quarta-feira, 27 de agosto de 2025

A Bolsalidade, Alexandre Marcos Pereira, in APMP

 O professor Conrado Hübner, que escreve semanalmente na Folha de São Paulo, criou um neologismo – bolsalidade – palavra substantiva que sintetiza em um único termo as características, atributos e comportamentos próprios de alguém que você certamente conhece.

A bolsalidade se infiltra nas frestas do cotidiano como mofo em parede velha: não aparece de uma vez, mas aos poucos toma a superfície, disfarçada de piada, de “opinião forte”, de “senso prático” que dispensa livros, instituições e nuances. A bolsalidade é um método de simplificar o mundo até que caiba num meme: um mundo sem dúvidas, sem delicadezas, sem a lerdeza paciente do pensamento.

Não se limite a procurá-la nas passeatas de gritos e nas camisetas de frases de efeito. Ela está também nos risos cúmplices das mesas de bar quando alguém transforma a dor de um grupo inteiro em anedota; no compartilhamento impensado de um vídeo “que só estou repassando”; na convicção de quem, diante da complexidade, responde: “Eu vi no WhatsApp”. Está nos ambientes de trabalho quando se normaliza o desprezo por quem lê, estuda ou recusa o atalho da grosseria. Está, sobretudo, na covardia social de quem sabe que certas violências são inaceitáveis, mas prefere acomodar-se ao coro para “não causar”.

Hannah Arendt chamou de banalidade o que muitos gostariam de enxergar como monstruosidade: a capacidade de gente ordinária reproduzir, por hábito, indiferença e servidão ao brutal. A bolsalidade, como versão tropical dessa engrenagem, converte a grosseria em virtude cívica e a ignorância altiva em prova de autenticidade. O gesto é antigo: Umberto Eco, ao listar traços do “ur-fascismo”, descreveu a idolatria da ação pela ação, o culto da força, o medo da diferença, o machismo travestido de moral — como se fossem espelhos pendurados na nossa sala de estar. Do outro lado da nossa tradição, Machado de Assis, na “Teoria do Medalhão”, desenhou a apoteose da mediocridade respeitável: a carreira do espírito que evita ideias para colher aplausos. Se trocarmos a cartola pelo boné e a pena pelo post, a genealogia está feita.

“Mas isso é só política”, dirá alguém, abanando a mão. É aí que a crônica pede atenção. A bolsalidade não é mera preferência partidária; é um estilo de percepção. Onde ela chega, a linguagem perde gradações; a realidade vira o que convém numa tarde quente. Numa escola, vira a desconfiança contra o professor que convida ao debate. Num fórum, vira a impaciência contra o rito e a prova, como se o devido processo fosse frescura. Numa redação, vira o cálculo cínico de que a verdade precisaser torcida para caber no algoritmo. Na família, vira a pedagogia do deboche, ensinando crianças a rir do fraco e a desconfiar da compaixão.

“Ah, mas todo mundo exagera.” Sim, todo mundo erra; a diferença é quando o erro vira identidade e ponto de honra. A bolsalidade orgulha-se de sua própria rudeza, veste-a como brasão. Ela aplaude a humilhação como quem celebra eficiência, confunde firmeza com brutalidade e chama de “lacração do bem” qualquer ataque que lhe interesse. No extremo, ela transforma a violência em estética — e, como toda estética, pega. É contagiosa porque dá pertencimento rápido e barulhento, fornece respostas sem custo, heroísmos sem sacrifício e inimigos sem rosto.

Há um detalhe que os manuais não sublinham: a bolsalidade é uma indústria caseira. Não precisa de grande financiamento nem de quartéis; precisa de plateia. Alimenta-se do riso fácil, do like distraído, do silêncio dos tibetanos do centro — aqueles que, em nome de uma prudência que não fere ninguém, deixam que tudo se fira. Cresce, portanto, na omissão dos que se julgam “acima” do tumulto, mas cuja neutralidade só pesa de um lado. A indiferença, dizia Antonio Gramsci, é musculosa; e aqui ela é personal trainer de boçalidade.

