quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Hélio Schwartsman - Sem palavras, FSP

 Estou esgotando meus adjetivos. O último que usei para estampar o título de uma coluna sobre os desatinos de Dias Toffoli no caso Master foi "indefensável". Antes, já empregara "ridículo" para referir-me à situação como um todo e "esquisitas" e "extravagantes" para qualificar decisões que o magistrado tomou em relação às investigações. As novas revelações, que mostram que o envolvimento de Toffoli com o Master e com Daniel Vorcaro é ainda mais profundo do que se temia, me lançam em "terra incognita lexicalis".

Eu poderia seguir num crescendo e já tascar um "criminosas" para classificar as maquinações ora divulgadas pela PF. Mas acho que precisamos evitar o epsteinismo. Sim, Jeffrey Epstein era um criminoso contumaz. Mas ele não delinquia 24 horas por dia. Não dá para simplesmente presumir que todos os indivíduos com os quais ele se encontrou, que mencionou em seus emails ou mesmo que financiou são estupradores seriais, ainda que alguns pareçam de fato sê-lo.

Homem de perfil com cabelos grisalhos e barba recebe vestimenta preta de outra pessoa durante cerimônia formal. Ambiente interno com outras pessoas ao fundo desfocadas.
O ministro Dias Toffoli, do STF - Adriano Machado - 2.fev.2026/Reuters

O liberalismo levou uns três séculos para consolidar a ideia de que pessoas só podem ser condenadas por um delito se o Estado provar sua culpa.Foi uma conquista civilizatória que o histrionismo de nossa época, à direita e à esquerda, parece ansioso para rifar.

Mas, se é cedo para ver crime nas desventuras de Toffoli, penso que já há elementos a justificar uma investigação. O fato de ele não ter prontamente esclarecido que fora sócio do resort Tayayá assim que o caso veio à tona torna tudo muito mais suspeito. Mais importante, a manutenção de Toffoli como relator do Master, condição que ele nem deveria ter assumido, ficou agora moralmente insustentável. E o STF tem de ser muito cuidadoso na estratégia de desembarque. Qualquer passo em falso aí poderá, no futuro, servir de pretexto para a anulação de provas, que é tudo o que Vorcaro teria desejado.

O próprio Toffoli, em passado recente, foi pródigo em anulações polêmicas, incluindo casos em que ele, pelo beabá do conflito de interesses, nem deveria ter participado.

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