"Hidrelétricas da amazônia podem perder até 40% de força de geração nos próximos anos." Esse é o título da didática reportagem de André Borges (Folha, 27/12) sobre um estudo da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) e do IPH (Instituto de Pesquisas Hidráulicas), da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), para a produção de cenários de futuras condições hidrológicas, visando adaptação às mudanças climáticas.
O estudo pode ser lido por não especialistas porque apresenta, logo no início, conceitos básicos de hidrologia e de climatologia. Por exemplo, explica que previsão de tempo e previsão de clima são conceitos que não se confundem.
Meteorologistas fazem previsão de tempo quando afirmam, por exemplo, que é alta a probabilidade de que amanhã chova. E fazem previsão de clima quando afirmam, por exemplo, que é alta a probabilidade de que a década de 2040 seja mais seca do que a de 1940.
Se o clima futuro for estatisticamente distinto do observado no passado, diz-se que o processo hidrológico é não estacionário. A causa pode ser mudança climática, devido ao aquecimento global, ou mudança de uso do solo, devido a diversos fatores, como desflorestamento ou reflorestamento.
Durante décadas, a China plantou milhões de árvores para conter a desertificação, recuperar áreas degradadas e combater as mudanças climáticas.
Como regra geral, obteve bons resultados, apesar da leve diminuição da disponibilidade de água devido ao aumento da evapotranspiração. Porém, a redistribuição da umidade na atmosfera teve resultados espacialmente heterogêneos ("Land Cover Changes Redistribute China's Water Resources Through Atmospheric Moisture Recycling" - An - 2025 - Earth's Future - Wiley Online Library).
Anos atrás, estive envolvido num estudo semelhante, realizado por uma equipe da Universidade Harvard, sobre o efeito da substituição de área florestada por área de agricultura na bacia hidrográfica do rio Paraná. Nesse caso, a diminuição da evapotranspiração causou aumento da vazão média afluente à usina hidrelétrica de Itaipu.
Planejar o futuro é sempre difícil, seja o processo estacionário ou não. Em ambos os casos não existe uma bola de cristal para prever, por exemplo, qual será a vazão média afluente à usina hidrelétrica de Furnas, em 2040. Se o processo for estacionário, é possível calcular com razoável precisão qual a probabilidade de que essa variável aleatória caia, digamos, no intervalo entre 800 e 1.000 metros cúbicos por segundo.
Se, ao contrário, o processo não for estacionário por efeito de mudança climática, a série de vazões observadas no passado por si só é insuficiente para calcular probabilidades desse tipo. É preciso combinar com cenários de clima derivados de MGCs (Modelos Globais de Circulação), que utilizam as leis fundamentais da física, como expliquei recentemente neste mesmo espaço.
Nos próximos artigos comentarei como essas complexas questões afetam o planejamento do setor elétrico, começando pela necessidade de um reexame do uso múltiplo dos reservatórios de usinas hidrelétricas para que a geração hídrica melhor complemente a solar e a eólica.

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