Por pouco a pecuária do Brasil não entrou em colapso em 2025. O país assumiu a liderança mundial na produção de carne bovina e manteve a posição de maior exportador, mas as coisas poderiam ter sido muito complicadas no comércio externo.
Em boa parte do segundo semestre, os brasileiros conviveram com uma taxa de 76,5% imposta pelos Estados Unidos, o segundo maior importador de carne bovina brasileira. Nesse mesmo período, o país poderia ter sido alvo de uma tarifa de 67% dos chineses, os principais importadores. Programada para o fim de junho, a tarifa chinesa foi adiada para o início deste ano.
Um somatório dessas duas tarifas teria sido fatal para a cadeia da pecuária. A China salvou o Brasil enquanto as pesadas tarifas americanas estavam em vigor, e os Estados Unidos ajudarão o Brasil nessa entrada em vigor das tarifas chinesas.
Assim como o setor teve de se readaptar durante a vigência das taxas americanas, terá de fazer o mesmo com as da China. A diferença é que o volume importado pela China é bem maior.
Com as medidas de salvaguardas, a China deu ao Brasil uma cota de 1,11 milhão de toneladas para 2026, com tarifa de 12% para o produto que está dentro dessa cota e sobretaxa de mais 55% para o que estiver fora. No ano passado, em setembro, esse volume já havia sido superado. O setor tem o primeiro semestre para negociar com os chineses eventuais mudanças.
Os caminhos para a pecuária vão ser tortuosos neste ano, mas sem grandes gargalos. A China ainda vai precisar de carne bovina, com previsão de compras de 2,7 milhões de toneladas neste ano, e o produto brasileiro, mesmo com a tarifa pesada, tem mais competitividade.
O Brasil perde espaço em um mercado importante, mas a China, a exemplo do que ocorreu com os Estados Unidos, vai levar mais inflação para dentro do país. Até quando?
Os Estados Unidos retornam ao mercado brasileiro com força, uma vez que a previsão é de queda na produção deles para 11,7 milhões de toneladas. Em 2020, estava em 12,4 milhões. O consumo é de 12,7 milhões, e as importações devem superar 2 milhões.
No primeiro semestre de 2025, os Estados Unidos importaram 30 mil toneladas de carne bovina brasileira por mês. Mantido esse patamar mensal em 2026, as compras poderiam atingir 360 mil.
As compras virão também de outros países. O Brasil vendeu para pelo menos 173 países em 2025, e 31 deles compraram volume superior a 10 mil toneladas. Há dez anos, a Ásia comprava 357 mil toneladas do Brasil. Até novembro, o volume atingiu 1,78 milhão. Filipinas, Indonésia, Malásia, Vietnã e Singapura registram boa evolução nas importações, e, neste ano, o Japão avalia o sistema sanitário brasileiro.
Na América do Norte, México e Canadá também aumentaram as compras, o mesmo ocorrendo com importantes países da África, como Marrocos e Egito. Brasil e Austrália receberam cotas inferiores ao que exportam, mas Argentina, Uruguai e Nova Zelândia venderam menos do que o volume recebido. Os países sul-americanos devem importar mais produto brasileiro para consumo interno e destinar parte da sua produção para a China.
Por que a China impõe cotas nas importações? Nos últimos dez anos, a produção interna subiu 26%, para 7,8 milhões de toneladas. Já as importações cresceram 524%. O país quer defender a produção local, mas os gargalos para o aumento de produtividade interna são muitos e vão necessitar de tempo para uma solução.

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