domingo, 31 de agosto de 2014

Em cinco anos, 17 maternidades fecham as portas no Estado

Com cerca de 15 semanas de gravidez, Camila Raduan, 24, de São Bernardo do Campo (SP), teve um sangramento. Foi às pressas a uma maternidade perto de casa que atendia seu plano de saúde. Havia sido fechada.
Correu a um pronto-socorro. O bebê estava bem. Mas, para evitar surpresas, dias depois, Camila resolveu procurar um local para o parto. Sem sucesso: descobriu que outra maternidade particular havia encerrado as atividades.
Agora, com 37 semanas, está decidida: sem opções de seu plano na cidade, vai ter o filho em Santo André (SP).
Casos como esse vêm se repetindo devido ao fechamento em série de maternidades.
Nos últimos cinco anos, ao menos 17 encerraram suas atividades em São Paulo, segundo levantamento feito a pedido da Folha por entidades que reúnem clínicas e hospitais particulares no Estado -o Sindhosp e a Fehoesp.
Na capital, o tradicional hospital Santa Catarina anunciou que, após 35 anos de funcionamento, fechará a maternidade em outubro.
Para evitar ter o mesmo destino, a Santa Casa de Belo Horizonte lançou campanha na internet e negocia ajuda de governos. Novas consultas já não são marcadas.
O fechamento afeta também as vagas do SUS. Desde 2009, o país perdeu 4.086 leitos para gestantes, uma redução puxada pelos hospitais particulares conveniados ao SUS -nestes, a queda é de 36,5%. Nos hospitais públicos, houve aumento de 0,4%.
Não há dados consolidados sobre os leitos apenas da rede privada, mas gestores de hospitais confirmam que vêm diminuindo, principalmente devido à opção por áreas consideradas mais rentáveis, como oncologia e cardiologia.
"Muitos procedimentos nas maternidades são simples e pagam muito pouco", diz o presidente do Sindhosp, Yussif Ali Mere Jr. Para ele, o fechamento, em alguns casos, é uma questão de "sobrevivência" dos hospitais.
Visão similar tem Francisco Balestrin, da associação de hospitais particulares, que cita também uma redução na taxa de nascimentos no país.
No entanto, segundo os dados do SUS, a queda no número total de leitos a gestantes desde 2009, de 9%, já é maior que a de partos, de 5%.
Para o secretário de Atenção à Saúde Fausto Pereira dos Santos, do Ministério da Saúde, além da mudança demográfica, contribuem para o fechamento das maternidades regras que elevaram custos.
"Hoje é inadmissível não ter retaguarda de um leito de UTI, por exemplo. Manter uma maternidade ficou caro. Deixou de ser bom negócio.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Cármen Lúcia alerta para ‘a fúria que ganha as ruas’ (Nalini)


FAUSTOMACEDO
Segunda-Feira 25/08/14

Em São Paulo, onde participou de debate sobre foro privilegiado, ministra do Supremo diz que ‘privilégios existem na monarquia, não na República’.


Fausto Macedo
A ministra Cármen Lúcia, vice presidente eleita do Supremo Tribunal Federal (STF), alertou nesta segunda feira, 25, para a ameaça da insatisfação popular ante a descrença no Estado. Ao abordar a “avalanche de processos” nos tribunais ela disse: “Muitas vezes, especialmente na parte administrativa, eu acho que estou maquiando cadáver. Esse Estado brasileiro, como está estruturado e como a Constituição previu há 25 anos, não atende mais a sociedade. O que era esperança, na década de 1980, pode se transformar em frustração. A tendência de uma frustração, o risco social é se transformar em fúria. E, quando a fúria ganha as ruas, nenhuma ideia de Justiça prevalece.”
Cármen Lúcia participou de um debate sobre foro privilegiado, promovido pela Associação dos Advogados de São Paulo (AASP), ao lado do ex-presidente do STF, Antonio Cezar Peluso, e do criminalista Antonio Cláudio Mariz de Oliveira – aquele defendeu o foro especial, este condenou com veemência.
“Privilégios existem na monarquia e não na República”, disse a ministra. “O Supremo é tribunal, não é corte. E o que não é explicável significa que tem na sua base uma concepção que está socialmente errada. Eu não vejo como se garantir materialmente o princípio da igualdade, preservando os que são sim privilegiados.”
Cármen Lúcia advertiu para a extensão da prerrogativa de foro por função. “Basta ver que as Constituições estaduais fizeram mais. Procurador geral do Estado amigo do governador deu um jeitinho de ser incluído também no rol daqueles que somente seriam julgados pelo Tribunal de Justiça. Então, não vejo como se afirmar que o princípio da igualdade esteja sendo rigorosamente cumprido.”
Ela abriu uma exceção, para presidente da República, assim como Mariz de Oliveira. “Pelo que ele (presidente) simboliza e pela dimensão de dados que tem na sua mão, levar o caso para o juiz de primeiro grau compromete tanto a prestação eficiente, quanto a Justiça dessa prestação. Daí porque concordo que quanto ao presidente a ação se mantenha no Supremo. Faço exceção, sim, ao presidente da República. Acho que presidente da República é muito mais vulnerável também a injunções perversas.Mas, no geral, não há razão para isso (foro privilegiado), nenhuma razão.”
Para a ministra do Supremo não há motivo para “distinguir entre o cidadão que exerce a função de pedreiro, que é uma função honrosa, e o que exerce uma função pública, um cargo público”.
“O que eu quero é um Brasil que seja justo para todo mundo, muito mais igual, sem privilégios”, declarou. “Qualquer privilégio, quando não atende o princípio da igualdade material, não tem razão de existir, nem sustentação.”
Para a ministra, no caso de presidente, o foro especial representa uma “dupla proteção, para a sociedade como um todo e uma garantia para o próprio juiz”.
“Não porque não seja um bom juiz, mas o juiz que assume pela primeira vez no interior, ele às vezes treme de medo na primeira audiência. Imagine submete-lo a isso (julgar demanda envolvendo o presidente da República).”
Ao comentar sobre a avalanche de processos no País, a ministra do Supremo enfatizou. “Quando o Estado, Executivo, Legislativo e Judiciário, não funciona bem, as leis não estão sendo cumpridas a contento, os serviços não estão sendo prestados, o que é a esperança vira frustração. A frustração vira ira, porque ele (cidadão) se sente frustrado, tantas vezes e tantas vezes, que ele vai perdendo entusiasmo e aí é perigoso. O Estado existe para que as pessoas tenham mais chances de ser felizes. O Estado não pode ser causa da infelicidade de ninguém. O direito existe para que as pessoas possam se fazer felizes, para que ele tenha chance de ser feliz, para que ele vá dormir sem medo. Precisamos repensar isso, com seriedade.”
Ela conclamou os advogados, os juristas e todo o universo forense que digam que Supremo querem. “Um País que tem, segundo dados, não sei se são corretos, mais de 80 milhões de processos, considerando que somos 200 milhões de pessoas, há que se convir que há alguma coisa muitíssimo errada no País ou na sociedade. Por isso mesmo (o sistema) precisa ser repensado como um todo. Que Supremo Tribunal Federal querem, qual o Supremo que nós temos e qual o que nós queremos ter.”
Cármen Lúcia falou sobre “o jogo dos recursos” que fazem arrastar as ações indefinidamente. “Aí precisamos pensar, a comunidade jurídica como um todo, o processo como um todo. O processo tem atuado como um jogo, quem está ganhando quer que acabe depressa, quem está perdendo não quer que acabe e ele vai com outro (recurso) e com outro. Isso acontece quando vejo meu irmão assistindo futebol. Quando o time dele está perdendo, ele xinga o juiz até, como eu imagino que me xinguem na hora que alguém recorre e eu não tenho nada com isso e tenho que continuar pondo em pauta.”
Para a ministra, existem outras formas de conciliação, sem judicialização. “É preciso dar importância, é preciso que a sociedade entenda que quando se busca a jurisdição, vai ter começo, meio e fim, como tudo na vida, como a própria vida. Então, eu acho que o raciocínio tem quer ser maior. É preciso levar à sociedade brasileira o número de processos em curso para acabar também com algumas ilusões, de que a demora é muito grande.”
Ela destacou que a polêmica sobre a morosidade da Justiça se prolonga há décadas. “A primeira conferência que assisti, como aluna, em 1974, foi do ministro Aliomar Baleeiro, em 1974. Ele tinha sido ministro do Supremo e falou sobre a morosidade da Justiça. Quarenta anos depois estou eu como ministra do Supremo falando sobre morosidade da Justiça. A pergunta é: a quem interessa? Ao juiz interessa a celeridade. Mas alguém está interessado em manter a morosidade. Não vamos ser bobos. É preciso discutir isso.”

