É bem provável que muitos dos leitores tenham lido nos últimos dias artigos sobre a elevada taxa de juros que prevalece na economia brasileira.
De fato, ano após ano, a alta taxa de juros praticada no Brasil atua assim como uma doença crônica, que persiste em inibir novos investimentos produtivos, tanto na expansão da capacidade instalada como na inovação tecnológica e na elevação da produtividade. Como resultado, temos observado nas últimas décadas um desempenho econômico medíocre. Não creio que seja necessário repetir aos atentos leitores toda a ladainha da teoria econômica já amplamente divulgada —de que a alta taxa de juros reduz a demanda agregada, que por sua vez impacta na redução dos preços de bens e serviços, e assim resulta na gradual queda da inflação.
Combater a inflação deve ser sem dúvida uma "clausula pétrea" e também permanente em nossa agenda econômica. Isto não se discute. Mas cabe discutir, sim, quais ferramentas podem e devem ser utilizadas para haver melhor eficácia nesta tarefa —e principalmente como poderíamos mitigar os custos colaterais associados ao combate à inflação.
A taxa de juros é apenas uma das inúmeras "ferramentas" que podemos usar para atingir o mesmo objetivo. E talvez, entre outras, seja a mais dolorosa, a mais nociva, para nos livrar do risco da escalada dos preços.
A tese da política monetária ortodoxa é inequívoca como princípio, assim como na medicina: ao se detectar um paciente com um foco de infecção, o antibiótico é o remédio obvio. Mas o que pode causar alguma divergência tanto na economia como na medicina é a dosagem recomendada e o período de tratamento.
Novamente repito uma obviedade ao afirmar que uma dose excessiva tanto de juros como de antibiótico pode causar efeitos nocivos ao paciente. Dependendo da overdose e do organismo do paciente, os efeitos colaterais podem ser extremamente prejudiciais a sua saúde, causando um risco e um sacrifício excessivos para se atingir o resultado da cura desejada.
Se a dose for então prolongada, o remédio pode perder sua eficácia e se torna inútil após um determinado período. Portanto, a dosagem recomendada e o período de medicação sempre devem ser cuidadosamente observados, seja por economistas como por médicos responsáveis.
Mas, afinal, qual é causa da inflação? Se a causa, ou as causas, não forem devidamente debeladas, seus efeitos irão ressurgir e o tratamento terá que ser renovado, causando nova depressão econômica e orgânica. Nas últimas décadas, a elevação cíclica da taxa de juros Selic nos leva a crer que o "foco infeccioso" permanece ativo e que precisa urgentemente ser eliminado.
Neste caso, o tratamento necessário para eliminar de vez o "foco infeccioso" seria não mais um tratamento paliativo, mas um tratamento definitivo de choque, como uma intervenção cirúrgica.
No caso da economia brasileira, a cirurgia se traduz numa politica fiscal que reduza gastos públicos na proporção necessária para gerar um superávit primário no Orçamento federal, já que o espaço para aumento da receita tributária encontra-se bastante limitado. Não há outro caminho possível —simples assim. Repetir os mesmos erros do passado esperando que os resultados sejam diferentes é um sinal de loucura, como afirmava o sábio Albert Einstein.
Concluo neste espaço indagando se o "paciente Brasil" quer de fato curado ser desta crônica doença ou, de forma irresponsável, aceita passivamente prolongar sua agonia econômica? A resposta a tal indagação poderia ser dada por qualquer um de nós brasileiros através do voto popular, pelo qual elegemos nossos governantes e representantes no Congresso Nacional.
Mas aí transparece um evidente paradoxo e um nítido conflito de interesses quando percebemos que, para novamente serem eleitos, muitos de nossos governantes e parlamentares não hesitam em promover uma verdadeira "farra fiscal" com novos e abusivos gastos públicos através de medidas populistas e aquelas famosas emendas secretas, agravando a saúde do "paciente Brasil".
Até quando resistiremos a tanta insensatez e irresponsabilidade por parte daqueles que comandam o nosso futuro? Muda, Brasil. Ou em breve estaremos todos infectados eternamente pela mediocridade degenerativa.

Nenhum comentário:
Postar um comentário