terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Deirdre Nansen McCloskey O que se pode chamar de liberalismo?, FSP

 


Criei um rótulo para o que sou e o que quero que você se torne para podermos ter êxito na construção de uma boa sociedade. Até recentemente, eu o chamava de liberalismo "verdadeiro". Isso insulta meus muitos bons amigos que se dizem liberais. Ele diz: "Eu sou verdadeiro. Você, infelizmente, é falso". "Liberal verdadeiro" tem o mesmo problema. Você nem é real. Uma espécie de fantasma!

Agora, é claro que eu realmente acredito que esses meus queridos amigos "liberais" são, em certo sentido, falsos e não reais. Não é que eles sejam insinceros em sua afirmação de que são liberais, mas que estão enganados em como o chamam. E não é uma questão de "mera" retórica. A retórica tem grandes consequências na política.

A histórica rota 66, nos Estados Unidos - Robyn Beck 8.jul.23/AFP

Em particular, muitos dos meus amigos "liberais" acreditam no oposto do liberalismo. Tudo começou após o breve pico da ideologia liberal no início do século 19, como na Constituição espanhola de 1812 ao declarar que o "princípio servil" seria abolido. Não haveria mais senhores. Um liberalismo "novo" ou "social" foi introduzido na década de 1880 na Grã-Bretanha, o lar do liberalismo. E ainda está entre nós. Ele diz: "Vamos usar os poderes do Estado para coagir as pessoas a ajudar os pobres e, ao mesmo tempo, coagir os próprios pobres". Por exemplo, a eliminação de favelas era vista como Novo Liberalismo. "Vou derrubar suas casas", dizia ele aos pobres, "porque é bom para vocês."

Nos EUA, até a década de 1960, favelas foram derrubadas para construir superestradas cortando o centro das cidades. Não causa surpresa que rodovias fossem usadas para segregar negros de brancos, como em Chicago. E assim por diante. "Torne ilegal pagar a você menos do que um alto salário mínimo", assim, se os patrões acharem que você não vale tanto, você ficará sem emprego.

Como chamar o liberalismo de Adam Smith, Mary Wollstonecraft e do antigo J.S. Mill, e depois pessoas como Milton Friedman? O que é chamado de liberalismo "clássico", ou "libertarianismo" nos EUA, ambos têm seus próprios problemas. "Clássico" faz o liberalismo parecer antiquado, o que é incorreto. E "libertarianismo" nunca ficou claro para a maioria dos norte-americanos, embora suas políticas sejam o que a maioria deles quer.

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Minha avó, nascida na década de 1890, tinha um princípio clássico-libertário: "Faça o que você quiser, mas não assuste os cavalos". No entanto, alguns autointitulados libertários nos EUA hoje em dia são tão coercitivamente contra qualquer socialismo que se inclinaram para o fascismo e apoiam Trump. Incrível. Eles assustam os cavalos, e certamente a mim.

Qual é o meu novo rótulo? Liberalismo "suficiente". Quero dizer, uma igualdade de permissão, não igualdade de renda ou de oportunidade —ambas as quais envolvem coerção e, de qualquer forma, são inatingíveis, mesmo grosseiramente. Mas podemos começar a dar permissão às pessoas, amanhã, retirando os milhões de regulamentações que obstruem a economia dos EUA e do Brasil. Uma mulher pode se tornar piloto de avião, um negro pode conseguir um emprego na África do Sul, pessoas pobres podem viver onde podem pagar o aluguel, sem que o Estado intervenha, como fez, para segregar as pessoas pobres em favelas.

Sem senhores, sem coerções. É o suficiente.

Com doença rara e sem cura, Clóvis de Barros Filho prega o desapego sobre o futuro, FSP

 Marcos Candido

SÃO PAULO

Durante a entrevista para a Folha, Clóvis de Barros Filho, 58, olhava para baixo. Mas não era tristeza. Há dois anos, o professor e filósofo foi diagnosticado com a doença de Behçet, uma condição que causa fragilidade do sistema imunológico, propiciando aftas e inflamações, em especial nos olhos. A doença é autoimune, rara, sem cura e pode levá-lo à morte.

Por isso, ele evita olhar a luminosidade que entra pela janela do escritório onde trabalha, em Higienópolis, na região central de São Paulo. Na rua, aderiu aos óculos escuros. Nos consultórios médicos, foi submetido a um tratamento com imunossupressores, medicamentos manipulados e anti-inflamatórios contra os sintomas.

Segundo a SBR (Sociedade Brasileira de Reumatologia), a doença de Behçet foi descrita nos anos 1930 pelo médico turco de mesmo nome que a detectou na Ásia e no Mediterrâneo. A causa é desconhecida pela ciência e o diagnóstico não costuma ser simples, e foi ainda mais surpreendente por ter uma incidência maior entre asiáticos.

