O filme "A Batalha das Correntes" (2017) retrata a disputa entre Thomas Edison e Nikola Tesla no final do século 19 sobre qual seria a melhor solução para fornecimento de eletricidade: em corrente contínua (DC) ou alternada (AC). Edison saiu na frente com a opção DC.
Seu sistema operava em tensão baixa e constante, tipicamente 110 volts. Não havia risco de morte caso alguém tocasse a fiação. Por outro lado, a dissipação de energia (transformação em calor) no transporte era grande, o que limitava a 2 km a distância entre geração e consumo.
Utilizar tensões maiores em DC para diminuir a perda energética em distâncias maiores era na época tecnologicamente inviável. Hoje é possível. Mais do que isso, é uma ótima solução para transporte de grandes blocos de energia por milhares de quilômetros, em altíssima tensão, desde que não haja derivações pelo caminho. É assim que se transporta a energia produzida pelas hidrelétricas de Itaipu, Santo Antônio e Jirau para os centros de consumo.
Tesla venceu a disputa porque na época já se sabia como utilizar transformadores em circuitos AC para (a) elevar a tensão junto à usina de geração, em geral localizada distante do consumo; (b) transportar a energia em alta tensão para minimizar perdas; (c) baixar de alta para média tensão, com possibilidade de derivações, para uso industrial e de redes de distribuição; (d) baixar de média para baixa tensão para uso seguro dos consumidores residenciais.
Assim, ainda no início do século 20, consolidou-se o sistema em AC formado por grandes usinas, extensas linhas de transmissão e distribuidoras de eletricidade.
Recentemente, voltou a ser economicamente atraente localizar a geração perto dos consumidores graças à queda vertiginosa dos preços das placas fotovoltaicas. No Brasil, essa vantagem econômica tem sido desnecessariamente turbinada por subsídios, que há muito deveriam ter sido extintos.
Para consumir eletricidade nas horas sem sol, os consumidores com placa solar precisam manter a conexão à rede elétrica. Todavia, se o preço das baterias cair nos próximos anos, como ocorreu com as placas solares, pode ser que a conexão deixe de ser necessária.
As baterias de lítio, popularizadas por carros elétricos, ainda são caras e dependem de materiais escassos. Por outro lado, as baterias de sódio são promissoras e utilizam matéria-prima abundante e barata: o sal. Se forem produzidas em larga escala, têm o potencial de viabilizar o armazenamento doméstico.
A novidade é que a maior produtora de baterias do mundo, a chinesa CATL, promete produzir baterias de sódio a US$ 10/kWh, o que corresponde a 8% do que custa hoje e a 0,8% do que custava 16 anos atrás. Se conseguir, a notável conquista mudará o panorama do setor elétrico.
Com armazenamento barato e eficiente, a intermitência da geração solar deixará de ser um problema e unidades consumidoras poderão depender unicamente de redes locais, em DC. Numa etapa inicial, será necessário usar inversores DC-AC para alimentar aparelhos eletrodomésticos convencionais. Porém, com a popularização de sistemas DC, o mercado oferecerá mais eletrodomésticos nativos em DC.
Se esse salto tecnológico ocorrer, Thomas Edison afinal triunfará em áreas com baixa densidade habitacional.


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