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Tribunal vê crime permanente em cartel dos trens


FAUSTO MACEDO
Segunda-Feira 18/08/14

Desembargadores acolhem mandado de segurança da Promotoria e será aberta ação penal contra seis denunciados na Linha 2 do Metrô


Em votação unânime, três votos a zero, os desembargadores da 4.ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo acolheram mandado de segurança do Ministério Público Estadual e abriram caminho para a abertura de ação criminal contra seis executivos do cartel de trens, denunciados por conluio na Linha 2 (Verde) do Metrô.
O mandado de segurança foi impetrado pelo promotor de Justiça Marcelo Mendroni, que combate carteis. Ele insurgiu-se contra decisão da 30.ª Vara Criminal de São Paulo. Em abril, o juiz de primeiro grau rejeitou a denúncia contra os dirigentes de multinacionais que teriam fraudado licitação da estatal paulista de transportes de massa.
O juiz da 30.ª Vara Criminal decretou a extinção da punibilidade dos acusados, pela ocorrência da prescrição, ou seja, esgotou-se o prazo que a Justiça tem para punir o acusado.
Marcelo Mendroni não aceita. Para ele, o cartel é crime continuado, dinâmico, desde a assinatura do contrato até os aditamentos e os desembolsos realizados. Sua tese recebeu o aval dos desembargadores da 4.ª Câmara Criminal do TJ.
Em março de 2014, Mendroni entregou cinco denúncias contra o cartel metroferroviário à Justiça. São 34 acusados, de 12 multinacionais. Uma denúncia é relativa à Linha 2 (Verde) do Metrô.
Segundo acordo de leniência firmado em maio de 2013 entre a multinaconal alemã Siemens e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) o cartel predominou em São Paulo entre 1998 e 2008, nos governos Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin, todos do PSDB. O cartel também agiu no Distrito Federal.
Para o promotor Mendroni o ajuste criminoso se estendeu até 2013, quando ainda foram efetuados pagamentos.
O desembargador Edison Brandão, relator, avalia que é “impossível reconhecer-se a prescrição do alegado crime de cartel”.
“Como é sabido, destinando-se o mesmo (cartel) a buscar contratos administrativos, na esmagadora maioria, são contratos de trato sucessivo com a administração, de modo que, enquanto tais contratos ativos estiverem vigentes, ainda, estarão, em tese, sendo perpetrados atos do mesmo “cartel”, sendo dessa forma, crime de natureza permanente”, assinalou o desembargador.
O relator é categórico. “Frise-se mais uma vez que, os contratos de trato sucessivo, por si só, continuam gerando efeitos criminosos, quando assim são desde sua origem, posto que, além da “formação de cartel”, existe de forma autônoma a prática de outros crimes, estes por vezes instantâneos de efeitos permanentes.”
Edison Brandão considera: “Neste particular, em relação aos possíveis crimes de fraude à licitação, aplicando-se o mesmo entendimento, a cada renovação contratual de qualquer título, ou a cada adimplemento parcial do mesmo típico dos contratos de trato sucessivo, novo prazo prescricional recomeça a ser contado.”
“Tal fato é notório em contrato moderno que ultrapassa décadas em sua validade, sendo impossível que se imagine prescrita a conduta criminosa, quando em exemplo, agentes do crime, continuam reiteradamente a se apoderar criminosamente de verbas do erário”, adverte o relator.
O voto de Edison Brandão foi acompanhado pelos desembargadores Luís Soares e Euvaldo Chaib, presidente da 4.ª Câmara.
LEIA A INTEGRA DOS VOTOS DO RELATOR EDISON BRANDÃO E DO DESEMBARGADOR LUÍS SOARES:

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Jovens fazem diagnóstico das falhas na educação no Brasil, na FSP

Folha de S Paulo sobre #mapadoburaco 


 http://veja.abril.com.br/educacao/mapa-buraco.shtml 

SABINE RIGHETTI
DE SÃO PAULO
A taxa de analfabetismo entre adultos no Brasil tem caído nas últimas duas décadas e a educação pública básica já é capaz de atingir praticamente todas as crianças. Mas por que a escola por aqui ainda é tão ruim?

