segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Precisamos curar nossa dependência do carro, FSP

 Anthony Ling

Urbanista e editor-chefe do Caos Planejado, plataforma digital sobre cidades

Roberta Inglês

Urbanista, é editora de urbanismo do Caos Planejado, plataforma digital sobre cidades

"O brasileiro é apaixonado por carro" é um senso comum de quem vê nosso trânsito atolado por automóveis. O que a história mostra é que somos tão apaixonados por carro quanto fumantes são apaixonados por cigarro. A relação não é de paixão, mas de dependência.

O carro foi inventado no final do século 19 como uma tecnologia promissora para cidades que cresciam rapidamente. Teóricos do século 20 pregavam que cidades estavam congestionadas, defendendo o "desadensamento" e o zoneamento de atividades. Vias amplas serviriam não apenas para trânsito rápido, como para evitar a "miasma", ideia ultrapassada de que altas densidades e ruas estreitas contribuiriam ao surgimento de doenças.

Viaduto com tráfego intenso de veículos sobre rio em área urbana ao entardecer. Rodovia abaixo do viaduto também apresenta congestionamento, com carros em ambas as direções. Vegetação e árvores cercam a rodovia e o rio, com prédios ao fundo sob luz difusa do pôr do sol.
Trânsito de veículos na via marginal do rio Tietê na altura da ponte do Tatuapé, na zona leste de São Paulo - Adriano Vizoni - 4.nov.2011/Folhapress

A urbanização brasileira ocorreu sob esse direcionamento. Em 1930, Prestes Maia elabora o Plano de Avenidas para São Paulo, prevendo o alargamento e a abertura de vias para carros. Nos anos 1950, iniciaram as obras das marginais Tietê e Pinheiros e, nas décadas seguintes, de incontáveis viadutos, sendo o "Minhocão" o mais emblemático. No Rio veio o elevado da Perimetral, dando um golpe na vida do Centro, e Porto Alegre, antes capital dos bondes, dá início a uma sanha por viadutos que destrói o caráter da cidade.

Brasília coroou o protagonismo do carro. Com largas avenidas e setorização extrema, as distâncias são monumentais, e a vida do pedestre, hostil. Seu conceito de edifícios isolados uns dos outros é replicado nos planos diretores do país.

Diferente dos nossos centros históricos que possuem edifícios contíguos e alinhados à calçada, incentivando fachadas ativas, prédios em novos bairros foram obrigados a se afastarem das divisas e incentivados a deixarem seus térreos vazios. O visual resultante é de calçadas ladeadas por muros, e áreas centrais, mesmo esvaziadas, ainda são as melhores para caminhar.

Jan Gehl, renomado urbanista dinamarquês, teve que dizer o óbvio: "Se você planeja cidades para carros e tráfego, você obtém carros e tráfego. Se você planeja para pessoas e lugares, você obtém pessoas e lugares".

Ao separar atividades e distanciar as pessoas, não só o custo de infraestrutura dispara como as formas de transporte mais sustentáveis e economicamente acessíveis – transporte coletivo, bicicletas e o andar a pé – ficam inviáveis. A explosão na adoção do carro também levou à explosão de mortes no trânsito e de doenças respiratórias ligadas à poluição do ar.

No entanto, enquanto vemos as ruas tomadas por carros, segundo o IBGE, apenas um terço dos brasileiros o utilizam para ir ao trabalho. Carros simplesmente ocupam muito espaço, e normalizamos ocupar as ruas —espaços públicos de uso comum— com bens privados de uso exclusivo. Ao invés de regularmos o uso do carro nas ruas, temos apenas aumentado o seu espaço em detrimento de outros modos de transporte.

"O carro é o cigarro do futuro", já dizia o urbanista e ex-prefeito de Curitiba, Jaime Lerner. Conhecido pela inovação no transporte coletivo, na priorização dos pedestres e na valorização dos espaços públicos, Lerner nadou contra a corrente da época. Em Curitiba os carros não seriam protagonistas, mas raras cidades brasileiras tiveram a mesma sorte.

Hoje, muitos carro-dependentes argumentam que "não podemos prejudicar o automóvel sem antes ter alternativas de qualidade". Outros defendem carros elétricos (o vape da mobilidade), que melhoram a qualidade do ar, mas mantém os demais efeitos nocivos. A evidência mostra que há curas para nossa dependência, mas requerem liberação do espaço ocupado pelo carro.

Cidades como Singapura, Estocolmo, Londres e Nova York, já colhem frutos da cobrança para carros circularem em certas áreas e horários, reduzindo congestionamentos.

Copenhague atingiu 49% das viagens entre casa e trabalho feitas de bicicleta construindo uma rede completa de ciclovias protegidas. Talvez, com o dinheiro gasto em alargamentos viários e viadutos, poderíamos ter hoje os metrôs mais sofisticados do mundo.

O Rio já demoliu o elevado da Perimetral, recuperando a área portuária, e São Paulo transformou o Minhocão em parque.

O início poderia ser até mais singelo, como eliminar ou cobrar pelo estacionamento de meio fio. Mas só assim tornaremos dirigir uma escolha, e não uma necessidade.


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