sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Bernardo Carvalho - Contra seu tempo, Ian McEwan confronta mal-estar do presente em livro, FSP

 Faz duas semanas, num voo entre Porto Seguro e São Paulo, um homem teve uma parada cardíaca fulminante e morreu antes de podermos pousar em Vitória. Eu estava na frente do avião e demorei a entender por que alguns passageiros corriam para o fundo, com os celulares na mão e as câmeras ligadas, depois de um dos tripulantes invocar, pelo alto-falante, a presença de um médico.

Como se não bastasse o horror da realidade irreversível, a imagem dos passageiros gravando com seus celulares a morte de um homem contribuiu com uma dimensão ao mesmo tempo patética e sinistra para a leitura que eu vinha fazendo desde que embarquei.

"O Que Podemos Saber", de Ian McEwan, sai em março pela Companhia das Letras. É um livro sobre o mal-estar do presente. Num futuro pós-apocalíptico, um professor universitário busca um poema supostamente genial, perdido cem anos antes (nos dias atuais), quando os piores prognósticos do aquecimento global e de uma guerra nuclear ainda não se concretizaram.

Homem maduro com pele clara e cabelos grisalhos, vestindo camisa branca, olhando diretamente para a câmera com fundo preto.
O escritor Ian McEwan - Joel Saget - 2.out.23/AFP

Por meio do deslocamento da narrativa para depois da catástrofe, quando a humanidade já está reduzida à metade e o peso dos anos envolve o desaparecimento do poema numa mística de especulações, McEwan faz referência à negação suicida do que é evidente, do que está diante de nós, mas que não podemos (ou não queremos) ver na transparência do presente. É uma reflexão admonitória sobre o que se perdeu quando já não é possível voltar atrás.

Como explicar que está tudo errado a passageiros com celulares na mão, gravando e exibindo a morte de um homem, se eles não conseguem entender isso por conta própria? Se são capazes de fazer o mesmo, diariamente, com suas próprias vidas?

"O Que Podemos Saber" é um romance sobre a literatura e o presente. A certa altura, surge a questão da responsabilidade do escritor e do que pode o realismo diante da cegueira suicida do mundo. Por um momento parece que o autor, por meio do debate entre seus personagens, vai pôr em dúvida o realismo que ele acredita praticar. Não dura muito tempo.

É natural que, assim como, apesar da nossa consciência, não conseguimos nos livrar do modo de vida que nos mata, tampouco um autor consiga levar a cabo o questionamento do próprio romance como representação do tempo em que ele vive.

Mais de uma vez, por intermédio de uma personagem secundária, professora de literatura francesa, McEwan recorre, como paradigma moral, à conferência "O Artista e Seu Tempo", proferida por Albert Camus, na Suécia, em 14 de dezembro de 1957, dias depois da cerimônia de entrega do prêmio Nobel.

Com base numa frase fora de contexto ("A arte vive de limites e morre de liberdade"), a professora conclui que "talvez Camus estivesse rejeitando a experimentação literária". A conclusão capciosa na verdade endossa um lugar-comum que o romance já havia manifestado ao ironizar os clichês de outra personagem, uma escritora minimalista e "demasiado intelectual", cujo sucesso acabou reduzido a um punhado de acadêmicos.

Na crítica fácil do que parece difícil, a professora de francês (não dá para saber quanto desse juízo é compartilhado pelo autor) confunde realismo com kitsch, com o estilo mais adequado às convenções e ao gosto do seu tempo. Na sua leitura preconceituosa dos "experimentalismos", ela propõe uma literatura mais direta e mais simples para tempos difíceis.

Não é o que Camus diz em sua conferência de 1957. Em meio à gritaria dos mandamentos e das normas, encurralado entre a ordem do realismo socialista e a irresponsabilidade da arte pela arte, o escritor louva o risco contra todas as igrejas. A conferência é sobre coragem, não sobre regras, convenções e preconceitos: "Criar hoje é criar perigosamente".

Camus faz o elogio da ruptura, de RimbaudNietzsche e Strindberg, da literatura contra os juízes do seu tempo: "Somente no risco se encontra a liberdade da arte. (...) O artista livre, não menos que o homem livre, não é o homem do conforto. O artista livre é aquele que, sob grande pena, cria a sua própria ordem".


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