segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Aquela São Paulo (14/8/2001), Marcelo Rubens Paiva FSP (105)

 Aquela São Paulo (14/8/2001)

São Paulo era uma cidade fria e calada, como uma sóbria senhora conservadora. A cidade era úmida. O sol demorava para atravessar a névoa matinal.

Seus ônibus eram azul-marinho e branco. Tinham listras, como um pijama. Os motoristas usavam camisas azuis, calças azuis, tom sobre tom. Eram polidos, paravam no ponto e não tinham pressa. Eram funcionários públicos, com estabilidade. Entrava-se num ônibus por trás. E eles demoravam a chegar...

Durante o dia, havia muita vida na rua. As babás tinham uniforme. Nós nos encontrávamos nas praças. O sorveteiro tocava corneta. Havia algodão-doce e carroceiros que vendiam melancia e abacaxi. A carrocinha, nossa inimiga, catava cachorros inocentes.

Havia um avião na praça 14 Bis, uma árvore na praça da Árvore, uma grande paineira na Eusébio Matoso que recepcionava quem vinha do sul. Na estrada para Santos, depois da fábrica da Volks, não havia nada além de mata.

São Paulo ficava deserta à noite. Deserta ficava também aos fins de semana, quando todos desciam para o litoral, congestionando suas pensões e ruas, desfilando na orla.

Havia muitas árvores em São Paulo. O padeiro deixava o leite na porta e o pão na janela.

As casas tinham quintais. Na minha, havia uma jabuticabeira. Na da tia Renê, na rua da Consolação, havia um cafeeiro, cujo fruto é doce. Havia muitas casas com cerquinha de madeira branca. Os Gasparian moravam numa delas. A Danda Prado também. Era muito chique morar na avenida Brasil. A gente brincava na sua calçada.

Os táxis eram carros americanos, pretos e grandes. Nós nos sentávamos no banco de trás, em que havia uma cordinha para nos apoiarmos durante a corrida. Os motoristas eram descendentes de espanhóis ou de portugueses. Tinham sotaque, luvas e camisas brancas engomadas.

São Paulo era uma grande classe média. Os pais tinham Simca ou Aero-Willys. As mães tinham DKW. As tias mais avançadas dirigiam Karmann-Ghia vermelho. Os tios balofos e engraçados quase não cabiam em suas Romisetas. No Natal, todos iam ver a decoração da rua Augusta. Num deles, acarpetaram-na. Lá se compravam sapatos.

Eu me lembro da primeira lanchonete. Era estranho o cardápio, com palavras novas, como sundae, milk-shake e hambúrguer.

Os cinemas eram enormes. Havia sempre alguém com uma lanterna para orientar a platéia. Vendiam-se pirulitos em forma de cone enfiados num tabuleiro. Havia dois programas imperdíveis, o Salão do Automóvel e o Salão das Crianças, ambos no Anhembi. Ganhavam-se muitos brindes.

O Alto de Pinheiros era um matagal. Eu me perdi lá uma vez, porque fui atrás de um sorveteiro, e chorei muito. Caio Graco me chamava de "sorvete" por causa disso. Uma vez, fugi de casa com uma irmã e armei a minha cabana de índio na praça. Ninguém atrapalhou a minha primeira aventura.

Meus avós moravam na avenida São Luís. Brinquei muito na praça da República com a minha irmã menor. Não havia favelas em São Paulo. Os operários moravam em casinhas de tijolos. Os muito pobres moravam em cortiços. Os Matarazzo eram os mais ricos da cidade. Moravam na Paulista.

No Pacaembu, Pelé era o maior ídolo. As torcidas se misturavam. Não se via polícia no estádio. Espere. Isso não faz mil anos. Eu tenho só 42. O que deu errado?

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