Como desmontar isso sem virar o que se combate? Primeiro, recuperando a gramática da civilidade sem melar a firmeza. Não se trata de “ser fofinho”, mas de reabilitar a ideia de que pensar exige tempo e que o outro não é um obstáculo a ser esmagado, e sim uma alteridade a ser compreendida ou refutada com argumentos. Em segundo lugar, defendendo instituições não como fetiches, mas como pactos: a ciência com suas correções, a justiça com seus prazos, a imprensa com sua autocrítica, a política com sua chatice. A chatice democrática é o preço da liberdade: discussão, contraditório, evidência, voto, prestação de contas. É menos excitante que a grosseria performática — mas sustenta.

Há, ainda, um antídoto de longo prazo que costuma parecer delicado demais para tempos ásperos: a literatura. Antonio Candido lembrava que a fruição literária é um direito humano porque humaniza. Ler com vagar é treinar o músculo da nuance, da ambiguidade, do “não sei”. É aceitar que um personagem pode nos desmentir sem que precisemos cancelá-lo. A bolsalidade, que só reconhece caricaturas, apodrece quando obrigada a lidar com Dostoiévski, Clarice, Guimarães Rosa, Shakespeare — não porque esses autores deem respostas, mas porque nos impedem de empinar certezas. E, se quiser um autor doméstico para a vacina, repito: Machado de Assis, mestre das ironias microscópicas, doutor em desmontar pretensões.

Imaginona cena comum numa manhã de calor em Ribeirão Preto: na padaria, o rádio despeja palavras de ordem que soam prontas, um senhor repete um bordão de campanha como se fosse oração, a moça do caixa sorri amarelo e volta ao troco. Nada acontece — e tudo acontece. A vida segue no compasso da normalidade, enquanto as pequenas licenças do discurso vão ganhando ares de lei natural. Do

lado de fora, a calçada estala ao sol; do lado de dentro, a conversa pula de preço do café para “essa gente aí”. É assim que se arma a pasmaceira moral: cada qual jura que não participa, mas empresta o ouvido, o riso, o repasse.

Talvez a crônica não mude ninguém. Talvez sirva só para registrar o incômodo e propor um método doméstico de resistência: recusar o deboche como argumento, exigir provas quando a retórica vier gritando, proteger a dúvida como território sagrado e manter o humor — não o humor de humilhar, mas o humor de enxergar o ridículo do próprio lado. Porque a bolsalidade é onívora: se não a policiamos em nós, ela muda de camiseta e continua.

No fim da tarde, quando o vento melhora e as árvores da rua deitam sombra na fachada, você percebe que a vizinhança também cansa do grito. Uma criança pergunta por que adulto fala tão alto. A pergunta, pequena e justa, é a melhor crítica sociológica do dia. Quem sabe seja por aí: reaprender a falar baixo para pensar alto, sem abdicar da coragem de dizer “não”. Não ao cinismo travestido de sinceridade. Não à ignorância exibida como troféu. Não à crueldade com fantasia de patriotismo.

E então volto ao início, para que se feche o círculo com uma escolha: se a bolsalidade não é surto de poucos, tampouco é destino de todos. Ela viceja onde a conversa rende pouco e a imaginação se rende cedo. Se a tratarmos como estilo — e não como inevitabilidade —, poderemos aposentá-la como se aposentam modas ruins: parando de usá-las, de aplaudi-las, de achá-las “apenas engraçadas”. E, quando a vontade de repetir o bordão vier, lembrar que o silêncio, às vezes, é uma elegância; e a elegância, nesses tempos, é um compromisso político.

A crônica acabou, mas a conversa ainda nos salva.

