Alexandre de Moraes provocava celeuma muito antes de garantir a democracia brasileira (nas palavras de Lula) e se tornar um "herói" (em lista do Financial Times), "psicopata" (na versão do clã Bolsonaro), "ditador" ou "tirano" (na retórica bolsonarista replicada por Tarcísio).
A coleção de haters e fãs que ampliou como superministro do STF já contava com um volume considerável na época em que foi supersecretário de Gilberto Kassab na Prefeitura de São Paulo.
Moraes não tinha a toga, mas acumulava superpoderes. Chegou a controlar simultaneamente as cobiçadas secretarias de Serviços e de Transportes, além das presidências da CET e da SPTrans. No começo da gestão, ainda exibia cabelos. Passou a cuidar dos contratos bilionários de ônibus e do lixo da maior metrópole do país.
Em nome da política, apostou no marketing, com uma contabilidade criativa na divulgação de estatísticas de trânsito. Sem paciência para longos debates, atropelou quem divergiu de ações polêmicas, como as restrições a fretados, caminhões e motos.
Nomeado em 2007, manifestou mais tarde a intenção de seguir como homem de confiança do prefeito até 2012, no fim do segundo mandato. Seu excesso de autonomia passou a incomodar Kassab. Caiu de repente, do pico ao chão. Em 2010, perdeu todos os superpoderes de uma só vez. Já ostentava naquele ano a careca famosa da versão Xandão. Mas virou Xandinho.
A queda brusca na prefeitura ocorreu em clima de bastidor pouco amistoso, após ter anunciado a intenção de mexer no vespeiro dos contratos do transporte coletivo.
As empresas de ônibus tinham como consultor histórico um irmão de Kassab. Os subsídios chegaram a disparar. O rompimento entre o prefeito e o supersecretário nunca foi bem explicado.
Já naquela época Moraes manifestava seu sonho de chegar ao Supremo. Nem a bússola política de Kassab apontaria para a possibilidade.
O desejo só avançou para além do mundo da imaginação depois que Moraes virou secretário estadual da Segurança. Ganhou em 2016 a confiança do então vice-presidente da República na apuração do crime que vitimou a mulher de Michel Temer (a clonagem de um celular, com emails e fotos íntimas). No ano seguinte, foi indicado ao STF —sob a oposição de inimigos ruidosos.
Em fevereiro de 2017, Guilherme Boulos, hoje ministro de Lula, escreveu na Folha sobre "a incrível capivara de Alexandre de Moraes".
Tratava a escolha ao Supremo como um "escândalo", falava em "ficha de atuação política desastrosa", do comando da "política de repressão aos movimentos sociais" e de "súbito enriquecimento pessoal".
Nos últimos anos, a postura do magistrado foi respaldada por setores democráticos relevantes diante da causa nobre (contra a tentativa de golpe de Estado de Jair Bolsonaro).
O cenário para 2026 é diferente. Moraes se livrou da Magnitsky de Trump, mas as pressões ganham corpo—do caso Banco Master à discussão de um código de conduta no tribunal. Elas não partem só de golpistas e bolsonaristas. O superministro se aposenta do STF, em tese, apenas em 2043. Para isso, sua trajetória como supersecretário não pode se repetir.

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