quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Otimizar para a vida, não para o algoritmo, FSP

 

Fernanda Carvalho Stefani

Co-fundadora e CEO da 100% Amazônia

Há duas décadas, quando eu ainda estava construindo minha formação como economista e me iniciando nos caminhos que me levariam à Amazônia, a reputação se erguia sobre alicerces sólidos. De um lado, relacionamentos de longo prazo com comunidades ribeirinhas que nos ensinavam sobre a floresta, compromissos com os extrativistas que dependiam da biodiversidade para sua subsistência. De outro, vínculos de confiança com parceiros ao redor do mundo.

Naquele tempo, o custo de agir de forma superficial ou performática era altíssimo. Pagava-se esse preço no mundo real —nas conversas com autoridades governamentais, assembleias comunitárias na beira do rio, ou premiações internacionais— onde as consequências não se apagam com um clique.

Um homem está em uma floresta, segurando um grande cacho de açaí. Ele está vestido com uma camiseta branca com detalhes coloridos e a palavra 'CAEPIM' estampada. Ao fundo, há palmeiras e vegetação densa, típica de uma área de floresta tropical.
Cooperado colhe açaí perto da sede da Caepim, em Santo Antônio (Igarapé-Miri), que produz açaí orgânico em parceria com a 100% Amazônia, empresa de bioingredientes exportados para mais de 70 países - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Hoje, o capitalismo vive um paradoxo perigoso. O algoritmo —força que molda comportamentos e define sucesso— recompensa o volume em detrimento da substância, o barulho em vez da reflexão estratégica, a reação impulsiva no lugar da coerência. Ignora-se o silêncio produtivo, vital para decisões transformadoras, e a profundidade necessária para gerar impacto sustentável.

Neste novo ecossistema digital, observamos distorções preocupantes. Aqueles que atacam ganham visibilidade instantânea, confundindo polarização com liderança. Quem simplifica excessivamente questões complexas é celebrado como "autêntico", quando está apenas vendendo soluções rasas para problemas profundos.

O exibicionismo é confundido com grandeza, enquanto a escuta ativa —essa competência essencial para qualquer líder que deseja servir verdadeiramente— praticamente desaparece do radar.

Mas precisamos ter coragem de afirmar: o mundo que realmente importa opera sob princípios diferentes. No universo dos negócios regenerativos e do capitalismo de partes interessadas, a inteligência genuína ainda se manifesta na capacidade de ouvir —ouvir os cientistas climáticos, ouvir as comunidades locais, ouvir os sinais da natureza.

A verdadeira força empresarial não está na agressividade competitiva, mas na estratégia que constrói ecossistemas colaborativos. A grandeza corporativa permanece discreta, medida não por campanhas publicitárias, mas pelo impacto positivo silencioso na vida de milhões.

A riqueza real não se acumula em métricas trimestrais vazias, mas na simplicidade de modelos de negócio que servem ao bem comum. E a sabedoria —aquela que os conselhos administrativos deveriam buscar— continua sendo o fruto da calma, da visão de longo prazo e da coragem de escolher o caminho certo, mesmo quando não é o mais popular.

Precisamos recalibrar nossos indicadores de sucesso. O futuro pertence às organizações e líderes que rejeitam a tirania do curto prazo e abraçam a responsabilidade intergeracional. Não podemos continuar otimizando para o algoritmo quando deveríamos estar otimizando para a vida.


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