terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Hélio Schwartsman- O absurdo assume o poder, FSp

 "Reductio ad absurdum" é uma técnica argumentativa pela qual se busca refutar uma tese mostrando que sua aceitação leva a conclusões ilógicas, contraditórias ou absurdas. Já me vali algumas vezes desse recurso para criticar raciocínios, tanto por parte da direita como da esquerda, que desembocam em censura. Em mais de uma coluna afirmei que, a prevalecer esse tipo de pensamento, logo proibiríamos Aristóteles. Ele, afinal, defendia a escravidão.

Edifício clássico de pedra com cúpula central, colunas na entrada principal e janelas simétricas. Jardim com árvores e estátua em primeiro plano ao centro.
Campus da Texas A&M University, universidade pública americana localizada em College Station, no Texas - Harshavardhan - stock.adobe.com

Meu tiro passou raspando. Não é Aristóteles que foi censurado, mas sim seu mestre, Platão. "O Banquete", um diálogo escrito pelo ateniense no século 4º a.C., acaba de ser banido de um curso de filosofia na Texas A&M University (Tamu). O ímpeto censório desta vez partiu da direita, mas só se materializou por "excesso de zelo" de autoridades universitárias, que, num mundo não distópico, trabalhariam a favor e não contra a liberdade de cátedra.

Em 2023, o incorrigivelmente conservador Legislativo texano aprovou mais uma lei anti-woke, que proíbe universidades públicas de manter escritórios DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) e de implementar políticas com essa orientação. Se a Tamu tivesse só fechado seu escritório DEI já teria, creio, cumprido a norma. Só que alguém no sistema de universidades do Texas quis ser mais realista que o rei e se pôs a analisar se os conteúdos dos cursos também estavam de acordo com a legislação.

Há poucos dias, o professor Martin Peterson recebeu a notícia de que seu curso sobre questões morais contemporâneas não poderia discutir "O Banquete", já que nesse texto Platão afirma que a homossexualidade é natural e que humanos não são sexualmente binários, o que constituiria uma forma de ideologia de gênero.

Dá até para dizer que o episódio faz justiça poética, já que Platão era um entusiasta da censura que baniu os poetas de sua República. Talvez, mas quando um professor de filosofia é proibido de ensinar Platão, podemos ter certeza de que algo de muito errado aconteceu e que o absurdo chegou ao poder.


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