Após o que parece ter sido uma operação militar bem-sucedida que conseguiu a extradição do ditador Nicolás Maduro, o governo Trump fez comparações com a captura do panamenho Manuel Antonio Noriega exatamente 36 anos antes, em 3 de janeiro de 1990.
A invasão do Panamá pelo presidente George H.W. Bush, embora controversa, foi decisiva e relativamente livre de complicações em seu desfecho. Mas o que está por vir na Venezuela —começando pelo plano anunciado pelo presidente Donald Trump de que os Estados Unidos "administrarão o país até que possam fazer uma transição segura, adequada e judiciosa"— será um desafio com dificuldades maiores e armadilhas mais profundas.
E ao declarar que empresas americanas vão entrar no país e assumir o controle das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, Trump também colocou em questão as reais motivações para uma intervenção americana.
"Essencialmente, Trump confirmou que tudo o que ele disse até agora era uma história de fachada para seu plano de assumir a Venezuela e administrá-la em benefício das empresas petrolíferas americanas e de seus amigos bilionários", disse o senador democrata Chris Van Hollen.
Durante entrevista coletiva no sábado (3), Trump deu poucos detalhes sobre como planeja colocar o país no caminho prometido para a estabilidade, prosperidade e governança democrática.
Ele também não descartou uma maior escalada militar ou um envolvimento prolongado de tropas americanas. "Estamos prontos para realizar um segundo e muito maior ataque se precisarmos", disse o presidente.
Com Maduro a caminho de enfrentar o que a procuradora-geral Pam Bondi disse que seria "toda a ira da Justiça americana em solo americano nos tribunais americanos", Trump também sinalizou uma visão de longo alcance da dominação dos EUA no Ocidente, remetendo à Doutrina Monroe do século 19.
Ele advertiu que o que aconteceu na Venezuela poderia ser um prelúdio para a intervenção militar dos EUA em outros países da região envolvidos no tráfico de drogas, e disse que o presidente colombiano, Gustavo Petro, em particular, deveria "cuidar do seu traseiro".
Tudo isso vai contra a postura autoproclamada de Trump como não-intervencionista, que tem sido um artigo de fé para sua base Maga (Make America Great Again) e sua filosofia "América Primeiro".
Mas no último ano, ele ordenou ataques militares no Irã, Iêmen, Síria, Iraque, Nigéria e outros lugares. Os EUA também fizeram meses de ataques a embarcações acusadas de transportar drogas da Venezuela.
O sucesso de Trump na Venezuela daqui para frente dependerá de vários fatores, disse Andrés Martínez-Fernández, analista sênior de políticas para a América Latina na conservadora Fundação Heritage.
Um deles, afirma, é se Trump conseguirá encontrar aliados confiáveis nos "restos esqueléticos" do regime venezuelano.
O regime de Maduro foi considerado eleito de forma ilegítima pelos EUA, mas Trump disse que o secretário de Estado, Marco Rubio, havia conversado com a vice-líder escolhida por Maduro, Delcy Rodríguez, e afirmou que ela está "essencialmente disposta a fazer o que achar necessário para tornar a Venezuela grande".
No entanto, horas depois de Trump fazer essa declaração, Delcy fez uma aparição na televisão de Caracas na qual exigiu "a libertação imediata de Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores". "O único presidente da Venezuela, o presidente Nicolás Maduro", afirmou ela.
Trump foi desdenhoso quanto às perspectivas da líder da oposição María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025 que o presidente americano tão abertamente cobiçava, de assumir um papel na nova ordem das coisas na Venezuela.
"Acho que seria muito difícil para ela ser a líder", disse Trump. "Ela não tem o apoio interno ou o respeito dentro do país. Então, uma mulher muito simpática, mas ela não tem o respeito".
Outro desafio para os Estados Unidos, afirma Martínez-Fernández, da Fundação Heritage, será lidar com as perigosas gangues criminosas armadas, muitas aliadas a Maduro, que permanecem em território venezuelano.
Ele sugere que o presidente faria bem em buscar parceiros regionais, inclusive entre os líderes amigos de Trump de países como Bolívia, Chile, Argentina e El Salvador.
Em casa, o governo certamente enfrentará perguntas incisivas do Congresso, que não foi informado com antecedência sobre a operação na Venezuela.
Embora a Constituição atribua explicitamente o poder de "declarar guerra" ao poder legislativo, o Congresso efetivamente cedeu grande parte dessa autoridade ao Executivo nos últimos três quartos de século.
Desde as consequências de Pearl Harbor, o Congresso não aprovou uma declaração formal de guerra, mesmo enquanto dezenas de milhares de militares americanos foram mortos em conflitos prolongados em todo o mundo.
Democratas e alguns republicanos no Capitólio argumentaram que as ações de Trump na Venezuela reforçam a necessidade de o Congresso recuperar seu papel constitucional.
"Usar força militar para promover mudança de regime exige o escrutínio mais rigoroso, precisamente porque as consequências não terminam com o ataque inicial", escreveu o senador democrata Mark R. Warner, vice-presidente do Comitê de Inteligência do Senado, nas redes sociais.
"Se os Estados Unidos afirmam o direito de usar força militar para invadir e capturar líderes estrangeiros acusados de conduta criminosa, o que impede a China de reivindicar a mesma autoridade sobre a liderança de Taiwan? O que impede Vladimir Putin de usar uma justificativa semelhante para sequestrar o presidente da Ucrânia?", disse Warner.
"Uma vez que essa linha é cruzada, as regras que contêm o caos global começam a desmoronar, e os regimes autoritários serão os primeiros a explorá-la", acrescentou ele.

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