Essa pergunta foi feita por um grupo de dez jovens empreendedores brasileiros --metade deles com passagem por Harvard (EUA), a melhor universidade do mundo-- a cem representantes de vários setores do Brasil.

A ideia foi levantar problemas e apontar soluções. Tudo isso foi reunido no manifesto "Mapa do Buraco", lançado nesta sexta-feira (15).

Uma das questões apontadas é a baixa atratividade da carreira docente no Brasil.

"O professor brasileiro ganha mal e não tem status na sociedade", diz Renan Ferreirinha Carneiro, 20, estudante de economia em Harvard, com bolsa da Fundação Estudar, e um dos idealizadores do projeto.

De acordo com o diagnóstico, apenas 2% dos estudantes brasileiros pensam em ser professores. Em países como Finlândia e Coreia do Sul, donos dos melhores indicadores de ensino do mundo, essa taxa é de 30%.

Entre os cem consultados há personalidades públicas como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o empresário Jorge Paulo Lemann (Ambev e Burger King) e pessoas como Geraldo Almintas, professor de matemática da rede pública de Dores Turvo (MG), cidade campeã na olimpíada de matemática.

Os especialistas também destacaram o baixo investimento por aluno no Brasil.

"A escola falha e perdemos gente no caminho", diz Eduardo Lyra, 26, empreendedor social que também lidera o projeto.

Filho de um ex-detento, ele cresceu em uma favela de São Paulo e diz que se manteve na escola por insistência da mãe. "Mas sou uma exceção. A maioria dos alunos pobres não tem a mesma sorte."

domingo, 17 de agosto de 2014

Não é só dizer ‘não coma’


MÔNICA MANIR
03 Maio 2014 | 14h 48

Se a cantina vende refrigerante e salgadinho, o que o aluno vai entender? Mudar hábitos alimentares e de vida de crianças cada vez mais obesas exige esforço de escola, família, governo

