Uma iniciativa que envolve a cooperação entre instituições brasileiras e francesas busca ampliar o acesso à analgesia peridural como forma de aliviar a dor no parto vaginal e reduzir as altas taxas de cesarianas sem indicação clínica registradas no Brasil.
Atualmente, essa técnica anestésica, que não impede os movimentos da mulher, só é ofertada em 8% dos partos vaginais realizados no SUS (Sistema Único de Saúde).
Inspirado no modelo adotado na França, país com taxas historicamente mais baixas de cesarianas, o projeto coordenado pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) será implantado na rede municipal de saúde do Rio de Janeiro.
A incorporação da iniciativa foi anunciada durante seminário ocorrido no mês passado no Hospital Municipal Souza Aguiar, no centro do Rio, que reuniu gestores públicos, pesquisadores e profissionais de saúde do Brasil e da França para discutir estratégias de ampliação do acesso à técnica.
Segundo o médico Daniel Soranz, secretário municipal de Saúde do Rio, a meta é reduzir o índice de cesarianas, hoje em 41%, para patamares próximos aos observados na França, onde a taxa chega a 21,6% em alguns hospitais.
"Enquanto apenas 12,4% dos partos vaginais nos hospitais públicos do Rio utilizam analgesia peridural, na França esse percentual é de 75,7%. Teremos que trabalhar muito para alcançar indicadores semelhantes", afirmou Soranz, durante o evento.
De acordo com ele, o município vai destinar R$ 5 milhões à iniciativa. O programa prevê treinamento das equipes de saúde, a importação de cem bombas de infusão e um modelo de remuneração adicional para anestesistas.
Profissionais que não estiverem de plantão poderão se deslocar até as maternidades para realizar o procedimento, recebendo entre R$ 500 e R$ 800 por parto normal com analgesia peridural, segundo Soranz.
A analgesia peridural é considerada um dos principais instrumentos para enfrentar o medo da dor, apontado por especialistas como fator decisivo na escolha pela cesariana, procedimento que atinge cerca de 60% dos partos brasileiros —na rede privada, supera os 80%.
O país ocupa o segundo lugar no mundo na realização dessa cirurgia, só perdendo para a República Dominicana. A recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) é que esse índice não ultrapasse 15% do total de partos.
Estudos associam o alto percentual de cesarianas ao aumento de riscos maternos, como infecções, sangramento, lesões em órgãos próximos ao útero e complicações anestésicas. Para o bebê, há maior risco de dificuldades respiratórias e de prejuízo ao sistema imunológico.
Além da ENSP, o projeto envolve a UFBA (Universidade Federal da Bahia), os Centros Hospitalares Universitários de Lille e Angers, além do apoio da Embaixada, do Consulado e do Ministério da Saúde da França.
Segundo a professora Mônica Neri, do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA e uma das coordenadoras da parceria com a França, a proposta é oferecer às mulheres, além de um parto com menos dor, a possibilidade de fazer laqueadura, uma outra razão que leva muitas gestantes a optar pela cesárea.
No Brasil, as maternidades Maria Amélia Buarque de Hollanda, no Rio, e a Maternidade Escola Assis Chateaubriand, em Fortaleza (CE), atuaram como unidades piloto.
De acordo com a pesquisadora Maria do Carmo Leal, da ENSP e também coordenadora da parceria com a França, a experiência nessas unidades mostrou que a ampliação da analgesia depende não apenas de capacitação técnica, mas de investimento e decisão política.
Damien Subtil, chefe do departamento de mulheres, mães e recém-Nascidos do Centro Hospitalar Universitário de Lille (França), afirma que o modelo francês de atenção ao parto, baseado no acesso amplo à analgesia peridural e na atuação multiprofissional, foi decisivo para a redução das cesarianas no país.
Pesquisas apresentadas no evento também apontam para o papel das políticas públicas na transformação do cenário obstétrico. Dados dos estudos Nascer no Brasil 1 e 2 reforçam a necessidade de estratégias estruturantes para enfrentar o avanço das cesarianas.
Por exemplo, houve aumento nas taxas de utilização da cesariana intraparto no SUS, de 8,9% para 12% nos últimos anos. Os índices de cesárea sem trabalho de parto também subiram de 34% para 35,2%. Já os partos vaginais apresentaram queda de 57% para 52%.
Já no setor privado houve aumento nas taxas de parto vaginal, que pularam de 12,3% para 18,7%. "Esse crescimento é fruto de uma política pública chamada Parto Adequado", disse Maria do Carmo, da ENSP.
Os dados mostram resultados positivos em relação ao manejo do parto, os quais a pesquisadora atribui à Rede Cegonha, política implantada nas maternidades públicas que incentiva o parto baseado em evidências científicas.
No SUS, a presença de acompanhante no trabalho de parto, por exemplo, subiu de 46% para 70%, e de enfermeira aumentou de 30% para 60%.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

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