O caso conhecido midiaticamente como "escândalo do Banco Master" tem escala bilionária e tentáculos espalhados por diversas esferas de poder, justificando a afirmação do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de que as investigações podem revelar "a maior fraude do país".
Tem ainda um traço de linguagem que, modesto diante das estripulias financeiras do banco liquidado, merece registro: por uma coincidência linguística, o "escândalo do Master" parece ser também nosso escândalo máster – o maior de todos, o imbatível.
Esse significado do substantivo-adjetivo "máster" ainda não foi reconhecido por nossos melhores dicionários, que se limitam a registrar o sentido de "referente a matriz, original a partir do qual se faz uma cópia", como na fita máster.
A palavra vem do inglês "master" (senhor), do latim "magister" (mestre, aquele que guia). Por influência desse idioma ou extensão doméstica de sentido, foi se transformando na língua do dia a dia em selo de superioridade, marca de superlativização.
O melhor exemplo é a "suíte máster", que, por ser aquela em que dorme o dono, é a maior e mais luxuosa da casa. (Numa intromissão da ortografia inglesa, a palavra costuma ser escrita sem o acento agudo, que em português é obrigatório para que não se pronuncie "mastér").
Na evolução semântica de "máster", é evidente o empurrão do marketing, o mesmo que enche nossa paisagem textual de entulhos cintilantes como "premium", "mega", "plus", "platinum" e outras cafonices sinalizadoras de excelência, exclusividade etc.
"Máster" é uma palavra relativamente nova, chegada ao português no século 20, e ao projetar sua sombra na expressão "escândalo do Master" ajuda a revigorar um substantivo velho de séculos que, tão difundido quanto abusado, corre o risco de já não dizer grande coisa.
Escândalo, sonoro vocábulo proparoxítono, é um termo do glossário sempre requisitado da indignação, do ultraje, da revolta moral. Nesse campo é sem dúvida um dos termos preferidos da língua portuguesa —e não só dela, fazendo o mesmo efeito em francês ("scandale"), inglês ("scandal") e outros idiomas.
Tudo isso tem origem no latim eclesiástico "scandalum", aquilo em que se tropeça, derivado por sua vez do grego "skándalon", pedra de tropeço, armadilha. Escândalo era o que provocava a queda no pecado.
O caminho entre a fonte teológica e o uso mundano da palavra fica mais claro quando se leva em conta sua acepção original em francês, que a adotou já no século 12, duzentos anos antes do português.
Segundo o referencial "Trésor de la Langue Française", escândalo é antes de mais nada "aquilo que parece incompreensível e, consequentemente, representa um problema para a consciência, confunde a razão e perturba a fé". Por exemplo: se Deus existe, por que permite a existência de Donald Trump?
Depois que a modernidade transformou o escândalo em mercadoria, primeiro para vender jornal e mais tarde para caçar cliques, estamos sempre correndo o risco de banalizá-lo. Eis por que "escândalo máster" é uma expressão feliz.
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