segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Hélio Schwartsman - À espreita, FSP

 Por dois terços dos votos, os portugueses elegeram o socialista moderado António José Seguro para a Presidência do país, dando um sonoro "não" ao ultradireitista André Ventura, do Chega. Funcionou aqui o cordão sanitário. As principais forças políticas do país, tanto à esquerda como à direita, se uniram no segundo turno para impedir que um candidato da direita radical vencesse a disputa. Em Portugal, quem governa é o premiê, mas o presidente tem poderes relevantes, como o de dissolver o Parlamento e vetar leis.

Meu coração exulta sempre que o cordão sanitário evita que radicais conquistem o poder. A democracia é boa não por favorecer a eleição de líderes sábios, mas por automatizar o afastamento de governantes que perdem eleições ou nem deixar que figuras mais problemáticas se aproximem do poder. O otimismo, porém, só vai até certo ponto. O Chega passou de um deputado no pleito de 2019 a segunda força política de Portugal, com 23% dos votos nas legislativas de 2025.

Homem de terno e gravata fala em púlpito com microfone, ao fundo painel vermelho com texto. Púlpito exibe frase 'SEGURO PRESIDENTE'.
António José Seguro discursando no evento de encerramento de campanha em Porto antes do segundo turno presidencial - Rita Franca - 6.fev.2026/Reuters

E não é só em Portugal. Com variações, o cenário se repete na França, na Alemanha, na Espanha. Na Itália, um partido de raízes fascistas fez a premiê. A melhor explicação que já encontrei para o fenômeno é a dada pelo cientista político português Vicente Valentim. Num resumo grosseiro, eleitores sempre tiveram ideias de direita, às vezes bem pesadas, mas, por sentir que existia reprovação social a essa ideologia, evitavam expressá-las em público ou nas urnas. Os diques, porém, só funcionam até certo ponto.

Especialmente depois do advento da internet, que permite até à diminuta minoria dos terraplanistas encontrar-se, esses eleitores ultradireitistas descobrem que não estão sós e deixam de falsificar suas reais preferências. Daí as ascensões explosivas das siglas radicais, que, no espaço de dois ou três pleitos, vão da insignificância a porção significativa dos Parlamentos nacionais. Esses partidos agora pautam o debate e ficam à espreita. Se circunstâncias adversas se materializarem, poderão eventualmente governar.


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