sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Feminicídio e outras violências do país dedicado a bandalheira, besteira e acordão, VTF FSP

 No começo de fevereiro, reinício oficial do ano oficialesco, líderes dos três Poderes assinaram o "Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio". Basicamente, criaram uma comissão, que pode dar em nada ou em alguma coisinha, a depender da política. É o "Comitê Interinstitucional de Gestão", de acompanhamento de dados e ações, com representantes dos Poderes, do Ministério Público e das Defensorias Públicas.

O que tem isso a ver com as conversas do momento, de bandalheira, besteira e acordão nos Poderes ou de governo e oposição envolvidos nessa história de escola de samba do Lula? Nada. É o problema: mais do que de costume, estamos bestificados a assistir um palco tomado por podres e bobagem. Convém lembrar do que não estamos cuidando por causa disso. Por exemplo, feminicídio.

Homem de cabelos grisalhos e barba branca fala ao microfone em evento com painel ao fundo escrito 'Brasil contra o feminicídio'.
Presidente Lula na cerimônia de lançamento do Pacto Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio no Palácio do Planalto - Gabriela Biló - 4.fev.26/Folhapress

No reinício do ano político-jurídico, ainda estava na memória mais comum a história de horror de Tainara Souza Santos, torturada ao ser arrastada pelo carro de um homem. Morreu aos 31 anos, na véspera do Natal do ano passado. Desde então, teriam morrido outras 228 mulheres, dado o número médio de quatro feminicídios por dia. Deve ter sido bem pior.

A taxa média de solução de homicídios no Brasil tem ficado entre 30% e 40% nos últimos nove anos, segundo dados compilados pelo Instituto Sou da Paz. Até o fim de 2024, apenas 36% dos homicídios dolosos que ocorreram em 2023 tinham sido esclarecidos —o instituto avisa que não há informações para todos os estados, mas em geral para algo em torno de 17 deles, por precariedade até do mero registro dos homicídios.

Quantos mais feminicídios há enterrados nessa violência obscura toda? Quanta subnotificação de feminicídio há mesmo entre as mortes registradas e investigadas?

Por falar em homicídio: em 2024, dado mais recente, houve no Brasil 44.127 "Mortes Violentas Intencionais", segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Cerca de 37 mil pessoas morreram no trânsito. Não importa a conversa fiada do calor e do amor no país do Carnaval (que nem é mais muito disso): um lugar que convive sem revolta maior com esse morticínio é monstruoso e morto. "Ah, vão votar (talvez) uma PEC da Segurança". Planos reais, com coordenação nacional, apoio político, projetos e supervisão de gente especializada, com verificação de resultados, não existem. Não sabemos nem mesmo quem foi morto, por qual motivo.

O que isso tem a ver com o tumulto vexaminoso na cúpula dos Poderes e agregados? Com a República afundando ainda mais, como na lama do Master? Há até esforços meritórios e que devem aparecer no palco do ano, como a tentativa de Flávio Dino de conter a roubança com emendas parlamentares ou a lambança com penduricalhos. Mas que esses casos estejam no STF e sejam sabotados pela politicalha também é mau sinal. Assim como tantos outros assuntos fundamentais, o feminicídio não tem nada a ver com isso. Perde o lugar.

Qualquer cidadão prestante pode fazer sua lista de assuntos cruciais e ignorados no centro do debate constante: pobreza e ineficiência crônicas, baderna da energia, ciência precarizada, ou notas sempiternamente ruins nas escolas. Ignoramos até assuntos da moda, como o nosso atraso terminal em IA. Nosso assunto é desordem institucional, a politicalha mais baixa degradando a função dos Poderes, sem movimento político ou social forte ou de partido relevante de oposição a esse estado de coisas.

Nenhum comentário: