terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Ozempics acabarão com a fome do mundo, Bruno Gualano - FSP

 Esqueçam a pílula anticoncepcional e o viagra. Nenhuma outra droga transformou o mundo como os ozempics (nome artístico dos análogos de GLP-1). Os primeiros revolucionaram pelo prazer; os segundos, pela anedonia.

Para Epicteto, reprimir os desejos levava à felicidade; para Freud, à neurose. Mas não é preciso pôr filósofos cara a cara quando os fatos se impõem. Vejam esta: gatos gordos também estão tomando ozempics. Conforme anúncio de uma farmacêutica, a droga tem o potencial de não só reduzir o peso dos ozempets, mas também estender, como nunca antes visto, seu tempo de vida.

Fico pensando se os bichanos das canetinhas, indiferentes a um Churu, serão mais felizes. E se nós, humanos, desejamos viver num mundo de felinos magricelas. Quando a tendência pegar e pandas forem convertidos a texugos, com qual pelúcia encantaremos nossos filhos?

A imagem mostra três canetas de medicamento em primeiro plano. A caneta superior é transparente e contém o nome "mounjaro" e a dosagem de "10 mg". As duas canetas abaixo são azuis e têm o nome "Ozempic" visível. O fundo da imagem é escuro, destacando as canetas.
Canetas para tratamento da diabetes tipo 2 e obesidade - Karime Xavier - 9.jan.25/Folhapress

Voltemos ao reino do homo sapiens, onde as coisas já andam complicadas o bastante. Nossa ceia de Ano Novo, partilhada com vizinhos no salão do prédio, é um bom índice disso. Por tradição, a quantia de comida é calculada como se a última refeição do ano fosse a da vida. E para evitar a pecha do exagero, a esbórnia avança até o primeiro almoço do ano.

Mas os tempos são outros. Não que alguém tenha desfilado pelo salão com camisetas "I Love Ozempic", mas o Dr. Paulo do 53 —autoidentificado como médico integrativo— estimou que ao menos 60% dos presentes estavam sob efeito das canetinhas. Seu cálculo baseou-se na contagem daqueles que, ao longo do ano, murcharam o corpo em ao menos 20% e envelheceram o rosto na mesma proporção. Pelancas e roupas folgadas —especialmente entre os homens, sabidamente desleixados com a renovação do guarda-roupa— ajudaram no diagnóstico.

O resultado foi que a comida encalhou. O que seria um almoço para matar as sobras virou um jantar. Depois, outro almoço. E um novo jantar. O jeito foi convidar amigos dos amigos para a comilança. Mas a maioria dos estranhos também carregava a marca dos ozempics. Gente que encarava um lombo suíno com mostarda, mel e alecrim servido com arroz de polvo com o mesmo tesão dedicado a um pote de whey.

Escrevo esta coluna no dia 3, de dentro do salão, enquanto abro outro botão da bermuda para dar vazão aos efeitos da orgia alimentar. Não há luz no fim da geladeira que aponte o fim do martírio. Em breve, a mesa estará posta. Ou reposta? Preso nesse looping glutão, ontem à noite vislumbrei um fiapo de esperança.

Meu vizinho Tiagão, que nem é magro nem gordo, ganhou o ticket para o Ozempic pelo fígado, nem sadio nem doente. A cara ossuda denuncia a aderência à canetinha. O que não o deteve.

Ontem à noite, alguém teve a ideia de comprar pães para fazer lanches do interminável pernil. Como se mais comida fosse nos tirar desse buraco. Ouço então Tiagão protestar contra a escassez: "dois pães por pessoa é um absurdo! Tô com fome!". Vê-lo resmungar enquanto abocanhava insaciavelmente os pãezinhos não me deixou alternativa senão ceder-lhe um da minha própria quota —devorado com ainda mais gozo que os anteriores. Não obstante drogado, o homem preservara essa coisa démodé que é a vontade de comer.

Tiagão representa a resistência. Num futuro de gente, gatos e pandas sem apetite, em que a fome terá acabado no mundo —não pela conquista civilizatória da distribuição justa de alimento, mas pela astúcia da indústria em adicionar ozempics à água de beber—, bem-aventurados serão os que, por razões desconhecidas da ciência, ainda sentem prazer em comer.

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