A Biblioteca dos imortais, Alexandre Marcos Pereira, In APMP

 Naquela manhã cinzenta, acordei com a estranha sensação de que o tempo havia se recolhido. O relógio não marcava horas — ele meditava. As paredes da casa pareciam mais espessas, como se feitas de papel de arroz filosófico, e as estantes ganhavam vida, cochichando entre si como velhos mestres em sussurros socráticos. Era o dia em que todos os livros de filosofia resolveram conversar entre si. A República de Platão desceu soberana de sua prateleira dourada. Sentou-se sobre a mesa como quem se prepara para julgar a alma do leitor. “A justiça é a harmonia entre as partes da alma”, disse ela, com ares de professor helênico. A seu lado, Ética a Nicômaco, mais serena, ponderava: “Não basta a harmonia, é preciso agir conforme a virtude, em ato e potência”. Nisso, o tombo sonoro de Crítica da Razão Pura que se espatifava no chão como uma tese mal formulada. Kant, sempre pontual e metódico, não tolerava atrasos nem devaneios. “Ordem, senhores! Sem condições de possibilidade, nenhuma experiência é possível! A razão deve traçar os limites de si mesma!” Todos se calaram — menos Nietzsche. Assim Falou Zaratustra dançava sobre a cadeira, completamente nu de ilusões, proclamando: “Deus está morto! E fomos nós que o matamos com nossos tratados!” Platão se remexeu. Aristóteles pigarreou. Kant revirou os olhos com desprezo prussiano. Mas A Vontade de Potência, ali ao lado, completava a dança com um sorriso debochado, como quem diz: “Ele tem razão... mas só até certo ponto.” Foi então que entrou Ser e Tempo, de Heidegger, arrastando os chinelos como um velho fantasma germânico. Sentou-se em silêncio, olhando para todos com o peso de mil séculos. “O ser não é. Ele se mostra no tempo. E é na angústia que nos damos conta de que existimos.” Nietzsche acenou com o cálice. Sartre, por sua vez, soltou uma baforada imaginária de cigarro e resmungou com ares de existencialista parisiense: “A existência precede a essência. O inferno são os outros — mas ao menos servem vinho.” O Ser e o Nada ocupou a poltrona mais funda da sala, aquela onde os amantes se perdem em madrugadas solitárias. Olhou para mim, como se me reconhecesse. “Você ainda acredita que é livre? Ou já entendeu que está condenado à liberdade?” As luzes piscavam. Lá fora, Foucault batia na janela com sua capa de arquivista revolucionário. Trazia consigo Vigiar e Punir como se fosse um prontuário secular da humanidade. “A alma não é um dom, é uma invenção do poder. Cuidado com quem te observa — às vezes é você mesmo.” Entrei em pânico. Corri para o espelho: não vi nada. Nesse instante, O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir desceu com fúria e lucidez, rasgando as cortinas da sala com um único gesto. “Não se nasce mulher, torna-se mulher. E o mesmo vale para qualquer identidade que se queira verdadeira. Vocês todos, filósofos, têm falado demais e escutado de menos.” A sala silenciou. Platão tentou argumentar, mas foi interrompido por um olhar glacial. Por fim, entrou David Hume com um sorriso cético e gentil. Carregava Investigação sobre o Entendimento Humano debaixo do braço e uma taça de vinho tinto. “Não confiem tanto na razão. Acreditamos mais por hábito do que por certeza. No fundo, estamos todos apostando em nossas crenças como quem aposta nos dados.” Nietzsche brindou. Sartre assentiu. Beauvoir ergueu sua taça. E eu? Eu acordei. Estava na minha poltrona, com um desses livros nas mãos. As páginas ainda tremiam. O café esfriava. Mas lá fora, o tempo voltava a andar — como se tudo aquilo tivesse sido um sonho ou, quem sabe, um lampejo de verdade. Fechei os olhos. Ainda sentia o perfume de Foucault, o hálito de Sartre, o gesto brusco de Simone, o olhar sombrio de Heidegger. E pensei: talvez a filosofia não sirva para responder, mas para tornar a existência uma pergunta eterna — feita de carne, espanto e desejo. A estante sussurrou de novo. Desta vez, em silêncio. 

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Sozinho o medidor não faz a rede inteligente, Joisa Dutra,FSP

 A digitalização é apontada como um dos pilares da transição energética. Mas, afinal, medidores inteligentes bastam para tornar redes e serviços inteligentes? Exploro o tema nesse artigo respondendo a um conjunto de perguntas: digitalizar para quê, para quem e a que custo?

O futuro que parecia ficção na "casa dos Jetsons" já começa a entrar na vida real dos moradores da Grande São Paulo. Depois da Enel-SP iniciar a instalação de medidores inteligentes de eletricidade, agora a Sabesp anuncia planos ambiciosos de adotar a tecnologia na água. Passos ainda lentos, mas que revelam um movimento maior: o Ministério de Minas e Energia publicou neste ano a Portaria 111, que define diretrizes para a digitalização das redes de distribuição. O ministro Alexandre Silveira tem pressa. Pediu às distribuidoras que apresentem suas avaliações e planos, boa oportunidade em um momento em que avança a prorrogação de contratos de concessão.

