O que está acontecendo com essa edição do Big Brother Brasil? Por que tanta gente está sendo expulsa ou pedindo para sair? O erro está na ideia de chamar ex-participantes? A falha está na escolha popular dos pipocas ou nos profissionais que fazem a seleção sem avaliar a condição mental dos participantes? Ou em ambos? Ou é tudo praga do Boninho?
Tenho conversado com muita gente, não só sobre reality e comunicação, mas sobre a vida. A sensação é que ninguém mais entende as pessoas, o mundo. Nada.
Vivemos em estado permanente de medo. Medo de ser roubado, de cair em golpe, de ser enganado nas redes. E, como mulher, há ainda o medo de ser atacada, de sofrer abuso, assédio. Medo por nossos filhos, pelos jovens que parecem estar viciados nas telas, sem perspectiva de vida.
Somado a essa insegurança, há ainda a preocupação com a chegada dominante e avassaladora das IAs, trazendo maravilhas e horrores ao mesmo tempo. Usamos IAs para ganhar tempo para depois perder esse tempo rolando feeds infinitos. Geramos imagens, melhoramos a produtividade e depois sofremos com a possibilidade da Inteligência Artificial nos substituir.
Uma das fontes desse sofrimento é que não temos mais certeza de nada. Se antes tínhamos a segurança da realidade, agora não sabemos mais distinguir se um pinguim é real ou fabricado, se as pessoas que vemos em vídeos existem de fato ou são geradas artificialmente. Já não podemos mais nem confiar em nossos sentidos. Não há mais o "ver para crer". Acreditar virou uma roleta-russa. Ou pior, uma "bet".
E mais: não entendemos mais as pessoas. Vemos influenciadores totalmente vazios, que não falam nada, não têm uma ideia, uma proposição, e nos perguntamos: por que milhões de pessoas seguem essa criatura vazia que só mostra consumo de grife? O sonho das pessoas é esse? Vestir marcas famosas do boné ao chinelo e posar ao lado de um carro de R$ 2 milhões?
O BBB 26, assim como muitos influenciadores, é a cara dos nossos tempos. É sonhar e desistir do sonho quando ele chega por crise de pânico. É viver a incoerência de entrar em um jogo e esquecer que está jogando.
É desconfiar de todo mundo à sua volta e não conseguir fazer alianças. É apostar errado. É, sobretudo, não ter recursos psicológicos para administrar as próprias emoções diante de qualquer confronto.
Estamos todos inseguros, preocupados, abalados por avalanches de notícias ruins, de desgraças que vão de guerras a feminicídios, de pedofilia a corrupção, de violência contra animais indefesos a escândalos financeiros, de xenofobia a facções que praticam estupros coletivos. Está difícil ficar informado.
Alguns estudiosos teorizam que o ser humano sempre foi violento e que, por sorte ou acaso, vivemos 80 anos de relativa trégua, entre o final da Segunda Guerra Mundial em 1945 e 2025. E que essa trégua acabou.
E o desejo humano de não ser mais civilizado, sempre latente, voltou com tudo. As pessoas dizem que querem liberdade, mas só querem fazer o que bem entendem, sem seguir nenhum pacto social. Porque civilidade é contenção de impulsos.
Quando você é civilizado, você tem freios sociais, tem leis. Você não pega o lanche do amiguinho só porque sentiu vontade. Não ataca uma pessoa na rua porque teve um desejo carnal. Infelizmente, muitos acreditam que quem tem poder e dinheiro não precisa seguir regras sociais, pode agir como um ogro, um neandertal, e tudo bem. Não dá para normalizar esse absurdo.
Estamos vivendo tempos muito complexos, de transição entre o que sempre foi e não é mais, e o que poderá vir, mas que ninguém consegue nem de longe antever.
O BBB 26, que é uma síntese contemporânea da distopia de George Orwell em 1984 com o experimento psicológico do Biosfera 2, adaptado pelo criador do Big Brother, John de Mol, é o nosso zeitgeist, o espírito dos nossos tempos: descontrolado, imprevisível, beirando o insustentável.
E que oferece um entretenimento com notas tóxicas, que servem apenas para aplacar nosso desejo por briga, ódio, sangue, não muito diferente ou mais evoluído que os espetáculos mortais do Coliseu de Roma.
A solução? Ninguém sabe. Até porque ainda nem conseguimos equacionar o tamanho do problema. Só sei que na vida real, não adianta apertar o botão e desistir do mundo, porque não vai ter café da manhã com Ana Maria Braga na manhã seguinte.
O que eu intuo é que uma saída é nos tornarmos humanos melhores, desenvolver habilidades de empatia verdadeira, de abrir mão do ego para ver e acolher o outro. Ser mais humano é o que podemos fazer. O resto, as IAs vão fazer, e muito melhor que a gente.
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