sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A encruzilhada da democracia: entre a apatia e a ação, FSP

 Ricardo Henriques

Economista, é superintendente executivo do Instituto Unibanco, professor associado da Fundação Dom Cabral

democracia não morre apenas de golpe de Estado. Levitsky e Way argumentam em "Competitive Authoritarianism: Hybrid Regimes After the Cold War" que sua derrocada nem mais prescinde desse ato, muito embora, como testemunhamos há pouco, golpes continuem a ser tramados e executados.

A democracia sucumbe lentamente, sufocada pela indiferença de uma população que deixa de acreditar que o voto muda algo e pela incapacidade de seus líderes de entregar soluções para os problemas que mais importam. Vivemos esse momento.

Vitrine de vidro exibe documentos antigos, incluindo fotografias em preto e branco e um folheto colorido com as cores verde, amarelo e branco. O folheto tem texto em português e destaca um triângulo amarelo sobre fundo verde.
Peças do museu do Senado Federal danificadas após invasão de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro aos prédios que compõem a Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023 - Gabriela Biló - 09.jan.2023/Folhapress

Apesar de o mundo ter registrado recorde de eleições em 2024, com mais de 50% da população global indo às urnas, a democracia global atingiu seu mais baixo índice de vitalidade desde 2006, segundo o Democracy Index da EIU (Economist Intelligence Unit). É o resultado de três fatores interligados que ameaçam as fundações de nossas sociedades abertas.

O primeiro, e mais visível, é o crescimento de forças políticas abertamente autoritárias. Sob a retórica da liberdade, esses movimentos contestam direitos e sabotam o exercício das instituições para que funcionem como democráticas apenas por aparência.

Ainda segundo a EIU, 39% da população mundial vive sob regimes autoritários, e o número de países nessa categoria subiu para 60. Na América Latina, embora o apoio à democracia tenha mostrado leve recuperação, chegando a 52%, um preocupante contingente de 25% da população se declara indiferente ao regime político, como aponta o relatório anual Latinobarómetro 2024. Esse é um terreno fértil para o autoritarismo.

Isso nos leva ao segundo fator: a crescente incapacidade das democracias de entregar o que prometem. Como bem já apontou a cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, a persistência da pobreza e da profunda desigualdade social corrói a adesão ao projeto democrático.

François Dubet, no livro "O Tempo das Paixões Tristes", também alerta para o processo de individualização das desigualdades, com a ampliação dos ressentimentos e das frustrações, capturada por movimentos autoritários. Quando o sistema político falha em proteger direitos, sobretudo de grupos vulnerabilizados, e em gerar prosperidade compartilhada, perde legitimidade. A democracia não pode ser apenas um ideal abstrato. Ela precisa se traduzir em melhorias concretas na vida das pessoas.

Por fim, o terceiro fator é a baixa ambição dos próprios grupos democráticos. Suas propostas, muitas vezes reativas e fragmentadas, não inspiram a sociedade a se preparar para as transformações monumentais em curso. Eles hesitam, às vezes por falso pragmatismo, em estabelecer níveis desafiadores de progresso para todos, de forma inclusiva, plural, criativa e dinâmica.

Desafios como a transição demográfica (que redesenha o perfil de nossas populações e pressiona os sistemas de proteção social), a revolução tecnológica (que concentra poder e riqueza de formas inéditas), e a emergência climática (que exige reestruturação de nosso modelo de desenvolvimento) demandam visão de futuro e capacidade de ação potente e ambiciosa, ausentes hoje no repertório mobilizado pelas forças progressistas e democráticas.

A encruzilhada em que nos encontramos é clara, mas não intransponível. A democracia ainda respira, resiste e oferece a possibilidade de mudança pacífica e consensual. Mas para que não seja apenas resiliente —e para que seja verdadeiramente transformadora— precisamos reconhecer que o problema não é externo. Ele está na nossa incapacidade de construir políticas públicas robustas e inclusivas, que entreguem direitos e oportunidades.

O problema está na falta de ambição em preparar as sociedades para os desafios do século 21. E está, sobretudo, na resignação diante do óbvio: que um regime autoritário é, por definição, incapaz de oferecer as respostas complexas e colaborativas que um mundo em transformação exige. A democracia não precisa de salvadores, mas de cidadãos e líderes dispostos a fazer o trabalho árduo de construir um futuro mais justo e sustentável. Ainda há tempo. A pergunta é: teremos a coragem de tentar?

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