quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Por que ler ficção faz bem para o seu cérebro, FSP

 The Summer Hunter

Os livros de ficção têm o poder de nos transportar para outros lugares, países e até universos. Por meio de histórias escritas por outras pessoas, experimentamos sensações e vivências distantes do nosso cotidiano, estimulando a imaginação e a criatividade.

Não à toa, nosso primeiro contato com a literatura costuma ser através da ficção: seja na infância, com os contos de fadas e as fábulas; seja na adolescência, com os clássicos da escola. Mas ler títulos ficcionais é muito mais do que um entretenimento delicioso. Estudos mostram que esse hábito pode melhorar nossas capacidades cognitivas e a forma como enxergamos o mundo.

Sol amarelo sorridente segura livro e lê para dragão verde formado por letras pretas em fundo verde.
The Summer Hunter

Novas perspectivas

Pesquisa recente realizada por pesquisadores da Maximilian University of Würzburg, na Alemanha, confirmou que a ficção tem um impacto positivo na empatia e na compreensão do pensamento alheio. O estudo ainda apontou que ler é mais benéfico do que assistir às mesmas histórias na tela, além de fortalecer habilidades verbais, de raciocínio e de resolução de problemas.

De acordo com outra pesquisa publicada em 2013 na revista Science, ler ficção aumenta a nossa capacidade de compreender os estados mentais dos outros e de entender que as pessoas podem ter crenças, valores e ideias diferentes das nossas.

"Temos o luxo de frequentar esse espaço em que a gente só quer segurar a mão de pessoas que não existem ou conversar com alguém que pode ter morrido há séculos, e isso é absurdamente poderoso", disse o tradutor e ensaísta Caetano Galindo em uma conversa sobre o poder da ficção, mediada pelo The Summer Hunter na 23ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty).

Além de ampliar a empatia e a compreensão do outro, a leitura de ficção atua diretamente sobre funções essenciais do cérebro. Ao acompanhar narrativas complexas, universos imaginários e personagens multifacetados, o leitor exercita a criatividade e a imaginação de forma profunda e contínua. Diferente de estímulos audiovisuais, o texto exige participação ativa: é preciso construir cenários mentalmente, interpretar intenções, antecipar desfechos. Esse processo fortalece a memória, a atenção e a capacidade de concentração.

A ficção também favorece o desenvolvimento do pensamento crítico, pois estimula o leitor a questionar motivações, analisar conflitos e refletir sobre dilemas morais e sociais apresentados na história. Ao entrar em contato com pontos de vista distintos, épocas diferentes e realidades diversas, ampliamos nosso repertório simbólico e nossa capacidade de interpretar o mundo com mais nuance e sensibilidade.

A mente em outro ritmo

Ler ficção também pode funcionar como uma poderosa ferramenta de redução do estresse, ajudando a desacelerar o ritmo mental e a criar momentos de pausa em meio à rotina acelerada. O envolvimento com histórias promove relaxamento, diminui a ansiedade e contribui para uma sensação geral de equilíbrio.

A longo prazo, esse hábito também está associado à chamada longevidade cognitiva: manter o cérebro ativo, curioso e desafiado por meio da leitura pode retardar o declínio de funções mentais, especialmente com o avanço da idade.

Além disso, ao oferecer novas lentes para compreender comportamentos humanos, relações sociais e estruturas culturais, a ficção aprofunda nossa compreensão da sociedade e de nós mesmos. Ler histórias não apenas entretém —amplia horizontes, fortalece o pensamento e nos torna leitores mais atentos do mundo que nos cerca.

Retomando o hábito

Apesar de todos esses benefícios, estamos lendo cada vez menos. Segundo a edição mais recente da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada a cada cinco anos, a média anual de livros lidos pelos brasileiros diminuiu de 4,95 em 2019 para 3,96 em 2024. Apenas 47% da população com mais de cinco anos de idade havia lido pelo menos parte de um livro nos três meses anteriores ao estudo.

Quando perguntados sobre os motivos pelos quais estão lendo menos, 46% dos brasileiros responderam "falta de tempo". Em parte, isso tem a ver com as horas que passamos com o celular na mão, o que soma mais um fator a essa equação: o excesso de telas e a enxurrada de estímulos digitais tornam cada vez mais difícil focar em uma única atividade por muito tempo —e a leitura acaba ficando em segundo plano.

E aí entram, novamente, os livros de ficção, já que podem ser um ótimo jeito de retomar —ou até começar — o hábito de leitura. A curiosidade para descobrir o que acontece nos próximos capítulos e a conexão com os personagens são fatores que ajudam a manter o ritmo e diminuem as chances de abandonar a história na metade. E nem precisa de muito: lendo em torno de oito a dez páginas por dia, já dá para terminar um ou até mais livros por mês.

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