Em mais de uma década na Esplanada dos Ministérios, entre 1985 e 1996, a economista Dorothea Werneck, 78, passou por quatro presidentes, defendeu reformas trabalhistas e encabeçou novas políticas de exportação. Já no folclore popular, a primeira e única mulher a chefiar o Ministério do Trabalho no Brasil (1989-1990) ficou marcada pelo cabelo volumoso, risadas altas e pelo bordão "Eu quero é mais!", da personagem Doroféia Ieneck, vivida por Nádia Maria na Escolinha do Professor Raimundo (Globo), paródia que a mineira adorava.
Para ela, que se define mais como profissional que como política, o desempenho dos mandatários pode ser dividido em três eixos: capacidade técnica, executiva (de gestão) e política. Fernando Henrique Cardoso, na avaliação dela, era "absolutamente extraordinário" na primeira competência, mas falhava na gestão de pessoas. "Ele tinha um grupo muito pequeno em sua volta e sempre ouvia a última pessoa com quem falava. Várias vezes, vi serem tomadas decisões da minha área sem ter sido ouvida", diz Werneck, que foi ministra da Indústria e Comércio (1995-1996) sob o governo tucano.
Já Fernando Collor de Mello, para ela, sabia coordenar ações, reunir a equipe e cobrar resultados. "Ele fazia as coisas acontecerem. Foi o melhor chefe que eu já tive em termos de Presidência da República", afirma. Porém, ela avalia que o ex-presidente cujo mandato terminou em impeachment em 1992 tinha uma falha grave em outro aspecto. "Ele não teve habilidade política nem para convencer a família dele."
Ao analisar os presidentes mais recentes pelo mesmo critério, Jair Bolsonaro (PL) é destaque negativo. "Base técnica: baixíssima. Capacidade executiva: quem arruma briga não pode ser um bom executivo. E a habilidade política dele é gerar confusão, é destruir o outro lado, em vez de melhorar o dele", diz.
Para avaliar o desempenho de Lula, que já foi alvo de críticas dela no passado, ela afirma fazer um panorama geral dos três mandatos do petista e vê a trajetória dele como equilibrada. "A bagagem técnica e política ele adquiriu na liderança sindical. Quanto à capacidade executiva, às vezes faz algumas indicações aos cargos mais pelo lado partidário que pelo técnico, mas é um cara que sabe o que quer, mesmo que você discorde dele", reflete.
A trajetória que a levou aos gabinetes de Brasília foi marcada pela afinidade com a técnica e por uma boa dose de aleatoriedade. Em 1966, durante o vestibular para administração, pediu para ir ao banheiro, mas o fiscal não permitiu que ela saísse enquanto não entregasse a prova. "Eu não tive alternativa, entreguei como estava." Ela foi reprovada no vestibular naquele ano e acabou prestando o exame no ano seguinte para economia. "Por conta de uma vontade de ir ao banheiro, eu defini minha carreira. Tudo o que aconteceu na minha vida eu não planejei. E tudo o que eu planejei não aconteceu", conta.
Foi na faculdade que conheceu o ex-marido, o também economista Rogério Werneck, que a influenciou para atuar na pesquisa acadêmica. Dorothea fez mestrado, doutorado no Boston College e chegou a lecionar na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Até que percebeu que a vida acadêmica não era o que queria.
Aliás, ela percebeu isso muito antes, aos 15 anos, quando insistiu com o pai que queria sair de Ponte Nova, no interior de Minas Gerais, para fazer o colegial na capital mineira –a cidade natal só oferecia o curso normal, onde ela se formaria docente. Ela foi morar com uma de suas irmãs mais velhas, Letícia, que custeou seus estudos e a deixou com uma aspa que se tornou seu lema: "Você que sabe, a vida é sua", relembra a ex-ministra.
Foi com essa mentalidade e "quase no susto" que Werneck abandonou a carreira acadêmica e aceitou um convite para trabalhar no Centro Nacional de Recursos Humanos, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). E, para a supresa dela, foi contratada para ser chefe da pessoa que a tinha convidado para o cargo.
No meio político, diferentemente do cenário que encontrou na academia, o gênero era um marcador constante. "Mesmo em situações em que eu era a única mulher em salas com 60 homens, eu nunca usava outro termo senão que eu era uma ‘profissional’. É uma palavra que não tem masculino e feminino."
Ela afirma, inclusive, que o infame episódio em que o então presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Mario Amato (1918-2016), disse que a economista era "inteligente, apesar de ser mulher" marcou mais a vida dele do que a dela. "Essa barbaridade deu um rebu na impresa, com os deputados e com os senadores. Ele veio se explicar e eu respondi: ‘Melhor não, vai piorar. Deixa como está’."
"Fiquei meio assustada que, quando ele faleceu, a maioria das notícias relatando a vida e a morte dele, que foi uma pessoa muito importante, mencionavam esse caso. Da minha parte, só ganhei o título do meu livro", ela diz, se referindo à obra "Apesar de Ser Mulher", publicado em 1990.
Décadas depois, em 2026, Werneck lançou o livro "Aprendendo e Vivendo: Uma biografia Contada por Histórias e Versos", em que reúne mais causos e análises acumulados em sua trajetória. O lançamento em São Paulo ocorreu na segunda (10), na sede da Fiesp, em São Paulo.