Em 2025, um dos podcasts mais instigantes sobre transição energética teve seu melhor ano. O Redefining Energy, apresentado por Laurent Segalen e Gerard Reid —que conheci no Fórum Econômico Mundial— passou a figurar entre o 0,5% mai ouvido do Spotify. Nada trivial para um tema especializado, técnico e, muitas vezes, árido.
Sagazes e pouco afeitos a modismos, os anfitriões dedicam tradicionalmente o último episódio do ano a um exercício simples e raro no setor: olhar para trás. Revisam o que previram no ano anterior, confrontam expectativas com fatos e, só então, arriscam previsões para o futuro. O episódio 210 traz as apostas para 2026.
Mais do que acertar o futuro, o exercício serve para aferir a direção da viagem da transição energética — um processo caro, incerto e intensivo em capital, no qual correções de rota são inevitáveis. Algumas chamam atenção —e não surpreendem.
O oásis do hidrogênio de baixo carbono se mostra cada vez mais miragem. O sonho do hidrogênio verde a US$ 1/kg simplesmente não se materializou. Os projetos que avançam trabalham com custos de US$ 6 a US$ 8/kg —isso em países com custo de capital significativamente menor que o brasileiro. Ao redor do mundo, petroleiras cancelaram ou suspenderam cerca de 60 projetos.
Embora as energias solar e eólica tenham, de fato, reduzido custos de forma impressionante nos anos recentes, colocar hidrogênio de baixo carbono no mercado exige muito mais do que eletricidade barata. Há o custo dos eletrolisadores, da baixa taxa de utilização deles, da infraestrutura, da logística. Hidrogênio não é apenas uma molécula: é uma cadeia complexa —e cara. Substituir o hidrogênio de origem fóssil revelou-se bem mais difícil do que sugeriam os discursos políticos, ainda mais em um mundo em que os orçamentos de defesa sobem, dificultando a criação de subsídios.
Outro freio de arrumação importante aparece nos data centers —a previsão é de que 50% dos anunciados não serão construídos. A demanda por computação segue crescendo, mas provavelmente não na escala anunciada inicialmente. Preços elevados de energia incentivam ganhos de eficiência na indústria, enquanto avanços em software e arquitetura digital reduzem o consumo por unidade de processamento. Somam-se a isso restrições sistêmicas: dificuldades de conexão e necessidade de investimentos pesados elevam prêmios de risco e encarecem o capital. Menos capital, menos projetos.
As renováveis continuam crescendo, mas com menos fôlego. A expansão da solar tende a arrefecer mesmo na China, não por perda de competitividade, mas por restrições sistêmicas —licenciamento, redes, integração. Há tempos repito: renováveis não existem sozinhas. Elas exigem redes e armazenamento. E essa conta é elevada. A África deve acelerar sua expansão, partindo de uma base baixa, mas esse avanço não será suficiente para compensar a desaceleração em outros mercados.
Por que confiar nas previsões desses anfitriões? Primeiro, porque são investidores, que costumam walk the talk (agir de acordo com o que dizem). Segundo, porque têm a coragem de revisitar seus erros. Algo ainda raro no setor elétrico brasileiro, onde previsões de preços de curto prazo dificilmente são reavaliadas. Fica o desafio.
Mas nem tudo desce. Algumas tecnologias sobem —e com força.
Armazenamento e baterias aparecem como grandes vencedores para 2026. Não porque sejam "verdes", mas porque resolvem problemas reais do sistema elétrico. São rápidas de implantar, modulares e eficazes para lidar com curtailment, intermitência e adequação de capacidade. Funcionam bem combinadas com solar, com eólica e com arranjos híbridos incorporados nos contratos de compra de energia (PPAs).
E o que isso tem a ver com o Brasil? Tudo.
A transição energética está tornando, a cada dia, nosso sistema elétrico menos uma jabuticaba. Nossas dificuldades são cada vez mais próximas a problemas de outras geografias ao redor do globo. Com especificidades, vivemos as dores do crescimento da descentralização, impulsionada pela expansão exponencial da micro e minigeração distribuída. Baterias são companheiras naturais dessa jornada.
Falta, no entanto, clareza regulatória para incentivar sua adoção em escala. O leilão anunciado para 2026 é um bom sinal. Mas o debate internacional aponta também para algo maior: a combinação de tecnologias, a integração nos PPAs e novos arranjos contratuais como oportunidades a explorar na contratação do mercado livre —caso dos grandes consumidores comerciais e industriais, que explorei em coluna recente.
Em uma transição energética cara e incerta, errar o diagnóstico sai caro. Revisitar previsões não é futurologia —é disciplina.

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