escalada de mobilizações na sociedade civil contra poluição sonora na cidade. O Psiu teve recorde de queixas em 2025, com quase 50 mil registros.

Em nota, a gestão Nunes respondeu à Folha que a proposição "não representa enfraquecimento do combate à poluição sonora". Disse que é uma "modernização focada na eficácia e garantindo punições severas aos infratores contumazes, ao mesmo tempo em que se preserva a economia local e os empregos gerados pelos pequenos negócios".

Também defendeu que a proposta estabelece bases para o fortalecimento e a ampliação da fiscalização, com a previsão de regimes de plantão e blitze com forças de segurança. "Com a expectativa real de aumento no número de autuações e uma presença mais robusta da prefeitura nas ruas", afirmou.

O que muda no valor das multas

Hoje, espaços que violam o limite de decibéis estão sujeitos a multa de cerca de R$ 16 mil, prevista na Lei de Zoneamento. Essa penalidade é dobrada em reincidência e, se ocorrer pela terceira vez, triplica e resulta na interdição.

A Coordenadoria de Posturas recentemente foi contrária à criação de uma "chance extra", porque a maioria dos estabelecimentos se regulariza após a primeira punição. "Estabelecer mais uma etapa previamente ao fechamento administrativo seria apenas ofertar um imerecido prêmio àqueles que são transgressores recalcitrantes", apontou.

O Departamento Geral de Uso e Ocupação do Solo da Secretaria de Subprefeituras também avaliou que as regras atuais já dão "diversas oportunidades para que o infrator se regularize". "Não havendo justificativa plausível para inclusão de novas etapas", indicou em parecer de 2025.

Os relatórios envolvem o projeto do vereador João Jorge (MDB), que voltou a tramitar na Câmara após a decisão do STF, mas não foi mais pautado para votação após o início de abril. Desde 2025, Nunes sinalizava que enviaria uma proposta nova, visto que tentativas anteriores de flexibilização no Psiu foram derrubadas pela Justiça por estarem em textos com outros temas principais.

A proposição da prefeitura troca a primeira multa por orientação, assim como reduz o valor no caso de repetições. Também diferencia a punição a depender do tipo de atividade.

Exemplo: um bar de médio porte com duas autuações hoje somaria cerca de R$ 48 mil em multas (R$ 16 mil da inicial somados ao valor dobrado da reincidência); com a mudança na lei, a punição no mesmo caso totalizaria R$ 7.000 (pois não há multa no primeiro registro).

Hoje, a orientação inicial sem multa é indicada pela Coordenadoria de Posturas para micro e pequenas empresas. Segundo a área técnica, esses estabelecimentos são a maioria dos infratores.

Em nota, a gestão Nunes afirmou que a mudança "tem caráter educativo, permitindo que o comerciante se adeque sem comprometer imediatamente a saúde financeira do seu negócio". "O novo projeto traz uma abordagem pautada na proporcionalidade, com tolerância zero para reincidências", justificou.

O projeto da prefeitura também determina o período de 12 meses para que um caso seja considerado reincidente, a contar da infração mais recente. O prazo aumenta para 24 meses quando é estabelecimento com histórico de fechamento administrativo por barulho. Essa alteração também estava no projeto de João Jorge e foi acatada pela área técnica.

Residências podem ser incluídas, o que Nunes antes declarou ser inviável

Uma das grandes novidades do projeto é a inclusão de residências na fiscalização de barulho, atribuição antes exclusivamente da polícia, sem penalização prevista no Psiu. A infração é relativa a festas, comemorações, reuniões e similares em que o ruído acima do permitido é ouvido desde a via pública. Abrange exclusivamente o período das 22h às 7h.

Nesses casos, o primeiro registro é de advertência, seguido de multa de R$ 1.000 em caso de reincidência. O horário determinado pela prefeitura foi criticado em redes sociais por alguns movimentos de moradores contra poluição sonora.

A penalização de barulho em residências chegou a ser incluída pela gestão Nunes em uma das versões do projeto de revisão da Lei de Zoneamento, em 2023, mas foi retirada antes do envio à Câmara. A justificativa à época foi que seria inviável, diante das garantias constitucionais de inviolabilidade do ambiente domiciliar.

Em nota, a prefeitura afirmou desta vez que a retomada da proposta "atende a uma demanda histórica". "Não haverá violação do lar, pois a caracterização do ruído abusivo exigirá que o barulho seja audível da via ou logradouro públicos. [...] A fiscalização medirá o som da rua", acrescentou.

O que mais prevê o projeto

A proposta também coloca instituições de ensino na lista de espaços que não podem ser multados pelo Psiu. Como a Folha mostrou, escolas voltaram a ser autuadas após decisão judicial.

Além disso, permite o fechamento imediato de estabelecimentos onde há prática de crimes e contravenções, como a venda de bebidas sem nota fiscal e a exploração de máquinas caça-níqueis. A prefeitura tem associado esse trecho às chamadas "adegas", ligadas a pancadões em bairros paulistanos variados.

Hoje, a limitação de ruído em São Paulo vai de 40 a 65 decibéis, a depender do horário e zoneamento do local. O máximo pode chegar a 85 decibéis no entorno de obras privadas, das 7h às 19h.