Uma casa vermelha de dois andares no bairro da Aclimação, na região central de São Paulo, reúne a relação secular entre russos e ucranianos através da culinária e da língua. Nela, estão localizados o restaurante russo Barskiy Dom e o Clube Eslavo, uma escola que dá aulas de ucraniano, russo e polonês. Os dois foram fundados por Snizhana Maznova, uma ucraniana de 45 anos nascida na última geração da União Soviética, filha de pai russo e mãe ucraniana, com uma biografia que personifica as histórias entrelaçadas das duas nações hoje em guerra.
No cardápio do restaurante, os pratos tradicionais russos – como o estrogonofe, apropriado pelos brasileiros em receitas mais temperadas – se misturam com os pratos ucranianos – a exemplo do varêniki, uma massa cozida e recheada que também se tornou popular no Brasil – e outros de influência de países vizinhos, como Uzbequistão e Coreia.
Um bom ponto de partida para experimentar a diversidade eslava são os golubtsi, charutos de repolho recheados com arroz e carne preparados no forno durante horas, acompanhados das panquecas de batata belarussas conhecidas como drániki. Para beber, o restaurante oferece kompot de maçã, uma bebida leve e suave feita com a fruta cozida, e kvas, que tem um gosto amargo e se caracteriza pela fermentação.
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Nascida em 1978, Snizhana cresceu dividida entre a Rússia, onde morou com os avós até os seis anos, e a Ucrânia, onde os pais moravam, quando ambos os países faziam parte da URSS. Na infância, falava russo e não via distinção entre as duas nações, mas aos seis anos foi estudar em uma escola comandada por ucranianos e teve um choque ao descobrir a existência de uma identidade que a diferenciada dos russos. “Uma professora começou a apresentar muitos poetas que não estavam nos livros da escola, criados todos pela União Soviética”, conta.
Quando a URSS caiu em 1991 outro mundo se revelou e ela passou a saber da existência de poetas ucranianos que tinham sido mortos, levados para a Sibéria e apagados da história oficial. Mesmo os poetas que a professora havia apresentado tinham segredos agora descobertos. “Eu tinha mais dois anos de escola quando a União Soviética caiu. Essa professora começou a acrescentar coisas que eram proibidas antes, como poemas ucranianos que falavam da história de um povo massacrado e escravizado pelos russos”, continua.
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Uma volta ao mundo que acabou no Brasil
Nesta mesma época, a Ucrânia vivia uma década dura, colapsada pelo fim da URSS e com a missão de se reconstruir como um país independente, após séculos de dominação do Império Russo e soviético. “Nessa época não tinha salário. Vivíamos de batata e chá”, diz a ucraniana. Por isso, decidiu trabalhar no Japão, onde casou-se com um brasileiro e decidiu vir para o Brasil. Pouco tempo depois, foi abandonada com um filho recém-nascido pelo marido.
Em São Paulo desde 2008, Snizhana começou a dar aulas de russo, uma língua que dominava melhor que o ucraniano por ter sido o idioma oficial de onde cresceu, para sobreviver financeiramente. Escolheu se instalar no bairro Paraíso porque percebeu que era o local mais acessível pelas linhas de metrô da cidade. Aos poucos reuniu alunos, aprendeu português e se estabeleceu. Acompanhava as notícias sobre a Ucrânia à distância e ouvia ainda no início da década passada alguns políticos russos afirmarem que o país pertencia à Rússia. Julgava bobagem, uma loucura que ninguém levava a sério, até a Crimeia ser invadida em 2014.
Quase dez anos depois da invasão da Crimeia, a ucraniana lembra a sensação ao ver as notícias. “Foi uma coisa super louca porque era inacreditável. Você pode imaginar Portugal chegar ao Brasil e falar que um Estado pertence a eles porque historicamente eles foram colônias portuguesas?”, relembra. Desde então, os conflitos na Ucrânia nunca foram interrompidos. O país viveu uma guerra no leste entre o exército ucraniano e grupos separatistas pró-Rússia; pouco a pouco, a aspiração do presidente Vladimir Putin sobre o vizinho cresceu, a relação entre os dois países se deteriorou e a guerra eclodiu.
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