segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Disputa entre Michelle e Flávio impactará bolsonarismo no Congresso, Juliano Spyer, FSP

 Uma mulher tomou para si o papel de denunciar o nepotismo dentro do clã Bolsonaro. Depois de chamar Nikolas Ferreira —e não Flávio— de líder da direita, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro declarou apoio à candidatura de Carol de Toni ao Senado, por Santa Catarina, contrariando a indicação de Carlos Bolsonaro para a vaga.

Há muito em jogo para Michelle neste ano. A decisão de Tarcísio de Freitas de disputar o governo de São Paulo —e não a Presidência— a afetou diretamente. Ela era apontada como possível candidata a vice em uma chapa considerada mais competitiva do que a encabeçada por Flávio.

mulher branca de cabelo comprido e camisa violeta segura bebe pequeno enquanto fala ao microfone
A deputada federal Caroline de Toni (PL-SC) com filha recém-nascida no colo em sessão no Congresso - Zeca Ribeiro - 9.mai.24/Câmara dos Deputados

Diferentemente dos filhos de Jair Bolsonaro, Michelle construiu um espaço próprio na direita brasileira, porque dialoga com um segmento que o ex-presidente não alcança. Reconhecida como crente legítima, ajudou a suavizar a imagem do marido junto a mulheres conservadoras.

Michelle impõe obstáculos à candidatura de Flávio por diferentes razões. Como esposa, tem um acesso e uma influência sobre o marido que os filhos não possuem. Além disso, em um campo marcadamente masculino —formado por executivos, motoristas de aplicativo, empresários do agronegócio, policiais e lutadores de MMA—, ataques a Michelle tendem a ser lidos como agressões a uma mulher, produzindo ruído negativo adicional.

Nikolas Ferreira, Silas Malafaia e Michelle Bolsonaro em ato em Brasília pela anistia aos golpista do 8 de Janeiro - Evaristo Sá - 7.out.25/AFP

Em eventos públicos e encontros com evangélicos, Michelle costuma ser comparada a Ester, figura do Velho Testamento: uma jovem judia que, durante o exílio, se casa com um rei persa e arrisca a própria vida ao denunciar um plano de extermínio contra seu povo.

Durante a campanha de 2022, ela mobilizou essa simbologia ao afirmar a eleitoras evangélicas: "Não olhe para o meu marido, olhe para mim, que sou uma serva do Senhor".

Como pesquisador, observei mulheres evangélicas que no passado votaram em Lula, Dilma e Marina passarem a ter, em Michelle, uma referência de liderança feminina mais afinada com seus valores e modo de vida. Ela aparece como alguém que, pela fé e pela coragem, defende seu povo da perseguição e ajuda a justificar Bolsonaro como parte de um plano divino para a nação.

Os filhos de Bolsonaro dispõem de quadros no campo evangélico capazes de substituir, se necessário, o pastor Silas Malafaia como intermediário junto a lideranças religiosas. Em dezembro, Flávio buscou a bênção do pastor André Valadão, da Igreja da Lagoinha. Terão mais dificuldade, porém, para fazer o mesmo em relação a Michelle.

Analistas políticos vêm apontando que, embora ainda seja cedo, Flávio Bolsonaro tende a ser o nome da direita a chegar ao segundo turno e que, nesse cenário, o presidente Lula aparece como favorito à reeleição.

Se Flávio continuar se distanciando de evangélicos, sua candidatura se mostrará menos competitiva não apenas para vencer a eleição como também para preservar a representatividade do bolsonarismo nas disputas estaduais e no Congresso Nacional.

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