1. Acordo na madrugada de sábado com uma mensagem no celular: "Captura pelos americanos é ruim, mas o pior é ter de levar a mulher junto. Dupla punição."
Meus amigos são assim: desbocados e inconvenientes. Talvez seja por isso que eu goste tanto deles. Como democratas genuínos, não hesitam em celebrar a queda de um ditador. Se der para incluir a esposa no pacote, melhor ainda.
Estou com eles. Celebro o fim de Nicolás Maduro. Gostaria de acreditar que isso significa também o fim do regime, mas Trump parece ter outros planos: um "madurismo sem Maduro", com os Estados Unidos faturando o petróleo do país. Onde fica a democracia? Onde fica a liberdade? Onde fica o reconhecimento das lideranças legítimas da Venezuela, vencedoras da eleição de 2024?
Por enquanto, em lugar nenhum. Os neoconservadores —que com razão ganharam má fama— ao menos invadiam países com a ambição ingênua de democratizá-los. Com Trump, nem isso.
Pode ser prudência histórica: depois da invasão do Iraque, George W. Bush desmontou o poder sunita e entregou o país aos xiitas. O resultado foi a guerra sectária —e o nascimento do Estado Islâmico. Mas também é possível que a qualidade da governança seja irrelevante, desde que Caracas permaneça fiel ao novo senhor feudal. Como? Pagando tributo e se afastando das más companhias —Irã, Rússia, China, Cuba.
Seria a ressurreição da velha máxima da política externa: Delcy Rodríguez pode ser uma canalha, mas é a nossa canalha.
2. Celebro o fim de Maduro, repito. Não celebro o método da sua captura, que me parece mais um sintoma grave da crise do liberalismo contemporâneo.
Uma breve digressão. Em 2016, quando Trump chegou pela primeira vez à Casa Branca, as editoras passaram a lançar, em ritmo industrial, livros solenes sobre a morte da democracia. A tese geral era conhecida. O "populismo" corroía o pluralismo, os direitos individuais, a separação de poderes —em suma, o legado liberal que define as democracias liberais.
Li vários desses livros. Concordei com muito do que diziam. Mas notei algo curioso: todos partilhavam uma fé excessivamente otimista. As democracias liberais estariam ameaçadas por dentro, mas o sistema internacional liberal seguiria firme e forte. Que sistema era esse? Simplificando: um mundo baseado na soberania inviolável dos Estados, na ausência de esferas de influência, no multilateralismo e na autocontenção das grandes potências —precisamente o tipo de ordem que protegia países pequenos e médios da lei do mais forte.
Confesso: ri alto. Os autores realmente acreditavam que as mesmas forças que corroíam o liberalismo doméstico não acabariam por contaminar o liberalismo internacional? Quando se defende que o poder não pode ser contido por regras gerais, o céu é o limite.
E assim foi. A Rússia invadiu a Ucrânia. A China ronda Taiwan com apetite crescente —e, na mensagem de Ano-Novo, Xi Jinping voltou a garantir que a "reunificação" é um processo "imparável".
Mas o golpe final veio com a segunda administração Trump e sua estratégia de defesa nacional. Você conhece a Doutrina Monroe? Trump inseriu um "corolário". A América Latina, como esfera de influência exclusiva dos Estados Unidos, não é lugar para "incursões hostis de potências estrangeiras", muito menos para o controle indevido de seus "ativos estratégicos". Nesse parágrafo, só faltou mesmo a foto de Nicolás Maduro.
O problema é que o radar não se limita a Caracas. Como garantir que a Groenlândia, explicitamente cobiçada por Trump, não seja a próxima parada? E como assegurar que, depois de morder um pedaço da Ucrânia, a Rússia não passe a reivindicar, dentro da sua própria esfera de influência, outras ex-repúblicas soviéticas?
O fim da ordem internacional liberal é uma caixa de Pandora que, como a história ensina, tende a produzir destruição e guerra.
3. Há quem sustente que o internacionalismo liberal é uma utopia perigosa que, ao tentar construir "um mundo melhor", acaba produzindo um mundo pior.
Isso pode acontecer, sim. Mas, nessas discussões, vale ler John Ikenberry, especialmente "A World Safe for Democracy". Não se trata de um liberal romântico, mas de um liberal cético, atento ao poder e aos seus abusos.
A ideia central é simples: defender um mínimo de regras para conter o poder bruto dos predadores talvez seja a posição mais realista de todas. É a postura de quem desconfia da natureza humana. Afinal, o poder corrompe —e o poder absoluto corrompe absolutamente, como lembrou Lord Acton.
O que vale para as democracias liberais vale para as relações internacionais. Mas tudo indica que, mais uma vez, só reconheceremos o valor dessa ordem depois de vê-la ruir. É o eterno retorno.

Nenhum comentário:
Postar um comentário