Um homem está posando em pé contra um fundo escuro. Ele está usando um blazer escuro sobre uma camisa clara e tem os braços cruzados. O homem está olhando para o lado, com uma expressão pensativa.
Clóvis de Barros Filho, 58, descobriu doença autoimune incurável e planeja uma lenta e 'progressiva aposentadoria' - Riba Dantas/Divulgação/Espaço Ética

"Achei que a inflamação nos olhos era alergia à tinta de jornal. Depois, a pólen de flor. Sempre achei que as aftas na boca decorriam de abacaxi. Coisas sempre triviais", diz Clóvis.

O diagnóstico foi dado por uma biópsia, recomendada por uma amiga médica. Desde então, passa por reumatologistas e toda uma parafernália de exames. Uma situação que diz ser necessária para que a fragilidade crônica não agrave o atual quadro de saúde.

Com a medicação, o apetite diminuiu e ele perdeu peso para conter os índices glicêmicos e o colesterol. A sonolência aumentou. Mas a agenda quase diária, por outro lado, continua a mesma: voos pelo Brasil para participar de palestras, gravação de podcasts, escrita de livros. Todo esforço físico tornou-se calculado. "O resto do tempo é de recuperação", diz.

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Clóvis defende duas formas de encarar uma situação como a dele: viver o momento. A outra, se desapegar. O desapego que tem praticado é em relação às expectativas alheias e também sobre os planos próprios almejados para o futuro.

"Todo mundo com dois neurônios sabe que pode morrer a qualquer momento, mas com uma doença em nível muito elevado, como é meu caso, essa possibilidade de deixar de existir integra a vida de maneira muito mais diária", diz.

"Naturalmente, nessa minha nova condição, não faz muito sentido eu orquestrar a vida do presente para desfrutar daqui a 20 anos", diz.

No passado, Clóvis seguiu as etapas que lhe eram esperadas como professor: mestrado, doutorado, pós-doutorado, artigos, conchavos acadêmicos, títulos, discursos em formaturas.

Desde que se afastou das salas de aula, onde lecionou na USP (Universidade de São Paulo), se arrisca na carreira solo como comunicador. Foi uma decisão imprevisível, mas também calculada.

No início deste semestre, deu continuidade à trajetória como comunicador com o livro "Projeto de Vida: caminhos para uma vida que valha a pena" (Citadel Grupo Editorial), uma provocação às obras de autoajuda para "ajudar a pensar melhor a vida e, quem sabe, tomar decisões mais auspiciosas", diz.

Então, usando um pouco da lucidez, eu passo a focar o dia no próprio dia e realmente comemoro cada dia suplementar

Clóvis de Barros Filho

filósofo, professor e comunicador

O tratamento o ajudou a divulgar a obra e a dar entrevistas. Fisicamente, diz que quem o vê pode achá-lo como vivendo uma "vida normal". Filosoficamente, também diz que a doença pouco mudou a interpretação ambígua mantida sobre a vida, com suas boas e más notícias.

"O mundo é infinitamente criativo e competente para devastar, aniquilar, entristecer, mas também sempre soube que a vida, esse pântano de paixões tristes, é salpicada de gotas de alegria, de exuberância vital. É encantadora", diz. Por isso, não se diz entristecido. Nem com medo.

"Sempre procurei chamar atenção para pensamentos que enfatizam a imediatidade da vida, a necessidade de trazer a consciência para o instante vivido", diz. "A principal mudança é a redução da relevância do futuro."

Assim, a preocupação em manter e agradar os seguidores nas redes sociais o preocupa muito menos do que antes. As etapas seguidas na carreira acadêmica —que chama de "pedágios"— também se tornaram menos determinantes. Isso o permitiu a se conhecer com mais autenticidade.

"Vejo a angústia como uma oportunidade, diria, necessária, para o pleno conhecimento de si. Posso ver até aonde vai minha coragem, até aonde vai a minha covardia, até aonde vai meu desejo de viver autenticamente, até aonde estou disposto a negociar a ser um mero joguete das forças da natureza e das forças sociais", acrescenta.

"Ora, a vida vivida do jeito que a vivo hoje não tem caminho pré-aberto para lugar nenhum. Para qualquer lado que eu me virar, será desvirginar", diz. "Então, usando um pouco da lucidez, eu passo a focar o dia no próprio dia e realmente comemoro cada dia suplementar."

Ele continua: "Isso também joga na cara a nossa condição de soberania, de autonomia, de liberdade. Inventar a própria vida. Não tem por que ir atrás do que já foi feito, não tem por que seguir protocolos já sovados, não tem por que percorrer percursos já desgastados. Fica explícita a possibilidade fundamental do possível".

Para 2025, sustenta um plano: o de trabalhar menos até, lentamente, se aposentar. Exercendo, assim, a soberania que as circunstâncias lhe proporcionaram nos últimos dois anos. "Toda a vida é muito mais motivo de perplexidade do que, propriamente, resultado de uma projeção, de um planejamento", diz. "O mundo avança sem que ninguém tenha muito controle."

