domingo, 4 de janeiro de 2026

Uma instituição que se decompõe, Muniz Sodré - FSP

 Ao sancionar o Orçamento de 2026, o presidente da República sanciona também a obscena transição no poder do velho patrimonialismo clientelista para o tribalismo predatório e extrativista das novas gerações, atraídas por Bolsa e fortuna política, agora acoitadas no Parlamento. O império da desfaçatez não comporta uma ética da vergonha na cara: os cortes nas verbas da Capes e do CNPq foram redirecionados para completar os R$ 61,2 bilhões em emendas. Escândalo que passa batido.

Seres vivos e civilizações morrem, assim como os regimes. O mesmo com instituições, incapazes de autorreflexão: elas não pensam, e sim os indivíduos que as compõem. Acontece a formas parlamentares de governo nos regimes democráticos. De um lado, o destino artificial da humanidade, em que estão imbricadas a razão econômica, a digital e a biológica, tornando anacrônico o que não diga respeito ao domínio gestionário das máquinas. De outro, o puro e simples apodrecimento institucional.

Plenário de câmara legislativa com assentos em semicírculo ocupados por parlamentares e pessoas em pé no centro. Painéis eletrônicos exibem informações ao fundo, e mesa diretora está à direita.
Plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília, durante sessão de votação - Pedro Ladeira - 18.nov.25/Folhapress

Apodrecer não é figura de retórica, mas a justa medida descritiva de instituições e homens afetados pela impunidade da corrupção nos mecanismos de Estado. Já no século passado, Carl Schmitt enxergava o parlamento como vocacionado para o centro e a corrupção. De direita, com pendor para os extremos, Schmitt tinha insights valiosos, como esse atinente a processos corruptivos. É algo que convoca o instinto ou o faro, elevado a virtude filosófica por Nietzsche: "Sou o primeiro a ter sentido —a ter farejado— a mentira como mentirosa... Todo meu gênio está em minhas narinas..." ("Ecce Homo").

Mas não requer genialidade sentir os miasmas deste século quando, por toda parte, desaparecem as inibições de ordem moral. Trump, presidente da potência apregoada como baluarte da democracia no mundo, assume o discurso cínico da pirataria internacional. A guerra permanece como forma de atualização da força destrutiva necessária à consolidação dos mercados, só que agora apoiada na liberação de "energias infames", ou seja, o racismo, o machismo e a xenofobia de Estado.

Isso que numa dimensão global aponta para novos mecanismos de planetarização do capital, adquire entre nós aspectos peculiares de rebaixamento. A eleição de Bolsonaro deu o tom de ruptura dos limites, com o pano de fundo de uma surdez moral inaudita. Até hoje choca a insensibilidade coletiva diante de um indivíduo que lamentava o fato de a ditadura militar ter torturado em vez de matar 30 mil cidadãos. O mesmo cuja reação à morte de 700 mil brasileiros pela epidemia resumiu-se à frase "não sou coveiro". Os descendentes do público que assistiu "bestializado" à Proclamação da República acrescentaram ao fenômeno político a bestialização moral. Essa é a natureza da crise.

Assim, a Conferência Nacional dos Bispos acaba de condenar a Câmara por "corrupção e perda de decoro". Tornou-se instrumento de abolição dos valores republicanos em benefício de irmãos e parentes. Seu jovem presidente é menino de vó: entre a cruz e a água-benta, diz ter como sol do entendimento a própria avó. Decomposição e dejeção fazendo par, o nariz talvez se ponha ao alcance de todos.

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