quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Para que pensar no fim do mundo?, Rui Tavares, fsp

 Uma regra aplicável aos últimos dois milênios humanos, se não mesmo mais, é a seguinte: quanto mais possível é o fim do mundo, menos pensamos nele.

A Idade Média foi aquele período de mil anos durante o qual todas as gerações estavam convencidas de que veriam o fim do mundo durante o seu tempo. Mas a possibilidade de o mundo acabar mesmo, não obstante a profecia bíblica, estava na prática reduzida à ínfima eventualidade de um asteroide de grandes dimensões bater de frente com a gente.

Avião decolando da pista de um porta-aviões sobre o mar, com caça estacionado em primeiro plano à direita. Céu claro e mar calmo ao fundo.
Armamentos dos Estados Unidos enviados à região do Oriente Médio - Daniel Kimmelman/AFP

Nos últimos 80 anos, porém, acrescentamos à lista de possibilidades uma das mais perigosas: nós mesmos podemos ser o nosso "fim do mundo", destruindo a civilização humana com uma catástrofe nuclear. E não é que esse temor não tenha ocupado as nossas mentes, mas até aí a regra se aplica.

Quando eu era criança havia, apesar de tudo, um quadro jurídico internacional que tentava controlar a proliferação nuclear e acordos bilaterais assinados entre os Estados Unidos e a URSS para garantir o controle recíproco do número e do tipo de armas que cada uma das superpotências poderia ter —os tratados Salt 1 (de limitação de armas estratégicas) e ABM (antimísseis balísticos), assinados em 1972, que por acaso foi o ano em que nasci.

Ainda assim, lembro-me de que, ainda nos anos 1980, em particular aqui na Europa, o receio de que pudesse haver uma guerra nuclear era constante. Apesar das inspeções e controles mútuos, ninguém poderia confiar demasiado num pedaço de papel.

Agora nem pedaço de papel temos —e isso não chega a ser tema. No dia 5 de fevereiro expirou o tratado Novo Start, herdeiro dos dois velhinhos acordos lá dos anos 1970 (Start é a sigla inglesa de Tratado de Redução de Armas Estratégicas). E a reação de Trump foi quase uma espécie de "e daí?". "Se expirar, expirou", disse o presidente dos EUA, acrescentando apenas: "Faremos um melhor tratado".

Não partilho do otimismo. O acordo entre os EUA e a Rússia permitia manter controles mútuos em relação aos arsenais nucleares, às suas localizações e ao tipo de defesas que se poderiam usar para interceptar as armas nucleares dos outros.

Sem esses controles, a tentação será a de mudar as localizações das ogivas, desenvolver novos tipos de armas e mantê-las em segredo, e apostar em defesas que podem aumentar o nível de temeridade do lado que se sentir mais invulnerável, aumentando o risco para todos.

Quanto mais tempo passarmos sem esses acordos, mais a distância cresce e mais compensa a opacidade, sendo mais difícil voltar à mesa das negociações.

Em consequência, cada vez mais os restantes países, os não nucleares, começarão a perguntar-se por que razão devem continuar limitados pelas obrigações do Tratado de Não Proliferação Nuclear, em que basicamente prometem deixar as armas nucleares nas mãos das potências nucleares originais.

IsraelÍndiaPaquistão e Coreia do Norte não estão nem aí para essa obrigação. E na Ucrânia devem pensar muitas vezes por que raio foram prescindir das suas armas nucleares em troca de garantias de segurança.

O debate entre elites já começou em muitos países do mundo, da Polônia à Coreia do Sul. Mas não chegou ao grande público. O que vale é que somos eternos.

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