É epidemia, e das grandes. Sem rodeios, 50% dos brasileiros acima dos 18 anos estão gordos, bem gordos. E 17,5% atingiram um índice de massa corporal alarmante, com todas as restrições que isso possa causar – a restrição da vida, inclusive. Em dez anos, triplicou no País o número de atestados de óbito nos quais o excesso de peso aparece como causa. Em suma, morreu-se de quê? De obesidade.
O último dado mórbido é de 2011, quando a cineasta Estela Renner já viajava pelo Brasil com a equipe da Maria Farinha Filmes. Ela já havia lido que, em cada 5 crianças obesas, 4 permaneceriam assim quando adultas. Então voltou a fita. Se é de menino que se torce o pepino (ou seria picles?), então faria um filme sobre meninos e meninas acima do peso. A trupe levou dois anos para concluir o documentário Muito além do Peso, visto por mais de 1,5 milhão de pessoas e requisitado pelos americanos na sua batalha contra a obesidade. Depois da exibição do filme está previsto um debate mediado por Michelle Obama, a primeira-dama que abraçou a causa.
O filme confirmou que os pequenos brasileiros não sabem diferenciar um pimentão de um rabanete, um abacate de um melão. Mal fazem exercícios, e ainda assistem à TV mais que todas as crianças do mundo. Há muitos com diabete, pressão alta, problemas articulares. “Imagine o que foi sair da casa de uma criança que deixou de brincar porque sente dor no joelho”, diz Estela, emocionada. De alguma forma, todos querem sair do tamanho GG. Mas continuam presos, com a família, a hábitos que se arrastam por gerações.
“Falta uma campanha de massa do governo mostrando como se alimentar bem”, resume Estela, mãe de três filhos, já envolvida em outro filme, que será lançado em junho. Ele se chama Tarja Branca, e também é uma espécie de rebobinamento. “A cura da obesidade infantil está lá atrás, na brincadeira, na convivência, no outro. Estamos falando de uma dimensão maior, não mais de salgadinhos.” Tudo bem, mas, na entrevista a seguir, o salgadinho segue à mesa.
Vocês acompanharam o que aconteceu com as crianças que aparecem no filme?
Chegamos a fazer algumas visitas, demos alguns telefonemas. Infelizmente a maioria das crianças ganhou mais peso. Com uma delas a gente interferiu, conseguiu uma nutricionista voluntária que fosse até sua cidade, de difícil acesso. Mas só esses meninos terem participado do filme não fez com que suas realidades mudassem. Abriu o caminho para uma conversa, eles ficaram populares na época do lançamento, mas não é uma mudança fácil.
Nessas realidades, a TV estava muito presente. Isso fica evidente no filme. Imagino que numa segunda versão vocês teriam de destacar computadores e celulares, não?
A criança brasileira ainda é a que mais assiste a televisão no mundo, mais que os americanos. Dá uma média de cinco horas por dia. E hoje a gente não tem só a televisão. Tem o computador, o videogame, os tablets, os celulares. São muitas telas. Um estudo que eu queria ter colocado no filme, mas acabei deixando de fora, mostra como antigamente as crianças de 2, 3, 4 anos se desenhavam com os braços muito compridos, como um Menino Maluquinho. Hoje elas se desenham com os braços curtos, porque mal utilizam os braços e as pernas. Elas utilizam os dedos.
Então daqui a pouco vão se desenhar com dedos enormes?
Sim, com dedões. Acho que a gente precisa aumentar a cultura do estímulo a brincar, a brincar como coisa urgente e séria.
Mas as crianças podem entender que estão brincando quando mexem no computador, no celular, no tablet.
Eles podem entender que sim. Mas eu falo de brincar usando o corpo, o irmão, o amigo, a areia, o sol, o mar, o vento, o espaço, usando cair, usando levantar.
Muitos pais temem pela segurança dos filhos nesse brincar solto.
Temos muito menos ruas de lazer que na nossa época. A rua era o nosso quintal. Hoje é pauta da escola falar de quintal como se fosse uma ficção. Sim, é perigoso deixar a criança na rua sem supervisão. O que estou sugerindo é que se diminua o tempo de tela, que se dê uma caixa de papelão para a criança, ou não se dê nada. De uma forma genérica, as crianças precisam do ócio, do tédio, para criar. O que os pais têm dificuldade para entender é que, ao deixar o filho sozinho na frente da TV, isso não quer dizer que ele esteja seguro.
Por que não?
Quando você deixa seu filho sem sua presença para ajudá-lo a digerir tudo o que está vendo, você está deixando seu filho com estranhos. As pessoas da tela estão falando com os seus filhos. Existe uma comunicação mercadológica dirigida a eles, de comunicadores que estudaram nas melhores universidades. Eles não só estimulam a venda de produtos para crianças, entre eles alimentos engordativos, como tentam convencer os filhos a pedir aos pais que comprem produtos para adultos: carros, geladeiras... Sim, a obesidade é multifatorial. Mas, sem dúvida, o excesso de telas  está associado à obesidade infantil.
Entre as medidas de prevenção da obesidade propostas pelo governo está o investimento em academias de saúde e espaços públicos com aparelhos para exercícios. Tudo dirigido ao adulto. O que tem sido feito para a criança nesse sentido?  
Acho que muito pouco. Com 200 horas de filmagem Brasil afora, deu para perceber que as crianças não sabem andar de bicicleta. Claro! Onde elas vão pedalar? Quanto de área livre elas têm disponível? Além disso, para a criança aprender a andar de bicicleta o pai precisa ter um automóvel que a leve ao parque. Se não tiver bicicleta, tem de pegar fila e pagar por uma. Também tem que ir num horário decente porque corre o risco de perder o filho no meio da multidão. Outro dado é este: muitas crianças dizem que a aula de educação física fica só na teoria e é oferecida somente a partir de determinado ano. Não tem nos primeiros anos de vida.
Por que a educação física perdeu importância no currículo?
Não sei dizer exatamente, mas um professor de educação física do Rio, Marco Santoro, que entrevistei depois de filmar Corpo e Movimento, me falou da herança militar na escola. Tem uma coisa de andar de mãozinha para trás, de não cair, não sofrer acidente, não correr, não fazer barulho. Não se educa nem se cria mais a criança com largueza.
O Ministério da Saúde afirmou que, só em 2013, o programa Saúde na Escola beneficiou 18 milhões de crianças e adolescentes pesando e medindo todos os alunos e encaminhando aqueles que estavam acima do peso. O que mais o ambiente escolar pode fazer para combater a obesidade?
Em primeiro lugar, se a cantina vende refrigerante, hambúrguer e salgadinho, que mensagem a escola está passando para as crianças? Que autoriza aquilo. Em segundo lugar, se a criança se alimenta três vezes por dia ou mais, e pro resto da vida, ela tem de ter aula de educação alimentar no currículo. Não basta uma palestra. É matemática, português, educação alimentar. O poder público também poderia atuar de forma mais direta. A Prefeitura de São Paulo, por exemplo, está lançando um prêmio chamado Educação além do Prato – inclusive inspirado no filme –, que deve premiar escolas com o trabalho mais interessante junto às merendeiras. Quer receitas mais saudáveis. Precisa ver se é uma atividade pontual ou curricular. Outra coisa: sabe aquele bolinho que aparece no filme e fazia um ano e meio que continuava inteiro? A Prefeitura assistiu ao documentário, entrou em contato com o fornecedor e disse que só voltaria a comprar o bolinho da sua empresa quando ele estragasse. O fornecedor passou um ano reformulando o produto e agora chegou a uma receita melhorada.
Por que o governo não faz uma campanha de massa contra a obesidade?
