quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Crime não nasce no colo materno, Mariliz Pereira Jorge - FSP

 Um recorte da operação no Rio escancara o retrato de família à brasileira. Um terço dos mortos não tinha o nome do pai no registro. Não é detalhe burocrático, é herança social, mas reforça a tese conveniente e falaciosa de que "faltou homem em casa". Mulheres criam filhos sem a figura masculina todos os dias e não os perdem para a marginalidade. Este é, infelizmente, o resultado da falta de Estado, políticas públicas e responsabilidade paterna.

Planejamento familiar é direito desde 1996. Na realidade, repete-se a velha sequência: pobreza, gravidez não planejada, maternidade forçada, nenhuma rede de apoio, infâncias sem horizonte. A adolescência segue sendo terreno da omissão. No Brasil, adolescentes engravidam quatro vezes mais que em países desenvolvidos. É uma fase da vida que não combina com fila de emprego nem com creche que fecha ao meio-dia. Há outro golpe no mito do "lar, doce lar".

Várias pessoas deitadas lado a lado no chão, seminuas, com marcas visíveis no corpo, cercadas por uma multidão que observa em ambiente externo.
Corpos de mortos recolhidos em matas por moradores são alinhados em rua do complexo da Penha - Eduardo Anizelli - 29.out.2025/Folhapress

estupro de vulnerável domina as estatísticas, e a maioria das vítimas é menor de 14 anos. Mesmo assim, há quem queira criminalizar meninas violentadas, equiparando o aborto após 22 semanas a homicídio. É a política do castigo, que pune a vítima para tentar "resolver" um problema social que começa muito antes da violência sexual.

E os pais? Em 2023, 172 mil crianças foram registradas sem o nome do pai, mas o raciocínio cruel culpa quem ficou pelo sumiço de quem foi embora. Ausência paterna não é exceção, é estatística. O que falta não é "chefe" em casa, mas homens que exerçam a paternidade sem romantismo: apareçam no registro, paguem boleto e participem do cuidado, com presença, tempo e corresponsabilidade.

Esse recorte trágico revela o óbvio que o poder prefere calar. Quando o Estado falha no começo —planejamento, escola, saúde, proteção—, "compensa" no fim com fuzil. Não existe vácuo. Onde faltam creches, renda e política pública, sobram milícia, tráfico e morte precoce. A conta não é da mãe sem marido. É de um país que terceiriza a paternidade, demoniza direitos reprodutivos e só aparece na porta de casa para recolher o corpo.


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