A imagem mostra uma placa da Enel com o nome 'Estação Cambuci' em destaque, em frente a uma instalação elétrica. Ao fundo, há estruturas de transformadores e cabos elétricos, com cercas de arame farpado ao redor da área.
Subsestação de energia em São Paulo, Brasil - Amanda Perobelli - 26.mar.2025/Reuters

A pergunta é: como garantir que também o consumidor se beneficie dessa onda digital? No país, menos de 5% dos 90 milhões de medidores são inteligentes. Três lições internacionais —e um estudo recente desenvolvido no Brasil— ajudam a iluminar o caminho.

Lição 1

Não é para todos, pelo menos não agora. Planos universais soam inclusivos, mas ignoram realidades distintas. Não faz sentido tratar do mesmo modo o centro de uma metrópole como São Paulo e uma pequena cidade do interior. E mais: a experiência italiana mostra que digitalização deve ser faseada no tempo e no espaço.

A Enel foi pioneira com o programa Telegestore, implantado entre 2001 e 2006, que substituiu 30 milhões de medidores analógicos por digitais. Anos depois, iniciou uma segunda geração (Telegestore 2G), mais sofisticada e com maior interação com os consumidores. A interação com o regulador foi importante para decidir a nova configuração, que se preocupa mais com os benefícios para usuários.

Na Europa, a digitalização já percorreu um longo caminho. Cerca de 63% das residências possuem medidores inteligentes, e a expectativa é que esse índice chegue a 78% até 2028. Países como Espanha, Suécia e Finlândia praticamente concluíram a substituição, atingindo cobertura próxima a 100%. Isso mostra que o avanço tecnológico é possível —mas também reforça a lição de que a verdadeira inteligência da rede não vem apenas do equipamento em si, e sim de regulação adequada, desenho tarifário e integração entre diferentes utilities.

Lição 2

Não é tudo igual. Avaliar custo e benefício é essencial. Protocolos europeus de CBA (Cost-Benefit Analysis) mostram que os ganhos podem ir desde redução de custos operacionais (leitura manual dispensada, corte e religação remotos) até vantagens diretas para o consumidor, que pode ajustar seu consumo em função do preço da energia. Mas isso só funciona se o preço refletir a dinâmica do sistema — mais caro no fim da tarde, mais barato num dia ensolarado – o que por aqui ainda não é realidade. Aqui o quadro é outro: a tarifa é a mesma independente da hora do dia para mais de 80 milhões de consumidores – mais de 90% do mercado cativo das distribuidoras.

Estudo aplicado à realidade paulista confirmou esse ponto: os benefícios existem, mas variam conforme a regulação, o desenho tarifário e o engajamento dos usuários. Sem incentivos adequados, boa parte do ganho estimado pode simplesmente se perder. Mas o custo, fica.

Lição 3

Não resolve tudo. Medidores inteligentes não são bala de prata. Experiências em países como Reino Unido e EUA mostram que na prática as expectativas nem sempre se confirmam. Estudos de Brandon e coautores revelam que, mesmo com informação em mãos, quando bate o calor ou o frio, consumidores cedem ao desconforto e reprogramam termostatos, anulando ganhos de eficiência. John List, ao avaliar programas em Michigan, concluiu que não houve impacto significativo sobre o consumo de eletricidade ou gás. A lição é clara: reguladores não devem se apoiar apenas em estimativas de engenharia —comportamento humano importa, e muito.

E não é só na energia. A Sabesp, junto com a Vivo, já planeja medidores inteligentes de água. Isso reforça um ponto: sem convergência e interoperabilidade, corremos o risco de multiplicar equipamentos em cada casa e repassar ao consumidor uma conta ainda maior.

Na casa dos Jetsons, as máquinas eram cheias de promessa, mas viviam falhando. Para evitar esse destino em 2062, precisamos lembrar que a inteligência não está no medidor isolado, mas na do sistema que o conecta.