domingo, 4 de janeiro de 2026

Hélio Schwartsman - Sotaques e dialetos determinam lugar do falante na hierarquia social, Fsp

 A pesquisadora via com nitidez o incômodo da mãe. A genitora levara a pequena Julie, de cinco anos, para participar de uma pesquisa sobre linguística na universidade. A primeira tarefa consistia em escolher, a partir de fotos, crianças com as quais gostaria de brincar. Julie, que era branca, só escolhia meninas brancas, para desgosto da mãe, que ia sendo confrontada com um possível racismo da filha.

Aí veio a segunda fase do experimento. Julie ainda teria de selecionar pares com os quais gostaria de brincar, mas agora, além da foto, ouviria um áudio da criança falando. As negras tinham o inglês como língua nativa, e as brancas se expressavam em inglês (Julie entendia o que diziam), mas com um sotaque estrangeiro bem marcado. As preferências de Julie mudaram. Agora, ela só escolhia crianças negras. A mãe respirou aliviada. Sua filha não era racista.

O relato consta de "How You Say It", de Katherine Kinzler, um livro muito interessante sobre como sotaques, dialetos e outros aspectos da forma de se expressar determinam o lugar do falante na hierarquia social.

Desenho de perfil de um pessoa jovem com cabelo castanho e camiseta azul, cercado por vários balões de fala e pensamento vazios em fundo laranja.
Ilustração para coluna de Hélio Schwartsman - Annette Schwartsman

Entre várias outras discussões, Kinzler trata do bilinguismo. Até algumas décadas atrás, pedagogos o condenavam. Dividir-se entre dois idiomas atrasava um pouco o processo de aquisição da linguagem. O consenso mudou. As vantagens de aprender vários idiomas mais do que compensam o leve atraso. Incluiriam maior agilidade mental, abertura para a diversidade e até proteção contra a demência na velhice.

O ponto central de Kinzler, contudo, é social. Quando uma criança aprende seu idioma nativo, ela não aprende apenas vocabulário e gramática. Ela também faz um curso intensivo de sociologia, absorvendo a cultura da comunidade que a cerca, incluindo os preconceitos, como vimos no caso de Julie. E o preconceito linguístico, como mostrou a mãe de Julie, é o último preconceito ainda socialmente aceitável. Isso tende a ser um problema agora que a direita radical transformou a agenda anti-imigração em palavra de ordem global.


Betty Boop, Freud e Mondrian liberados em 2026, Ronaldo Lemos, FSP

 Boas-vindas às obras elevadas ao domínio público no dia 1º de janeiro de 2026. Só para relembrar, todo dia 1º de janeiro, um conjunto enorme de filmes, músicas, livros e outras criações são promovidas ao domínio público. Isso significa que podem ser utilizadas por qualquer pessoa sem a necessidade de pedir autorização. Dá para regravar, publicar, distribuir, remixar, adaptar e muito mais.

O domínio público de 2026 é de tirar o fôlego. Pela lei dos EUA, há um conjunto magnífico de obras que se tornaram de todos nós. Em literatura, temos a íntegra do Falcão Maltês de Dashiell Hammett. Ou ainda, o impactante poema "Quarta-Feira de Cinzas" de T.S. Eliot, que marca sua conversão religiosa e abandono do niilismo. Temos também a edição alemã de Civilização e Seus Descontentes de Sigmund Freud (o saudoso psicanalista M.D. Magno, que perdemos em 2025, iria gostar).

Em termos de personagens, a primeira versão da Betty Boop ingressou no domínio público. Além dela, a primeira versão do Pluto (que ainda se chamava "Rover", antes de ter o nome trocado posteriormente) agora também é parte do glorioso domínio público.

Betty Boop, personagem animada em preto e branco, está em pé com vestido curto preto e brincos grandes, em cenário urbano estilizado com postes e calçada.
Betty Boop, personagem criada nos anos 1930 - Paramount/Reprodução

No cinema temos preciosidades. O seminal filme Sem Novidades no Front agora é nosso (aliás, é um bom momento para rever e fazer lembrar sua mensagem anti-bélica). Temos também A Idade do Ouro de Luis Buñuel e Salvador Dali, um marco do cinema surrealista. Ou ainda, O Anjo Azul que projetou Marlene Dietrich internacionalmente com a inesquecível personagem Lola Lola.

