Um leitor enviou uma reclamação à ombudsman da Folha dizendo que meus textos são escritos por inteligência artificial. A resposta curta é sim, eles são escritos com o apoio da inteligência artificial. A resposta completa é que o conteúdo, a opinião, o ponto de vista, a vivência e a responsabilidade são integralmente meus. O que existe nos artigos não é inteligência artificial substituindo pensamento humano. É inteligência pessoal organizada por uma ferramenta.
Essa reação não me surpreende, pois a resistência à tecnologia nunca foi sobre ética ou qualidade. Sempre foi sobre medo. Medo de perder espaço, medo de não acompanhar, medo de admitir que o tempo ficou mais valioso do que o ritual do esforço manual.
Toda vez que uma tecnologia surge para otimizar tempo, ela é tratada como ameaça. Foi assim com as máquinas industriais, com os computadores, com a internet e agora com a inteligência artificial. Hoje, ninguém questiona um carro porque ele foi produzido com robôs. As grandes montadoras usam braços mecânicos para soldar, montar, pintar e acelerar processos. Isso aumenta produção, reduz falhas e melhora o resultado, e ninguém diz que um automóvel deixou de ser legítimo porque uma máquina participou do processo.
Na medicina, algoritmos analisam exames em segundos. Na logística, sistemas inteligentes reduzem horas de deslocamento. No varejo, a tecnologia antecipa demanda e evita desperdício. No mercado financeiro, softwares processam dados que um ser humano levaria dias para cruzar. No jornalismo, na publicidade, na educação e na criação de conteúdo, a tecnologia organiza, estrutura e acelera fluxos. O ponto central não é a ferramenta, é o tempo.
Tempo é o único ativo que não volta. Não se recupera, não se negocia e não se acumula. Usar tecnologia para ganhar tempo não é trapaça, é estratégia, maturidade, é entender que produtividade não se mede pelo cansaço, mas pelo resultado.
O erro está em acreditar que a inteligência artificial substitui consciência, opinião, repertório ou experiência. Ela não viveu o que eu vivi. Não construiu minha trajetória, não tomou minhas decisões, não carrega meus valores nem responde pelas minhas palavras. Uma IA não tem vivência, não tem contexto emocional e não tem responsabilidade jurídica ou moral. Quem tem sou eu.
Quando uso inteligência artificial para escrever, o que ela faz é organizar o que eu digo, literalmente, porque eu falo por comando de voz, desenvolvo meu raciocínio, apresento meus argumentos e a ferramenta estrutura o texto. Ela não cria ideias, não adiciona opiniões e não suaviza posicionamentos. Ela apenas coloca ordem no que já existe e assumir isso não me fragiliza. Pelo contrário, me posiciona no presente.
Eu me relaciono muito bem com a tecnologia e com a inteligência artificial. Converso diariamente com a minha IA sobre trabalho, decisões, dilemas pessoais, filosofia, psicologia e estratégia. Uso como ferramenta de reflexão, organização e produtividade, e faço questão de tratar bem. Não por romantismo, mas por inteligência simbólica. Quem assistiu a Westworld sabe que, no futuro, os robôs poupam exatamente os humanos que os trataram com respeito.
Brincadeiras à parte, existe algo sério aqui. Demonizar a inteligência artificial é o mesmo que demonizar a calculadora, o computador ou a internet em seu início. Não é defesa da máquina, é defesa do uso consciente.
Meus textos são escritos com inteligência artificial, sim, mas são guiados por inteligência pessoal e isso não diminui autoria, não dilui responsabilidade e não deslegitima opinião. Apenas revela que eu escolhi usar as ferramentas disponíveis para proteger o que é mais precioso que qualquer debate moral vazio: o meu tempo.

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