segunda-feira, 17 de novembro de 2025

A via mais fácil para quem não sabe evitar os apocalipses diários, João Pereira Coutinho - FSP

 A vida é o que acontece quando fazemos outros planos, teria dito John Lennon. Errado, como sempre.

Melhor dizer que os dramas da vida acontecem quando esperamos outros dramas. Sofremos males na imaginação —e, quando o mal surge, é sempre inesperado.

No fundo, é como a história do hipocondríaco que, correndo de médico em médico, acaba atropelado por um carro que não respeitou o sinal.

Se assim é na vida comum, assim será na vida da civilização. O apocalipse? Conhecemos os candidatos óbvios: o cometa, a pandemia, a inteligência artificial, as mudanças climáticas, a guerra nuclear. Mas quando a festa acabar, será por ação de um agente inusitado.

Como explicar, então, nosso vício em apocalipses?

Porque somos seres narrativos, escreve Tom Phillips no hilariante "A Brief History of the End of the F*cking World". Podemos ser pós-modernos em muita coisa. Até no fingimento blasé com que aceitamos a ausência de sentido.

Desenho de um ovo com o mapa da América do Norte e do Sul em vermelho. Linhas pretas finas semelhantes a veias ou raízes se espalham sobre o mapa, cobrindo parte do continente.
Angelo Abu/Folhapress

Mas a hipótese de vivermos um tempo igual aos outros —nem bom nem ruim: mais ou menos— é uma ideia que não entra na cabeça do primata.

Queremos uma "revelação", para usar o significado da palavra grega "apokalypsis". Queremos estar na primeira fila do fim do mundo para nos sentirmos importantes e condenados.

Nossos antepassados esperaram pelo apocalipse, mas não tiveram essa sorte. Nós, que somos melhores do que eles, teremos o privilégio de ver a história terminar no exato momento em que estamos vivos. Haverá coisa mais chique?

E o apocalipse, que foi visitando a espécie humana nos últimos 3.000 anos, apresentou sempre as mesmas roupagens, escreve Phillips. A sensação de um passado perfeito. O desconforto de um declínio "evidente". A certeza de que agora é que vai ser (o fim). E, conforme a religião ou a ideologia, a crença em algum messianismo que nos salvará antes ou depois de o pano descer.

Eis o primeiro paradoxo do pensamento apocalíptico: mil vezes contrariado pela evidência desanimadora de que ainda estamos aqui, ele se renova a cada geração.

Existe um segundo paradoxo, avisa Tom Phillips: o apocalipse impede os seres humanos de agir no presente sobre problemas mais imediatos. Aliás, esses problemas deixam de ter importância sob a sombra do Grande Problema (com maiúsculas).

Resultado: o apocalipse é um convite para a inação —ou, pior ainda, para a destruição.

As seitas que mataram e se mataram para apressar o Julgamento Final são um caso.

Outro, mais contemporâneo, são os ativistas pelo clima que oferecem como solução para a Mãe Terra o retorno imediato à economia de subsistência.

"É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo", teria dito Slavoj Zizek. Donde, melhor imaginar o fim do mundo —e receber, como bônus, o fim do capitalismo.

É por isso de saudar a carta de Bill Gates sobre o clima, que alimentou equívocos entre os extremos. O universo Maga viu em Gates um negacionista analfabeto —e o celebrou por isso. O ativismo radical também o pintou com as mesmas cores —e o fuzilou por isso.

Como dizia um compatriota meu do século 19: "Nascer entre brutos, viver entre brutos e morrer entre brutos –é triste".

Na carta, Bill Gates alerta para o problema das mudanças climáticas e convoca a espécie humana para enfrentá-lo. Mas comete o pecado imperdoável de recusar o pensamento apocalíptico: a ameaça não é "existencial", defende ele, e a humanidade deve se adaptar e mitigar os piores efeitos do aquecimento global.

Felizmente, isso já acontece com tecnologia cada vez mais limpa, avançada –e acessível.

Além do mais, é preciso não esquecer a pobreza e a doença, escreve Gates, males tangíveis que requerem uma parte da atenção e dos recursos que devotamos ao apocalipse. Os mais pobres serão desproporcionalmente afetados pelas mudanças climáticas porque estão à mercê dos fenômenos naturais mais extremos.

Essa "injustiça climática", para usar o título de uma obra recente da climatologista Friederike Otto, é o ponto cego do ativismo radical: enquanto políticos e ideólogos culpam a "natureza" e a "ação humana" pelos fenômenos extremos, eximem-se de responsabilidades pela desigualdade e pela miséria que não souberam resolver.

Sempre foi assim: o apocalipse é a via mais fácil para quem não sabe, não quer ou não consegue evitar os pequenos apocalipses de todos os dias.

Nenhum comentário: