Cientistas desenvolveram uma pele sintética, inspirada na camuflagem do polvo, que é capaz de mudar de cor e textura. A expectativa é que o material possa ser utilizado, por exemplo, em robôs.
Ele recorreram a técnicas de corrosão de semicondutores para recriar a capacidade do molusco marinho de alterar sua aparência para se assemelhar ao ambiente.
Além disso, analisaram como tornar superfícies mais ásperas ou lisas pode fazer com que a luz que elas refletem pareça diferente para um observador, criando uma paleta visual que vai além das variações de cor.
"Pela primeira vez, podemos imitar aspectos-chave da camuflagem [de polvos, chocos e lulas] em diferentes ambientes: especificamente, controlando texturas complexas e de aparência natural e, ao mesmo tempo, alterando padrões independentes de cor", afirmou Siddharth Doshi, da Universidade de Stanford (Estados Unidos), autor principal de um artigo em que o achado é descrito e que saiu nesta quarta-feira (7) na revista Nature.
Os polvos utilizam a camuflagem tanto para caçar presas quanto para evitar predadores. As mudanças de aparência do bicho são mais rápidas e mais sofisticadas do que as do camaleão, animal terrestre famoso por sua capacidade de se misturar ao ambiente.
Doshi disse que ele e seus colegas se inspiraram em características das espécies de cefalópodes de corpo mole, que incluem polvo, choco e lula. A equipe usou um filme polimérico que era fácil de remodelar e foi dividido em duas camadas para permitir que a cor e a textura fossem variadas separadamente uma da outra.
O grupo alcançou o detalhe textural desejado por meio de uma técnica conhecida como litografia por feixe de elétrons, que pode ser aplicada na fabricação de semicondutores. Ela pode esculpir padrões na escala de bilionésimos de metro.
A aparência da pele sintética mudou em cerca de 20 segundos após a aplicação de água em qualquer uma das camadas ou em ambas, com o material voltando à forma original conforme secava.
Foram criados cinco estados de cor diferentes misturando um composto de álcool em várias concentrações com a água. Os pesquisadores foram capazes de controlar continuamente a rugosidade da textura do material.
O próximo passo é desenvolver controles digitais para versões futuras da pele. Isso poderia ser usado em conjunto com algoritmos de visão computacional para fornecer informações sobre o ambiente ao redor.
Segundo os cientistas, a pele sintética poderia ser usada para aplicações que se beneficiam de uma "miríade de estados complexos de aparência visual", incluindo criptografia, obras de arte dinâmicas e displays. Poderia ainda "permitir camuflagem verdadeiramente semelhante à dos cefalópodes" em robôs.
O biólogo Alex Cagan, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), afirmou que a pele sintética é um "lembrete de que a evolução é um extraordinário processo de design" e uma rica fonte de ideias para avanços tecnológicos.
"Ao observar os cefalópodes, organismos que passaram centenas de milhões de anos aperfeiçoando a camuflagem dinâmica, os autores mostram como a engenhosidade biológica pode orientar soluções de engenharia genuinamente inovadoras", disse Cagan.
"Em vez de copiarem a natureza diretamente, eles abstraem seus princípios e os traduzem em materiais programáveis com capacidades que seriam difíceis de projetar apenas a partir de princípios fundamentais."
Para o professor de química e ciência naturais Francisco Martin-Martinez, do King's College London, a pesquisa pode um dia permitir que "peles inteligentes" se adaptem instantaneamente a qualquer situação, "aproximando-se da capa de invisibilidade de Harry Potter".
"Além da camuflagem, a capacidade de criar padrões poderia levar a novos tipos de telas sensíveis ao toque que formam botões elevados ou caracteres em braille sob demanda e depois se achatam completamente", avaliou o docente.


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