Um terço das crianças está com sobrepeso e obesidade. O Estadão divulgou um levantamento das mortes diretas provocadas pelo excesso de peso. Ainda tem as indiretas. Nos EUA, o killing the most é a obesidade, e a gente está seguindo por esse caminho. O governo ganharia se fizesse uma campanha muito forte de prevenção.
Que não está acontecendo.
Não estou vendo… Acho que é uma questão política. A indústria alimentícia é muito competente na sua distribuição de produtos. Em qualquer cidadezinha, no interior do interior, você encontra todos os produtos industrializados, mas não necessariamente os frescos. Além disso, ela é muito competente em deixar aquele produto barato. E, na composição, a mistura de sal, açúcar e gordura é ultrapalatável. Faz com que o consumidor goste daquilo e fique aprisionado pela língua. Quando o governo faz campanha pró-aleitamento materno, o resultado é incrível. Portanto, ele precisa dizer: alimente-se bem. Tem que ensinar às pessoas o que comer e o que evitar em excesso. Sabemos que, onde tem água parada, pode ter o mosquito da dengue. No entanto, o governo dá prêmio de parceiro da saúde para uma rede de fast-food e o ministro da Saúde surge no carnaval dentro do camarote de uma empresa de refrigerante.  
De quem foi a ideia de mostrar, em potes, quanto tem de açúcar dentro de um refrigerante e quanto tem de óleo num pacote de salgadinho?
Foi minha. Você tem um pacote com 150 g de salgadinho. No rótulo está escrito: em cada 20 g, há tanto de óleo. O pai enxerga mal o que está escrito, a criança não vai comer 20 g e sim o pacote inteiro, e é preciso fazer uma regra de três no supermercado. Pensei: qual a forma mais transparente de mostrar o que as pessoas estão ingerindo? Eu me baseei em pesquisas muito sérias sobre os alimentos que as crianças mais ingerem: os achocolatados, os salgadinhos, os sucos de néctar. Eles não estão ali de forma aleatória. 
As embalagens e os rótulos dos produtos alimentícios deveriam ser mudados?
Quando comecei a editar o filme, tive de fazer um recorte grande de conteúdo. Havia temas tão avançados em obesidade que eu pensei “vão achar que estou viajando”. Um exemplo: hoje em dia você vê no verso de um maço de cigarro um pé apodrecendo, uma pessoa com câncer. Nos EUA, onde a discussão sobre a obesidade está muito na frente, já se fala em colocar alertas desse tipo nas embalagens dos alimentos. Querem que a gente veja um rótulo e perceba, de fato, o que tem dentro daquele produto e as consequências da sua ingestão em excesso. Eu achava que, se trouxesse essa discussão para cá, num filme assistido especialmente por brasileiros, as pessoas não iam entender. 
Seria demais para aquele momento?
Sim, a discussão sobre obesidade no Brasil era muito grande entre médicos e educadores, mas não entre a população. Acho que as pessoas que estão buscando alimentos mais saudáveis, orgânicos, são as que estão pensando sobre esse conteúdo há muito tempo, vivenciaram alguma experiência dolorosa, receberam referências fortes de outros grupos. Para elas, o que deixei fora do filme talvez funcionasse. 
De qualquer forma, um rótulo com imagens chocantes é controverso. Alguns dizem que pode ter efeito contrário no consumidor.  
Mas mostrou uma postura importante do governo: a de que o cigarro faz mal. Tem muita gente querendo trabalhar a questão do rótulo. Contudo, o brasileiro não lê rotulo, ele assiste à propaganda. O rótulo acaba sendo um “eu avisei”. A pessoa comprou porque quis. É sempre o indivíduo. Mas uma criança de 9 anos não escolhe ser gorda, e uma mãe de uma criança de 9 anos também não escolhe que seu filho tenha sobrepeso. Ela sabe quanto sofre uma criança com esse problema. Então tem de ser uma educação alimentar de massa, nas escolas, na TV aberta.  
Como é a autoimagem da criança obesa?
Uma terapeuta especializada em crianças, a Clarissa Ollitta, diz o seguinte: “Ou as crianças obesas se sentem monstruosas ou elas se sentem invisíveis”. Vale lembrar que, em cada cinco crianças obesas, quatro serão obesas quando adultas. Mas, ainda que uma delas vire uma adulta magra, talvez nunca se recupere dessa infância. A Louise Bourgeois, artista plástica, já falava que “a infância nunca perdeu sua mágica, seu encantamento e seu drama”. A infância já é dramática por si só. Você tem de ser aceita, tem de ser gostada. Precisamos dar mais um obstáculo pra ela? 
Falando em drama, a criança pode passar a comer compulsivamente por causa de um trauma – o divórcio dos pais, por exemplo. Há um caso assim no filme.
Sim, mas proporcionalmente falamos mais de crianças que chegaram ao sobrepeso e à obesidade quase sem perceber. Isso aconteceu por causa da transição do alimento natural para o industrializado. Elas ficaram viciadas nesse tipo de alimento, não fazem refeição com a família, não sabem diferenciar um abacate de um rabanete, um melão de uma manga. Eu achava que isso acontecia mais no ambiente urbano. O choque foi perceber essa desinformação no Brasil inteiro.  
O que acha dos programas de TV em que adultos com sobrepeso competem para ver quem emagrece mais?
Esses programas focam muito no indivíduo. Aquela pessoa tem de perder peso porque está assim por culpa dela. Primeiro, há uma linha genética. Os pais são gordinhos, daí que muitas crianças são geneticamente propensas a ser gordinhas também. A OMS tem um dado de porcentagem aceitável de obesos. Mas essas competições televisivas são perigosas porque não focam no que deixou metade da população com sobrepeso ou obesidade. Estamos falando de um ambiente obesogênico, não de um indivíduo que quis ficar assim. E é difícil falar disso porque, se ele é um adulto, ele é responsável por suas escolhas. Mas, se foi uma criança obesa, suas células têm memória. O tratamento é muito complicado porque as pessoas não são uma boca. Como se trata o alcoólatra? Basta dizer “não beba”? Não. Você oferece terapia, você dá remédio, dá carinho, dá conforto. Com uma criança – e mesmo com um adulto obeso – é a mesma coisa. Não pode falar “não coma”.
Você morou sete anos nos EUA e acompanhou a campanha do governo contra a obesidade. Que percepções trouxe de lá?
Quando a Michelle Obama abraçou a causa com o Let’s Move, todo mundo começou a falar mais de obesidade, inclusive no Brasil. Michelle enfrentou muita dificuldade por causa da força das marcas, das corporações. Tanto que começou falando sobre composição de produto e hoje trata mais de atividade física. É uma mulher corajosa. Sendo mãe, imagino como deve sofrer ao ver as crianças americanas obesas. Agora, é um modelo de vida que não valoriza a alimentação natural. Um amigo morou três meses nos EUA e contratou uma pessoa para ajudar na casa. No terceiro dia essa ajudante falou: “Vou ter de cobrar o dobro, eu não sabia que vocês iam usar a cozinha”. As pessoas não usam o fogão lá.
E no Brasil é muito diferente?
Vejo algumas pessoas cozinhando em casa, outras saindo para comer especialmente comida caseira. Mas o que a gente mais percebe são os restaurantes lotados, com TV em todos eles. Pensando nessas sociedades de consumo, eu queria fazer um paralelo. Quando a gente fez Criança, a Alma do Negócio, observei a quantidade de lixo de plástico que as crianças tinham em casa. Falo de brinquedos que os pais compraram, as crianças brincaram uma vez e abandonaram em seguida. Isso acontecia tanto com crianças de comunidades carentes quanto com crianças de classe AA. Eu acho que o estímulo à compra e a obesidade infantil estão intimamente ligados. A criança não só está acumulando na sua casa como está acumulando no corpo. São calorias vazias. Ela quer preencher um vácuo que o alimento não vai preencher. Isso só vai acontecer  através de um amigo, do afeto, da convivência. Por isso a questão é tão maior. Não e só o sentido do alimento, é o sentido da vida.
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O mártir da pressa


