Todo mundo conhece um caçador de redundâncias. É aquela pessoa que, adepta de corrigir os outros, sente uma excitação quase sexual —o "quase" vai por educação— quando alguém diz ou escreve, por exemplo, "azeite de oliva".
"Se é azeite só pode ser de oliva, oliva é azeitona, de azeitona se faz azeite, entendeu? Falar azeite de oliva é o mesmo que falar entrar para dentro, hahaha."
Sempre à espreita de pleonasmos viciosos, de palavras supérfluas, esse tipo especial de sabichão começa estando certo e logo fica errado, erradíssimo. Como se contenta com as primeiras linhas da história, nem desconfia disso, e acaba por protagonizar cenas constrangedoras.
Se não sabe que a construção "entrar para dentro" pode, em determinadas circunstâncias, traduzir um reforço legítimo ou até necessário, no caso do azeite seu erro é ignorar que a palavra vinda do árabe "az-zayt" nasceu nos olivais, mas ganhou o mundo.
Foi rápido o processo de expansão do sentido de azeite, que logo designava diversos tipos de óleo vegetal —azeite de dendê, por exemplo— e até de origem animal.
Em outras palavras, a azeitona perdeu os direitos exclusivos sobre o azeite, que de óleo extraído dela virou genérico e foi azeitar sentidos variados pelo mundo. Daí a necessidade de um qualificativo, "de oliva", para marcar seu significado primeiro e evitar mal-entendidos.
O nome disso não é pleonasmo vicioso. É só a língua se mexendo em seu espetáculo habitual de metáfora e metonímia, quer dizer, de vida. Como se sabe, nada irrita mais os sabichões.
(Mal se livrou do caçador de redundâncias, o pobre azeite de oliva já precisa encarar, que sina, o maníaco do sentido literal: "Como não é extraído de uma oliva só, o certo é azeite de olivas". Mas esse é outro capítulo no almanaque do sabichonismo.)
Ao afirmar que "embarcar num barco" é uma frase que chove no molhado, pois bastaria dizer "embarcar" e tudo estaria dito, o caçador de redundâncias comete o mesmo erro de quem sustenta que o beijo grego, na Grécia, é beijo só.
Pensa que a língua é um kit de mecânica cheio de peças únicas com funções unívocas, quando uma metáfora mais funcional para ela é um kit de química, com as palavras se entrechocando e gerando uma infinidade de reações, muitas surpreendentes, algumas com cara de magia.
Mesmo em seus próprios termos, o caçador de redundâncias precisa melhorar. Neste momento, por insuficiência etimológica, está deixando passar uma oportunidade rara de nos encher a paciência.
Ocorre que o Banco Master foi à bancarrota, o que poderia lhe dar mais munição do que um armazém cheio de tonéis de azeite. A palavra bancarrota chegou ao português no século 16, vinda do italiano "banca rotta" —literalmente, banco quebrado.
Claro que, mais uma vez, esse é só o começo da história. Desde então, como o azeite, a bancarrota transbordou do sentido original para virar sinônimo de ruína ou falência, literal ou figurada, de empresas, instituições, pessoas, patrimônios materiais ou morais. O caçador de redundâncias não sabe de nada.



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