quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Empresa dos irmãos Toffoli tem capital social de R$ 150, FSP

 

São Paulo

A Maridt Participações S.A., da qual o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Dias Toffoli é sócio ao lado de seus irmãos, foi criada em agosto de 2020 por dois empresários de São Paulo. Na ocasião, a companhia foi constituída com capital social de R$ 150 —o mesmo valor pago pelos Toffolis em outubro daquele mesmo ano, quando assumiram o controle da companhia.

Concebida originalmente como Plataforma 27S Participações S.A., a companhia foi adquirida pelos irmãos José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli das mãos do advogado André Fonseca e do empresário Tiago Bernardino.

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A sede da Maridt Participações S.A. fica em uma casa próxima à região central de Marília (SP) - Diego Felix/Folhapress

Bernardino e Fonseca são donos da Approved Legal, uma empresa que presta serviços para advogados e contadores. À Folha Bernardino afirmou que a companhia foi procurada por um advogado solicitando os serviços de abertura de empresa aos irmãos Toffoli.

Ele afirma não se lembrar quem foi o advogado que contratou os serviços da Approved. Diz também que realizou buscas nos sistemas da companhia, mas não encontrou "nada pertinente" por se tratar de um trabalho antigo.

"Fomos contactados por um advogado solicitando serviço de paralegal societário, realizamos todos os registros de atualizações societárias, concluímos o trabalho, e posterior a isso não tivemos mais contato. Como somos uma empresa especializada em paralegal societário, geralmente o advogado nos procura por indicação de alguém ou por busca na internet, realizamos todos os trâmites societários dos registros e atualização dos cadastros", afirma Bernardino.

Após o repasse do CNPJ aos irmãos Toffoli, o dono da Approved afirma que não teve mais contato com os administradores da empresa, que passaria a se chamar Maridt e teria sua sede alterada da capital paulista para Marília (SP), onde vivem os irmãos.

Procurados, os irmãos Toffoli não responderam aos questionamentos da reportagem.

Segundo dados da Junta Comercial de São Paulo, o capital social da empresa permaneceu inalterado por todos esses anos e segue com os mesmos R$ 150 de sua constituição. Ao longo deste período, porém, a empresa movimentou milhões em transações de compra e venda dos direitos de sociedade do resort Tayayá, um hotel de luxo localizado em Rio Claro (PR).

José Eugênio Dias Toffoli é engenheiro eletricista e o irmão José Carlos é padre em Marília. Foi ele o primeiro presidente da Maridt.

De família influente na cidade do interior paulista, ambos levam uma vida sem luxo, como mostrou a Folha em visita ao endereço registrado como sede da empresa familiar.

A Maridt ganhou destaque nas últimas semanas após a liquidação do Banco Master. Em setembro de 2021, pouco mais de um ano da abertura da companhia, os irmãos formaram sociedade no Tayayá com o empresário Euclides Gava Jr. e Mario Umberto Degani, primo dos Toffolis.

É lá que o ministro do STF tem casa. Além de proprietário de um imóvel no empreendimento de luxo, o ministro também é sócio da Maridt, segundo revelou a colunista Mônica Bergamo. Como a Maridt é uma companhia de sociedade anônima, Dias Toffoli nunca figurou nos registros públicos da empresa como sócio dos irmãos, que assinam todos os documentos.

Em setembro de 2021, quando entraram no negócio, os irmãos Toffoli compraram um terço das cotas do Tayayá por R$ 370 mil, e investiram outro montante na DGEP, empresa que constitui o mesmo grupo societário do resort.

Naquele mesmo mês, segundo documentos da Junta Comercial do Paraná, os irmãos repassaram a metade de suas participações nas duas empresas ao fundo de investimentos Arleen.

A operação ocorreu da seguinte forma: o fundo pagou R$ 620 mil por metade da fatia dos Toffolis no Tayayá —o dobro do preço desembolsado dias antes pelos irmãos— e comprou metade da participação deles no DGEP por R$ 2,5 milhões.

fundo Arleen, apesar de não integrar a lista de investigados no caso do banco Master, compunha a teia de fundos por onde o dinheiro do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e seus sócios transitava fora do radar das autoridades.