A seleção musical é perfeita para se apaixonar neste começo de ano. Temos a composição de Georgia in My Mind promovida ao domínio público. Ou ainda, a maravilhosa Dream a Little Dream of Me. Dos irmãos Gershwin temos I Got Rhythm, I Got a Crush on You e But Not For Me. São suficientes para gerar muitos suspiros coletivos daqui para toda a eternidade.

Já no campo das gravações, temos Bessie Smith cantando junto com Louis Armstrong a música St. Louis Blues. E também Louis Armstrong cantando If I Lose, Let me Lose (Mama Don´t Mind).

No quesito obras de arte temos Piet Mondrian com sua Composição com Vermelho, Azul e Amarelho promovida ao domínio público (camisetas e canecas estão liberadas). E uma obra de especial importância para nós brasileiros: a Taça Jules Rimet, criada por Abel Lafleur. O Brasil conquistou a duras penas o troféu, que foi furtado da sede da CBF e destruído. A taça agora retorna a todos nós. Podemos recriar quantas Jules Rimet quisermos.

Pela lei brasileira, temos a elevação de todos os criadores que faleceram no ano de 1955. Isso inclui a deliciosa composição de Falsa Baiana de Geraldo Pereira. Ou os lindíssimos choros de Garoto (Aníbal Augusto Sardinha). Além disso, as obras completas de Ataulfo de Paiva e Amadeu de Queiroz. E claro, Carmen Miranda, que faleceu em 1955, também tem sua parte em obras como Os Home Implica Comigo em domínio público. Mas cuidado, a composição foi feita com Pixinguinha, que ainda não foi ainda elevado ao domínio público. Vale aguardar!

Já era – um mundo sem mercados de previsão

Já é – mercados de previsão prevendo o resultado de eleições

Já vem – mercados de previsão prevendo a realização de operações militares

Ruy Castro - Ancelotti já sabe o que é cabeça de bagre, FSP

 Carlo Ancelotti, 66 anos, italiano, treinador da seleção brasileira, está falando português muito bem. Superprofissional, acha de sua obrigação aprender a se comunicar com a equipe que veio treinar e com o povo que o acolheu. E faz isso há tanto tempo que domina também espanhol, francês, inglês e alemão, outras línguas de sua vitoriosa carreira. Bem diferente do rústico Abel Ferreira, que, há anos no Brasil, ainda espuma ao falar "equipa" (equipe), "época" (temporada), "primeira parte" (primeiro tempo) e jogador "fresco" (descansado). Não se passa pelo jargão do colonizado.

Ancelotti parece fluente nas firulas da comunicação tática, técnica, física, operacional e administrativa. Mas como estará sua relação com os torcedores que encontra fora das dependências do trabalho e falam com ele? O que entenderá quando um deles se referir à bola que bateu onde a coruja dorme —como vai saber que é a intersecção da trave com o travessão? E se um deles lhe disser que o Brasil tem de se cuidar contra as zebras no Mundial? E como vai saber o que é cabeça de bagre, caçar borboleta, cama de gato, carrapato, cavalo paraguaio, drible da vaca, dar um peixinho, engolir um frango, jogador bichado e outras estranhas relações do futebol com o mundo animal?

Já saberá o que é açougueiro, armandinho, balão, banheira, bicicleta, caneta, carrinho, cartola, catimba, chocolate, chuveirinho, esticão, ferrolho, fominha, ladrão, pipoqueiro, tapetão, treta, trivela? E arquibaldo, geraldino e macário, imortais criações de Washington Rodrigues, o Apolinho? E cai-cai, carregador de piano, folha-seca, gol de placa, lei do ex, linha burra, maria-chuteira, mão de alface, na gaveta, nas nuvens, pé murcho, perna de pau, um-dois, zona do agrião e quem não faz leva?

E abrir o bico, amarelar, cavar uma falta, comer a bola, dar de bandeja, dar um lençol, devolver quadrada, entortar, fazer cera, ganhar o bicho, isolar e partir para o abraço?

Não duvido. Ancelotti logo vai aprender tudo isso. Futebol também se joga com a boca.