Em 2026 haverá eleições presidenciais no Brasil —e, como sempre, é ano de não desagradar o eleitorado. Como a satisfação do cliente-eleitor começa pelo bolso, ou pela percepção do que o incomoda, vale olhar com mais cuidado para um tema recorrente do debate público: a conta de luz.
Nos últimos anos, a agenda ambiental e climática trouxe para o centro das discussões a chamada affordability —a capacidade de pagamento dos usuários. Não basta estar conectado à rede, algo que já é realidade para mais de 99,8% da população. Vida digna também significa poder consumir energia: ligar o ar-condicionado, tomar banho quente, usar eletrodomésticos sem medo da fatura no fim do mês.
O tema não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump prometeu reduzir os custos de eletricidade pela metade em um ano de governo, atribuindo o problema às renováveis variáveis. Até agora, não entregou. Na Europa, o desafio também é grande: a descarbonização exige investimentos vultosos, mesmo com a queda expressiva dos custos da solar e da eólica.
Mas, para dar substância ao debate, é preciso ir além da narrativa.
Os dados mostram que, no Brasil, a tarifa de eletricidade não cresceu sistematicamente acima da inflação quando observada em horizontes mais longos —seja nos últimos 10 ou 5 anos. Mesmo considerando o impacto da crise hídrica de 2021, o comportamento do IPCA-eletricidade não revela uma explosão tarifária persistente.
O que mudou foi outra coisa: a volatilidade. Desde 2012, as tarifas passaram a oscilar mais, refletindo políticas públicas, intervenções e arranjos regulatórios que pouco têm a ver com sinalização eficiente de custos. Volatilidade não é um problema em si —desde que reflita custos reais. O problema é que não reflete.
O verdadeiro motor da pressão sobre a conta de luz está nos encargos setoriais, em especial na CDE (Conta de Desenvolvimento Energético). Prevê-se um aumento de cerca de 7% da CDE em 2026 — número que deve ser lido com cautela. Em 2025, o orçamento inicialmente submetido pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) à consulta pública era da ordem de R$ 40 bilhões, mas encerrou o ano próximo de R$ 49 bilhões.
Criada e ampliada ao longo do tempo, a CDE financia políticas legítimas —universalização do serviço, tarifa social, geração em sistemas isolados, incentivos a tecnologias emergentes, como solar e eólica. O problema não é a política pública em si, mas onde ela é financiada. Ao ser embutida na tarifa, a CDE mascara ineficiências, perpetua subsídios e transfere custos de forma pouco transparente entre consumidores.
O resultado é regressivo. Com o avanço da micro e minigeração distribuída e a abertura do mercado livre, consumidores que podem reagir —residenciais de alta renda, comércios e indústrias— saem do ambiente regulado. A conta fica para quem permanece: em geral, consumidores de menor renda.
Nossa análise para a área de concessão da Cemig mostra que cerca de 75% dos adotantes de painéis solares em 2024 estavam entre os 40% de maior renda. Se as regras permitem essa arbitragem regulatória, é difícil condenar o comportamento individual. No agregado, porém, o efeito é conhecido: reforça-se a espiral da morte na distribuição, na qual quem sai deixa custos para quem fica.
Affordability é, sim, um problema —e um tema eleitoral poderoso. Mas errar o diagnóstico leva a soluções ruins. O custo da energia caiu com o avanço das renováveis, mas os ganhos de competitividade vêm sendo apropriados por grupos capazes de redesenhar a regulação a seu favor. Essa tese não é nova: desde os anos 1970, Gary Becker e Sam Peltzman apontavam que a regulação poderia ser capturada para distribuir rendas, mais do que estimular eficiência.
O setor elétrico se acostumou a discutir a duck curve —a curva do pato da transição energética. Falta discutir quem está pagando o pato. A maior parte da população brasileira está na chamada classe média baixa, fora do CadÚnico e sem acesso a programas de proteção. É esse grupo que hoje financia, silenciosamente, escolhas distributivas feitas longe das urnas —mas sentidas todo mês na conta de luz.
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