Segundo o jornal O Estado de São Paulo, o Arleen era propriedade de outro fundo, o Leal, que pertence ao pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.

Em fevereiro de 2025, quando saíram da sociedade, os Toffoli receberam um total de R$ 3,5 milhões do empresário e advogado Paulo Humberto Costa, atual proprietário do Tayayá.

Segundo explicação dada por Toffoli a interlocutores, ele recebeu dinheiro da Maridt, na época, por ser sócio da empresa junto a outros familiares —a Polícia Federal investiga essa transação.

Em nota divulgada na manhã desta quinta-feira (12), Toffoli admitiu ser sócio da Maridt, a qual classificou como uma empresa familiar, administrada por seus parentes e com prestação de declarações anuais à Receita Federal. O ministro explicou que, de acordo com a Lei Orgânica da Magistratura, o magistrado pode integrar o quadro societário de empresas e receber dividendos, sendo vedado apenas a prática de "atos de gestão na qualidade de administrador".

Segundo ele, todas as operações foram declaradas à Receita e os valores são compatíveis aos praticados no mercado. Disse também que quando recebeu a relatoria das investigações contra o Master, em novembro de 2025, a Maridt já não era mais parte do grupo Tayayá e que desconhecia quem era o gestor do fundo Arleen.

"O ministro desconhece o gestor do Fundo Arllen, bem como jamais teve qualquer relação de amizade e muito menos amizade íntima com o investigado Daniel Vorcaro. Por fim, o Ministro esclarece que jamais recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel.", disse em nota.

Advogados ouvidos pela Folha afirmam que empresas de capital social quase simbólico são pouco comuns entre companhias que movimentaram milhões, como foi o caso da Maridt. Eles afirmam, porém, que se todas as informações prestadas à Receita Federal justificam de onde saiu o dinheiro ou quais foram as garantias dadas no negócio, não há problema.

"Em tese, nada impede que uma sociedade com capital social de R$ 150 adquira uma participação em outra sociedade pelo valor de R$ 6 milhões. O que resta saber é qual a origem desses recursos", diz Felipe Ronco, sócio do MKR Advogados.

Recentemente, José Eugênio Dias Toffoli divulgou nota à imprensa dizendo que todos os atos e informações financeiras da Maridt foram declarados à Receita Federal. Os dados estão protegidos por sigilo fiscal.

Como não existem registros públicos dessas transferências, a origem dos recursos da Maridt é explicada somente pelos irmãos.

A hipótese levantada por Ronco é que os irmãos possam ter realizado Afacs (antecipação de recursos para futuro aumento de capital) que ainda não foram formalizados na aquisição de participações em outras sociedades.

Esse tipo de antecipação de recursos é muito comum em empresas que estão em processo de expansão, ou buscam crédito no mercado. Neste cenário, o capital social atua como uma espécie de lastro da empresa junto aos bancos.

Outra hipótese é que os irmãos possam ter colocado o dinheiro obtido com a atividade operacional do Tayayá em reservas para, futuramente, inseri-las em novas participações em outras sociedades.

"Isso acontece no mercado imobiliário, quando você tem uma casa, reconhece o valor do terreno, mas não indica eventuais investimentos e melhorias realizados no imóvel. Quando você vende, você vai ter um ganho maior, que é a diferença entre o valor declarado inicialmente e o valor das melhorias, mas vai ter uma tributação em cima. Nas empresas, o que a contabilidade costuma fazer é atualizar esse valor [do capital social] para diminuir o impacto tributário de um ganho econômico", diz Guilherme Champs, sócio do Champs Law.

O banco de Daniel Vorcaro é apontado por investigações do Banco Central como o principal operador de uma extensa rede de fundos de investimento que serviam para lavar dinheiro e cometer fraudes no sistema financeiro.

Reag Investimentos, administradora do fundo Arleen, é investigada nas operações Carbono Oculto, que apura o envolvimento do crime organizado no mercado financeiro, e na operação Compliance Zero, que levanta fraudes cometidas contra o sistema financeiro. A companhia foi liquidada pelo Banco Central em janeiro .

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