BRENDA FUCUTA
03 Maio 2014 | 15h 34

Vinte anos após o escândalo da Escola Base, a morte do proprietário, Icushiro Shimada, lembra aos jornalistas que o tempo é um deus cruel

A Escola Base é a pedra no sapato da minha geração, um grupo de jornalistas que testemunhou e relatou coisas sensacionais, como as Diretas Já e todo o processo do impeachment de Collor.
Quando estourou o escândalo, eu trabalhava na redação da Veja. Na revista, que derrubou um presidente, o processo de apuração era extremamente rigoroso. Tínhamos os editores, que escrutinavam os textos e seus repórteres, e tínhamos a joia da coroa, os checadores: um time de jornalistas que trabalhava nos bastidores questionando as informações do texto final e alertando a redação para possíveis equívocos.
Os checadores não me alertaram para potenciais fragilidades na história da Escola Base. Nem os editores. Seria exigir muito, já que a notícia, anunciada primeiro na TV, de que havia uma denúncia de abuso sexual numa escolinha de bairro em São Paulo, tinha se alastrado de tal forma que a questão não era de checagem ou de bom jornalismo. Era de competição por audiência e luta contra o tempo. Quem conseguiria a primeira entrevista? Quem descobriria os detalhes mais sórdidos?
Para repórteres de TV daquela época (imagino, ainda hoje), tempo é um deus cruel. Você precisa entrar no ar em uma hora, ao vivo, com uma notícia que vai chamar a atenção de milhões de pessoas e tudo que há, para ajudar, é o histórico (o que seus colegas já disseram sobre o assunto) e suas fontes (nesse caso, o delegado que recebeu a denúncia de abuso sexual de duas famílias).
Quando eu estava sentada à sala da casa de uma das mães que acusavam os professores da escola de terem abusado de seu filho de 4 anos, assisti a um desfile apressado de vários colegas de TV. Eles tinham perguntas prontas, a mãe tinha respostas que pareciam cada vez mais fabulosas e ninguém parecia ter a obrigação de duvidar.
Eu contava com uma vantagem: trabalhava numa revista semanal e, diferentemente de meus colegas de TV, tinha um pouco mais de tempo para apurar a história. Era um privilégio e eu o usei. Tive tempo para ver a mãe do garoto supostamente abusado dirigir toda a sua atenção para os repórteres enquanto a criança brincava, sozinha, num dos quartos da casa.
Tive tempo para perguntar a ela se o filho tinha intestino preso (pergunta que só fazia sentido porque tive tempo de entrevistar médicos que me explicaram que fissuras anais, relatadas no exame de corpo do boletim do IML, podiam ser fruto tanto de abuso sexual quanto de constipação intestinal).
Imagino que esse dado tenha começado a entornar o caldo do escândalo. Na reportagem que escrevi cheguei a citar um caso semelhante, que tinha acontecido nos Estados Unidos, de denúncia infundada de abuso sexual de crianças contra uma escola. Lembro que, após um ou dois meses de reportagens sobre o caso, o assunto começou a tomar outro rumo. Depois de terem sido linchados moralmente, os donos e os professores da Escola Base mereceram o benefício da dúvida por parte da imprensa e da Justiça. Veículos de imprensa, inclusive a Veja, foram condenados e multados. Repórteres que cobriram o assunto devem se sentir culpados até hoje.
Um mês depois do aniversário de 20 anos do escândalo, soube da morte de um dos donos da Escola Base, Icushiro Shimada, no último dia 16, de infarte. Fico imaginando o que ele passou nestas duas décadas. Imagino também o que a mãe da criança de 4 anos sentiu quando percebeu que podia estar errada. O que esse menino, hoje um adulto, tem como memória da história da qual, involuntariamente, foi protagonista...
A pressa é uma inimiga da verdade. Unanimidade, também. Pressa, unanimidade e histeria foi o coquetel explosivo do caso Base, destrutivo a ponto de ter deixado cicatrizes irreparáveis em todos.
Curiosamente, a mesma mistura aconteceu no mês passado, quando o Ipea divulgou dados equivocados sobre o que os brasileiros pensam do estupro. A cobertura do assunto, agora mais veloz com o jornalismo online, foi pouco crítica e pouco profunda. Quando os dados começaram a levantar suspeitas, a fogueira já estava queimando nas redes sociais, com protestos de toda ordem. Nesse caso, o erro custou apenas um emprego (do diretor do Ipea). Eu confesso que também, apressada, publiquei o resultado da pesquisa no meu blog. Depois, me desculpei por não ter feito o que o jornalista deve fazer sempre e cada vez mais: desconfiar. Na nossa profissão, ao contrário de tantas outras, o ceticismo pode salvar vidas e reputações.
BRENDA FUCUTA É JORNALISTA E SÓCIA DA AGÊNCIA INCRÍVEL! – DESIGN DE CAUSAS

Despreparo armado


GUARACY MINGARDI* - O ESTADO DE S.PAULO
04 Maio 2014 | 02h 07

Incompetência e desleixo fazem do Brasil um dos países em que mais policiais matam e morrem


