A segunda pessoa mais poderosa do mundo atualmente não é Xi Jinping, o presidente da China, e certamente não é Vladimir Putin, o da Rússia. É alguém de quem você nunca ouviu falar: Stephen N. Miller.
Seus títulos oficiais no governo de Donald Trump não soam muito poderosos. Atualmente, ele é o vice-chefe de Gabinete da Casa Branca para Políticas e Conselheiro de Segurança Interna. Durante o primeiro mandato de Trump, ele redigia discursos para o presidente. Mas Miller tem a atenção de Donald Trump. Hoje em dia, o homem mais poderoso do mundo o ouve atentamente. Praticamente todas as políticas propostas ou implementadas pelo presidente norte-americano foram concebidas e articuladas por Stephen Miller.
Miller é o principal entre um grupo de teóricos conservadores retratados em um livro recente e brilhante de Laura Field, "Furious Minds: The Making of the Maga New Right" (Mentes furiosas: A formação da nova direita Maga). Desde o ensino médio em Santa Monica, na Califórnia, ele é um defensor ferrenho de uma versão estranhamente iliberal do libertarismo. Vamos ter um governo pequeno... "mais tarde. Muito mais tarde", diz o livro.
Miller afirma aderir à fórmula do libertarismo: "O melhor governo é o que menos governa". Mas, enquanto isso, devemos usar a coerção de um governo grande de forma irrestrita para esmagar gays, mulheres, negros, imigrantes e, especialmente, quaisquer adversários de Donald Trump, como os eleitores de esquerda das grandes cidades. Por exemplo, se pudermos impedi-los por lei de votar, isso será ótimo e tornará a América grande novamente.
Trump, pessoalmente, não tem teorias políticas. Assim como a maioria das pessoas, ele não tem uma orientação teórica, ele não entendeu a Constituição. Como a maioria das pessoas, seu coração, e não seu cérebro, determina suas palavras e ações políticas.
Antes de ouvir Miller e outros conservadores, sua única política era o desprezo por pessoas de cor, expresso, por exemplo, em sua alegação de que o presidente Barack Obama não era cidadão estadunidense por nascimento. Naquela época, Trump chegou a doar dinheiro para candidatos do Partido Democrata.
Miller, nascido em 1985 na Califórnia, é judeu e, desde a adolescência, cultiva o estilo argumentativo de contraponto típico do debate no judaísmo talmúdico. Mas, em vez de discutir minúcias da Mishná e da Guemará, seguindo, digamos, a escola de Shammai ou a de Hillel, seu impulso tem sido debater — e rejeitar — o liberalismo de esquerda que encontrou entre os colegas na escola e na Universidade Duke. Ele se tornou discípulo de Larry Elder, um radialista negro conservador, e mais tarde de outro judeu conservador, o refugiado do marxismo David Horowitz.
Será que Miller vencerá? Será que ele transformará os Estados Unidos numa fortaleza América conservadora que odeia imigrantes, muçulmanos e eleitores das grandes cidades? Eu acho que não. Assim como os brasileiros, os norte-americanos podem estar confusos sobre racismo, xenofobia e autoritarismo. Quando seus medos são despertados por pessoas como Miller, eles reagem e apoiam o líder amado. Mas eles também são respeitosos com outras pessoas. O amor vence o ódio. Em longo prazo.

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