O alerta está sendo dado por roteiristas de vários países: ao apresentarem seus projetos às plataformas de streaming, elas estariam pedindo um "dumb down" nas histórias, termo em inglês que significa "deixar mais idiota". A ideia é que os filmes e séries têm que ser superficiais o suficiente para servirem como segunda tela para os espectadores –a primeira, claro, é a tela do celular, com seus vídeos curtos, redes sociais e WhatsApp.
Vários fatores estariam levando a essa demanda perversa dos streamings. Primeiro: as plataformas precisam mais de quantidade do que de qualidade. Elas precisam ter um mínimo de lançamentos a apresentar ao assinante todo mês, para ele sentir que a mensalidade está valendo a pena. Segundo, e mais importante: elas estaria percebendo que, entre a TV e o celular (ou entre conteúdos longos e curtos consumidos no próprio celular), nosso cérebro cada vez mais fragmentado sempre vai preferir a segunda opção.
Os mais saudosistas lembram de outra grande mudança de hábito. Hoje em dia, vemos muito mais séries "maratonáveis" (lançadas na íntegra para vermos de uma vez só) do que aquelas que eu chamo de "padrão HBO", canal que ainda lança um episódio por semana de suas séries premium.
Nessa lógica, para maratonar, uma série "leve" é mais vendável do que uma mais densa. Imagine maratonar em um fim de semana uma temporada inteira de histórias densas como "Breaking Bad", "Mad Men" ou "Game of Thrones". É como enfiar barriga adentro dois quilos de peru de Natal numa tacada.
Toda vez que eu ouço essa expressão, "produto de segunda tela", fico pensando que esse foi justamente o DNA das novelas de TV. Desde sempre, elas são feitas para repetir informações da trama –não porque a dona de casa esteja no celular, mas porque está cuidando da panela no fogo ou botando a mesa para o jantar, escutando mais do que olhando para a TV. Mas as novelas podem ter mais de 150 capítulos; já nasceram com essa natureza "água no feijão". De uma série de no máximo 13 episódios, não é crime nenhum esperar mais.
O BURACO NEGRO DOS STORIES
Voltando ao celular: não sei se vocês já tiveram essa impressão, mas há alguns anos percebi que o meu grau de absorção (ou de vício mesmo) nos stories do Instagram depende muito do meu grau de cansaço. Se estou bem disposto, consigo ficar três minutinhos vendo os stories dos meus amigos e sair. Quando estou exausto, porém, esse algoritmo insano de vídeos curtos pode me prender por 40 minutos, uma hora, às vezes mais.
Daí sempre voltamos a uma questão ainda sem reposta definitiva: a nossa fragmentação visual, o hábito de vídeos curtos, é algo prejudicial à nossa saúde mental? Ou isso é apenas o futuro que já chegou, a geração Z e as que vem depois dela têm apenas um modo diferente de consumir imagens, e pessoas como eu estão sendo apenas velhos chatos e ultrapassados? Se você tem mais de 30, deve ficar mais com a primeira hipótese; se é mais jovem, fica com a segunda.
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