domingo, 15 de fevereiro de 2026

Montadoras somam US$ 65 bi em perdas por veículos elétricos, FSP

 

Kana InagakiHarry Dempsey
Londres e Tóquio | Financial Times

A reviravolta nas expectativas de vendas de veículos elétricos resultou em um prejuízo de pelo menos US$ 65 bilhões (R$ 339,99 bilhões) para a indústria automobilística global no último ano.

As montadoras foram forçadas a revisar seus planos de produtos e investimentos nesses modelos após uma alteração radical na política climática dos EUA. As empresas que haviam feito a maior transição para diminuir o uso de motores a combustão foram as mais atingidas.

Veículo cinza suspenso por equipamento laranja em linha de montagem industrial. Trabalhadores com coletes refletores observam e operam máquinas em ambiente amplo e iluminado.
Montagem da picape elétrica F-150 na fábrica da Ford, em Michigan (EUA) - Rebecca Cook - 16.set.21/Reuters

Neste mês, a Stellantis registrou uma baixa contábil de US$ 26 bilhões (R$ 136 bilhões) para cancelar alguns modelos totalmente elétricos e reviver o popular motor V8 "Hemi" de 5,7 litros nos EUA. A empresa também decidiu recentemente reativar motores a diesel para vários modelos europeus. A baixa contábil desencadeou uma venda de ações que reduziu o valor de mercado da companhia em cerca de US$ 6 bilhões (R$ 31,38 bilhões).

A dona das marcas Peugeot, Fiat e Jeep havia estabelecido anteriormente a meta de que os elétricos representariam a totalidade de suas vendas de veículos de passeio na Europa até 2030 e a metade nos EUA.

O cancelamento dos créditos para veículos elétricos nos EUA e a determinação do presidente do país, Donald Trump, de mudar ainda mais as regulamentações para reduzir as emissões fazem com que os executivos do setor agora esperem que esses modelos representem apenas 5% do mercado de veículos novos na nação nos próximos anos —cerca de metade do nível atual.

A rival Ford divulgou recentemente uma baixa contábil de US$ 19,5 bilhões (R$ 102 bilhões) ao cancelar sua picape elétrica F-150, enquanto Volkswagen, Volvo e Polestar sofreram impactos em seus programas de veículos elétricos no último ano.

Além das amplas mudanças regulatórias nos EUA, a Stellantis e outras montadoras deixaram os consumidores para trás ao tentarem replicar o sucesso inicial que a Tesla teve quando revolucionou o mercado nos EUA, segundo o analista Stephen Reitman, da Bernstein.

A falha foi não oferecer veículos que atendessem às expectativas de preço e autonomia dos motoristas, enquanto a infraestrutura de recarga também era insuficiente.

Desde então, a própria Tesla também sofreu um declínio significativo nas vendas de veículos elétricos devido à concorrência de rivais chinesas e à reação negativa ao ativismo político de Elon Musk, o que a levou a encerrar a produção de seus carros topo de linha Model S e X.

"Todo mundo se deixou levar pela euforia de 'olha as avaliações que a Tesla estava conseguindo'... e não trouxeram os clientes junto", avaliou Reitman.

Analistas alertaram que pode haver mais baixas contábeis para a Stellantis no futuro, já que o grupo busca melhorar sua participação no mercado norte-americano com um foco renovado em modelos híbridos e a gasolina.

"A perspectiva de mais custos extraordinários, com implicações de caixa desconhecidas, nos dá motivos para permanecermos cautelosos", declarou Michael Tyndall, analista sênior global do setor automotivo do HSBC, em um relatório neste mês.

A Honda, única montadora japonesa a dizer que planejava parar de fabricar veículos a gasolina e diesel até 2040, previu nesta semana US$ 4,5 bilhões (R$ 23,54 bilhões) em perdas anuais relacionadas a modelos elétricos, incluindo US$ 1,9 bilhão (R$ 9,94 bilhões) em baixas contábeis.

O grupo alertou os investidores de que pode haver mais encargos por vir enquanto reavalia sua estratégia e negocia o fim de sua parceria no setor nos EUA com a General Motors, que por sua vez já registrou US$ 7,6 bilhões (R$ 39,75 bilhões) em baixas contábeis em suas operações de VEs.

"O mercado está mudando dramaticamente", afirmou o vice-presidente executivo da Honda, Noriya Kaihara. "Então precisaremos monitorar as tendências do nosso volume de vendas e talvez tenhamos que tomar algumas [outras] medidas, se necessário."

A CEO da GM, Mary Barra, disse que seu "objetivo final" continuará sendo os veículos elétricos, ecoando outras montadoras que se comprometeram a continuar os investimentos de longo prazo na transição para longe dos motores de combustão interna.

À medida que o ritmo da transição elétrica diverge nos mercados-chave dos EUA e da China, ficará ainda mais caro para as montadoras oferecer uma variedade de modelos, de veículos elétricos e híbridos a veículos a gasolina.

O CEO da Ford, Jim Farley, disse aos investidores na semana passada que o ambiente regulatório global era uma "incógnita" enquanto a montadora refinava sua estratégia e investimentos.

"Há escolhas suficientes ao redor do mundo em eletrificação para que possamos selecionar as preferências dos clientes globalmente e chegar à estratégia certa, não apenas nos EUA, mas em todo o mundo", comentou.

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