A pesquisadora via com nitidez o incômodo da mãe. A genitora levara a pequena Julie, de cinco anos, para participar de uma pesquisa sobre linguística na universidade. A primeira tarefa consistia em escolher, a partir de fotos, crianças com as quais gostaria de brincar. Julie, que era branca, só escolhia meninas brancas, para desgosto da mãe, que ia sendo confrontada com um possível racismo da filha.
Aí veio a segunda fase do experimento. Julie ainda teria de selecionar pares com os quais gostaria de brincar, mas agora, além da foto, ouviria um áudio da criança falando. As negras tinham o inglês como língua nativa, e as brancas se expressavam em inglês (Julie entendia o que diziam), mas com um sotaque estrangeiro bem marcado. As preferências de Julie mudaram. Agora, ela só escolhia crianças negras. A mãe respirou aliviada. Sua filha não era racista.
O relato consta de "How You Say It", de Katherine Kinzler, um livro muito interessante sobre como sotaques, dialetos e outros aspectos da forma de se expressar determinam o lugar do falante na hierarquia social.
Entre várias outras discussões, Kinzler trata do bilinguismo. Até algumas décadas atrás, pedagogos o condenavam. Dividir-se entre dois idiomas atrasava um pouco o processo de aquisição da linguagem. O consenso mudou. As vantagens de aprender vários idiomas mais do que compensam o leve atraso. Incluiriam maior agilidade mental, abertura para a diversidade e até proteção contra a demência na velhice.
O ponto central de Kinzler, contudo, é social. Quando uma criança aprende seu idioma nativo, ela não aprende apenas vocabulário e gramática. Ela também faz um curso intensivo de sociologia, absorvendo a cultura da comunidade que a cerca, incluindo os preconceitos, como vimos no caso de Julie. E o preconceito linguístico, como mostrou a mãe de Julie, é o último preconceito ainda socialmente aceitável. Isso tende a ser um problema agora que a direita radical transformou a agenda anti-imigração em palavra de ordem global.

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