A captura americana de Maduro viola o Direito internacional. Isso parece inegável. Mas será que o Direito internacional deve ser sempre tratado como absoluto? É sempre preferível deixar um ditador brutalizar sua própria população do que violar a soberania nacional para impedi-lo? Responder afirmativamente é dizer que, no limite, o mundo tem o dever de assistir calado a genocídios cometidos por tiranos dentro de seus territórios.
Os próprios venezuelanos desejam o fim do regime, como atestado nas eleições de 2024. Os 20% dos venezuelanos na diáspora celebram a queda do ditador. É impossível não levar isso em conta.
Idealmente, haveria um processo multilateral e democrático na ONU para depor tiranos que oprimem e são odiados por sua própria população. Ele seria isonômico e não estaria a serviço da conveniência geopolítica de nenhuma das potências. Infelizmente, todos sabemos que a ONU é, hoje, inoperante e que esse tipo de decisão jamais virá dela.
Na falta dessa possibilidade, cabe à maior potência mundial, que calha de ser uma democracia, tomar atitudes pontuais como essa. Evidentemente, elas serão sempre seletivas (por que uma ditadura e não outra?) e limitados pelo interesse nacional. Mesmo assim, podem ter resultados positivos para os países alvo de intervenção, como ocorreu na Alemanha, Japão e Coreia do Sul.
O problema é que no comando dessa potência está Trump, que é bem explícito em seu desprezo por qualquer valor maior —como democracia ou liberdade— que sustentava a ordem liberal que os EUA ajudaram a criar no pós-guerra.
Trump conseguirá redemocratizar a Venezuela? Ele sequer deseja isso? A essa altura, não sabemos. A escolha por manter a estrutura do regime em vez de varrê-la para reerguer o Estado com nomes da oposição (como foi feito no Iraque), por si só não indica nada. É uma opção pela estabilidade e pela segurança, o que nada diz sobre a transição para a saída dos chavistas e eleições livres no futuro.
Foi uma ação consistente com a Estratégia de Segurança Nacional de Trump, que pinta o hemisfério ocidental como quintal dos EUA. Como ninguém no continente tem como se opor a ele, e como China e Rússia não parecem dispostos a brigar, vale a máxima de Tucídides: "os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem". Se alinhar um país aos EUA significa derrubar seu ditador e trazer a democracia, ótimo. Mas e se uma ditadura alinhada for ainda mais palatável ao interesse americano?
A justificativa americana, ademais, só aumenta a preocupação: o pretexto para atacar o país foi capturar um traficante. Essa justificativa não diferencia entre democracias e ditaduras.
Como em tantos dilemas morais, os resultados posteriores darão a resposta. Se, daqui a um ano, a Venezuela tiver eleições regulares, boa gestão e liberdades individuais, a intervenção terá sido correta. Se, ao contrário, o país se perder no caos de uma guerra civil ou se ainda estiver sob um regime autocrático (agora pró-EUA), ela terá sido má. O histórico de intervenções recentes e a motivação explicitamente egoísta do governo Trump não pintam um cenário muito promissor. Só o tempo dirá. Até lá, me uno na esperança de milhões de venezuelanos.


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