Na virada do ano, fico imaginando como será a vista para cá embaixo, João Pereira Coutinho - FSP

 O latim é uma língua morta. Mas não é apenas isso: quando morre uma língua, morrem certas ideias e conceitos que ela expressava perfeitamente.

Um deles é "sub specie aeternitatis", do ponto de vista da eternidade. É nele que penso em cada virada do ano, quando a nostalgia me assalta e as ansiedades futuras também.

Foi Baruch Spinoza (1632–1677) quem deu nova vida à expressão latina. Compreender a realidade, fora das limitações do tempo e do espaço, é olhar para o mundo sob essa ótica superior.

Formigas ao redor de uma trama geométrica abstrata
Angelo Abu - Angelo Abu/Folhapress

E, por meio desse ângulo, tudo ganha um valor relativo. Nossas ambições ou frustrações, nossos desejos ou medos, nossos planos ou fracassos —tudo isso é um detalhe que dura um segundo, ou menos que um segundo, no caudal infindável do tempo.

Imagine uma colônia de formigas. Do ponto de vista da eternidade, nós somos as formigas. Não sei se Robert Zemeckis leu Spinoza. Mas o seu "Here – Aqui", que estreia no Brasil já em janeiro, ilustra o ponto.

Corrijo. Quem o ilustrou primeiro foi Richard McGuire, na sua primorosa novela gráfica. Zemeckis leu, gostou, chamou a sua tribo —Eric Roth no roteiro, Tom Hanks e Robin Wright para os papéis principais— e fez o filme.

Aqui entre nós, o longa é mediano, e o seu sentimentalismo fácil, devidamente ensopado pela música de Alan Silvestri, tornaria a obra intragável.

Mas o conceito é notabilíssimo: um só plano, sempre no mesmo lugar, filmando a passagem do tempo. Bilhões de anos de evolução —das primeiras lavas aos primeiros dinossauros; dos primeiros nativos aos primeiros americanos independentes, até chegarmos à construção de uma casa naquele lugar. Ali.

Depois, quando a casa está construída, tudo o que vemos é uma sala e os habitantes que vão desfilando nela ao longo de décadas, séculos. A câmera de Zemeckis oferece o ponto de vista da eternidade. E que vemos através dela? Sim, o embrulho vai mudando —mobília, cortinados, sofás. Rádio, televisão, computadores. Habitantes, seus trajes, seus comportamentos.

A única coisa que não muda é o carrossel de sentimentos humanos. Não interessa se falamos de um casal na era dourada, na era do jazz, no pós-Segunda Guerra ou na Guerra do Vietnã.

Ou durante os dias de hoje.

Nada do que é humano nos é estranho, para citar outra frase latina. Vemos as mesmas ilusões, as mesmas esperanças, os mesmos planos para a vida. As mesmas contingências que alteram, ou acabam, com os planos. O envelhecimento. A doença. A morte, em tom cômico ou trágico, tanto faz.

E os filhos que chegam. E os filhos que partem. E os filhos que retornam —ou não. Histórias de amor que prometiam tanto e falharam tanto. Solidão. Arrependimentos. Ou nem por isso: segundas oportunidades.

Depois, o tempo dá um salto e vemos tudo outra vez —na mesma sala, no mesmo espaço, no mesmo canto do mundo. A natureza humana é o supremo clichê.

Agora que o ano caminha para o fim, a mídia é generosa em análises prospectivas sobre 2025. O tom, usualmente, é sombrio. Fácil entender por quê.

Guerra na Europa. Guerra no Oriente Médio. Possibilidade de guerra no Indo-Pacífico. E o homem laranja na Casa Branca, pairando sobre a Terra como a sombra de Nosferatu.

Mas, excetuando um asteroide mal-humorado ou uma guerra nuclear, 2025 será igual a 1925, e a 1825, e a 1125. Do ponto de vista da eternidade.

Basta instalar uma câmera na minha sala, ou na sala do leitor, e espreitar para o passado, para o presente e para o futuro.

Vejo pela lente a selva, os primeiros arruamentos, as primeiras iluminações. As primeiras paredes, janelas, coberturas.

Vejo os meus antepassados, ou os seus antepassados, com a sensação única de que eram únicos, vivendo na vertigem do tempo, cultivando projetos, lamentando o que fizeram ou não fizeram.

Vejo-me a mim, vejo você, alentado ou deprimido com as forças das pequenas coisas, como alentados ou deprimidos serão os homens que ainda não chegaram para habitar a mesma sala, para a destruir, para a reconstruir, para a destruir de novo.

Em 2025, do ponto de vista da eternidade, continuaremos a mesma espécie mesquinha, calorosa, raivosa, sonhadora, amedrontada ou corajosa. Vamos amar, ferir quem amamos, acalentar sonhos, destruir sonhos.

Tudo vai mudar, nada vai mudar. O novo ano é o velho ano que será igual a todos os novos anos.

Há formigas que lamentam essa salvífica pequenez. Mas, quando escuto as 12 badaladas, fico imaginando como será a vista lá do alto para o formigueiro cá embaixo.