O médico Ricardo Seiti morreu no domingo passado, após ser baleado num tiroteio dentro do 2º. DP de Santo André. Seiti estava na delegacia para registrar um B.O. de um acidente de trânsito quando foi alvejado numa confusão provocada pela própria polícia paulista.
Robert Peel pode ser considerado um dos fundadores do Estado moderno. Em 1829, quando era secretário do Interior da Inglaterra, introduziu uma série de reformas no direito penal britânico, mas é lembrado até hoje por ter criado a Polícia Metropolitana londrina (Metropolitan Police Act). Num país que prezava a liberdade e tinha medo de uma polícia truculenta ou a serviço do despotismo, Peel modelou uma organização baseada no profissionalismo, eficiência e legalidade. A nova polícia deveria ser regida por alguns princípios básicos, dos quais o sexto pregava o seguinte: "A polícia usa a força física na medida necessária para garantir a observância da lei ou para restaurar a ordem apenas quando o exercício da resolução pacífica, da persuasão e do aviso for insuficiente".
Quase dois séculos depois, ainda não são todos os que aprovam esse modelo. Parte significativa da sociedade brasileira acredita que são ideias ultrapassadas, que bandido bom é bandido morto. Esse ponto de vista não é novidade e independe de classe social ou grau de instrução. Mas o que dizem os apologistas da força quando a polícia mata cidadãos comuns, seja por engano ou simples incompetência?
Muitos se calam, enquanto outros ficam indignados, reclamando do tipo de atuação policial que até o dia anterior aprovavam. A desculpa é que o policial deveria saber distinguir o criminoso do "cidadão de bem". Como se isso fosse possível sem o uso de uma bola de cristal. Outra reação é culpar a instrução, o treinamento dado aos policiais. No dia em que a TV exibiu uma mulher cujo corpo foi arrastado por uma viatura da PM em Madureira, uma repórter televisiva culpou a má formação, como se alguém tivesse de ser ensinado a fechar direito o porta-malas do carro.
Esse caso é apenas um de muitos, ocorridos nos últimos meses, que resultaram em mortes desnecessárias causadas pela incompetência ou desleixo. Os mais recentes foram os homicídios do bailarino no Rio e o do médico em Santo André. O primeiro morreu por causa do desleixo de policiais que acreditam que trocar tiros em uma área densamente povoada é normal - afinal, são só favelados. O segundo, pela incompetência de um policial que começou um tiroteio dentro da delegacia quando viu pessoas correndo, o que seria quase cômico se não tivesse resultado numa tragédia.
Assim como o episódio da mulher arrastada, nenhum dos dois casos ocorreu por falta de instrução. A formação melhorou muito desde os anos 1980, quando frequentei a Academia de Polícia Civil de São Paulo. Naquela época, só para dar um exemplo concreto, os alunos do curso de investigador deram apenas 12 tiros durante os quatro meses do curso. Com certeza o policial civil aprendeu muito mais que isso na Academia, inclusive a não atirar a esmo, sem motivo válido. E os policiais militares cariocas evidentemente aprenderam no Centro de Formação de Soldados do Rio que tiroteio numa área residencial pode ser um desastre.
É evidente que a formação policial não é uma maravilha, mas não é a culpada pelas atitudes que tornam o Brasil um dos locais do mundo onde mais policiais matam e morrem. O principal vilão da história é o sistema de segurança pública brasileiro - ultrapassado, ineficiente e caro, mas que os parlamentares desconhecem e as instituições policiais querem manter a todo custo. Um dos produtos mais nocivos desse modelo é a falta de controle dos chefes sobre seus subordinados e a existência de uma cultura organizacional que faz com que a incompetência não seja punida. Em vários Estados, um oficial da PM ou delegado incompetente tem uma carreira normal, sendo promovido por tempo de serviço durante 30 anos sem ter feito nada de útil para a sociedade.
Outra faceta da cultura institucional é a distância que as polícias têm da sociedade, o que provoca repulsa a qualquer prestação de contas. Muitos policiais expressam a ideia de que, quanto menos a sociedade souber sobre suas atividades, melhor. Um dos motivos desse raciocínio torto e antidemocrático é que, quanto mais secretas forem as ações, menos argumentos terão aqueles que propõem mudanças no sistema. Portanto, as carreiras dos incompetentes não correm risco. E o sucesso dessa postura só foi possível porque eles conseguiram vender para seus colegas eficientes que o silêncio e o distanciamento da sociedade é bom para todos.
Nosso modelo de segurança, porém, não caiu do céu. Foi criado pelos constituintes de 1988 e manteve alguns princípios impostos pela ditadura militar, inclusive a militarização do braço preventivo da polícia. Com isso, afastou a prevenção da investigação, criando duas polícias rivais que passam mais tempo discutindo entre si do que aprimorando o trabalho. Só quem não vê isso são os governadores, que batem na tecla da integração (que não existe) entre as instituições. Enquanto isso os projetos de mudança na segurança hibernam no Congresso, só voltando à baila quando acontece uma desgraça. Como se não bastassem as mortes desnecessárias e a criminalidade crescente.
*Guaracy Mingardi é doutor em Ciência Política pela USP e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Exploração de gás de xisto nos Estados Unidos inicia revolução energética


