quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Revoltados com Mercosul, agricultores franceses ocupam Paris, FSP

 

Paris

Revoltados com a iminente assinatura do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, agricultores franceses ocuparam com tratores na manhã desta quinta-feira (8) pontos icônicos de Paris, como o Arco do Triunfo e a Torre Eiffel, e quase agrediram a presidente da Assembleia Nacional, o parlamento francês, Yaël Braun-Pivet.

Braun-Pivet foi vaiada ao sair das dependências da Assembleia para encontrar os agricultores, do lado de fora. Uma manifestante a acusou de "traidora" e outro jogou um líquido sobre ela, obrigando os seguranças a retirá-la às pressas.

Três tratores estacionados em frente ao Arco do Triunfo, em Paris, durante protesto. Um dos tratores exibe cartaz com a frase 'MERCOSUR MORT ou COUP SUR'. O chão está molhado e o céu nublado.
Tratores, incluindo um com uma faixa com os dizeres "O Mercosul está definitivamente morto", estacionados em frente ao Arco do Triunfo, em Paris durante manifestação de agricultores contra o acordo - Thomas Samson/AFP

Mesmo assim, Braun-Pivet disse apoiar a causa dos agricultores, e que iria recebê-los à tarde. "Os franceses têm o direito de exprimir sua cólera", afirmou. Isso demonstra o quanto o tema é delicado para os políticos do país, devido à popularidade da categoria junto à opinião pública.

Por sua vez, o porta-voz do partido Reunião Nacional, de ultradireita, Laurent Jacobelli, foi efusivamente recebido pelos agricultores no mesmo local.

Os manifestantes derrubaram uma árvore no oeste de Paris, para interromper o trânsito. Oito agricultores foram presos, mas a polícia pouco fez para reprimir a ocupação das ruas da capital.

A porta-voz do governo, Maud Bregeon, qualificou de "inaceitável" o comportamento dos manifestantes, o que só aumentou a irritação dos agricultores. Eles acusam o presidente Emmanuel Macron de traí-los ao permitir a aprovação do acordo, que, acredita-se, será assinado pelos dois blocos na segunda-feira (12), no Paraguai.

Após ter dado declarações ambíguas sobre o tratado, Macron conseguiu o apoio da Itália para adiar a assinatura, em dezembro. Agora, porém, o governo de Giorgia Meloni sinaliza aceitar a ratificação.

Mulher loira de casaco preto fala com pessoas em meio a grupo, com dois homens ao seu lado. Ao fundo, colunas e estátua de pedra indicam prédio histórico.
A presidente da Assembleia Nacional da França, Yael Braun-Pivet, aparece em frente à Assembleia Nacional durante um protesto de agricultores franceses contra a gestão do governo em relação ao acordo de livre comércio UE-Mercosul, em Paris, França - Benoit Tessier/REUTERS

RUAS DE PARIS SÃO BLOQUEADAS POR MANIFESTANTES

Agricultores franceses iniciaram um bloqueio antes do amanhecer nas estradas que levam a Paris e em vários pontos turísticos da cidade, em protesto contra o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, bem como contra outras queixas locais.

Vários sindicatos convocaram os protestos em Paris em meio a temores de que o acordo de livre comércio planejado com o bloco de países da América do Sul inundará a UE com importações de alimentos baratos, e em indignação com a forma como o governo está lidando com uma doença que afeta o gado.

"Estamos entre o ressentimento e o desespero. Temos um sentimento de abandono, com o Mercosul sendo um exemplo", disse Stephane Pelletier, membro do sindicato Coordination Rurale, à Reuters ao pé da Torre Eiffel.

Os agricultores romperam as barreiras policiais para entrar na cidade, dirigindo pela avenida Champs-Élysées e bloqueando a estrada ao redor do monumento Arco do Triunfo nesta quinta-feira, enquanto a polícia os cercava.

Dezenas de tratores obstruíram as rodovias que levam à capital antes da hora do rush matinal, incluindo a A13 que liga Paris aos subúrbios ocidentais e à Normandia, causando 150 km de engarrafamentos, disse o ministro dos Transportes Philippe Tabarot.

O protesto aumenta ainda mais a pressão sobre o presidente Emmanuel Macron e seu governo, um dia antes da votação do acordo comercial pelos Estados-membros da UE. Sem maioria no parlamento, qualquer erro político de Macron pode resultar em um voto de desconfiança na Câmara.

Trator verde com rodas grandes estacionado em faixa de pedestres em rua de Paris. Homem com colete amarelo caminha próximo, com edifícios clássicos e a Torre Eiffel ao fundo em dia nublado.
Policiais estão ao lado de tratores bloqueando uma estrada perto da Torre Eiffel, enquanto agricultores franceses protestam contra a gestão do governo em relação ao acordo de livre comércio UE-Mercosul e ao surto de dermatite nodular contagiosa, em Paris, França - Gonzalo Fuentes/REUTERS

Há muito tempo a França tem sido uma forte oponente do acordo comercial e, mesmo depois de obter concessões de última hora, a posição final de Macron ainda é desconhecida.

Nesta semana, a Comissão Europeia propôs disponibilizar 45 bilhões de euros de financiamento da UE mais cedo para os agricultores no próximo orçamento de sete anos do bloco e concordou em reduzir as taxas de importação de alguns fertilizantes em uma tentativa de conquistar os países que estão hesitando em apoiar o Mercosul.

O acordo é apoiado por países como a Alemanha e a Espanha, e a Comissão parece estar mais próxima de obter o apoio da Itália. O respaldo de Roma significaria que a UE teria os votos necessários para aprovar o acordo comercial com ou sem o apoio da França.

Uma votação sobre o acordo é esperada para sexta-feira (9).

Os agricultores também exigem o fim da política governamental de abate de vacas em resposta à doença altamente contagiosa conhecida como dermatite nodular contagiosa, que consideram excessiva, defendendo, em vez disso, a vacinação.

A polícia estava evitando confrontos com os manifestantes, disse o ministro. "Os agricultores não são nossos inimigos", afirmou Tabarot.

Com Reuters


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