quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A centenária usina hidrelétrica Henry Borden ainda é estratégica- V icente Vilardaga- FSP

 Vicente Vilardaga

São Paulo

Não há quem não tenha visto, ao ir ou voltar da Baixada Santista, um conjunto de oito grandes tubulações que se fundem à paisagem e desce uma encosta íngreme de 720 metros da Serra do Mar, desembocando em Cubatão. É uma imagem impactante. Intriga os adultos e impressiona as crianças. Fica fácil perceber que se trata de uma obra de engenharia grandiosa.

A usina hidrelétrica Henry Borden, cuja primeira unidade entrou em operação em 1926, foi construída pela Light para atender à demanda imediata e futura por energia em São Paulo. A cidade crescia velozmente, se aproximava de 700 mil habitantes e todos queriam luz elétrica.

Vista de um morro coberto por vegetação densa com várias linhas de transmissão de energia elétrica descendo em paralelo pela encosta. O céu está nublado e há árvores e arbustos na base do morro.
A água da Billings passa pela casa de válvulas da usina, desce do alto da serra e chega em Cubatão. - Zanone Fraissat/Folhapress

No artigo "São Paulo às Escuras", publicado no site do Centro da Memória da Eletricidade no Brasil, o historiador da UFF (Universidade Federal Fluminense) Paulo Brandi diz que, naquela época, São Paulo havia ultrapassado o Rio de Janeiro como maior centro industrial do país e o número de consumidores da Light na cidade já passava de 55 mil, entre residências, estabelecimentos comerciais e industriais. No final da década chegou a 140 mil.

A Henry Borden foi a resposta da Light a uma crise de energia causada por uma estiagem prolongada em 1924 e 1925. A cidade ficou no escuro e houve um longo racionamento. Brandi conta que, em abril, "São Paulo estava à beira do colapso energético":

O reservatório de Guarapiranga registrava apenas 10% de sua capacidade e o de Itupararanga, 4%, tendo a vazão do rio Sorocaba baixado 62%. As duas hidrelétricas da Light, Parnaíba e Itupararanga, e a termelétrica Paula Souza conseguiam gerar somente 43 MW para uma demanda de quase 60 MW.

Usina Henry Borden
Vista da usina em 1966 mostra o declive acentuado da Serra do Mar e a sequência de tubulações - Correio da Manhã/Arquivo Nacional

A nova hidrelétrica veio no momento certo. A empresa já vinha estudando o projeto desde 1920 e ele foi concluído em tempo recorde. Estava muito acima do padrão das usinas que já alimentavam São Paulo, tinha dez vezes mais potência. Era a maior obra do seu tipo feita no Hemisfério Sul. Em 1932, na Revolução Constitucionalista, foi bombardeada.

A Henry Borden nasceu com capacidade instalada de 469 MW, número de metrópole. Ao longo dos anos 1950 foram feitas obras de ampliação. A usina ganhou seis condutos subterrâneos e teve sua capacidade elevada para 889 MW, suficiente para atender uma cidade de dois milhões de habitantes.

Para conseguir água para mover sua usina, a Light fez um projeto que envolveu a inversão do curso do rio Pinheiros.Em vez de desaguar no Tietê, passou a se dirigir para a represa Billings, por meio das usinas elevatórias da Traição e de Pedreira, e fornecer água para o sistema. A represa também foi projetada pela empresa. Por causa da poluição, desde 1992, o Pinheiros só pode se conectar com a Billings em razão das cheias.

Sala de controle com painéis de instrumentos analógicos e digitais alinhados na parede. Um operador sentado de costas em cadeira preta monitora telas de computador em mesa clara, com equipamentos e copos ao redor. Ambiente interno com iluminação artificial e piso claro.
Central de controle da Henry Borden pode elevar produção de 19 MW para 889 MW em 10 minutos. - Zanone Fraissat/Folhapress

A usina continua tendo função estratégica para o sistema elétrico da Região Metropolitana de São Paulo e da Baixada Santista. Até os anos 1970, fornecia metade da energia da cidade e hoje garante a segurança energética e atende demandas de pico de consumo regularmente. É uma usina de emergência, um backup do SIN (Sistema Interligado Nacional), capaz de sair de 19 MW para 889 MW em cerca de 10 minutos.

A primeira usina a abastecer São Paulo com eletricidade foi a de Parnaíba, hoje conhecida como Edgard de Souza, no rio Tietê. Inaugurada em 1901, tinha capacidade inicial de produção de 2 MW. Foi construída pela Light para movimentar seus bondes, que começaram a funcionar na cidade um ano antes.

Entre 1911 e 1914, a Light ergueu a usina de Itupararanga, que tem três unidades geradoras, com capacidade instalada de 37,5 MW. Ela aproveita o potencial energético do Salto do Itupararanga, no rio Sorocaba.

O aumento de capacidade das usinas da Light que atendem São Paulo ao longo do tempo, de Parnaíba a Henry Borden, reflete a expansão vertiginosa do consumo de eletricidade em São Paulo na primeira metade do século. Também é um importante indicador de desenvolvimento urbano.

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