DENISE CHRISPIM MARIN - ENVIADA ESPECIAL / PITTSBURGH
03 Agosto 2013 | 22h 36

Exportação a preços competitivos deve mudar cenário global de energia

Em apenas quatro anos, a exploração de gás de xisto nos Estados Unidos iniciou uma revolução energética capaz de alterar o cenário econômico do país. A atração de investimentos produtivos, antes vista como impossível, tornou-se inevitável, assim como a autossuficiência em fontes de energia. Com ou sem cota - tema polêmico e ainda não definido -, os EUA estarão em poucos anos exportando gás natural em volume suficiente para mudar o panorama mundial.
A reserva americana de gás de xisto é estimada em 2,7 trilhões de metros cúbicos, nos cálculos da Administração de Informação sobre Energia (EIA) de dezembro de 2010. É suficiente para abastecer o mercado por mais de 100 anos. Mas pode ser maior. A extração começou há poucos anos, está em constante avanço tecnológico e contribuiu para a produção de 27,4 quatrilhões de BTUs (British Thermal Unit, unidade de energia para medir quantidades de gás) no ano passado.
Tamanha oferta de gás de xisto, a custos relativamente baixos de produção, permite a venda do gás natural americano a US$ 4 por milhão de BTUs - o menor preço do mercado mundial. Em 2020, serão 31,3 quatrilhões de BTUs - 14% mais, nas previsões da EIA. Atualmente, essa nova fonte responde por 34% do total de gás natural extraído no país.
O McKinsey Global Institute inclui o gás de xisto entre os cinco setores capazes de mudar a economia americana. Entre 2007 e 2012, essa extração aumentou, em média, 50% ao ano. A consultoria estima que, até 2020, o gás vai adicionar de 2% a 4% ao Produto Interno Bruto (PIB) anual dos EUA - algo entre US$ 380 bilhões e US$ 690 bilhões - e gerar 1,7 milhão de empregos diretos, especialmente para trabalhadores com nível superior de escolaridade.
O setor vai trazer consigo potencial para revitalizar o setor energético, atrair investimento de indústrias intensivas em energia e impulsionar a economia. Entre US$ 55 bilhões e US$ 85 bilhões deverão ser adicionados ao PIB industrial americano até 2020, em investimentos de companhias petroquímicas, de fertilizantes, siderúrgicas, de vidro e outras. Espera-se o renascimento da indústria manufatureira do país.
No PIB do conjunto dos setores de construção, transportes, serviços e comércio, entre US$ 210 bilhões e US$ 380 bilhões serão agregados. Mais US$ 1,4 trilhão deverá ser investido em curto prazo em infraestrutura e gasodutos, com geração de 1,6 milhão de postos temporários de trabalho. Esse boom deverá se estender por quase todo o país, dado o fato de as 48 reservas de gás de xisto estarem em 28 Estados americanos. Desse conjunto, 26 reservas estão em exploração. Somente na formação geológica de Marcellus, que abrange a Pensilvânia, Nova York, Ohio e Virgínia Ocidental, há de 5 mil a 6 mil poços em operação.
"Nos últimos cinco anos de recessão, essa foi a atividade que salvou vários Estados", afirmou Christopher Guith, vice-presidente do Institute for 21st Century Energy, da US Chamber of Commerce. "O gás de xisto vai mudar o panorama mundial, assim como a Apple e a Microsoft estão fazendo nos últimos anos, porque vai tocar em toda a economia e na vida das pessoas", disse. "O que queremos é fazer com que essa mudança se torne ainda mais positiva", completou Guith.
As entidades de empresas produtoras de gás de xisto ambicionam deslocar o carvão como fonte - altamente poluidora - de energia elétrica no país. Hoje, 50% da eletricidade é gerada em térmicas a carvão. Mas o lobby político desse setor no Congresso não permitirá a fácil conquista desse mercado. O gás de xisto já vem substituindo o diesel em ônibus e caminhões, apesar de poucos postos terem o combustível.
O preço atual de venda de gás natural, de US$ 4 por milhão de BTUs, é imbatível. A Rússia escoa gás natural para a Alemanha a US$ 11,36. Na Indonésia, custa US$ 17,72. No Brasil, cerca de US$ 18. Os produtores estimam que, ao atingir um volume substancial, o preço rondará US$ 6 por milhão de BTU em dez anos. A Europa, atual consumidora de carvão americano, está ansiosa por essa fonte limpa e barata. O Japão, especialmente depois da tragédia de Fukujima, está ainda mais desejoso.
Há muito a ser feito antes da corrida aos mercados externos. Cinco projetos de instalação de usinas para transformar o gás em GNL estão em estudos. Dos quatro terminais portuários de gás na Costa Leste, todos voltados à importação, três deles estão fechados. O de Boston opera, mas precisa ser convertido para a exportação. Há apenas um terminal de exportação em funcionamento no país, no Alasca, que escoa volume limitado de gás para o Japão. O gargalo físico é um desafio. Mas não tão difícil de ser superado quanto a resistência do governo Barack Obama.
A Casa Branca é reconhecida como adversária pelos setores de energia fóssil dos EUA. Mesmo assim, os produtores acreditam ser possível dobrá-la com um argumento sensível: o potencial de geração de empregos. Segundo David Wochner, especialista da consultoria K&L Gates, o governo americano está neste momento preocupado em adequar oferta e preço, no mercado interno, antes de facilitar a exportação. Não quer se ver diante do risco de escalada do preço do gás no país. Sem a dimensão mais precisa das reservas, a equação pode demorar a surgir.
Novo mercado preocupa empresas brasileiras
A produção de gás de xisto nos Estados Unidos e seu baixo preço de venda deixou em suspenso projetos de companhias brasileiras. Para a Coalizão das Indústrias Brasileiras (BIC, na sigla em inglês), a possibilidade de fuga de investimentos produtivos do Brasil para os EUA é tão real quanto o risco de o etanol ser substituído pelo gás natural como combustível de transição.
A Odebrecht avalia os riscos na construção de hidrelétricas na América Central. Empresas comercializadoras estudam a lógica desse novo mercado, cientes dos riscos aos negócios em curso, e geradoras de energia temem a repetição, no Brasil, dos erros e da desorganização inicial da produção nos EUA. O País têm reservas estimadas em 6,9 trilhões de metros cúbicos, em especial no Vale do Rio São Francisco, onde mais de 30 poços estão sendo pesquisados.
"O gás de xisto está revolucionando o mercado de energia e a produção nos Estados Unidos, com reflexos sérios para o Brasil", diz Célia Feldpausch, diretora executiva da BIC, e organizadora de duas missões de executivos brasileiros, em Pittsburgh, sobre o gás de xisto.
Khary Cauthen, diretor do Instituto Americano do Petróleo (API), lembra que o etanol era uma "vaca sagrada" nos EUA há dez anos. O setor produtor teve seus créditos tributários facilmente derrubados no ano passado pelo Congresso, antes defensor arraigado desses subsídios. O álcool tende a ser substituído pelo gás natural na mistura obrigatória à gasolina, em longo prazo. 
No Brasil, dois leilões de áreas de gás natural estão programados para outubro e novembro. A Petrobrás monopoliza o transporte e a comercialização. O mercado aberto impera nos EUA desde a exploração - os locais são alugados pelo proprietário da terra - até a venda aos setores usuários do gás natural. A rede de gasodutos tem 38 mil quilômetros.
A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA COALIZÃO DAS INDÚSTRIAS BRASILEIRAS (BIC), INTEGRANDO A MISSÃO DE EMPRESAS DO BRASIL A WASHINGTON E PITTSBURGH