quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Leblon de Manoel Carlos, Ruy Castro_FSP

 De seus 92 anos de bonita vida, encerrados no sábado (3), Manoel Carlos morou 60 no Leblon. Digo bonita porque dedicou-a a gerar pessoas em sua imaginação, soprar-lhes vida e botá-las para andar, amar, sofrer, trabalhar, ter prazer e morrer —enfim, o receituário comum ao ser humano. Tudo isso num veículo que ele ajudou a tornar respeitável: a novela de TV. E, desde que morador do Leblon, nunca situou suas histórias em outro cenário.

Modestamente, também estou há 30 anos no Leblon, depois de temporadas menos ou mais longas na Glória, no Flamengo e em Botafogo e Laranjeiras. Assim como Manoel Carlos, tenho vivido de escrever, mas, por trabalhar com fatos reais, preciso buscar as histórias onde elas aconteceram: em Ipanema e Copacabana, no Catete, na Lapa, no centro da cidade e na zona norte. E, como trato do passado, poucas se deram no Leblon —acessível pela Lagoa desde os tupinambás, mas que só começou a se tornar o Leblon de hoje nos anos 1960.

Quando às vezes me refiro ao Leblon neste espaço, leitores o invectivam como o bairro dos fúteis, dos parasitas. Eu os convidaria a nos visitar. Não à noite, quando a turba da cerveja em pé, dos restaurantes e botequins, entope as calçadas e o asfalto da rua Dias Ferreira. Mas durante o dia, em qualquer dia da semana, quando seus habitantes curtem o que ele tem de silencioso, seguro, amoroso, quase provinciano. O que significa isso? Que o Leblon da má fama é o da night, de gente de fora do bairro, da cidade e até do país, que, de madrugada, volta feliz para seus burgos e nos devolve a paz.

Escritores gostam de sossego e talvez por isso o Leblon atraia tantos. Aqui já fui vizinho de Paulo Mendes Campos, Antonio Callado, Rachel de Queiroz, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Fonseca e, claro, Manoel Carlos. Não creio que se considerassem fúteis e parasitas.

Cruzava com eles nas nossas ruas e praças que, por acaso, levam nomes de grandes escritores: Humberto de Campos, Alberto Rangel, Arthur Ramos, Rodrigo Octavio e Antero de Quental.

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