A polilaminina funciona? Talvez. O mecanismo de ação da droga tem plausibilidade biológica e ela conta com evidências anedóticas animadoras. A verdade, porém, é que nós ainda não sabemos se o polímero é capaz de devolver os movimentos a pacientes que sofreram lesão medular completa.
Piaget descreveu crianças como "pequenos cientistas", mas a imagem tem um problema de base. Seres humanos, crianças e adultos não costumam pensar como cientistas. Há poucos modos de raciocinar mais contraintuitivos do que o método científico. Em estado natural, a maioria das pessoas não pensa cientificamente, mas se deixa levar por suas preferências pessoais e lealdades tribais temperadas pelo viés de confirmação e outras armadilhas cognitivas.
Os próprios cientistas não escapam a essas vulnerabilidades psicológicas, de modo que há quem afirme que o saber é uma empreitada social, que só se materializa dentro de arquiteturas que coloquem grupos rivais para tentar destruir as teorias uns dos outros. Não é preciso se afastar da medicina para perceber a escala do problema. Durante milênios, do antigo Egito ao Ocidente oitocentista, médicos submeteram seus pacientes a sangrias, que, sabemos hoje, com frequência os matavam. E os médicos envolvidos, presos a suas teorias favoritas, eram incapazes de ver isso.
Foi só depois que a estatística chegou para socorrer a medicina de seus pontos cegos e produziu dados demonstrando que as sangrias mais matavam do que curavam que os médicos relutantemente as abandonaram.
O único jeito de saber se a polilaminina funciona é testá-la num número suficientemente grande de pacientes e compará-los a um grupo controle. Idealmente, o grupo controle deveria receber placebo. Nem médicos nem pacientes deveriam saber quem está em qual grupo. Os desfechos primários e secundários devem ser previamente descritos. Não são, evidentemente, coisas em que uma criança (ou um adulto sem treinamento específico) pensaria. Mas, sem isso, simplesmente não sabemos se uma droga funciona.

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