Poderia ser apelidado de bloco do STF para combinar com o Carnaval, mas o ministro Flávio Dino preferiu usar a alegoria futebolística: “sou STF Futebol Clube”. Dito e feito. Como um time, a Corte se uniu na proteção do colega Dias Toffoli, protagonista de lambanças em série frente à relatoria do caso Master, o maior golpe financeiro da história do país. A blindagem mirava tirar o Supremo do olho do furacão. Falhou.
A reunião emergencial dos 10 supremos, realizada na quinta-feira, terminou com afagos oficiais unânimes ao ministro lambão em troca do seu afastamento da relatoria do processo, rapidamente sorteada e entregue a André Mendonça. Todos respiraram aliviados. Poucas horas depois, a decisão para mitigar danos vazou – com diálogos literais dos magistrados estampados no site Poder360 -, escancarando o corporativismo acima de tudo, as desavenças entre ministros, além de rivalidades com a Polícia Federal, responsável pelas investigações do Master.
As frases publicadas, todas favoráveis a Toffoli, sugerem a hipótese de que o ministro tenha gravado a reunião, o que ele nega de pés juntos.
O ineditismo de gravar e vazar uma reunião suprema, na qual não havia um único assessor, sela definitivamente a relação de desconfiança entre os integrantes do time, que, como no futebol, tem egos inflados e estrelas demais. Pior: adita complicações ao processo e ao STF. O teor conhecido das conversas pode ser utilizado pelos defensores de Daniel Vorcaro, dono do Master, para pedir a nulidade de toda a investigação. Nos diálogos, as 200 páginas do relato da PF, que desembocaram na suspeição de Toffoli, foram duramente criticadas, chegando a ser tratadas até como “lixo” por magistrados que em breve terão de julgar o caso.
É pouco provável que se encontre quem gravou e entregou o material à imprensa. Mas se uma das premissas de qualquer investigação é suspeitar dos beneficiários, só Toffoli, elogiado nas conversas, e Vorcaro, que busca a anulação do processo, têm a ganhar.
Ainda que seja grave, o vazamento é a menor parte do problema do Supremo, que ainda não informou se o afastamento de Toffoli inclui ou não o impedimento de ele apreciar a matéria na votação final do colegiado. A mudança de relator alivia, mas não resolve questões cruciais quanto ao comportamento no mínimo heterodoxo do ministro na condução do processo. Ou seja, a suspeição aventada pela PF a partir da perícia nos celulares de Vorcaro se mantém.
Toffoli tem muito a explicar. Da manutenção do caso na sua alçada à imposição de sigilo ao processo, incluindo a ridícula tentativa de incluir a diretoria do Banco Central em acareações. Da carona de avião brindada pelo advogado de Vorcaro às idas e vindas sobre como e qual perito da PF deveria manusear provas. Da confissão tardia de que era sócio e recebeu dividendos da empresa familiar que investiu e vendeu cotas do resort Tayayá para o Master à suspeição de que o irmão era um laranja. José Eugênio Toffoli tem vida simples, em Marília, interior de São Paulo, e sua mulher, Cássia, espantou-se com o envolvimento do marido na trama. Ela nunca tinha ouvido falar do resort. Motivos suficientes para dar curso às investigações nas esferas cível e criminal. Espera-se que o novo relator autorize a PF a fazê-las.
O escândalo do Master, com Toffoli e Vorcaro na comissão de frente, também conseguiu fazer o que parecia quase impossível: mudar a biruta da Câmara dos Deputados, que iniciou o ano sob crítica ferrenha por aprovar em velocidade estonteante aumentos mais estonteantes ainda para seus servidores, estabelecendo folga de um dia para cada três trabalhados e salários muito acima do teto.
O desaforado projeto de lei, que deve ser vetado pelo presidente Lula, funcionou como estopim para que o ministro Dino suspendesse todos os pagamentos de supersalários em todas as esferas de poder, incluindo o Judiciário, onde se veem os maiores abusos. Está também sob Dino o escrutínio da lisura, ou a falta dela, das emendas parlamentares, muitas insistindo em continuar secretas, com destino e autoria não sabidos. Duas decisões monocráticas que ainda dependem da anuência do STF Futebol Clube. Tomara que nesses casos, nos quais estão em jogo fim de regalias e cortes na própria carne, o país possa contar com a coesão desse time.
Mary Zaidan é jornalista


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