domingo, 8 de fevereiro de 2026

Trump personaliza velho slogan da Coca-Cola: isso é que é, Mario Sergio Conti < FSP

 Donald Trump é repulsivo, fisicamente repulsivo. Aquele olhar de viés que põe o interlocutor de joelhos. Aquele cabelo ralo esculpido com laquê. Aquelas nádegas disformes, disfarçadas por calças em que cabem patas de elefante. Aquele esgar de desprezo, as mãozinhas infantis, os dedos de salsicha, a empáfia massiva e compacta, o Donald dá nojo.

Nos anos 1970, Alfredo Bosi, o falecido crítico literário, disse uma vez na sala de aula que o slogan de então da Coca-Cola sintetizava o que o capitalismo tinha a oferecer às gentes, ao mundo, à vida: isso é que é. A realidade é assim mesmo: Coca-Cola, conformem-se, não há o que fazer.

É semelhante a melancolia que assalta o espírito do espectador de "Melania" quando o espaçoso Donald se espalha pela tela: isso é que é. Tudo o mais não conta, dispensa análise e entendimento, porque sua obtusa imagem corresponde a uma prática bruta. O que dizer de figuras como Hitler, Mussolini, Bolsonaro? Nada. Está na cara que são fascistas.

Sobre o fundo branco, a ilustração feita à lápis mostra pernas femininas caminhando com salto alto.
Bruna Barros/Folhapress

O que se passa com Eva Braun, Clara Petacci e Michelle Bolsonaro é o inverso. Diversas entre si, elas cabem na mesma fantasia sadomasoquista: são divas perversas, medusas diante das quais brutamontes se prostram, deliciados, e suplicam para que pisoteiem os testículos com salto agulha.

Melania Trump, née Melanija Knavs, é uma antologia de fetiches: o sorriso de pérolas dúbias, os olhos baços, as melenas tingidas fio a fio, o chapéu de Zorro, o rosto aplainado com reboco terroso, o stiletto que ela descalça ao fim de 22 horas de ritos da posse presidencial, a marcha robótica rumo à alcova da Casa Branca, no rastro do maridão abjeto.

Oscar Wilde tinha razão, só as pessoas superficiais não se deixam levar pelas aparências. A primeira-dama não é um ser, mas uma função, um acrônimo e simulacro nomeado por guarda-costas: Flotus, First Lady of the United States. O documentário não a revela, reitera.

Reitera o que o marketing alardeou antes da estreia do filme. Que ele custou US$ 70 milhões à Amazon, cujo dono, Jeff Bezos, aparece de relance no baile que Trump deu para os tecnonababos que lhe enchem as burras. Que a Flotus embolsou US$ 28 milhões para ser sincera, autêntica e dar acesso à intimidade, que não tem nada de íntimo, acessível, autêntico ou sincero. Que até a morte da mãe lhe serve de álibi para fingir contrição beata.

O documentário não deixa nada ao acaso. A espontaneidade é para os fracos, não para as Melania e os Donald, as Michelle e os Jair, para os manipuladores de espelhos que esmerdeiam a política. Os espertos bem sabem que o universo está cheio de basbaques: o filme estreou em 1.778 cinemas dos Estados Unidos e 1.600 no exterior e bateu todos os recordes de documentários sem Taylor Swift.

Como você é uma feminista atilada, e execra o etarismo, saiba que 70% do público norte-americano na sua estreia foi de fêmeas, a maioria com mais de 55 anos. O problema, pois, não está no Donald ou em madame, e sim em quem o elegeu e quem a inveja. A admiração faz com que críticas ao filme tendam a ser inócuas, quando não contraproducentes.

Dois jovens sentados em um carro conversam sorrindo, cada um segurando uma garrafa de Coca-Cola. Ao lado, duas imagens menores mostram outras pessoas conversando em ambientes internos, com garrafas de Coca-Cola na mesa. O texto destaca que uma boa conversa ajuda, mas não é tudo, promovendo a Coca-Cola como parte desses momentos.
Reproduções de anúncios da Coca-Cola em revistas brasileiras em meados da década de 1970, quando do slogan: 'Coca-Cola isso é que é' - Reprodução

Mas registre-se que Melania, em que pese sua vacuidade desumana, é melhor que Trump —o que, convenhamos, é moleza. Ela abusa de clichês tipo "minha visão", "defenderei os necessitados" e "meu marido é um pacificador e unificador"! Tudo fingimento, assim como seu propalado interesse por crianças, causa para a qual arregimenta Brigitte Macron, a primeira-dama francesa, e a rainha da Jordânia, Rania Al-Abdullah.

Mas, enquanto o Ogro é um herdeiro, um playboy que não sabe nada da vida, Melania é uma profissional de mão cheia. Num meio ultracompetitivo, ela saiu de uma roça nos cafundós e venceu nas passarelas de Milão, Paris e Nova York. Dá gosto vê-la orientar assessores e modelistas, dizer que o colarinho tem de ter tantos centímetros, o topo do chapéu deve ser reto como régua de cálculo.

Outro sinal da sua superioridade é político. Ela nasceu no interior da Eslovênia e, apesar do sotaque pesado, impôs-se aos preconceitos –inclusive aos de Trump, que atiça os mastins do ICE contra estrangeiros. E no filme, nas provas de roupa, está sempre cercada por imigrantes, sobretudo asiáticos, e seu estilista pessoal é um francês, Hervé Pierre.

Melania não faz praça de seu apreço por estrangeiros, mas ele é evidente. Embora não salve o documentário da mediocridade acachapante, serve como lembrete de que nem em casa Trump consegue impor a xenofobia fascista.

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